A CIA vista como um empregador democrático

Por Black Panthers Party, via The Black Panther, traduzido por Lara Rossetto

O presidente Nixon fez uma aliança surpreendente com certas forças da militância negra1. Isso pode parecer audacioso, ou até perigoso, como se brincasse com o fogo de uma consciência revolucionária negra. Mas é, na verdade, uma técnica de eficiência historicamente comprovada.


( I. O Black Power chega em Washington)

O “Black Power” 2 percorreu um longo caminho desde aquela noite de 1966 quando Stokely Carmichael o instituiu como o grito de guerra da Marcha do Mississipi contra o Medo3. Por um tempo foi um slogan que encravou pavor no coração da América branca – uma indicação que o risco das demandas do homem negro havia aumentado a tal ponto que toda a sociedade precisaria ser reorganizada para que elas fossem atendidas. Mas “Black Power” dificilmente parece um slogan revolucionário atualmente. Ele foi aperfeiçoado e domesticado, ganhando um nicho proeminente no “sonho americano”. E a afirmação de Carmichael de alguns anos atrás de que o presidente dos Estados Unidos poderia até dizer “Nós iremos superar” 4 na televisão, mas jamais clamaria por “Black Power”, também foi refutada por Richard Nixon, aparentemente o mais inacreditável de todos os homens. O país precisa de “mais proprietários negros”, Nixon disse em sua campanha, “pois é daí que o resto irá surgir: orgulho negro, emprego negro e, sim, poder negro [‘Black Power’]”.

É óbvio que o gabinete de Nixon tomou algumas decisões cruciais sobre as possibilidades de poder negro durante seu curto mandato. Com grande estardalhaço, elas revelaram um programa elaborado de capitalismo negro. E mesmo que tenham falhado em enganar Whitney Young, Roy Wilkins e outros militantes moderados dos direitos civis para que exercessem cargos de gabinete, conseguiram encontrar um homem com credenciais ainda melhores como militante – James Farmer, ex-diretor nacional da CORE5. Desde o início de seu mandato, o presidente diz que ele não vê nada de perigoso na irrupção de uma militância negra, levando em conta que seu objetivo final é obter uma mobilidade econômica tradicional, mesmo que use fantasias africanas e pregue um orgulho racial ardente enquanto abre negócios e substitui os capitalistas brancos como o contato mais visível da sociedade com o gueto. É claro que outros militantes negros, que têm programas políticos que não podem ser absorvidos pelo capitalismo negro ou por mera renascença cultural, que não buscam assistência dos poderes dominantes da sociedade para sua revolução, continuarão a ser denunciados, presos, caçados e destruídos. Para eles existe o método da vara. Mas em outros casos o uso da cenoura6 é preferível e mais potente – e menos previsível, como o Sr. Nixon bem demonstrou.

Ele fez uma aliança surpreendente com certas forças da militância negra. Isso pode parecer audacioso, ou até perigoso, como se brincasse com o fogo de uma consciência revolucionária negra. Mas é, na verdade, uma técnica de eficiência historicamente comprovada. O encorajamento do nacionalismo cultural7 pelo governo Nixon e o seu interesse paternal no capitalismo negro são basicamente uma atualização e transposição para o cenário nacional de um padrão estabelecido há anos pelo poder dos EUA internacionalmente. Por mais que o Departamento de Estado, a Agência de Informação dos Estados Unidos, a Fundação Ford e os diretores de outras organizações estivessem envolvidos, foi principalmente a Agência Central de Inteligência [CIA] que descobriu como lidar com a negritude militante. Ela descobriu que os EUA poderiam manter uma base de apoio nos estados africanos recém-independentes por meio da criação e do subsídio de uma elite americana de líderes negros afro-orientados (o próprio James Farmer foi um entre vários) cujas posições no movimento dos direitos civis eram um disfarce inestimável, e frequentemente consciente, do objetivo principal da agência – enfraquecer o radicalismo negro na África e, eventualmente, em casa.

(II. Os afros da AMSAC)

Era a primavera de 1963 e, à primeira vista, a conferência parecia ser uma mesa redonda revolucionária de Havana. A lista de participantes era a nata8 do movimento de independência da África do Sul: Oliver Tambo, presidente em exercício do Congresso Nacional Africano da África do Sul; Eduardo Mondlane (recentemente assassinado), líder da Frente de Libertação de Moçambique; Jariretundu Kozonguisi, presidente da União Nacional do Sudoeste Africano; líderes de praticamente todas as facções políticas desses países, assim como do Zimbabwe, da Angola e da Zâmbia. Eles eram todos homens procurados em casa, comprometidos a liderar lutas armadas contra regimes coloniais odiados. Mas o encontro não tinha sido convocado por Fidel Castro. Na verdade, ele ocorreu na Howard University, em Washington, D.C.

Os arquitetos do movimento de libertação da África do Sul concordaram em ir à Washington porque a organização anfitriã era um grupo negro se reunindo na maior universidade negra do país. A Sociedade Americana pela Cultura Africana (AMSAC), composta por importantes estudiosos, escritores, artistas e profissionais americanos negros era o mais prestigiado e articulado de todos os grupos negros interessados em promover a cultura africana e criar laços entre os negros dos EUA e seus irmãos africanos. Essa conferência foi o quarto encontro internacional da AMSAC em quatro anos. Parecia ser o início de um sonho revolucionário negro se tornando realidade: a conexão das lutas de libertação africana e afro-americana. Mas o que a maioria dos participantes não sabia era que o evento havia sido patrocinado pela CIA.

O encontro na Howard University ofereceu uma oportunidade ideal para a CIA monitorar os maiores revolucionários africanos e, ao mesmo tempo, uma ilusão da preocupação dos EUA com a sua causa. A própria AMSAC começou como um jeito de vigiar o movimento insurgente de independência africana. Ela foi organizada após a primeira Conferência Internacional dos Escritores e Artistas Negros que ocorrera em Paris no final de 1955. Essa conferência tinha sido convocada por um grupo de exilados africanos e intelectuais europeus organizados na Societé Africaine de Culture (SAC), que publicava o jornal Présence Africaine, que contava com nomes como Camus, Sartre, Léopold Sédar Senghor e Aimé Cesaire. Mas impulsionar uma organização como a AMSAC não fazia parte, de modo algum, do plano da SAC.

A SAC tinha pedido para o falecido Richard Wright, o escritor negro americano auto-exilado em Paris, para convidar alguns negros americanos para o encontro internacional. Wright o fez, mas muitos de seus convidados não conseguiram pagar pela viagem. Os que conseguiram comparecer estavam entre os membros mais influentes da burguesia negra americana, e muitos vieram a se tornar influentes na AMSAC. Liderada pelo Dr. Horace Mann Bond, um grande educador negro e pai de Julian Bond, legislador da Geórgia, a delegação americana incluía Mercer Cook, que mais tarde recebeu o título de embaixador americano no Níger durante o governo de Johnson; John A. Davis, que mais tarde se tornaria o diretor da AMSAC; James Ivy, editor da revista da NAACP9, Crisis, e eventualmente tesoureiro da AMSAC; Thurgood Marshall e Duke Ellington. Esses foram os fundadores da AMSAC.

No início de sua carreira, a AMSAC dividia seus escritórios em Nova York com o Council on Race and Caste in World Affairs, uma organização que existia praticamente só no papel, fundada alguns anos antes pela CIA e se especializando em coleta de informação e análise dos problemas raciais que afetavam as relações internacionais. O conselho se fundiu formalmente à AMSAC em 1957, e agiu como o maior veículo financeiro do novo grupo, o que não foi oficialmente incorporado até fevereiro de 1960. Os intermediários da CIA que declararam contribuições à AMSC com o passar dos anos incluíam o Pappas Charitable Trust ($65.000,00), e estas fundações: Marshall ($25.000,00); Benjamin Rosenthal ($26.000); J. Frederik Brown ($103.000,00); Colt ($47.000,00); C.H. Dodge ($28.000); Rabb ($40.000,00), e Ronthelym ($20.000,00). A AMSAC declarava como seu propósito a intenção “de estudar os efeitos da cultura africana na vida americana; de examinar as contribuições culturais dos povos africanos para suas sociedades; de avaliar as condições que afetavam o desenvolvimento da cultura nacional e universal; de cooperar com organizações internacionais com a visão de… trocar informações sobre a cultura africana…”.

“Eu entrei na AMSAC porque eu achei que ela realmente iria seguir as ideias defendidas pela Societé Africaine de Culture”, nos disse Harold Cruse, autor de “A Crise do Intelectual Negro” [No original, The Crises of the Negro Intellectual]. “[M]as eu me desanimei rapidamente quando eles começaram a ir para outra direção política. [A AMSAC] [e]ra composta por um bando de carreiristas, operadores altamente articulados de pouca convicção, e líderes do establishment intelectual integracionista negro. Eles eram liberais sem base e sua legitimidade vinha completamente da sua associação com grupos estabelecidos, como a AMSAC. Eu até duvido que eles foram capazes de planejar esse tipo de operação sozinhos”.

