A Ética do Real e o bem comum (parte I)

Tradução por Daniel Alves.

Esta é uma entrevista concedida por Alenka Zupancic à revista INDIGO na primavera de 2011. Filósofa eslovena oriunda da chamada escola lacaniana da Liubliana, seus estudos buscam apontar as questões éticas, políticas e filosóficas que podem ser extraídas da leitura crítica de importantes filósofos como Nietzsche e Kant através do uso de conceitos da teoria psicanalítica de Jacques Lacan. Nesta primeira parte da entrevista, concedida em meio às agitações populares ocorridas no Egito, Zupancic fala de alguns aspectos da sociedade contemporânea com base em conceitos que desenvolve em um de seus livros mais importantes Ethics of the Real (Verso, 2000). Caso haja interesse no original, favor nos enviar mensagem pela página no facebook. Publicaremos a segunda parte da entrevista durante a próxima semana.


Indigo: O título deste projeto é “Em direção ao bem comum”. E o que estamos tentando fazer nesse projeto é explorar, ou talvez reinterpretar, o verdadeiro significado do “comum” e do “bem” em nosso tempo: Existe algo como o bem comum? Em qual dimensão é mais útil falar sobre/de um bem comum?

Alenka Zupancic: Eu acho que primeiro de tudo nós não deveríamos tentar defini-lo de alguma forma. Ele pode significar muitas coisas e algumas vezes nada. É definitivamente uma noção muito complicada. A própria noção de “bem” em filosofia é algo que não é facilmente definida. Mas eu penso que o que realmente precisa ser definido talvez seja encontrado precisamente entre as linhas que você apontou em sua questão. Eu penso que a primeira coisa a fazer é virar essa sintaxe ao contrário e dizer que não é que nós comecemos por algum bem ou bens completamente estabelecidos e então nós tentamos torná-los comuns ou tentamos encontrar caminhos para torna-los comuns e divididos por todos. Eu ao contrário penso que deveríamos mudar de perspectiva e dizer que é “o que é compartilhado” e “comum” que é o bem. Eu acho que o “bem” aparece aqui em dois níveis: nós podemos falar de algum bem que exista na sociedade como a comida ou o bem-estar social, que obviamente são muito reais e necessários para viver, mas eles não são bens no sentido da moral ou da empatia. O que é o bem é precisamente quando eles são parte desse compartilhamento geral e universal. Isso também significa que eles são parte dessa ideia de não simplesmente ter essas coisas, mas também do caminho emancipatório que envolve seu compartilhamento. Eu acho que o bem nesse sentido está precisamente mais no lado do paradigma do comum e universal, assim como pertencer a uma política emancipatória ou algo do tipo. Então se pode dizer realmente que nada é um bem se acontece somente para alguns. Se fosse dessa forma poderia ser muito bom em um conto, mas de certa maneira não é um bem no sentido de ter esse potencial de abrir ou talvez explodir algum tipo de espaço que parece incapaz de mudança ou de ser inacessível para esse tipo de prática comum. Eu acho que isso é também, em um certo nível, um modo kantiano de definir o bem, não começar por algum bem completamente estabelecido, mas tentar figurar como há algum tipo de movimento universal que é o bem em si. Então o bem é também, obviamente, algo que sairia desse movimento, ou que poderia vir disso. Nós podemos tentar pensar sobre esses dois níveis da questão ou projeto.

Como uma perspectiva sobre um evento atual, eu estava pensando no meu caminho para cá como realmente não é simples ter acesso a algo que seja o bem comum. O que está acontecendo no Egito agora é uma sequencia do bem comum em si. Ao se esforçar na direção de algum tipo de política organizada do bem comum, existe entre as pessoas algum tipo de articulação comum, universalmente compartilhada de justiça entre as pessoas, que já tomou lugar lá.

Eu penso que existe alguma coisa para ser aprendida disso, em como um dos problemas hoje é que nós perdemos a capacidade de desfrutar ou de ter algum tipo de entusiasmo em reconhecer algo que está realmente acontecendo fora de todo os espetáculos que são colocados aqui e ali. Eu não quero dizer que devemos moralizar as pessoas, é simplesmente o modo como a segregação ideológica funciona hoje.  As pessoas estão felizes com o que elas tem; elas tem o seu bem comum, mas, ao mesmo tempo, eles não sabem precisamente o que é o mais essencial nesse bem comum, que é o próprio princípio de ser sensitivo a tais eventos que são mais importantes e impactantes que qualquer outra coisa.

