Breves considerações sobre a situação grega em julho

por Gabriel Landi Fazzio.

13 de julho de 2015 – “Acordo” com Tróia

Em momentos como o presente, de desorientação generalizada, não raramente nos pomos na posição de juízes da história – diante da incerteza de como nos pormos como agentes na história. Como um dos muitos que, prontamente, condenou a “capitulação” do Governo Syriza, venho fazer não apenas uma autocrítica pública (relembrando que é “pueril ingenuidade […] apresentar a própria impaciência como argumento teórico”), mas um chamado à reflexão paciente e solidária.
Sobre os pormenores do “acordo” em si, não me estenderei – não apenas por não dominar a fundo as problemáticas estratégicas e táticas da União Europeia (que tendemos a menosprezar, os observadores não europeus, com uma ingenuidade similar à daqueles que apregoam que, uma vez que cada Estado nacional é burguês, os pormenores de suas formas democráticas e legislações não são preocupação central do movimento revolucionário), mas porque me dou por satisfeito nesse âmbito com as reflexões erguidas pela companheira eurodeputada Marisa Matias.

A questão aqui reside em discutir em caráter geral o compromisso estabelecido entre o governo grego e seus credores europeus. Abaixo da linha equatorial, parecer ter se difundido amplamente a opinião de que o melhor a ser feito seria mandar às favas a União Europeia e os credores, avançando rumo à nacionalização dos bancos e dos setores estratégicos da produção. Tal opinião, no entanto, por mais que soe radical, jamais poderia ir à raiz dos problemas sem uma análise profunda da economia grega e das suas possibilidades de avançar, sob cerco, rumo à socialização da produção. A isso se acrescente o fato fundamental, mas apenas exposto com mais nitidez no último instante das negociações: aparentemente, a expulsão da Grécia da zona do euro interessa a amplos setores dos credores (seria impreciso dizer “à Alemanha”: o Estado alemão não proporia assim se tal não fosse a vontade da banca alemã, que talvez nem seja a única a ver algum interesse em tal medida…), ainda que não unanimemente.

No capítulo quinto de “Esquerdismo”, intitulado “Nenhum compromisso?”, Lenin faz duas relevantes advertências que valem a pena ser lembradas:

   

“Os imperialistas da França, Inglaterra, etc., provocam os comunistas alemães, preparando-lhes essa armadilha: “Digam que não assinarão o Tratado de Versailles”. E os comunistas “de esquerda” caem como patinhos na armadilha, em vez de manobrar com destreza contra um inimigo traiçoeiro e, no momento atual, mais fortes, [ou seja,] em vez de dizer-lhe: “Agora assinaremos o Tratado de Versailles”.Amarrarmos as mãos antecipadamente, declarar abertamente ao inimigo, hoje melhor armado que nós, que vamos lutar contra ele e em que momento, é uma tolice e nada tem de revolucionário. Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e não para nós constitui um crime, e não servem para nada os políticos da classe revolucionária que não sabem “manobrar”, que não sabem concertar “acordos e compromissos” a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável.”

 

“Não há dúvida de que em política, onde às vezes se trata de relações nacionais ou internacionais muito complexas entre as classes e os partidos, se registrarão inúmeros casos muito mais difíceis que a questão de saber se um compromisso assumido por ocasião de uma greve é legítimo ou se se trata de uma perfídia de um fura-greve, de um chefe traidor, etc. Preparar uma receita ou uma regra geral (“nenhum compromisso”!) para todos os casos é um absurdo. É preciso ter a cabeça no lugar para saber orientar-se em cada caso particular.”

   

Decerto tais passagens não podem servir à justificação de qualquer compromisso. Da mesma forma, é evidente que a esquerda mundial vê com empolgação as movimentações críticas da Plataforma de Esquerda, bem como a greve dos servidores públicos marcada para o dia 15 de julho. O que se pretende aqui, apenas, é afastar as leituras simplistas que decretam o esgotamento (!) do Syriza e do governo grego, e a “traição ao OXI”. Ainda que pesquisas quantitativas de opinião não possam ser tomadas como um mapa fiel das forças em luta na sociedade e suas opiniões, não é desprezível o dado de que, após a proposta do governo ao Eurogrupo, a popularidade do Syriza aumentou, enquanto a popularidade dos comunistas gregos, da direita clássica e do fascismo recuaram em relação ao resultado eleitoral. As oscilações ligeiras indicam, no mínimo, que os atos recentes ainda não se exprimiram na suposta caducidade histórica do Syriza.

