A repetição da História

Por Kojin Karatani, traduzido por Daniel Fabre.

Kojin Karatani é um critico literário e pensador japonês contemporâneo, autor de Transcrítica, obra em faz uma leitura original de Kant através de Marx e de Marx através de Kant. Seu trabalho ganhou visibilidade após Slavoj Zizek tomar por empréstimo seu conceito de “visão em paralaxe” – inclusive como título de seu próprio livro.

No excerto abaixo, extraído de seu artigo On The Eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte, Karatani avança em sua abordagem sobre a repetição presente na história, demonstrando como no 18 de Brumário de Louis Bonaparte, Karl Marx encontra no bonapartismo e nos ciclos econômicos um sintoma da repetição presente na História. 

O LavraPalavra publicou recentemente outro trecho no artigo em questão, para acessá-lo, clique aqui


A próxima questão sobre representação a ser levada em conta é a questão sobre a repetição. É claro, isso se relaciona com as famosas linhas iniciais do “O 18 de Brumário”: “Hegel diz em algum lugar que todos fatos e personagens de grande importância na história mundial ocorrem, necessariamente, duas vezes. Ele esqueceu-se de acrescentar: primeiro como tragédia, segundo como farsa. Caussidière para Danton, Louis Blanc para Robespierre, o Montagne de 1848/1851 para o Montagne de 1793/1795, o sobrinho para o tio” (Marx 1963:15)

A repetição da história citada aqui por Marx está relacionada à primeira Revolução Francesa, de 1789, e à segunda Revolução Francesa, de 1848. Em ambos os casos, uma revolução que derrubou a monarquia e focou-se em estabelecer uma república que resultou, no fim das contas, em ordem imperial. Mas, há mais. Nas palavras que seguem essas linhas inaugurais, Marx aponta que a “Revolução de 1789 a 1814 se vestia alternativamente como República Romana e como Império Romano” (1963:15). Em outras palavras, os eventos que seguiram a primeira Revolução, de 1789, foram desde então constituídos como uma repetição do passado.

De acordo com o pensamento de Marx, o pequeno período de três anos que se seguiu a 1848 foi uma repetição do período de 1789 ao golpe de estado de Napoleão. A primeira Revolução, enquanto levou a si mesma à forma de uma repetição da antiguidade, na verdade atuou como uma revolução burguesa; com a Revolução de 1848, por outro lado, não havia nada de novo para ser alcançado. Por esta razão, Marx se refere a ela como farsa. Ainda que fosse, de fato, algo que o bonapartismo tratou de atingir. Essa foi a dissolução, pelo poder executivo, dos conflitos de classe engendrados pelo capitalismo, para fazer desnecessárias todas as revoluções no futuro – tal era o conteúdo de Des idées napoléoniennes de que Louis Bonaparte é o autor. Em contraste com a exploração militar de seu tio, ele enfatizava a paz e o desenvolvimento industrial. É claro, isso não impediu Louis Bonaparte de enviar tropas para bloquear a independência italiana. Externamente, seu governo era imperial.

Marx adiciona à passagem abordada acima o que segue: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; eles não o fazem em circunstâncias escolhidas por eles mesmos, mas sob circunstâncias diretamente encontradas, dadas e transmitidas do passado. A tradição de todas as gerações mortas pesa como um pesadelo na mente dos vivos” (1963:15). A repetição que Marx foca aqui, entretanto, não é esse tipo de verdade geral, mas antes o fato de que em um certo sentido a Revolução de 1789 – ou seja, a emergência do Imperador Napoleão de dentro da república que foi formada através do assassinato do rei – foi uma repetição de nada menos que a história de César.

Isto está claro na citação que Marx faz de Hegel. Quando Marx escreve que “Hegel diz em algum lugar”, esse algum lugar sem dúvida se refere ao que Hegel disse sobre César em A Filosofia da História. Ainda, as palavras de Hegel tem um sentido diferente do que Marx tinha em mente. Hegel escreve que “em todos os períodos do mundo uma revolução política é sancionada na opinião dos homens, quando ela se repete. Então Napoleão foi derrotado duas vezes e os Bourbons expelidos duas vezes. Pela repetição, o que primeiramente apareceu como uma mera questão de sorte e contingência se torna uma existência real e ratificada”(1991:313).

