Amílcar Cabral: “Passamos a ser arrastados pela História dos países da Europa”

Por Amílcar Cabral, via Fundação Amílcar Cabral
Camaradas: nova fase surgiu no mundo, em que a escravatura acabou. O mundo ficou transformado com isso. Mas entretanto, na Europa, o capitalismo desenvolveu-se muito, com grandes acumulações de capital, o desenvolvimento industrial, a necessidade de matérias-primas como vos disse, a necessidade de mercados e então alguns Estados europeus mais desenvolvidos resolveram o seguinte: tomar a África de fato, acabar com a história do pequeno comércio, contratos pequenos e respeito pelos africanos.


 

Os Estados europeus, a Inglaterra, a Alemanha, a França e a Bélgica, por exemplo, começaram com rixas para ver quem é que ia tomar a África. Procuraram fazer a partilha de África. Primeiro na base de companhias que foram criadas, depois os próprios Estados, através de guerras coloniais de ocupação. A História é longa, não vou contar tudo, mas assim é que as nossas terras viraram colônias, ocupadas pelos colonialistas.

Mas a partir daquele momento, quer estivéssemos ou não desenvolvidos, avançados, em relação à Europa, a nossa História parou. Passamos a ser arrastados pela História dos países da Europa. A nossa História, a nossa liberdade e a liberdade das nossas forças produtivas foram tomadas, abafadas, pelos colonialistas. Claro que nesse caminho eles tiveram grandes facilidades, porque nós estávamos sempre divididos. Vocês sabem que na Guiné, por exemplo, os tugas lutaram contra nós, um por um, derrotando-nos um por um, raça por raça, e utilizando umas raças contra as outras. Podemos dizer, que se porventura alguns manjacos não ajudassem os tugas contra nós próprios manjacos, talvez fosse difícil os tugas vencerem os manjacos. Podemos dizer que se os fulas não ajudassem os tugas contra os pepéis e sobretudo se Honório Barreto não enganasse os pepéis de Bissau, servindo os tugas, camaradas, talvez os tugas não se tivessem instalado na nossa terra.

Muita gente não conhece bem o papel que Honório Barreto desempenhou na conquista da Guiné, pelos tugas. Honório Barreto, filho de nha Rosa de Cacheu, badia de Santiago de Cabo Verde e de João Barreto, sargento da tropa dos portugueses, preto, nascido na Guiné e descendentes de caboverdianos, mistura de cabo-verdianos com manjacos como aliás dizem que nha Rosa é filha de um cabo-verdiano e uma manjaca, que foi levada para Cabo Verde, nha Rosa, dona de Cacheu e de relações com indígenas de África; desde os lados de Teixeira Pinto, Cacheu, etc. até ao fim de Casamansa, quer dizer, até ao rio que nessa altura se chamava o rio de S. Domingos, que é o rio de Casamansa, hoje em dia. Ela tinha tanta simpatia no meio dos africanos, que tudo o que dizia, era aceite. Ela é que era o dono do comércio praticamente. Seu filho, Honório Barreto, foi educado, primeiro em Cabo Verde e depois em Portugal. Foi aluno da escola de matemáticas em Portugal.

Não acabou os seus estudos, era bom tocador de guitarra, um bocado farrista, voltou para a Guiné, para tomar conta das coisas dos pais. João Barreto tinha sido preso antes, porque fez uma revolta contra o Governo que lá estava, porque ele era democrata, não pela independência, mas a favor de outros portugueses, que eram democratas.

Depois da morte do pai, Honório Barreto, tomou conta das coisas da família, e era o homem mais rico da Guiné. Face à revolta dos papéis — naquela altura a Guiné e Cabo Verde tinham um só governo com sede na Praia — o governador geral de Cabo Verde e Guiné, fez uma proposta para a rainha, que era D.

Maria naquela altura, em que dizia que se ela queria que a Guiné ficasse em paz e que Portugal tivesse força na Guiné a sério, para acabar com as guerras, era melhor pôr Honório Barreto como governador escreveu a D. Maria. Ele diz: Tenho a honra de propor à nossa rainha, para escolher como governador da Guiné, embora sob as minhas ordens, o jovem chamado Honório Barreto, ilustrado, inteligente, com frequência de tal escola, etc., etc., e que é tão português como qualquer um de nós. E aconselho isso, porque sendo ele a pessoa mais rica da Guiné, ele é que tem o maior interesse em conservar a presença de Portugal na Guiné. A rainha viu isso e Honório Barreto foi nomeado governador da Guiné. Honório Barreto estabeleceu um plano de trabalho para a conquista da Guiné pelos tugas: se ele tomasse a sério Cacheu, Geba e Bissau para os tugas, ninguém mais seria capaz de tomar a Guiné e eles podiam dominar todas as revoltas indígenas. Ele viu esse plano muito bem, com inteligência.