Quando assaltantes nos rendem, e em troca de nossas vidas entregamos-lhes nossos pertences, também isto é um “acordo” – e, obviamente, nem por isso diremos que capitulam aqueles que assim procedem.

Os rumos da luta do povo grego são de vital importância para o movimento revolucionário internacional – bem como são imediatamente fundamentais para a conquista da liberdade e da igualdade pelo povo grego, e isso não podemos pôr em segundo plano. Tenhamos solidariedade com os companheiros, sem nos precipitar em derrotismos – e é o quanto nos cabe, ademais da reflexão, neste momento em que a classe trabalhadora grega protagoniza a cena principal da crescente revolução mundial. Isso, e esperar que os companheiros e companheiras do Syriza saibam fazer deste acordo seu Cavalo de Tróia – ou seja, esconder por trás duma aparente rendição a manobra a partir da qual será possível retomar a ofensiva, como indica a afirmação de Tsipras: “Um acordo difícil, mas que permite continuar a luta”.

   

16.07.2015 – A permanência grega no euro faz avançar a divisão europeia

Os acontecimentos se desenrolam aceleradamente, ainda que estejam longe de um desfecho. Por um lado, até aqui, a tática de Tsipras revelou ao menos um acerto fundamental: aumentar as contradições entre os credores e, em verdade, dificultar a concretização do “acordo” em médio prazo. Enquanto a Alemanha insiste em pôr a Grécia em “quarentena”, a França corre exatamente à sinalizar com a viabilidade do acordo, antes mesmo de o parlamento grego votar as primeiras medidas do mesmo. Entrementes, o FMI parece fortalecer a tese da urgência da reestruturação da dívida grega. Os demais países europeus não parecem, da mesma forma, interessados em facilitar a viabilização da prometido “ajuda” financeira.

Por outro lado, as condições subjetivas de resistência se deslocam ligeiramente em favor do povo grego, ainda que faltem dados mais minuciosos. Enquanto no resto dos países da Europa proliferam as manifestações de denúncia do “golpe de estado” que se materializa no acordo e a própria mídia alemã mostra reticências frente à postura do Governo Merkel (ainda que a profundidade e a intenção de tal crítica não possa ser de pronto mesurada, ou sua possibilidade em converter-se em resistência interna das massas), na Grécia as contradições entre as forças de esquerda se desenvolvem aceleradamente. Enquanto nas ruas cresce (timidamente) e se radicaliza a resistência ao acordo, no interior do Syriza se inicia uma nova etapa da luta interna. Porém, mesmo diante das renúncias ministeriais e a recusa da presidenta do parlamento em conduzir a sessão que votou as primeiras medidas de austeridade, a maioria crítica da direção do partido demonstra não ter controle sobre a fração parlamentar da organização.

Tsipras se desloca para a poderosa (e perigosa) posição de grande mediador entre o apoio quase absoluto das forças políticas conservadoras nacionais e das forças progressistas menos radicalizadas. Por outro lado sua franqueza em admitir os termos do “acordo” não como algo positivo, mas como trágica necessidade conjuntural, seguem sendo inspiradores de alguma confiança, como bem nota o companheiro Breno Altman: “Ao contrário da tradição demagógica, que infesta também círculos de esquerda em vários cantos do mundo, Tsipras não edulcora o acordo que defendeu diante do Syriza e do parlamento de seu país. Denuncia que foi chantageado. Esclarece que considera o pacto com a União Europeia, em boa medida, lesivo aos interesses nacionais e dos trabalhadores. Relata que bateu à porta dos Estados Unidos, Rússia e China em busca de alternativas, mas não encontrou apoio. Destaca claramente que a escolha é entre a rendição sob condições ou o colapso político-econômico, identificando os inimigos que combate e sua natureza. Não transforma necessidade em virtude, como se o acordo fosse algum capítulo harmônico à estratégia de desenvolvimento traçada por seu partido. Não vende felicidade ou irrealismo. Pinta o quadro com todas as suas cores, em um esforço notável para informar e educar militantes e cidadãos que até agora marcharam ao seu lado”.