De acordo com o pensamento de Hegel, César é uma figura histórica do mundo e os eventos que ele menciona são também eventos históricos do mundo. A razão para isso é que eles transformaram o princípio da nação baseado no de povo ou de cidade-estado no princípio mais amplo de império, que transcende diversos povos. César tentou tornar-se imperador em um momento em que Roma tinha se expandido e não podia mais continuar como uma cidade-estado ou república, e ele foi assassinado por Brutus e outros que tentaram proteger a forma republicana de governo. Além disso, depois de matar César, que eles pensavam estar tentando destruir a república, perceberam que a república não poderia ser mantida por mais tempo. Em outras palavras, perceberam que a Roma expandida não poderia ser governada de acordo com os princípios da república. Neste ponto, apesar de César ter morrido, o imperador subsequentemente veio a vida. Na verdade, se pode dizer que César mesmo se tornou imperador, no sentido de que seu nome foi transformado em um substantivo comum que significa imperador (por exemplo, kaiser, czar).

De fato, aqueles envolvidos na Revolução Francesa repetiram, em uma forma temporariamente comprimida, essa história romana. Pela forma da Revolução, eles foram capazes de formar uma república, que, entretanto, culminou depois de um período de caos no reino imperial de Napoleão. Ademais, enquanto parece superficialmente ser uma repetição da história romana, na verdade foi realmente diferente, pois os mecanismos políticos e econômicos de cada contexto eram diferentes. O que a Revolução Francesa conquistou foi o estabelecimento de um sistema econômico burguês e o estado-nação. E o federalismo europeu que Napoleão proclamou não era nada mais que um tipo de “imperialismo” que tinha por objetivo defender a economia nacional francesa contra o capital industrial britânico. Isso era uma extensão do estado-nação e nunca foi comparável ao Império Romano. Nessa questão, Hannah Arendt apontou o que segue:

O edifício da conquista assim como o do império tinha perdido a reputação por boas razões. Eles foram carregados com sucesso apenas pelos governos que, como a República Romana, foram baseados primeiramente na lei, de forma que a conquista pudesse ser seguida pela integração de povos muito heterogêneos através da imposição sobre eles de uma lei comum. O estado-nação, entretanto, baseado em um consenso ativo de populações homogêneas para seu governo (“le plébiscite de tous les jours”), carece de um princípio unificador como tal. (1973:125)

Mais adiante, Arendt notou que isso já tinha ocorrido com Napoleão: “a contradição interna entre o corpo político da nação e a conquista como um mecanismo político é óbvia desde a queda do sonho napoleônico” (128). A política de conquista de Napoleão fez nascer os movimentos nacionalistas e independentistas em diversos países. Em outras palavras, Napoleão transmitiu a Revolução Francesa para cada uma das regiões.  Isso é de fato a “astúcia da razão”, para usar as palavras de Hegel. O imperialismo como uma extensão do estado-nação nunca foi subsequentemente capaz de resolver essa contradição. Essa analise também implica na política de Napoleão III. Sua política de invasão, contraria aos seus efeitos pretendidos, ajudou a erguer a unificação alemã e italiana. E os diversos imperialismos europeus que subsequentemente surgiram fizeram nascer os estado-nações ao redor do globo.

Na Europa, tentativas de reconstruir o Império Romano continuaram sem cessar. Isto está relacionado a um problema interno existente no moderno estado-nação. O moderno estado-nação surgiu em um ponto em que as monarquias absolutistas estabeleceram sua soberania independentemente da lei romana e da Igreja Católica, e entraram em competição militar e industrial entre si. Nesse contexto, o que a vontade de transcender a condição da moderna nação soberana conseguiu foi mais ou menos recordar o Império Romano. Na verdade, o que essa vontade realmente conseguiu foi o controle imperialista de uma nação sobre a outra. Além disso, o estado-nação é incapaz de descartar a pulsão de negar a si mesmo e de mover-se em direção ao “império”. Isto é a compulsão à repetição do estado-nação em si. Aparentemente a União Europeia de hoje representa outra repetição desta pulsão.

