O humor na dialética hegeliana

Por Bertolt Brecht, traduzido pelo CEII.

Brecht nasceu no dia 10 de fevereiro de 1898, e produziu vasta obra teatral e poética, em profunda conexão com as formulações teóricas do materialismo histórico. Abaixo está transcrito trecho do capítulo 11 de “Conversações de Refugiados”, em que o escritor alemão retrata o diálogo entre o intelectual Ziffel e o operário Kalle. Hegel é descrito como “um dos grandes humoristas dentre os filósofos”.


(…)

Ziffel: Falando em humor, eu sempre penso no filósofo Hegel, autor de alguns livros que peguei na biblioteca, na esperança de aprender alguma coisa.

Kalle: Me fale dele. Não tenho educação o suficiente para lê-lo eu mesmo.

Ziffel: Ele tem tudo para ser considerado um dos grandes humoristas dentre os filósofos, comparável somente a Sócrates, que tinha um método similar. Mas ele não teve muita sorte e acabou arranjando um emprego na Prússia, e acabou se vendendo para o Estado. Mas havia uma fagulha nos seus olhos que, até onde posso ver, pertencia aos seus olhos, como um defeito congênito, e ele levou essa fagulha até seu leito de morte sem nunca se tornar consciente disso, sempre dando piscadelas com os olhos, como um outro poderia ter um insistente transtorno motor. Ele tinha tanto senso de humor que não conseguia pensar, por exemplo, na ordem sem a desordem. Era claro para ele que, nas vicinidades diretas da maior ordem reside também a maior das desordens – a tal ponto que ele até mesmo ousou dizer: reside no exato mesmo lugar. Por “estado” ele entendia aquilo que vem a ser no lugar mesmo onde aparecem as mais agudas antíteses entre as classes, de modo que, por assim dizer, a maior harmonia do estado vive da maior desarmonia entre as classes. Ele argumentava conta a ideia de que um é a igual a um, não só porque tudo o que existe irresistivelmente e incansavelmente vira outra coisa – mais exatamente, seu contrário – mas porque nada é idêntico a si mesmo. Como todo bom humorista, ele era particularmente interessado pelo o que acontece com as coisas. A covardia dos corajosos e a coragem dos covardes o ocupavam, assim, como tudo o que contradizia a si mesmo – e, em especial, a volatilidade tudo que vai indo calmamente e pacificamente até que, de repente, explode! Seus conceitos sempre ficavam acomodados numa cadeira de balanço, que parece muito confortável, balançando, até a hora que desmonta e caímos dela!

Quando tive reumatismo, e não podia me mover, li seu Ciência da Lógica. É uma das grandes obras de humor da literatura mundial. É um livro sobre os costumes dos conceitos, essas existências irresponsáveis, movediças e instáveis; sobre como insultam uns aos outros, lutam uns com os outros, com facas, e depois se sentam para jantar juntos, como se nada tivesse acontecido. Eles aparecem, por assim dizer, em pares, cada um casado com seu oposto, e eles trabalham assim, em pares – assinam contratos em pares, processam uns aos outros em pares, atacam e terminam suas relações em pares, escrevem livros e depõe uns contra os outros em pares – pares desunidos e briguentos! Tudo aquilo que afirma a ordem briga – no mesmo movimento, se possível – com a desordem, seu parceiro inseparável. Eles não podem viver nem juntos nem separados.

Kalle: Esse livro lida exclusivamente com esse tipo de conceitos?

Ziffel: Os conceitos de que ele fala são muito importantes. São as alças com as quais podemos mover as coisas. O livro é sobre como podemos intervir nas causas dos processos que ocorrem. Ele chamava o jeitão dessa coisa toda de dialética. Como todo grande humorista, ele falava tudo isso com uma expressão completamente séria. Aliás, onde foi que você ouviu falar dele?

Kalle: Na política.

Ziffel: Essa também era uma de suas piadas: que os grandes revolucionários se reconheçam como pupilos do maior defensor do Estado. A propósito, isso mostra que eles também têm ótimo senso de humor. Nunca conheci alguém sem senso de humor que entendesse de Hegel.

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