Mas quando por exemplo, os portugueses apanhavam raiva dele porque era preto e mandava, ela fazia um grande truque, abandonava tudo voltava para a sua propriedade em Cacheu e fechava-se em casa. Quando os portugueses tinham dificuldades com os indígenas iam chamá-lo para evitar que os pepéis se revoltassem contra eles. Ele voltava. Uma vez por exemplo, o rei de Intim, cujo nome é N‟Dongo, um dos mais fortes reis pepéis, cercou a Amura com a sua gente, a fortaleza de S. José de Bissau. E foi de tal maneira, que os portugueses morriam de fome lá dentro, ninguém podia sair. Os barcos não chegavam a Bissau, Honório Barreto estava em Cacheu e foram chamá-lo. Veio gente de Cabo Verde, tugas que estavam em Cabo Verde para o chamar. Ele aceitou e veio falar com o rei pepel e prometeu-lhe que os seus direitos seriam respeitados, que Portugal não tomaria a sua terra, de maneira nenhuma, e que lhe pagaria impostos, etc. Fez mesmo um contrato escrito. Enquanto isso, foi combinado com os tugas que grandes forças sairiam de Portugal, de Lisboa, para Guiné. Quando chegaram massacraram em grande os pepéis.

Doutra vez, num contrato que Honório Barreto fez, com o régulo de Djeu de Rei, aquele ilhéu diante de Bissau, para não aborrecer os tugas, a promessa seguinte: esse rei não se meteria com os tugas, não lhes faria guerra. Os tugas dar-lhe-iam tantas armas de fogo, tantas barras de ferro e tantos litros de cana, por ano. Isso está num contrato assinado, arquivado em Lisboa, que eu li. Estou a dar-vos uma ideia, de como é que Honório Barreto soube de fato servir Portugal bem.

Com os seus planos, ele conseguiu de fato pôr a Guiné nas suas mãos, entregá-la ou não aos tugas, conforme ele quisesse. Porque naquela altura em que ele tinha a Guiné completamente nas suas mãos surgiram os ingleses e os franceses que também queriam a Guiné. Os ingleses queriam Bolama e os franceses queriam vir de Casamansa para baixo, descer e tomar tudo. Honório Barreto foi um grande “patriota” português. Resistiu com força, não aceitou nenhuma promessa nem oferta que os franceses e ingleses lhe fizeram, guardou a Guiné inteira para os tugas. Os tugas têm razão em pôr a estátua de Honório Barreto na nossa terra. Sem Honório Barreto a Guiné não seria dos tugas. Isso é verdade. Mas nós devemos ter respeito por Honório Barreto. Podemos criticá-lo na sua atitude, mas foi um homem de valor. Para aquela altura, com aquela mentalidade, como indivíduo que saiu do nosso povo, mas que foi educado por portugueses, no meio de portugueses, falando bom português, tocando a sua guitarra, cantando fados, etc., não tinha outra coisa a fazer, senão isso camaradas. Esse era o seu trabalho e ele fê-lo bem feito, portanto era um homem de valor. Podemos hoje, não entender que descendentes de Honório Barreto, por exemplo; como o Alvarenga, (porque a nha Rosa chamava-se Rosa Alvarenga, João Barreto e Rosa Alvarenga deram os Carvalhos Alvarenga, etc., etc., Barreto, toda uma família, duas famílias que se juntaram, formando gente fina da nossa terra, como o nosso camarada Barreto que está aí sentado), mas hoje não podemos entender que algum descendente de Honório Barreto, diante deste fenómeno novo, de luta do nosso povo e da independência da África, a independência de todos os povos do mundo, com as lutas de libertação por todos os lados, possam ainda preferir os tugas. Se Honório Barreto pôde servir os tugas, isso talvez qualquer um de nós preferisse fazê-lo, se tivéssemos a sua educação e se tivéssemos vivido naquele momento da História em que ele viveu. Mas hoje, hoje os descendentes do Honório Barreto, que foram ou não à escola e preferem ainda os tugas; esses já não têm perdão.

Os camaradas viram portanto, de onde é que saímos, como é que caímos nas mãos dos tugas.

Quanto a Cabo Verde, os camaradas sabem, não houve conquista de Cabo Verde. Cabo Verde não são ilhas que foram “achadas” naquela altura, pelos tugas. Depois que eles encontraram a ponta de África, onde está hoje Dakar, e dada a sua verdura, pois na altura em que fora descoberta estava bastante verde, e como é um cabo, quer dizer, um pedaço de terra que entra pelo mar dentro, chamaram-lhe Cabo Verde, a essa ponta hoje chama-se Dakar. Passados poucos dias, avançando no mar, encontraram umas ilhas e como estavam perto do Cabo Verde, cada ilha tomou o seu nome. A que foi descoberta no mês de maio, chamaram ilha de Maio, a que foi descoberta no dia de S. Tiago, foi ilha de S. Tiago, a que tinha o terreno com muito sal, ficou ilha do Sal, outra por ser bonita de longe chamaram-lhe ilha da Boa Vista, etc.; segundo a cristandade dos tugas, segundo a sua maneira de ver. Mas vocês sabem que a região em que está Dakar chama-se Région du Cap Vert. Em Dakar vê-se muita coisa onde está escrito Cap Vert e as pessoas pensam que ali é Cabo Verde, e é por causa disso que vos dei esta explicação.

Em Cabo Verde não havia ninguém na altura em que foi descoberto. Mas há a hipótese de que Cabo Verde tinha gente antes, particularmente gentes da Costa de África, tanto manjacos, como lebus, pescadores lebuns da Costa do Senegal, teriam chegado a ir até Cabo Verde, navegando nas suas canoas e hoje está provado que algumas dessas canoas são capazes de navegar longe como as canoas dos nhomincas por exemplo. Além disso, há hipótese na História de que os fenícios, eram um povo antigo que habitava a terra dos libaneses que nós chamamos sirianos, que é na Ásia Menor, e que fizeram o chamado périplo da África, dizem que passaram em Cabo Verde e que viveram lá.

A verdade é que quando os tugas encontraram as Ilhas de Cabo Verde no meio do mar, não encontraram lá ninguém. E quando a escravatura se desenvolveu, resolveram levar para lá escravos para fazerem de Cabo Verde um armazém de escravos. Quando a escravatura começou a acabar, cada ilha passou para as mãos de um branco importante, um Dom qualquer coisa, como donatário, dono da ilha, que pôs os escravos a serem explorados como escravos ou então explorados depois como criados, como servos na casa do dono da terra. Este foi o ponto de onde partimos, a situação que os tugas criaram em África.

Sabendo bem de onde partimos, temos que saber bem para onde vamos com a nossa luta armada. A nossa luta armada, nós dissemos, é uma forma de luta política, que procura libertar a nossa terra da exploração econômica colonial imperialista. Este é que é o nosso objetivo fundamental libertar as forças produtivas da nossa terra, da opressão, da dominação colonial imperialista.

Mas uma pergunta: Estamos a fazer isso para voltarmos para onde estávamos, para voltarmos para Cabo Verde como escravos, ou como servos, ou com gente servindo como criados?

Estamos a fazer isso para voltarmos ao tempo em que os manjacos e pepéis brigavam muito, em que os mandingas e balantas não se entendiam? Isso é um bocado difícil. Não, nós estamos a libertar a nossa terra para avançarmos como outros povos no mundo, para o progresso, para uma vida de dignidade, para a unidade da nossa terra, nacionalmente, para ajudarmos a levantar uma África nova e melhor. Esse é que é o objetivo da nossa luta, no quadro do mundo, da humanidade, à qual pertencemos como seres humanos.

Na nossa luta, portanto, um tiro que damos no quartel de Buba, ou um tiro que damos num tuga, no caminho ou numa emboscada, é um ato político da primeira grandeza.

Nós estamos a servir a humanidade, camaradas, estamos a servir o nosso povo, a nossa terra, a África, a humanidade. Esta é a nossa responsabilidade ao dar tiros, fazendo guerra na nossa terra, para libertarmos o nosso povo.

Por isso mesmo, temos que orientar a nossa luta armada, da melhor maneira possível, de acordo com a realidade da nossa terra de acordo também com a experiência de outros povos, desde que essa experiência seja válida para nós. Por isso mesmo temos que evitar e evitamos na nossa luta, tudo quanto possa diminuir a dignidade do ser humano.

O nosso Partido proíbe na nossa luta, tudo quanto possa ser crime, tudo que, no nosso espírito, seja ódio, desejo de sangue. Mas fazemos sangue, temos ódio ao colonialista que nos domina, sabendo o que estamos a fazer, claramente, para não confundirmos, camaradas. Por isso mesmo, temos dificuldades com os nossos irmãos felupes para os juntar a nós, porque na sua concepção, quando se mata alguém na guerra é preciso cortar a cabeça e as orelhas. Isso para nós é um bocado difícil. É fácil para os tugas.

Por isso mesmo a nossa guerra é muito diferente de muitas guerras de África, camaradas.


[1] Trecho do “Seminário de Quadros”, realizado em novembro de 1969, palestras proferidas em crioulo e transcritas para português. Durante dois dias, Amílcar Cabral abordou, sistematicamente, quatro tipos de resistência: 1. A resistência política; 2. A resistência econômica; 3. A resistência cultural; e 4. A resistência armada. Dada a extensão das transcrições optou-se por selecionar, apenas, um trecho desta última alocução. O texto foi retirado de Amílcar Cabral, Análise de alguns tipos de resistência, Lisboa, Seara Nova, 1974, pp. 107 a 133.

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