O ciclo econômico como Repetição

A outra questão de representação localizada por Marx no 18 de Brumário pertence à economia capitalista. A economia monetária existe como um sistema de representação, e sua crise se manifesta como crise econômica. Marx escreve que a crise econômica de 1851 moveu a burguesia de um só golpe a apoiar Louis Bonaparte. O que a burguesia desejava naquele momento não era um tipo de estado liberal ou legislativo, mas antes um forte estado administrativo; ou seja, eles desejavam Bonaparte como imperador. Em um certo sentido, ele respondeu a este desejo. Para complementar a análise de Marx, a política de Bonaparte como imperador era ela mesma cheia de contradições. A burguesia daquele tempo, em termos de política econômica, era dividida em duas. A primeira visão, como o saint-simonista Michel Chevalier disse, era que o mercado precisava ser aberto e que a França precisava entrar na economia mundial; ao mesmo tempo, entretanto, tal afirmação deveria intervir na economia para impulsionar o desenvolvimento industrial. A outra visão, como disse o conservador Adolphe Thiers, focava em preservar um sistema balanceado com centro na agricultura. Com essa oposição, Louis Bonaparte apresentou a si mesmo como um conservador de coração que na prática era um saint-simonista. Em outras palavras, ele surgiu como uma figura que prometia eliminar ou mediar essa séria oposição.

Marx entendeu Bonaparte como uma figura que eliminava oposições entre as diversas classes, mas essas oposições eram intimamente relacionadas a problemas particulares da França, que estava sob pressão da economia britânica durante esse período. Ao mesmo tempo, essa questão pode ser generalizada na oposição entre capitalismo global e economia nacional. Por exemplo, a escolha entre liberalização do mercado, que sacrifica a economia nacional, versus a proteção da economia nacional, é um dos maiores pontos de disputa atualmente. Os políticos que agem como se pudessem corresponder a todos esses desejos podem ser chamados de “bonapartistas”. É claro, eles não estão limitados aos fascistas, apenas. Os fascismos que surgiram na Alemanha e no Japão dos anos de 1930 podem ser vistos mais apropriadamente como diferentes modos de bonapartismo. Um dos benefícios de entender o fenômeno da década de 30 como bonapartismo é que assim se pode também explicar o que ocorreu nos Estados Unidos durante aquele tempo. O Presidente Roosevelt, que foi capaz de ganhar apoio tanto da direita como da esquerda, e de todos partidos, classes e etnias, pode ser visto como um bonapartista. Na prática, ele rompeu com o tradicional enquadramento do sistema bipartidário.

A crise econômica de 1851 mencionada no 18 de Brumário foi parte de um ciclo econômico de aproximadamente dez anos de duração. O que Marx encontrou no Capital foi esse tipo de ciclo econômico de curto prazo. Isso se difere do rude ciclo de longo prazo de 6 anos do capitalismo global – a “longa onda” de Kondratieff. O princípio que gera tais ciclos, entretanto, é o mesmo. Isto é, em outras palavras, ele é relacionado à diminuição da taxa geral de lucro e ao uso de inovação tecnológica fundamental. Tais ciclos não apenas geraram crises mundiais, mas também levaram a transições nas principais mercadorias da produção capitalista, transições dos tecidos à indústria pesada, aos bens duráveis e a indústria da informação. Tais transições não poderiam ajudar, mas engendrar a total reorganização da sociedade. É por tal causalidade estrutural que o ciclo econômico de longo prazo não pode ser explicado só pela via do registro econômico.

Além disso, para repetir: em termos de princípio, ondas de longo prazo não se diferem dos ciclos econômicos de curto prazo. Em outras palavras, eles deveriam ser vistos como uma parte do processo em que a “composição orgânica do capital” é dramaticamente aumentada. De acordo com esse processo, a economia capitalista entra em um novo estágio. Entretanto, tal novo estágio não vai além do entendimento expresso no Capital – que é, além dos próprios limites da economia capitalista. Sem tal violenta reorganização engendrada pela depressão econômica, a acumulação/expansão do capital não pode ser alcançada. E o capital existe dessa forma apenas quando está se expandindo; ele não é capaz de cessar seu movimento de acumulação. Não se pode analisar esse fenômeno apenas sob o ângulo de uma nação.