Nunca ficará claro até que ponto os “afros da AMSAC”, como Cruse os chama, realmente pensaram a organização sozinhos; mas mesmo que o tenham feito, eles certamente não a financiaram. Isso foi feito pela CIA, que percebeu que a marca de nacionalismo cultural não radical da AMSAC poderia ser útil no exterior e talvez, eventualmente, em casa. O relatório da conferência da organização em 1962 declarava que “negros americanos não ocupam postos importantes nas grandes corporações que fazem negócios com a África. Também não pode ser dito que eles buscam ou que tiveram a oportunidade de ganhar dinheiro na África. Eles apenas trazem serviço e amor para as complexas relações afro-americanas”. Isso eles realmente faziam, mas frequentemente sem saber para quais fins e a quem eles estavam servindo.

Os programas culturais e educacionais da AMSAC – a “cobertura do bolo político” que a CIA estava servindo para a África emergente – envolvia alguns dos artistas americanos mais proeminentes: Odetta, Randy Weston, Nina Simone, Lionel Hampton e Langston Hughes. A organização também promoveu visitas à África para estudiosos, escritores, advogados e intelectuais negros americanos. Os representantes da AMSAC incluíam Saunders Redding, o homem que Harold Cruse descreve como o chefe dos porta-vozes intelectuais do establishment negro americano; os artistas Jacob Lawrence e Elton Fax, e o ex-advogado da NAACP, Robert Carter. Homens como esses ofereciam a camuflagem cultural que não apenas disfarçava a natureza política do trabalho da AMSAC, mas também aprofundava seu impacto nos africanos. Mas as carreiras de outros, bem menos celebrados, dizem mais sobre a verdadeira empreitada da AMSAC.

(III. O agente negro da CIA)

Um dos estudos de caso mais interessantes do uso dos afros da AMSAC está centrado no homem que era o diretor executivo adjunto da organização desde seu início até 1961 – um agente da CIA negro, alto e que frequentemente ostentava um cavanhaque, chamado James T. (“Ted”) Harris.

Nascido na Filadélfia em 1924, Harris ganhou uma medalha DAR por boa conduta escolar no La Salle College. Depois de servir na guerra, ele voltou ao La Salle, onde ele construiu reputação como um liberal preocupado e ativista. Universitários negros articulados e com visibilidade eram uma raridade naquela época, e a reputação de Harris cresceu nacionalmente quando ele se envolveu em políticas estudantis. Em 1948, quando a recém-formada Associação Nacional de Estudantes [NSA] o elegeu presidente, ele rapidamente foi admitido no “círculo íntimo”, na “old boy network” 10 da CIA que passou a dominar as atividades da NSA por quase 20 anos.

No início dos anos 50, Harris se mudou para Genebra, onde ele serviu como secretário geral adjunto para o Serviço Universitário Mundial [em inglês: World University Service – WUS] promovido pela CIA. Por conta desse cargo, ele voltou para os EUA para fazer mais treinamentos. Depois de se formar no mestrado pelo Instituto de Relações Públicas de Princeton, onde ele estudou por meio de uma bolsa de estudos Whitney da CIA, ele foi para o Cairo para adquirir experiência de campo, desta vez com uma Bolsa de Estudos da Fundação Ford. Ele voltou para a NSA depois de seu período no Egito, para chefiar o importante Programa de Liderança Estudantil Estrangeira [em inglês: Foreign Student Leadership Program], fundado pela CIA, para “ajudar líderes estudantis ativos no terceiro mundo”. Por meio de seu trabalho, Harris conheceu e se tornou amigo de muitos estudantes africanos nos Estados Unidos. Sua próxima missão veio naturalmente. Ele foi para a AMSAC.

Harris estava na ativa na AMSAC durante 1961. Naquele ano, enquanto os EUA estavam desesperadamente tentando estabilizar um governo nacional amigável no Congo, Harris voltou à Fundação Ford, que o fez secretário geral de uma Escola Nacional de Direito e Administração em Leopoldville (atualmente Kinshasa), financiada pela Ford. Harris passou dois anos lá, moldando um programa educacional que – como ele contou posteriormente na conferência da AMSAC na Howard University sobre a África do Sul – ofereceu um jeito de instruir os congoleses em técnicas administrativas ocidentais. Fontes congolesas suspeitavam fortemente que a escola também servia como veículo para encher os bolsos de políticos congoleses selecionados, com dinheiro da CIA. Quando um congolês confiável foi preparado para chefiar a escola, Harris voltou para Nova York para ajudar a Fundação Ford a moldar os seus programas de desenvolvimento para a África e o Oriente Médio. Em 1964, ele saiu da Ford para coordenar o treinamento e o ensino na Corning Glass Works11 em Nova York, trabalhando sob Amory Houghton, o homem que tinha chefiado a Fundação pela Juventude e Assuntos Estudantis [em inglês: Foundation for Youth and Student Affairs – FYSA], a principal agência da CIA para financiar seus programas estudantis internacionais. Em 1966, mesmo continuando a ser consultor de Houghton, Harris seguiu em frente e entrou em mais uma criação da CIA, o Instituto Afro-Americano [em inglês: African-American Institute – AAI]. No AAI, ele dirigiu programas de campo, viajando frequentemente para a África.

Em Janeiro de 1969, quando Harris largou a AAI e o trabalho internacional, ele já tinha compilado um currículo impressionante. Ele tinha viajado por toda a Europa Ocidental e foi para o Oriente Médio, Índia, Paquistão e 23 países na África do Norte, Ocidental e Central (assim como 49 estados dos EUA), frequentemente discursando em tours. Seu rol de idiomas incluía: árabe, francês, italiano e espanhol. Ele era um membro do poderoso e prestigiado Conselho em Relações Internacionais e da NAACP, e um diretor de um ramo da CORE: “Bolsa de Estudo, Fundo de Educação e de Defesa Legal para Igualdade Racial” [em inglês: Scholarship, Education and Defense Fund for Racial Equality – SEDF].

A CIA financiou a AMSAC e apoiou pessoas como Harris porque seus estrategistas tinham uma compreensão sofisticada de como uma certa marca de nacionalismo cultural africano poderia ser perigoso para os objetivos internacionais da América. Eles perceberam que o radicalismo cultural frequentemente estimulava radicalismo político e que questões culturais, especialmente nos estados africanos emergentes, eram impregnadas com implicações políticas explosivas latentes. Desse modo, manter uma presença política eficiente na África insurgente requeria uma dimensão cultural ativa, e a CIA teve, prematuramente, interesse em tentar controlar as elites políticas e culturais que estavam surgindo e garantir ao máximo que suas preocupações ficassem a uma distância segura12 da revolução. A agência viu o nacionalismo cultural e as novas noções de “negritude” como alternativas ao tipo de cultura revolucionária exigido por revolucionários como Frantz Fanon, que uma vez disse: “É em torno da luta do povo que a cultura negra africana ganha substância e não em torno dos cantos, dos poemas e do folclore”.

Os arquitetos do programa cultural, disfarçadamente apoiado pela CIA, encorajavam seletivamente aqueles escritores negros mais amigáveis ao ocidente. Por meio de seu programa de mecenato esclarecido, esses escritores encontraram um canal de publicação para seus trabalhos em uma série de revistas culturais na África e sobre a África, financiadas por fundações apoiadas pela CIA: Africa Report (Instituto Afro-Americano); Transition and The New African (Congresso da Liberdade Cultural); Classic (Fundação Farfield); entre outros. E finalmente, a AMSAC tinha sua própria revista, African Forum. Os escritores favorecidos por essas publicações não eram agentes, mas simplesmente homens com políticas aceitáveis pelos agentes culturais americanos. E o que Fanon mais tarde chamou “um círculo abençoado de admiração mútua na cúpula” rapidamente emergiu. Patrocínio e promoção levaram ao reconhecimento internacional da elite cultural da CIA enquanto ofereciam um quadro de referência cultural importante para o desenvolvimento dirigido da consciência africana.

A CIA não se tornou o principal empresário da cultura negra pelo prazer estético da experiência. A grande questão durante o auge da AMSAC e organizações similares era o que a independência formal africana realmente significaria quando se tornasse realidade. E, em algum momento, a CIA decidiu que o desenvolvimento de um nacionalismo cultural era imprescindível para os interesses dos Estados Unidos na África. Era essencial não apenas como um meio de manter as energias culturais em linha, mas principalmente (por mais que estejam interligados) para canalizar a força explosiva do próprio nacionalismo em direções convenientes aos EUA. A onda de descolonizações que estava passando sobre o continente poderia abrir o caminho para o novo império americano quebrar o antigo monopólio da ordem europeia que havia controlado a África. Ou poderia produzir o tipo de nacionalismo radical que iria proteger a nova porta aberta com uma vigilância impenetrável, e poderia até fazer acordos com os poderes comunistas. Então a CIA fez tudo o que podia para promover um tipo de nacionalismo na África que ficaria satisfeito com a remoção das formas mais óbvias de dominação estrangeira; um em que a preocupação por integridade cultural não reforçasse, mas substituísse as demandas por autonomia básica, tanto econômica quanto política.

Esse era o âmbito da empreitada na qual os negros americanos se tornaram indispensavelmente envolvidos, por meio da AMSAC e outros veículos. Mas para compreender o efeito dessa aliança falsa pelo desenvolvimento africano e para entender o que a alternativa do nacionalismo cultural significava em seu contexto econômico e político na África (e pode significar nos Estados Unidos, se o governo de Nixon for bem-sucedido), devemos também ver a operação a partir de seu alvo. Um exemplo particularmente vívido da manipulação ideológica americana na sociedade africana em transição é observado no papel da CIA em moldar o movimento nacionalista no Quênia.

Ron Everett (Karenga) e quatro capangas, todos costelas de porco13, nacionalistas culturais e assassinos porcos. Eles planejaram e assassinaram Alprentice ‘Bunchy’ Carter e John Huggins14 da seção de L.A. do PPN [Partido dos Panteras Negras]. Estes cachorros (ou leitões com uma ideologia fascista americana de costela de porquismo) estão em parceria com a CIA e são apoiados pelos empresários brancos, banqueiros e outros industriais dos EUA; estes criminosos do imperialismo estadunidense escravizam, exploram e colonizam pessoas de cor do mundo todo, africanos, e negros americanos com a ajuda de Moise Tshombe, papa docs, racistas negros e capitalistas negros, como a organização U.S., liderada por Ron Mama Lama Ringo Karenga.

(IV. O jet set 15 da CIA)

O pesadelo da selvageria primitiva negra que permeia fantasias brancas sobre a África tem sido evocado mais vividamente quando se trata do Quênia, cenário da carnificina e da sede de sangue dos Mau Mau. Esse mito dos Mau Mau (termo pelo qual o Exército da Paz e da Terra do Quênia ficou conhecido no ocidente) é uma inversão da realidade. Durante toda a “emergência Mau Mau”, menos de 100 brancos foram mortos – incluindo 57 policiais contra-insurgentes; dentre os africanos o número de mortos passou os 11.000. Forças de segurança coloniais, como os “scalphunters”16 americanos, caçavam homens por recompensas. Dezenas de milhares de africanos foram levados para campos de detenção britânicos. De uma vez só, 35.000 foram presos em apenas um dia.

O mito dos Mau Mau e outras invenções racistas similares ainda se mantém no imaginário popular, mas as agências responsáveis do governo dos Estados Unidos não podem arriscar comprometer sua efetividade com visões não-sofisticadas. Assim, na década anterior à independência do Quênia e desde aquela época, a CIA ofereceu apoio a elementos cuidadosamente selecionados do mesmo movimento de independência que a maioria dos americanos só conseguia enxergar com asco e terror.

Os Estados Unidos podem parecer ser um apoiador improvável às lutas de libertação nacionais no terceiro mundo. Mas o fato é que a política estadunidense nunca parou de patrocinar a militância negra, fossem os Mau Mau ou a CORE, quando isso servia ao propósito correto. Como vice-presidente, Nixon declarou ao Comitê de Relações Exteriores do Senado após seu tour pela África em 1957: “Os interesses americanos no futuro são tão grandiosos que justificam que não hesitemos nem mesmo em assistir à retirada dos poderes coloniais da África. Se nós pudermos conquistar a opinião nativa nesse processo, o futuro da América na África estará garantido”. O problema com o antigo colonialismo na África, pelo entendimento de Nixon, era ser muito pouco americano.

O programa da CIA no Quênia poderia ser resumido como uma libertação seletiva. O principal beneficiário era Tom Mboya, que em 1953 se tornou secretário geral da Federação do Trabalho do Quênia [em inglês: Kenya Federation of Labor – KFL]. Durante a “emergência”, quando todas as outras organizações políticas africanas foram banidas, a KFL era o principal veículo do movimento pela independência. Ela era perseguida, seus postos eram saqueados, e muitos de seus líderes eram presos. Mas ela sobreviveu e Mboya se tornou um herói. Não apenas um nacionalista convincente, mas também um conservador economicamente, Mboya era ideal para os propósitos da CIA – sendo que o principal herói nacionalista e eventual chefe de estado, Jomo Kenyatta, não era considerado suficientemente confiável. Mboya até propôs um tipo de socialismo africano que favorecia sindicados “livres” (i.e. anticomunistas) e encorajou investimentos estrangeiros, bancos estrangeiros, e apropriação de terras por estrangeiros. Socialismo africano, ele dizia, significava “aqueles códigos de conduta consolidados nas sociedades africanas que, com o passar do tempo, conferiram dignidade ao nosso povo, oferecendo segurança, independentemente de sua posição na vida. Eu me refiro à caridade universal, que caracteriza nossas sociedades, e eu me refiro aos processos de pensamento africano e ideias cosmológicas, que consideram o homem não como um meio social, mas como um fim em si mesmo e uma entidade na sociedade”.

Assim como o capitalismo negro americano dos dias de hoje, essa prescrição dificilmente foi considerada uma ameaça pelos estrategistas da América branca. O socialismo cultural de Mboya foi visto como algo que poderia vacinar contra a verdadeira doença da revolução; ele claramente merecia apoio. Mboya logo se uniu ao jet set da CIA, viajando o mundo, de Oxford à Calcutá, financiado por patrocinadores como a Africa Bureau e a Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (ICFTU, que exerceu um papel central no Quênia, e é uma agregação do secretariado dos sindicatos internacionais fundado em 1949 para ser um contraponto fora do bloco comunista à irrupção do sindicalismo de esquerda. Suas extensivas operações internacionais na África e em outros lugares foram financiadas e manipuladas pela CIA por meio de vários de seus secretariados afiliados com base nos EUA. Entretanto, recentemente tem havido uma cisão com as organizações trabalhistas dos Estados Unidos).

Mais tarde, Mboya se tornou o representante da ICFTU na região. Seus artigos foram publicados por outros recipientes da CIA, incluindo a União Internacional da Juventude Socialista, a Conferência Estudantil Internacional, e a Assembleia Mundial da Juventude. Concomitantemente, a imprensa americana estava projetando-o como o futuro líder da África Oriental. Até o artigo no Wall Street Journal sobre Mboya foi intitulado: “Empresários Positivamente Impressionados”.

A ICFTU também financiava Mboya e seu socialismo africano através da KFL, um modelo de “sindicato livre” – ajuda financeira que chegou a £1000 por mês em subvenção durante o início dos anos 60. Além disso, o Fundo por Educação Social e Econômica Internacional, patrocinado pela CIA, contribuiu com mais de $25.000,00 para os cofres da Federação. Um dos diretores desse fundo, George Cabot Lodge (filho de Henry), explicou a importância dessa ajuda monetária em Spearheads of Democracy, um livro que foi fruto de um grupo de estudos do Council on Foreign Relations 17, que reuniu futuros experts sobre trabalho junto a Cord Meyer Jr., o chefe do programa de financiamento disfarçado da CIA. Falando pelo grupo, Lodge escreveu: “O sindicalista desconhecido de hoje em dia pode ser o presidente ou o primeiro ministro de amanhã. Em vários países da Ásia, da África e da América Latina, os sindicatos são praticamente a única força organizada em contato direto com o povo e eles estão frequentemente entre as influências mais importantes das pessoas.” A ajuda à Mboya, ele adicionava, “não apenas fortaleceu [a ICFTU], mas toda a causa por liberdade e democracia na África”.

Os britânicos estavam desconfortavelmente cientes do que o seu “aliado especial” estava fazendo no Quênia. Em um Anexo do Gabinete Britânico com a inscrição “APENAS PARA OLHOS DO REINO UNIDO”, de 21 de Dezembro de 1959, eles reclamavam: “O objetivo parece ser tirar vantagem da situação difícil na qual o Reino Unido e outros poderes se encontram e substituir sua influência e interesses pelo maquinário direto dos EUA composto pela ICFTU e pelos contatos americanos que foram feitos pelos líderes americanos para esse propósito”. O documento concluía que “americanos não estão interessados na criação de sindicatos africanos genuínos, como os conhecemos. A América não tem partido trabalhista… como resultado, os líderes sindicais americanos como Meany Reuther e Dubinsky podem executar direta e abertamente políticas governamentais e, em particular, as do Departamento de Estado e da CIA”.

A ICFTU normalmente trabalha por meio de secretariados sindicais internacionais baseados essencialmente nos EUA. Na África, onde a sindicalização tem se concentrado em empregos governamentais, o secretariado mais importante – e consequentemente o principal instrumento da CIA – tem sido a Public Services International [PSI] (que também foi instrumental na derrubada do governo de Cheddi Jagan na Guiana Inglesa). W. C Lawrence, um representante do PSI na África Oriental, expressou resumidamente o papel da organização em uma carta para seu superior, Paul Tofahrn, em 15 de fevereiro de 1962: “Me parece que depende da gente que eles [sindicalistas da África Oriental] saibam o que é certo” 18.

Em 1963, logo depois que Mboya deixou seu cargo com a Federação do Trabalho do Quênia [em inglês: Kenya Federation of Labor – KFL], parecia que a Federação estava perdendo de vista o “que é certo”. Greves ameaçavam a economia, e o PSI temia algum tipo de polarização de classe da sociedade durante a transição crítica à independência, talvez levando completamente ao tipo errado de independência. Os documentos do PSI revelam como ele interveio. O secretário geral Tofahrn mandou uma carta estilo “Querido Tom” 19 para Mboya em 29 de janeiro de 1963, que dizia: “Talvez o governo não possa fazer mais nada a não ser dizer ‘não’ para suas demandas, mas aí surge a questão de como dizer ‘não’ de uma maneira tão convincente que as pessoas envolvidas aceitem ‘não’ como resposta”. Ele completou dizendo que estava mandando um representante especial, T. Nynan, para Nairobi “para procurar evitar uma greve”, e ele concluiu com o comentário que “esta carta é escrita para te encorajar a dar indiretas nos locais apropriados”.

As indiretas da Mboya acertaram o alvo em cheio e, em 13 de fevereiro, Nyan pode declarar que a situação estava sob controle: “Eu tive muita sorte”, ele escreveu, “de conseguir o apoio do irmão Tom Mboya em minhas tentativas que evitar a greve”.

(V. Paz com Liberdade)

Por trás de Mboya e a sua Federação do Trabalho estava uma estratégia natural dos Estados Unidos no Quênia durante os anos 50 e 60. Ela promovia o nacionalismo responsável e era indolor, pois os empregadores confrontados por demandas de aumento de salário eram britânicos, não americanos. Contudo, em 1964, os investimentos americanos no país – que até 1967 chegariam a $100 milhões – estavam se tornando significantes e algumas demandas sindicais quenianas começaram a perder seu charme. Mas ainda mais importante, 1964 também trouxe perigos de “instabilidade política” suficientemente sérios para fazer da comunicação de rádio com a Embaixada de Nairóbi a oitava maior do ano no registro do Departamento de Estado. Zanzibar se revoltou e Nyerere, da Tanzânia, quase foi derrubado. Rebeliões estavam se espalhando pelo nordeste do Congo e o Quênia ficava na rota de abastecimento natural. A CIA decidiu que uma nova abordagem era necessária.

Mboya havia sido apoiado por muito tempo como uma força à direita do primeiro ministro Jomo Kenyatta, mas um acordo com Kenyatta agora era visto como necessário, particularmente para garantir que ele não apoiasse os rebeldes congoleses e, de modo mais geral, para que ele se unisse contra a agitação da esquerda queniana. Era uma estratégia que se tornou suficientemente conhecida desde então: utilizar a credibilidade dos militantes flexíveis apropriados para destruir o resto.

Em junho de 1964, o embaixador dos EUA no Quênia, William Attwood, se encontrou com Kenyatta e concordou que os grupos trabalhistas ocidentais iriam parar de financiar Mbota e a KFL; em contrapartida, Kenyatta assegurou que a ajuda Russa e Chinesa para o líder de esquerda e vice-presidente Odinga, também acabaria. Simultaneamente, a CIA estava fazendo as mudanças apropriadas em suas operações, colocando seus recursos em um novo tipo de veículo que iria tomar conta de toda a cena política queniana e, ao mesmo tempo, isolar a esquerda e preparar sua destruição por meio de Kenyatta. Para conseguir isso, a CIA alterou sua ênfase para uma organização chamada “Paz com Liberdade”.

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Incorporada em 1960 como um serviço sobre assuntos internacionais, uma agência de publicidade levando as ideias de Hubert Humphrey para as pessoas do terceiro mundo, a “Paz com Liberdade” [em inglês: Peace With Freedom – PWF] virou uma organização sem fins lucrativos e foi reorganizada em 1962 sob a direção de Murray Baron, vice-presidente do Partido Liberal de Nova York. Para garantir uma operação confiável, Baron chamou o diretor da NAACP, Roy Wilkins que, por sua vez, convenceu Walter Reuther, da United Auto Workers, a integrar o projeto. A CIA, claro, ofereceu o dinheiro para ajudar a levar as forças combinadas dos direitos civis e do liberalismo americano à África. A renda da PWF em 1963 consistia em $27.826,00 da Fundação de Desenvolvimento Internacional, intermediária financeira; e $130.799,78 da fictícia Price Fund. Meros $765,75 vinham de “outras fontes”. O financiamento nos anos seguintes foi a mesma história, todas eram fontes da CIA – mas o total tinha mais do que duplicado em 1966.

Em 1965, a operação original da agência de publicidade tinha crescido a passos largos; ela manteve 24 representantes ao redor do mundo e publicou em 22 línguas. Dentre os escritores mais populares, junto de Humphrey, estavam Tom Mboya e Roy Wilkins.

Mboya não foi esquecido na mudança para a PWF. A nova organização contribuiu com $40.000,00 para a KFL para publicar seu jornal semanal, Mfani Kasi (Solidariedade dos Trabalhadores), em inglês e suaíli. Mas esse apoio agora consistia em um contexto muito maior do que no passado. A PWF criou e financiou toda uma rede de organizações da África Oriental, incluindo o Instituto Leste Africano de Questões Sociais e Culturais [em inglês: East African Institute of Social and Cultural Affairs – EAISCA], a Editora East African (agora reorganizada como Afro-Press), o Instituto Educacional Jomo Kenyatta, a Fundação Kenneth Kuanda e a Fundação Milton Obote em Uganda.

Era uma infraestrutura cultural e intelectual completamente pré-fabricada, indo desde a elite acadêmica e abrangendo a mídia de massas do rádio e panfletagem. Visava, segundo sua frase mais popular, “construir a nação”, criando uma infraestrutura social, uma elite e uma base ideológica. No Quênia, a operação da “Paz e Liberdade” teve abrangência praticamente total. A principal exceção foi o Instituto Lumumba, aberto em 13 de dezembro de 1964 (dia da independência). Embora o próprio Kenyatta fosse o patrono formal, o verdadeiro controle estava nas mãos do vice presidente Odinga e da esquerda, cujos grupos foram treinados pelo instituto.

No ano seguinte, Kenyatta foi encorajado a se opor a Odinga, solidificando o acordo que ele havia negociado com Attwood. A constituição foi revisada para tirar o poder do cargo de vice-presidente de Odinga; seu posto no partido político de Kenyatta foi eliminado, sua base sindical (que competia com a KFL) foi reorganizada até deixar de existir. Quando ele renunciou à vice-presidência em protesto, Odinga foi impedido, com sucesso, de efetivamente fazer campanha na eleição subsequente. O Instituto Lumumba foi dissolvido por um decreto executivo quando seus estudantes contestaram a formulação do governo de “socialismo africano”. Enquanto a esquerda era destruída, o complexo político-cultural estava funcionando para manter a nação em equilíbrio, oferecendo mecanismos estáveis para o que poderia ser erroneamente interpretado como uma dissidência construtiva e realmente definindo os limites do debate político e social legítimo. Um homem trabalhando com a PWF no Quênia, Heinz Berger, descreveu a importância de seu programa para nós, dizendo que sua “existência significa que não existe nenhum espaço no qual outro país ou ideologia poderia ocupar”.

Quando o embaixador Attwood foi embora do Quênia em 1966, demonstrou satisfação com o que havia sido conquistado lá: “o medo branco de ter negros no poder se provou infundado no Quênia; um queniano branco ainda era ministro da agricultura e 1700 ingleses ainda trabalhavam em vários ramos do governo queniano… Odinga e os demagogos não estavam mais no governo. Os homens que estavam ganhando espaço… não eram emocionais, eram trabalhadores e práticos. Quando eles falavam sobre a revolução agrária do Quênia eles falavam como Walt Rostow; eles falavam de crédito disponível, preços justos, assistência técnica e da compra de ferramentas e bens de consumo”. As exportações dos EUA haviam crescido de $13.5 milhões em 1963 para $31.6 milhões três anos depois, quando Attwood foi embora. Foi um grande record para Atwood. Porém, como ele mesmo modestamente observou: “… um embaixador que trata seu chefe da CIA como um membro integrante da sua equipe no país, normalmente terá nele um aliado útil e cooperativo. Eu sei que comigo foi assim.”.

Desde então, existiram contratempos, quatro dos melhores homens da PWF tiveram sua entrada no país recusada em fevereiro de 1968 pelo ministro do interior pró-britânico Daniel Moi, que declarou que eles tinham conexões com a CIA, e logo depois o escritório da PWF em Nova York foi fechado e a organização desapareceu. O problema do sucessor de Kenyatta pode vir a se mostrar perigoso visto que o descontentamento é geral e está crescendo, e a economia está em apuros. A história, recontada entusiasticamente por Atwood, de como o “poder negro no Quênia” tinha evitado demagogos e parado de ser temido é impressionante. Ela quase que poderia servir como uma expressão da devoção atual e do desejo determinado para que o mesmo desenvolvimento de poder negro [Black Power] ocorra nos Estados Unidos. Certamente, as lições da África não foram esquecidas por aqueles que consagraram seus desejos com moedas na fonte do capitalismo negro e do nacionalismo cultural. Mas a sua transferência para a situação atual vai além de uma mera experiência tática decorada pelos manipuladores do destino negro. A CIA pode não ser mais a agência de vanguarda, mas o impulso que foi iniciado na ideologia continua forte e existe uma continuidade em sua equipe. As pessoas que ofereceram o disfarce racial ainda estão se provando extraordinariamente úteis na ocupação do mesmo papel hoje em dia.

(VI. Na sombra de Malcolm X)

Por ser um líder negro tão claramente “responsável”, o envolvimento de Roy Wilkins com operações da CIA como a AMSAC e a “Paz com Liberdade” pode não parecer uma incongruência total. Sua orientação pública voltada ao poder vigente nunca o marcou como um enragé revolucionário. Ele, por exemplo, reuniu os líderes dos direitos civis em 1964 para forjar um consenso para uma trégua nas demonstrações para não desmoralizar Johnson e, assim, ajudar Goldwater20. Entretanto, o caso de James Farmer (que sozinho, sem contar o John Lewis do SNCC, rejeitou a proposta de Wilkins) é bem diferente. Ele e a CORE, que ele liderou de 1961 a 1966, vieram para o lado militante do “movimento”, e estavam presentes desde a linha de frente das Viagens da Liberdade21 – que Farmer liderou e pela qual ele foi preso – até a adoção do slogan “Black Power”, muito antes de se tornar um modo de conquistar aceitação publica. As campanhas de “ação direta” mais disruptivas dos direitos civis em cidades do norte foram patrocinadas pela CORE, com a liderança e o apoio de Farmer. Ainda assim, mesmo no auge desses anos de militância ativista, Farmer podia ser visto servindo como um instrumento eficaz de operações da CIA, mesmo que involuntariamente.

ROY WILKINS

O serviço mais importante de Farmer foi feito em duas viagens à África patrocinadas pela CIA, sendo que a primeira delas ocorreu em 1958. Farmer já tinha passado pela órbita da agência de 50 a 54, quando serviu como secretário nacional da filiada juvenil da normalmente socialista e ferozmente (se não exclusivamente) anticomunista Liga por Democracia Industrial (LID). A Liga Estudantil (SLID) era um membro associado da União Internacional da Juventude Socialista, financiada pela CIA (a SLID não era considerada socialista suficiente para ser membro integral). A própria SLID recebeu fundos para manter seus contatos internacionais do principal veículo financeiro da agência na frente estudantil, a Fundação para a Juventude e Assuntos Estudantis [em inglês: Foundation for Youth and Student Affairs]. Aqui Farmer obteve a orientação e os contatos que fizeram com que fosse inevitável que a CIA cruzasse seu caminho novamente.

Depois de sair da SLID, Farmer foi trabalhar no Sindicato dos Trabalhadores Municipais e Estaduais de Nova York, ganhando o posto de representante internacional. Farmer chamou a atenção do ex-presidente do sindicato, Arnold Zander que estava, ele próprio, profunda e conscientemente envolvido no programa de trabalho internacional da CIA. Zander selecionou Farmer para o tour na África; ele teria que representar o seu próprio sindicato dos trabalhadores públicos em uma delegação de cinco membros da Public Services International que, sendo parte da Confederação dos Sindicatos Livres, havia sido considerado um sustentáculo das operações da CIA no Quênia e, generalizadamente, na África durante esse período. O tour de 15 nações da PSI era parte do programa “sindicato limpo” sendo conduzido pela agência na África.

O presidente do PSI, Zimmernuss, ao reportar as lições tiradas dessa jornada, disse que a orientação do PSI era extremamente necessária para os sindicatos africanos. “Seu trabalho ainda está no estágio do jardim de infância”, observou. Comentou que a situação era melhor onde a dominação branca continuava, particularmente no Congo Belga: “Pelo menos lá o sindicato consegue funcionar”. O maior perigo descoberto foi os comunistas que se aproveitavam da inocência dos africanos. “O africano não sabe nada sobre os comunistas”, ele explicou. “Eles o tratam como igual”. Felizmente essa subversão estava sendo contra-atacada por organizadores do movimento sindical católico que, segundo ele, utilizava táticas criativas como conseguir que africanos se juntassem à sua passeata do 1o de maio por meio de oferendas como “calças, camisetas e outros presentes que eles não conseguiriam de outra forma”. Formas muito mais avançadas de usar os presentes do homem branco para preservar os sindicalistas africanos das indignidades dos comunistas já foram descritas em referência ao trabalho do PSI no Quênia.

O relatório do PSI sobre a viagem se refere a Farmer como “um sindicalista de cor – um fato que naturalmente se provou consideravelmente vantajoso para a delegação em sua abordagem com os africanos”. Essa é uma descrição modesta da onda de boa fé projetada em Farmer e, desse modo, indiretamente nas organizações e políticas que ele havia ido representar. O próprio Farmer descreve desse jeito: “… por toda a África homens negros me fizeram sentir como se eles fossem minha família. Quando eu saí da Nigéria, na minha primeira visita, os sindicalistas nigerianos se reuniram no aeroporto para se despedirem, e eles me abraçaram e me beijaram.” Certamente, então, o “fato… se provou consideravelmente vantajoso…”

Farmer voltou para os Estado Unidos em dezembro de 1958. Não muito tempo depois, Roy Wilkins o convidou para fazer parte da equipe da NAACP. Em 1961, ele retornou a CORE como diretor nacional, liderando as Viagens da Liberdade naquele ano (dois anos depois, quase foi linchado por policiais em Plaquemines Parish, Louisiana).

Em 1962, quando a AMSAC criou uma subsidiária chamada Conferência de Lideranças Negras Americanas na África (ANLC), o nome de James Farmer era indispensável na lista oficial, que incluía A. Philip Randolph, Whitney Young Jr., Roy Wilkins e Martin Luther King Jr. Farmer descreveu o propósito do grupo: “Como americanos descendentes de africanos, nós sentimos que deveríamos tomar frente na interpretação para a América o que estava acontecendo na África e também na explicação para os africanos o que estava acontecendo na América. Nós sentimos que nossas opiniões deveriam contar na formação da política americana em relação à África”.

WHITNEY YOUNG JR.

Particularmente era necessário interpretar, naquele momento, a exibição de cães, aguilhões de gado, varas e chicotes usados contra americanos negros por oficiais da lei. O “American way of life” estava se tornando cada vez mais difícil de engolir, e os “descendentes” da AMSAC (a “equipe de um homem só” da ANLC , seu representante-chefe de viagens, Ted Brown, era da AMSAC e trabalhava em escritórios da AMSAC) poderiam ser extremamente benéficos para o governo. Quem poderia ser melhor para reafirmar a legitimidade americana do que o porta-voz de suas vítimas? A própria autoridade do sofrimento negro poderia ser transformada em uma vantagem nacional.

No final, a ANLC não alcançou o grande impacto previsto pela CIA, que estava pagando as contas por meio da AMSAC. Os resultados foram avaliados recentemente por uma reunião secreta de um grupo de estudos do Conselho de Relações Internacionais sobre a política americana na África. Não houve nenhuma decepção na tática dos protagonistas (mesmo que hoje em dia a SNCC provavelmente não seria convidada). Contudo, como um dos palestrantes – Ulrie Flaynes Jr, um consultor de negócios negro proeminente e ex-assessor do presidente Johnson em assuntos africanos – observou: “A jogada foi prematura… Naquela época os negros americanos não se identificavam conscientemente com sua ancestralidade africana. Uma tentativa desse tipo seria mais eficiente hoje do que era na época”.

Ainda assim, ANLC conseguiu provar sua utilidade. Seu maior trabalho veio em 1964, quando a credibilidade americana na África havia afundado desastrosamente face ao assassinato de Kennedy, à presença de um sulista na Casa Branca, e aos resultados da “missão humanitária” no Congo. Além de todo o resto, Malcolm X havia escolhido aquele momento para fazer seus dois tours triunfantes pela África.

O embaixador Attwood descreveu o problema da visita de Malcolm: “Ele se identificou na televisão queniana como o líder de 22 milhões de negros americanos e descreveu exageradamente a situação deles. Depois que ele foi embora, eu alertei outros postos sobre sua chegada, sugerindo que eles instruíssem seus amigos africanos de antemão”.

Sua cautela tinha fundamento. Um jornal africano comentou: “Um fato extremamente importante é que Malcolm X é o primeiro líder afro-americano de estatuto nacional que fez uma visita independente à África desde quando Dr. Du Bois veio a Gana… Vamos nos certificar que não prestemos menos atenção do que o Departamento de Estado está certamente prestando neste momento”.

Outro jornal africano previu: “Malcolm X é um de nossos líderes mais importantes e militantes. Nós estamos em guerra. Vão haver esforços para maldizê-lo e desacreditá-lo…” E dito e feito, enquanto Malcolm ainda estava na África uma bolsa de estudos estava sendo passada por meio da AMSAC para mandar – na companhia de James Barker da AMSAC – um representante da ANLC em um tour africano estendido por todos os países que o próprio Malcolm havia visitado. James Farmer foi selecionado.

Farmer afirma que ele não sabia que a CIA estava por trás da viagem, e que em todo caso o objetivo não era contra-atacar o tour de Malcolm. Ele lembra que no dia em que a viagem foi finalmente anunciada, as estações de rádio de Nova York disseram que ele estava indo para o exterior para responder a Malcolm X. “Claro que essa não era, de maneira alguma, minha intenção”, diz Farmer, “Malcolm me ligou depois que esses anúncios apareceram, e eu obviamente neguei. Ele foi pra minha casa e passou um dia comigo antes de eu ir, me contando sobre sua viagem e sugerindo que eu procurasse algumas pessoas. Ele saiu amigavelmente e na verdade foi nessa viagem – enquanto eu estava em Gana – que alguém me contou de seu assassinato iminente. É por isso que, se você se lembra, eu fui uma das poucas pessoas que pediu uma investigação federal e sugeri que a CIA estava envolvida em seu assassinato”.

Quaisquer que fossem as intenções pessoais que prepararam o caminho de Farmer para a África, a CIA conseguiu o que pagou: Farmer foi recebido com tapete vermelho. Com uma mobilidade invejável, ele conseguiu se encontrar com os chefes de estado de todos os países que visitou, com a exceção de um, se encontrando também com representantes dos movimentos de libertação da África do Sul – de acordo com um relatório da AMSAC – “ele também conversou com os embaixadores americanos dos países que ele visitou e com outros membros das embaixadas dos Estados Unidos lá”.

Após seu retorno, escrevendo em um jornal financiado pela CIA, o African Forum, Farmer estava preocupado com a influência de Malcolm na África. “O presidente Johnson”, Farmer relatava, “apesar de toda a sua boa vontade inestimável – que eu acho que ele tem – não foi bem projetado na África. Além disso, Malcolm X contribuiu para a opinião geral africana desfavorável de Johnson por caracterizá-lo em discursos e conversas com africanos como um ‘sulista racista’.” Ele também diz que a resposta à sua própria defesa de Johnson foi “cautelosa”.

“Malcolm teve um impacto considerável nos campi universitários africanos, mas eu senti que isso era em grande parte superficial”, Farmer escreveu. O líder da CORE disse ao público africano que o que Malcolm estava realmente promovendo era uma forma de apartheid. O safari africano de Farmer foi, de acordo com a Jet Magazine, na Negro weekly, “um teste de campanha para o posto de secretário adjunto do Estado em Assuntos Africanos”. Ele teve o mérito de ter sido crítico a diversos aspectos da política dos Estados Unidos na África, não conseguindo o cargo.

No caso do Congo, ele até revelou e atacou o fato de que os aviões militares americanos estavam sendo usados como apoio logístico para o exército branco mercenário. Por outro lado, poder-se-ia contar com Farmer para se afastar de alternativas extremas a essa política. Ele lembra que “Quando eu estava na África Oriental, muitos dos africanos me disseram que nós [os EUA] deveríamos sair completamente do Congo. Eu disse a eles que eu achava isso completamente sem sentido. Nenhum grande poder iria deixar um lugar tão importante como o Congo. É tanto impossível quanto indesejável…” A visão de Farmer era que tanto Tshombe quanto os rebeldes eram “inaceitáveis”, e que “a esperança para o Congo repousa em uma terceira força: talvez ela esteja dormente em meio aos brilhantes estudantes universitários – os políticos, os administradores e as classes profissionais de amanhã” – uma esperança compartilhada pelo agente Harris da CIA quando ele instalou sua escola no Congo para oferecer justamente esse treinamento de lideranças.

Um homem como Farmer não seria enviado à África para que fosse um defensor e bajulador dos excessos das aventuras internacionais americanas. Nem seria dado a ele um posto de gabinete para que ele desse as costas às diversas militâncias nacionais [nos EUA] que ele ajudou a desenvolver. Sua ficha crítica é o que faz com que a sua empatia básica pelo exercício razoável do poder americano ainda mais cativante. A América tem diplomatas defensores da política [americana] de sobra. Mas eles não têm acesso ao prestígio que Farmer goza com suas credenciais de militante.

(VII. O bem e o Black Power)

Ao aceitar um posto como o negro mais influente no novo governo de Nixon, James Farmer percebeu que ele podia escolher entre criticar e ficar de fora ou em ajudar a determinar o curso dos eventos “de dentro”. Farmer não estava sozinho em sentir que o novo presidente estava preparado a aceitar o Black Power pragmática, ou até mesmo ideologicamente. A atual liderança da CORE, junto com outros militantes, descobriu que as agências do governo e do poder financeiro privado estavam ansiosos para participar desde o início e investir nas “ações” 22 do Black Power. Como Roy Innis, da CORE, disse ao falar sobre a presidência de Nixon. “De algum modo, nossos planos convergem”.

É claro que o poder negro [Black Power], assim como o nacionalismo africano, poderia ser concebido e direcionado de diversas maneiras, algumas delas nada ameaçadoras ao status quo. E o governo vigente já percebeu que seu trabalho é separar23 o bom Black Power do mau. Tal abordagem à crise racial na América está sendo prenunciada há algum tempo. A mídia tem participado na promoção para o público branco. A revista Time anunciou há mais de um ano atrás: “O que claramente se desenvolveu… é um movimento Black Power em uma base mais respeitável… O porta-voz mais inteligente para a nova atitude pensa em termo de consciência negra – ou mais completamente, de orgulho negro”.

Essa interpretação da revolução negra – aprovando e encorajando aqueles aspectos que são os menos revolucionários – é, claro, um lembrete da estratégia internacional que a CIA desenvolveu em volta da AMSAC, os subsídios que ela deu para selecionar líderes na África, e seu patrocínio da Grande Revolução Proletária Cultural de Tom Mboya. E de novo, como naqueles casos, a ênfase atual é em um tipo de Black Power que é uma redenção psicocultural, não uma que pretende reavaliar o poder social e econômico de seus novos apoiadores. O consenso é construído e enfatizado entre capitalismo branco e militância negra, mas está sempre à salvo dentro dos limites do status quo. E aqueles que dizem que o status quo simplesmente não é flexível suficiente para conter todas as contradições do racismo na América são isolados no Black Power mau. Assim como na África, onde aqueles que seguiam os Frantz Fanons eram empurrados para fora do círculo respeitável, enquanto aqueles que seguiam Mboyas eram recompensados, da mesma forma, hoje em dia, os militantes negros que aceitaram o capitalismo negro são fortemente subsidiados enquanto aqueles que apoiam a revolução social são caçados.

Um boletim de notícias mundiais dos EUA apontou, “o ‘capitalismo negro’ está se tornando uma forma de ‘Black Power’ com grande apelo para ambas as raças”, e que “está ganhando apoiadores – e assistência financeira – entre empresários brancos, banqueiros e industriais”. Ralph T. McElvenny, presidente da Companhia de Gás Natural Americana, fez um sumário conciso das ideias de diversos líderes corporativos quando ele disse, em fevereiro: “O negro deve fazer parte da economia pois ele tem mais a perder do que ganhar ao se manifestar e insurgir”. Essa declaração está de acordo com outra feita por Thomas H. Burtress, um ativista no movimento burguês pelo capitalismo negro na Filadélfia: “Se as pessoas da vizinhança possuem uma parte dos negócios, quando alguém com um coquetel molotov se aproxima do lugar, as janelas vão se abrir e os residentes vão dizer: ‘Não ouse queimar meu dinheiro’.” O reverendo Leon Sullivan, organizador do Opportunities Industrianization Center, um complexo corporativo baseado na Filadélfia que opera em 70 cidades dos EUA, assim como em Porto Rico, no Senegal, na Nigéria e no Quênia, acrescenta: “Eu não estarei satisfeito até todo adulto negro na América possuir uma parte deste país individual ou coletivamente, mesmo que não seja mais de dois pés quadrados de terra ou uma ação na bolsa”.

É claro que nem todo mundo associado ao capitalismo negro iria expressar sua visão desse modo. Vários iriam discordar vivamente, mas os brokers 24 que estão financiando e encorajando o capitalismo negro vão abraçar a retórica militante, com a condição de que eles tenham a situação potencialmente explosiva sob controle. Afinal, a interpretação mais marxista de todas de capitalismo negro vem da retórica oficial de Richard Nixon: “À propriedade dos meios de produção acompanha o poder, privilégio, segurança, o direito de decidir e escolher”.

Às vezes a “corretagem” 25 do poder é simplesmente ridícula, como quando o Departamento de Trabalho criou um projeto em Washington D.C. para contratar 1000 jovens negros para limpar as ruas e chamou-o de “Orgulho S.A.” Algumas vezes é mais sincera, como quando Ralph Taylor, secretário adjunto do departamento de Desenvolvimento Urbano e de Habitação responsável pelo programa de planejamento municipal, disse “Eu não sou contra a participação negra, mas esta deve estar amarrada ao sistema branco mais abrangente”.

Aqueles que possuem poder na sociedade mantém o controle, mas podem conceder apoio aos dissidentes quando isso convém a seus propósitos imediatos. E a lição das operações da CIA na África é que aqueles que estão no poder sabem exatamente o porquê de seu apoio, mesmo que aqueles que o recebem não saibam nem sua razão nem sua fonte.

O Black Power percorreu um longo caminho desde 1966. Mas a questão agora é se essa jornada foi positiva ou negativa, se o slogan fez algum efeito significativo no sistema que o gerou. James Farmer, o homem cuja carreira peculiar culminou na estranha ironia de ser o homem negro mais intimamente envolvido com o governo oficial do bom Black Power, já comentou, certa vez, sobre um problema que só se intensificou desde então, “O mal da escravidão…” ele escreveu em Freedom – When?, “está no modo como ela permitiu que homens brancos tratassem os negros – seus corpos, suas ações, suas oportunidades, suas próprias mentes e pensamentos. Até o fundo de suas almas os negros se sentem manejados, administrados, ordenados, manipulados – pelo homem branco. Não há como enfatizar demais a persistência e a intensidade desse sentimento entre negros e eu acredito que qualquer pessoa justa em um mundo de poder branco pode compreender a justeza desse sentimento”.


1 [N.T.] No título original (The CIA as an equal opportunity employer), o termo “equal opportunity employer” (“empregador de oportunidades iguais”, em português) é usado para se referir a um contratante justo, que não discrimina os concorrentes e possibilita a qualquer pessoa, independente de raça, credo, gênero ou orientação sexual, a mesma oportunidade, o mesmo cargo e a mesma chance de contratação, julgando-os igualmente. Em português, a expressão “oportunidades iguais” não é comum, dificultando a compreensão do título. Portanto, preferiu-se utilizar o termo “democrático” que, no português, é utilizado frequentemente como sinônimo de “justo” e “igualitário”, sendo ainda mais usual do que esses últimos.

2 [N.T.] Nas ocasiões em que “Black Power” aparece como slogan, preferiu-se manter o original em inglês em vez da tradução para o português. Contudo, em passagens em que “Black Power” se referia a conferir, de algum modo, poder à população negra, a tradução para “poder negro” foi usada.

3 [N.T.] Em meados dos anos 60 houve uma crise de representação no movimento negro dos Estados Unidos. “Para muitos negros, as vitórias do Movimento dos Direitos Civis se provaram limitadas, ou até mesmo ilusórias”, afinal “Mesmo que pessoas negras fossem formalmente cidadãos plenos, muitos continuavam em guetos, pobres e politicamente subordinados” (BLOOM; MARTIN, 2013, p. 11-12, tradução nossa). Frente a essa situação, diversas revoltas pipocaram pelo país, rejeitando as antigas táticas de não violência dos direitos civis. Dentre elas, a revolta de Watts (1965) se destacou. Nela, Martin Luther King discursava “Por toda a América… os negros devem unir suas mãos…” quando foi interrompido por um membro da audiência que completou a frase com “E queimar!”. As tentativas do ativista e comediante Dick Gregory em Watts tiveram ainda menos sucesso: ao tentar acalmar os manifestantes implorando que fossem pra casa, um manifestante armado atirou em sua perna. Como Paul Jacobs e Saul Landau observaram, “As massas de negros pobres continuam uma minoria desorganizada em guetos urbanos superpopulosos, e nem a SNCC nem outro grupo encontrou uma forma de organização política que consiga converter a energia dos bairros pobres em poder político” (BLOOM; MARTIN, 2013, p. 30, tradução nossa). Foi nesse contexto que, em 1966, após ser preso junto com outros ativistas na Marcha do Mississipi Contra o Medo, Stokely Carmichael se uniu à virada discursiva que negava a não violência, instaurando o novo hino do movimento negro: “Essa é a vigésima sétima vez que eu sou preso. Eu não vou mais ser preso. O que vamos começar a dizer agora é ‘Black Power’.” Willie Ricks então perguntou para a multidão: “O que vocês querem?” e ela respondeu “Black Power!”. A frase se espalhou rapidamente. (BLOOM; MARTIN, 2013, p. 37, tradução e grifos nossos). Em seu discurso na mesma marcha, Carmichael deixou a contraposição da nova palavra de ordem às táticas dos direitos civis: “Todo mundo neste país é a favor de ‘Liberdade Agora’, mas nem todo mundo é a favor de Black Power porque nós temos que nos livrar de algumas pessoas que tem poder branco. Nós temos que conseguir algum poder negro. Nós não controlamos nada além do que as pessoas brancas dizem que podemos controlar. […] Tudo o que temos são três vereadores que falam por eles mesmos e não por nós. Nós temos que nos organizar e falar por nós mesmos. Isso é Black Power.”. Discurso completo disponível em: < “Black Power” Speech (28 July 1966, by Stokely Carmichael) | Encyclopedia.com >. Referência Bibliográfica: BLOOM, Joshua, MARTIN, Waldo. Black Against Empire: The History and Politics of the Black Panther Party. Berkeley: University of California Press, 2013.

4 [N.T.] No original, “We shall overcome”, referindo-se à música de inspiração gospel que se tornou um hino do Movimento dos Direitos Civis nos EUA. A música inclui passagens como: “Nós andaremos de mãos dadas, um dia”, “Nós viveremos em paz, um dia”, “Nós seremos livres, um dia”, “Nós não temos medo, hoje”.

5 [N.T.] O Congresso por Igualdade Racial (em inglês: Congress of Racial Equality – CORE) é uma organização da era do Movimento dos Diretos Civis, fundada em 1942, seguindo os princípios da não violência. James Farmer, citado no texto, foi um de seus fundadores.

6 [N.T.] A expressão “o método da vara ou da cenoura” é uma metáfora para se referir ao uso de punição (vara) ou de recompensa (cenoura) para atingir um fim desejado. A primeira referência na língua inglesa é de meados de 1800, em uma “charge” da época que representava uma corrida de burros, sendo que o corredor que estava perdendo chicoteava o animal com uma vara, enquanto o que estava ganhando utilizava a vara para amarrar uma cenoura e segura-la na frente no burro, fazendo com que ele corresse para conseguir alcança-la.

7 [N.T.] Os Panteras Negras se consideravam um movimento nacionalista revolucionário, que se conectava com todos os povos oprimidos pelo imperialismo e pelo capitalismo ao redor do mundo. Ao fazê-lo se distinguiam do que chamavam de “nacionalismo cultural” (seguindo Malcolm X em sua crítica à Nação do Islã). Huey Newton, um dos fundadores do partido, definiu o nacionalismo cultural (ou nacionalismo de costela de porco, nas palavras de Newton) como: “[…] uma reação ao invés de uma resposta à opressão política. Os nacionalistas culturais estão preocupados em retornar à antiga cultura africana e, desse modo, recuperar sua identidade e liberdade. Em outras palavras, eles acham que a cultura africana irá trazer liberdade política automaticamente. Muitas vezes nacionalistas culturais agem como nacionalistas reacionários.” Sendo que “Existem dois tipos de nacionalismo: o nacionalismo revolucionário e o nacionalismo reacionário. O nacionalismo revolucionário depende em primeiro lugar de uma revolução popular, tendo como objetivo final o povo no poder. Assim, para ser um nacionalista revolucionário, você precisa ser um socialista. Se você é um nacionalista reacionário você não é um socialista e seu objetivo final é a opressão do povo”. (In: The Black Panther Speak, 1995, p.50). Ver: FONER, Philip S. (Ed.). The Black Panther Speak. Boston: Da Capo Press, 1995.

8 [N.T.] No original, utilizou-se o termo “Who’s Who”, que indica o conjunto de integrantes mais notáveis, mais importantes, ou de maior status de um grupo. Contudo, a tradução literal em português (“quem é quem”) é menos utilizada e, portanto, preferimos usar o termo “a nata” para facilitar a compreensão.

9 [N.T.] Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (em inglêsNational Association for the Advancement of Colored People – NAACP), é uma das mais antigas e mais influentes instituições em defesa dos direitos civis, fundada em 1909 por um grupo composto por figuras como W. E. B. Du BoisMary White OvingtonMoorfield Storey e Ida B. Wells.

10 [N.T.] Expressão em inglês que se refere a um sistema informal de apoio mútuo baseado em conexões pessoais, no qual seus participantes utilizam seu status e sua influência para favorecerem uns aos outros, obtendo vantagem por meio do favoritismo entre os membros.

11 [N.T.] Corning Incorporated é uma empresa estadunidense, fabricante de vidros, cerâmicas e materiais relacionados, principalmente para aplicações industriais e científicas. A empresa era conhecida como Corning Glass Works, até 1989, quando mudou seu nome para Corning Incorporated. Fonte: < Corning Inc. – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)>

12 [N.T.] No original, utilizou-se a expressão “at arm’s length” que, em seu sentido literal, significa “a um braço de distância”. Um braço de distância é a distância limite em que ainda é possível segurar, alcançar, manejar e observar claramente um objeto. Portanto, figurativamente, manter algo “a um braço de distância” significa mantê-lo a uma distância segura, que ainda permita controlá-lo.

13 [N.T.] Os Panteras Negras construíram um “vocabulário próprio”, no qual demarcavam claramente seus inimigos e aliados na cena política, se opondo diretamente ao estado norte-americano. Nele, se referiam ao estado e seus aliados como “porcos”, definidos como “uma besta de má fé que não tem nenhum apego à lei, à justiça ou aos direitos das pessoas… normalmente encontrada se disfarçando como uma vítima de um ataque gratuito” (MALLOY, 2017, p.85, tradução nossa). Esse termo, que inicialmente se referia à polícia de Oakland (que assassinava pessoas da comunidade negra e sempre alegava agir em autodefesa), começou a ser usado para todos conectados ao estado imperialista. Ao se referir aos líderes do movimento negro que teórica e praticamente se alinhavam com o governo, utilizavam termos como: “costela de porco” (demonstrando sua ligação com o governo), “lambedor de bota” e “Pai Tomás” (fazendo referência ao romance “A Cabana do Pai Tomás”, na qual Tomás era um escravo que defendia os interesses de seu senhor, como se fossem dele). Ver: MALLOY, Sean L. Out of Oakland: Black Panther Party internationalism during the Cold War. Ithaca: Cornell University Press, 2017.

14 [N.T.] Alprentice ‘Bunchy’ Carter e John Huggins foram assassinados no campus da Universidade da Califórnia em Los Angeles, em 17 de Janeiro de 1969, por membros da organização US (fundada por Ron/ Maulana Karenga e Hakim Jamal em 1965) em um confronto ativamente instigado pela COINTELPRO, um programa de contrainteligência do FBI que tinha como objetivo reprimir “não apenas o partido como uma organização, mas a possibilidade política que ele representava” (BLOOM; MARTIN, 2013, p. 6, tradução nossa). Ver: BLOOM, Joshua, MARTIN, Waldo. Black Against Empire: The History and Politics of the Black Panther Party. Berkeley: University of California Press, 2013.

15 [N.T.] “Jet set” é uma expressão cunhada nos anos 50 para se referir ao conjunto de pessoas com poder aquisitivo para viajar ao redor do mundo de avião a jato, e participar em atividades sociais exclusivas, inacessíveis ao resto da população. Por conta do preço elevado das passagens, “jet set” representava a elite financeira da sociedade. Mesmo que o seu sentido literal de “pessoas que viajam de avião a jato” não seja mais utilizado, a expressão ainda é usada para se referir ao grupo seleto de pessoas que tem as condições financeiras e o tempo suficientes para viajar frequentemente a seu bel-prazer.

16 [N.T.] Termo que significa, literalmente, “caçadores de couro cabeludo”, referindo-se à prática de escalpelar os inimigos; i.e arrancar o couro cabeludo utilizando um instrumento cortante.

17 [N.T.] O Council on Foreign Relations, fundado em 1921, é um think tank sediado em Nova Iorque, EUA, com escritório em Washington, D.C. voltada para a política externa e assuntos internacionais. Segundo seus representantes, trata-se de uma entidade dedicada a aumentar a compreensão norte-americana sobre o mundo e contribuir com ideias para a política internacional dos EUA. Um dos seus pesquisadores, Elliott Abrams, foi nomeado pelo Presidente Donald Trump como representante especial para a Venezuela.” Fonte: < Council on Foreign Relations – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org) >

18 [N.T.] Na frase original – “It seems to me that it is up to us to see that they know what is right” – a palavra “see” tem um sentido ambíguo: tanto de “saber”, de “estar ciente” se “eles sabem o que é certo” ou não; quanto de “garantir” que “eles saibam o que é certo”, implicando na interferência do PSI caso isso não ocorresse. Como no português não há uma palavra que possa expressar essa ambiguidade, optamos por suprimir o verbo “see”, para tentar atingir a ambiguidade do original.

19 [N.T.] No inglês, a expressão “Dear Tom” tem duplo sentido: 1) se “Tom” for considerado apenas como o nome de Mboya, o adjetivo “dear” – “querido”, em português – pode ser considerado apenas como um termo que indica a proximidade da relação entre as duas partes; 2) se “Tom” estiver relacionado com o termo “Uncle Tom”– termo que se refere à obra de Harriet Beecher Stowe (A cabana do Pai Tomás) e é utilizado popularmente para se referir a um homem negro que “se vende” aos brancos –, o termo “querido” passa a indicar, mais do que mera “proximidade”, uma relação de subserviência e docilidade na qual, assim como o “o outro Tom”, Mboya defendia os interesses dos Estados Unidos como se fossem seus próprios – mesmo que essas medidas funcionassem para explorar e oprimir seu próprio povo.

20 [N.T.] A disputa eleitoral de 1964 foi entre o democrata Lyndon Johnson e o republicano Barry Goldwater. A campanha de Johnson retratou Goldwater como um extremista perigoso, e defendeu os programas sociais que ficaram conhecidos como “Great Society” (uma tentativa de controlar os crescentes protestos e a ‘desobediência civil’ do movimento negro a partir da expansão do estado de bem-estar social americano). Johnson se elegeu com facilidade à presidência, conquistando 44 dos 50 estados e no Distrito de Colúmbia.

21 [N.T.] Em inglês, Freedom Rides, foram viagens que tinham como objetivo garantir que a população negra tivesse liberdade de sentar em qualquer lugar nos ônibus nas viagens interestaduais. Para tal, os ativistas (Freedom Riders) viajavam em direção ao sul dos Estados Unidos, região notadamente conhecida pela segregação racial. Alguns destes veículos foram atacados pela Ku Klux Klan e vários ativistas foram presos por violarem as Leis de Jim Crow.

22 [N.T.] Ações no sentido de ações financeiras, “stock” em inglês.

23 [N.T.] No original, é usada a expressão “winnowing away”, fazendo referência à expressão conhecida também em português de “separar o joio do trigo”.

24 [N.T.] Um broker é um indivíduo ou uma firma que atua como intermediário entre um investidor e a bolsa de valores. O termo mais próximo em português seria “corretor de ações”, porém, por ser comum a utilização do nome original em inglês, preferiu-se utilizá-lo.

25 [N.T.] No original, utilizou-se o termo brokerage, que é a ação de comprar e vender ações no mercado financeiro. A palavra mais próxima no português, “corretagem” (em referência aos corretores de ações – brokers, em inglês) não é comum, porém foi utilizada aqui por ser a única que faça referência à conexão do estado (no parárafo do texto em questão) com corporações financeiras. Essa conexão pareceu ser necessária, pois o nome do projeto exposto no texto inclui a sigla “S.A”, indicando a criação de uma empresa.

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