Indigo: Uma questão que apareceu na minha cabeça é essa universalidade. O Egito é somente o caso de perseguir o bem comum em sua própria sociedade. Como podemos definir essa palavra universalidade?

Alenka Zupancic: Eu acho que existem duas formas de pensar, talvez mais de uma, mas duas são muito diferentes. Uma, que eu chamaria de “má”, que realmente não leva a nada, é de considera-la como uma facção, totalidade ou algum tipo de mínimo denominador comum. Nós poderíamos começar de baixo e dizer, “Isso é a única coisa que temos em comum”. Então você tem essa ideia mais relativa do universal como uma cabeça que pode unir diferentes coisas. Mas o universal real ou o universal concreto, usando um termo hegeliano, é o processo imanente do tornar-se universal. Isso está sempre relacionado com algum tipo de antagonismo na sociedade. Não é algo simplesmente neutro. É algo que é muito sensitivo para os pontos de injustiça na sociedade; é estar perto das divisões cruciais da sociedade, do antagonismo crucial que os define e tentar encontrar algum tipo de relação realística a esse princípio que se abre e tenta ser endereçado a todos, que desde o inicio não exclui ninguém, que tem essa espécie de potencial de mobilizar e ativar mais reflexões. Portanto isso é uma expressão diferente do universal, da noção estática, concluída, ou totalizadora, no sentido de que apesar de endereçado para todos, ele não é tudo. Não é simplesmente fazer a parte final disso ok porque agora que estamos todos juntos nesse trem, estamos todos satisfeitos. É sempre algo que é construído de um evento porque os antagonismos excluem algumas pessoas, mas não em função de que a exclusão de alguém se dá porque ela não quer compartilhar disso. Ali haverá algum tipo de exclusão a priori.

Isso também quer dizer que sempre haverá algumas formas concretas que alguém poderá encontrar entre um exemplo ou outro de como essa universalidade é articulada em casos particulares, associações ou lutas. Porém, ela é também um tipo de abertura especial que não é neutra, mas a retirada dos parâmetros pré-estabelecidos que normalmente dividem ou estruturam os lugares simbólicos na sociedade enquanto tal. É um tipo de lugar vazio e ao mesmo tempo um lugar exposto porque ele não pode automaticamente ser integrado em um desses movimentos ou partes, precisamente por não ser muito facilmente assimilável para um horizonte particular que ele permaneça exposto. Novamente nós podemos ver isso no Egito. Tentam dizer “Ah, não, isso é a mascara da autoridade.” Mas isso não é reduzível a nenhuma das alternativas. É também o puro espaço da política emergindo e isso pode terminar de diferentes maneiras, porém ninguém pode negar que é algo dessa espécie. Nesse sentido, isso é universal. Não é somente por eles ou por empregos melhores ou governos melhores, mas é também algum tipo de política emergindo e abrindo espaço para que algo realmente aconteça.

Indigo: No contexto dessa universalidade, eu penso sobre a noção de amor universal como a prática do bem comum ou a prática da revolução universal. Che Guevara também comentou esse estranho sentimento de que o amor pode ser relacionado com a revolução. Eu pergunto como esse amor ou compaixão ou aproximação ética das pessoas, que pode ser interpretada como a nova ética desse tempo, pode ser um atuar praticamente nessa época de guerra, terrorismo e desastres ecológicos?

Alenka Zupancic: Apesar de ter feito muitos trabalhos no tópico da ética, eu seria cuidadosa nesse discurso geral de virar da política para a ética. Eu não gostaria de jogar uma contra a outra e dizer que a política é ruim ou produz coisas ruins, e que portanto, deveríamos investigar o campo da ética mais como uma substituição. Eu realmente acho que se estamos falando em bem comum na sociedade ambos precisam ser extremamente relacionados e interconectados. Isso também é algo político. Ninguém pode simplesmente dizer nessa perspectiva “a ética pode nos salvar”. Eu não penso que ela pode nos salvar sem a política como uma prática participatória. Essa não é a mesma coisa que a ética, mas pode ser relacionada. Agora precisamos ver como elas estão relacionadas. Uma das relações é a noção de prática que você mencionou. Atualmente, praticar é algo que alguém pode fazer porque a prática existe concretamente no mundo, mantendo-se confiante nisso e tentado expandir essa prática que pode definitivamente ser um tipo de ato político. Isso também precisa ser visto dessa forma porque uma dimensão que a torna política é que deve-se estar pronto para aceitar as consequências que seguem da prática. Não se pode lavar as mãos e dizer, “Eu estou fazendo meu próprio bem ao mundo.” Em algum ponto deve-se também ouvir, viver e pensar em dois níveis: o que estou fazendo, e o que irá vir disso. Não que alguém possa controlar, certamente que não, mas que pode haver algum tipo de vontade política em tentar organizar a sociedade de uma maneira que esses tipos de engajamento se tornem possíveis. Assim ao menos seus frutos são preservados ou incorporados na sociedade e não simplesmente banidos como um tipo de ação pessoal. Outra coisa que definitivamente traz essa mudança da simples ética para o político é a noção de coletivo, que não é a prioridade de uma noção de ética. A ética é percebida como algo muito pessoal e solitário, mas ela também pode ser um caminho ou alguma passagem da ética ao coletivo. Esse é definitivamente um ponto onde essas práticas existem como prática. Não simplesmente que ela exista porque estamos nos dirigindo diretamente ao outro, mas também porque nela nós estamos constantemente contestando nossas próprias posições. Não é simplesmente sobre ajudar os outros, é também sobre mudar algumas coisas no modo como agimos em nossa sociedade que necessariamente envolvem outras coisas, como as cidades. Não é simplesmente ajuda-las. Frequentemente isso significa colocar em questão os princípios que nós tomamos como garantidos e que continuarão assim se não for por esse engajamento político. Isso pode ser real e não simplesmente algum tipo de bem-estar prático e dizer, “Eu estou fazendo esse ato e agora eu fiz alguma coisa”. Então é uma espécie de transformação que é ao mesmo tempo ética e política. Ela tem ambas as dimensões.

Indigo: Uma noção muito interessante sobre ética no seu trabalho é acerca da responsabilidade por essa excessividade infinita dos outros. Você poderia por favor nós falar um pouco mais sobre a sua aproximação da ética que pode ser relacionada com a noção de excesso ou mais de gozo?

Alenka Zupancic: Uma noção crucial na discussão da ética foi precisamente a noção do “Real” que eu uso mais em um sentido que nos permite, primeiro de tudo, distinguir entre o Real e a realidade. Nós podemos encontra-la mais ou menos ideologicamente transformada, mas não é simplesmente uma posição de relacionar os termos da realidade sempre discursivamente ou ideologicamente mediados com algum tipo de realidade pura. Eu acho que devemos perceber o real como um ponto de contradição da realidade em si mesma. Não é um tipo de substância encontrada em outro lugar. Existe uma realidade mais ou menos corrupta e mal entendida, mas isso tem de precisamente ser visto como o ponto de contradição ou antagonismo da realidade em si mesma. É o que a realidade precisa constantemente cobrir para funcionar mais ou menos suavemente. Não é uma outra coisa lá fora; é sua contradição inerente. Então, talvez ainda mais claramente do que isso está no meu livro, eu definiria o Real nesse sentido. Portanto, a ética do Real é a atenção para esses pontos porque são pontos na sociedade que ainda não estão terminados. Eles são pontos que podem ser “pontos neurológicos”: os pontos que não estão feitos, mas onde algum tipo de potencial para gerar algo diferente ou novo ainda é possível. Então a primeira ordem é localizar esses pontos e então entrar no processo de tentar fazer algo com eles. Essa poderia ser definida como a ética do Real. Não simplesmente a ética no sentido de seguir em direção a um Real além de toda organização política ou cultural imaginável, mas precisamente em como o Real é possível na realidade em si mesma. É o ponto do infinito precisamente porque, nesse ponto, nenhuma sociedade está fechada em si mesma. Algumas coisas podem ser reativadas talvez muito surpreendentemente.

Esse é o outro problema, a eterna questão: Como nós podemos encontrar esses pontos e trabalhar com eles? Às vezes alguma coisa simplesmente tem de acontecer para que eles se tornem visíveis, e então sabemos o que fazer. Eu realmente acho que não deveríamos fazer muito essa pergunta do que fazer porque normalmente isso é bastante claro. Porque quando as coisas chegam à ponta da faca, você sabe o que fazer. Uma das formas que eu acho que a ética é mal usada ou muito usada de uma forma negativa no discurso contemporâneo é para produzir todos os tipos de dilemas e aumentar o medo, dizer que nós devemos primeiro calcular todas as consequências, dizer que não podemos saber exatamente se é isso que devemos fazer. Então, ao invés disso, da primeira certeza geralmente boa que vem a mente, esse método diz que é algo absolutamente errado, faz você pensar “Talvez, se eu olhar pelo outro lado, então tudo ficará bem…”. Isso somente serve ao propósito de que nada realmente aconteça no ponto onde algo poderia acontecer. Nesse sentido, o que proponho é o exato oposto do questionamento e re-requestionamento ético baseado em uma certa recognição, sem vontade e prontidão para assumir essa ação, para se responsabilizar por ela. É claro, ninguém pode garantir que a sua reflexão ou decisão estava certa, dizer “Aqui, eu reconheço isso e luto por isso.” Você decidiu isso, e então você é responsável por essa decisão. Nesse aspecto essa é toda a discussão da lei moral kantiana. Pode ela nos eximir de toda responsabilidade, como o famoso Eichmann, nós podemos afirmar que nós fizemos algo somente porque a lei comandou? É claro que não. Esse é o paradoxo da filosofia kantiana. Você é fundamentalmente responsável pela regra. Essa não é simplesmente algo que possa garantir a ética para mim. Não é algo que pode garantir a ética. Ela é mais ou menos um terreno político em que você está seguro para se mover uma vez que sabe que algumas coisas já estão estabelecidas e que elas são boas ou geralmente supostas serem boas. Mas olhe para o ponto onde não há um caminho claro, e tente fazer algo ali. Normalmente, essas coisas já estão estabelecidas e, para alguns, elas são algo realmente relevante, mas eu não acho que muito pode ser ganho de continuar insistindo nelas.

Indigo: Como pode uma pessoa ou um coletivo ser transformado em sujeitos éticos?

Alenka Zupancic – Não se deve procurar uma receita onde poderíamos tentar definir o mecanismo ou como isso deveria funcionar. Não se deve dizer “Vamos produzir sujeitos éticos”. Devemos mesmo colocar mais radicalmente e dizer que isso somente produz subjetividades elitistas enquanto tal. Existe um salto que nunca pode ser completamente explicado pela história ou pela vida dos indivíduos. Então eu penso que não se deve olhar para isso em termos de algum tipo de evolução ou guinada na direção do ético, mas de uma maneira mais sincronizada. É algo que existiu durante todo o tempo – a maneira como eu posso agir como um sujeito ético é algo que não pode ser gradualmente deduzida do meu ser no mundo. Então não é simplesmente que eu vou uma vez me tornar sujeito em um certo ponto; todo mundo já é o sujeito. É da maneira oposta. Se você pratica ou está envolvido na prática, esse é único o ponto que realmente explora esta parte e a faz viva no mundo – ou não. Essa é outra questão. De alguma forma, também é assim porque você tem hoje vários tipos de criticismo sobre como somos enormemente culpados, mas isso não é sobre a culpa. É simplesmente sobre a presente posição de que em certo nível nós somos sempre mais do que pensamos. Sobre como nós podemos ser feitos somente ao combinar nossa natureza com a cultura e seu entorno. Porém, há um salto para algo que não é um resultado direto de todos esses processos naturais e culturais, mas que existe por si mesmo. E isso não é importante como parte do sujeito, mas como a parte do sujeito que é a mais viva. Isso não é sobre tentar. Até mesmo a ética às vezes tem de começar do lado de fora, não simplesmente tentando encontrar nossas partes intrinsecamente mais éticas e tentando força-las a tornarem-se mais aparentes, mas mudando os jornais e a maneira como as coisas são articuladas. Isso é como as coisas são influenciadas e também como toda a configuração ética pode mudar. Isso está relacionado, em uma certa medida, ao seu projeto anterior na questão dos valores. Valores também são sobre certas coisas que certas sociedades compreendem como válidas. Em algumas sociedades, a mera sobrevivência não é uma realização como talvez seja na nossa. Mas não é simplesmente porque elas são suicidas que as pessoas podem pensar em arriscar sua vida pela liberdade. Não porque elas são ideologicamente iludidas, mas por causa de um certo quadro de valores que são diferentes. Isso pode também ser ideológico. Nem todas as ideologias são iguais. Existem certas ideologias que acompanham uma resistência e existem algumas que podem existir ao promover que essa distância entre eu e você pode ser um tipo de espaço ou alguma coisa diferente, alguma coisa que não pode simplesmente ser reduzida ao interesse imediato, que obrigaria assim a ver somente o imediato.

  

Clique aqui para continuar lendo a Segunda Parte da entrevista

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