   

28.07.2015 – O fim de um ciclo da revolução grega

Ao menos ao observador internacional, a velocidade dos acontecimentos parece ter diminuído. Após o parlamento helênico votar as duas primeiras baterias de condições impostas em Bruxelas, o governo anunciou, para espanto positivo de muitos, que reporá a pensão mínima reduzida por recomendação da Troika em 2013. Ao mesmo tempo, o governo se mobiliza para evitar despejos, e busca mais receitas mediante a ofensiva contra os antigos governantes e os bancos. Se quisermos persistir na crítica de mérito à decisão do Syriza pelo acordo, ao menos tais elementos impedem que a crítica se converta em mera denúncia de traidores.

Diante do desafio de Tsipras à oposição, de que então apresentassem um plano alternativo, se espalha o esforço por formular novas opções. Alguns postulam que a Grécia poderia ter permanecido na União Europeia mesmo rompendo com o euro – outros, que a Grécia poderia mesmo ter permanecido na zona do euro, ainda que desobedecendo os credores. O Plano B de Lafazanis e Varoufakis começam a ter repercussão positiva na imprensa grega, e cresce entre a população o apoio ao retorno ao dracma.

Se a greve do setor público e do comércio deixou a desejar em sua amplitude e força, por outro lado a permanência da inquietação no interior do Syriza é animadora: após a juventude do partido afirmar, em 22/7, a necessidade de se convocar um Congresso Extraordinário, e de a Frente de Esquerda avançar em sua mobilização para disputar o partido no sentido da saída da zona do euro, o próprio Tsipras afirma a necessidade de um Congresso! As considerações do primeiro ministro grego são de deixar perplexos aqueles que buscam reduzi-lo ao papel de Judas: “Com a decisão da cimeira da zona euro, fechou-se um ciclo de seis meses de iniciativa política. Este ciclo deve ser avaliado ao pormenor. Os resultados alcançados pelo governo devem ser discutidos abertamente. Tal como o debate sobre os erros que cometemos. […] A nossa estratégia deve ser clarificada com tranquilidade e maturidade.” Tsiprar talvez seja um novo tipo de demagogo – mas suas palavras não deixam de exprimir uma profunda compreensão sobre o centralismo e a democracia partidária, além de uma justa noção dos diferentes ciclos e temporalidades de um processo revolucionário.

Tal perspectiva é animadora na medida em que, como muito justamente colocam os companheiros da Jacobin Magazine, “aqueles que – como nós – acreditam que deixar a zona do euro será eventualmente necessário têm o conhecimento de que isso não pode ser feito imediatamente. Uma base para a saída deve ser desenvolvida, e isso significa ter tempo para preparar-se para a saída.

A questão aqui não é se de fato Tsipras merece ou não nossa confiança – afinal, de que sequer lhe serviria nossa confiança? Premeditadamente ou não, o fato é que a realização do acordo fez avançar, e não retroceder as contradições europeias e, consequentemente, as condições de resistência do povo grego. Como afirmou o primeiro-ministro recentemente, a Europa já não é mais a mesma de 12 de julho. Da mesma forma não o é a Grécia. Cada passo dado adiante na luta contra os credores carrega o potencial de produzir uma elevação da consciência e da radicalidade das massas gregas.

Dez anos durou o cerco a Tróia, segundo a mitologia homérica. Quem sabe quando será o desfecho do impasse grego? Aqueles que fazem coro aos credores e proclamam em alto e bom som a derrota da revolução grega deveriam se afobar menos, e observar mais.

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Um comentário em “Breves considerações sobre a situação grega em julho

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  1. Tsipras e a maioria dos parlamentares do syriza cApitulou sim, mas é porque na clverdade nunca tiveram intenção de romper com a ue. Esclarecer faz bem. Breno Altman certamente não quer a revolução, quando escreve que tsipras ” Destaca claramente que a escolha é entre a rendição sob condições ou o colapso político-econômico” por que e para quem seria colapso econômico nacionalizar os bancos e expropriar os grandes capitalistas?

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