Se parece que Marx pega isoladamente a Inglaterra como um país modelo para sua análise no Capital, ele estava, na verdade, se dirigindo ao capitalismo global. Por um lado, por exemplo, ele parece ameaçar o comércio exterior como algo secundário. Ao mesmo tempo, entretanto, ele afirma que o capitalismo não pode existir sem o comércio exterior. Então, no terceiro volume do Capital, Marx escreve sobre a “tendência decrescente da taxa de lucro” e nota que essa tendência pode ser checada pelo comércio exterior:

O capital investido no comércio exterior pode render uma alta taxa de lucro porque, em primeiro lugar, há uma competição com mercadorias produzidas em outros países com menos instalações de produção, tanto que o mais avançado país vende seus bens acima de seu valor, mesmo que mais barato em relação aos países que competem. Assim como o trabalho do mais avançado país é considerado como trabalho de um alto peso específico, a taxa de lucro cresce, porque o trabalho que não foi pago como sendo de alta qualidade é vendido como tal. O mesmo se pode ver em relação ao país, para o qual as mercadorias são exportadas e dos quais as mercadorias são importadas; nominalmente, o último deve oferecer mais trabalho materializado em espécie do que recebe, e ainda receber mercadorias mais baratas do que poderia produzi-las. Justamente como uma manufatura que emprega uma nova invenção antes dela ser usada generalizadamente, vende menos que seus competidores e ainda assim vende sua mercadoria acima de seu preço individual, ou seja, assegura a específica alta produtividade do trabalho que se emprega como mais-trabalho. Assegura-se então a mais-valia. (2001:314-15)

Os trabalhadores ingleses foram capazes de contrapôr-se ao “governo do empobrecimento” que Marx menciona e foram capazes de obter riqueza porque o capital era capaz de extrair mais-valia do comércio exterior. O empobrecimento não foi gerado internamente, mas antes entre os povos do exterior. Assim, é incorreto considerar a mais-valia nos confins isolados de uma nação modelo. A tendência geral de decrescentes taxas de lucro, assim como o movimento contra isso, continua a gerar o aumento na composição orgânica do capital assim como do capitalismo global.

O princípio do comércio exterior como uma rota de escape do “decrescimento na taxa de lucro” continuou a funcionar essencialmente sem modificações nas eras subsequentes. Nos últimos anos de Marx, por exemplo, o “declínio geral na taxa de lucro” se manifestou como uma recessão crônica, e a “exportação de capital” começou. Esse é o estágio do imperialismo do qual Hobson e Lenin escreveram e que no fim das contas levou a Primeira Guerra Mundial. Além disso, a década de 30 testemunhou a criação de blocos econômicos, que levaram à Segunda Guerra Mundial. O período pós-guerra foi caracterizado pela estrutura da guerra fria entre EUA-URSS. Neste caso, o colapso da economia do bloco Soviético atrai mais atenção, mas no lado capitalista também, o Fordismo e a “produção em massa/consumo de massa”, que continuou desde a década de 30, também alcançou seus limites. Ele sucumbiu precisamente à “tendência de declínio na taxa de lucro em geral”. Não se  pode resolver esse problema pela via de políticas baseadas em uma nação isoladamente. Como Marx diz, o comércio exterior é essencial.

O que surgiu neste ponto foram as políticas da “globalização”. Esta foi uma forma de livre mercado que envolveria completamente os países em desenvolvimento e que trabalharia para enfraquecer o quadrante do estado-nação. Ao mesmo tempo, isso produz uma contrarreação. Além disso, a forma do “império” prévia ao estado-nação é revivida em uma forma diferente. Deste modo, a compulsão à repetição imanente à economia capitalista é disposta na compulsão à repetição imanente ao estado-nação. Acredito que no Capital e no 18 de Brumário, Marx desvendou fundamentalmente o princípio dessas compulsões à repetição.

  

Para ler mais sobre este tema, clique aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: