Entre Psicanálise e Marxismo: uma radical intersecção

Por Rodrigo Gonsalves

Dos encontros e desencontros entre a psicanálise e o marxismo, um dos episódios mais recentes se deu entre dois renomados pensadores franceses: Jacques Alain-Miller e Alain Badiou, que trocaram cartas publicas sobre o assunto. O episódio demonstra como ainda hoje se faz necessário refletir sobre a profundidade dos efeitos dessa relação e a radical consequência do que está sendo disputado dentro deste campo do conhecimento. Abaixo seguem as cartas de Miller e Badiou, futuramente serão publicadas as demais.


Ao longo da década de 60, especialmente de seu meio até o final,  Paris experimentava um momento acadêmico extremamente rico.  Explorações de diversos campos do saber fervilhavam na procura de novas possibilidades interpretativas para seus próprios domínios e diante desta busca, pudemos acompanhar também algumas apostas, vimos alguns flertes inéditos, alguns diálogos interdisciplinares sendo oxigenados e outros sendo corajosamente experimentados.

É deste frenesi epistêmico que localizamos o berço, o amadurecimento e o ponto de virada, de muitos dos pensadores que hoje são consagrados em seus campos de pesquisa. Um exemplo que materializa este momento específico vem do jornal Cahiers pour l’Analyse que, editado por um grupo de jovens pensadores formados pela École Normale Supérieure (ENS) de Paris, deixou como fruto de seus trabalhos um legado significativo para a Filosofia e Psicanálise dos dias atuais.

Inspirados por Canguilhem, pela orientação psicanalítica de Lacan e pelo anti-humanismo de Althusser, seus professores durante este período, vimos nas páginas deste jornal surgirem inquietações, proposições e marcantes reflexões endereçadas à questionamentos centrais de suas áreas, como: “qual é diferença entre ciência e ideologia? Até que ponto a dimensão do sujeito é excluída do discurso da ciência? Quão longe podem formas de análise desenvolvidas por aproximações modernas da lógica e da matemática, também serem aplicadas para domínios do discurso, significação e do inconsciente? Qual é a relação entre teoria e verdade e, entre teoria e prática política?”[1]  Tal orientação de trabalho guiou estes jovens e o resultado de seu empreendimento é nítido e cada vez mais, necessário, uma vez que algumas destas antigas questões se intensificaram e muitas destas conhecidas inquietações, se tornam praticamente emergenciais dentro do pensamento de suas respectivas áreas.  E foi desta maneira que os jovens Alain Badiou, Jacques-Alain Miller, François Regnault e Jean-Claude Milner, entre 1966 e 1969, marcaram com o rigor da lógica e da formalização, implicações que ainda hoje desafiam o saber-fazer de seus campos.

Entretanto, após aproximadamente 44 anos desta época, foi com a publicação de Conceito e Forma: Segundo Volume[2] pela Editora Verso, um compendio que re-editou os textos centrais do jornal e desta maneira, o perpetuou, porém somado a novas contribuições, visando estender tais desenvolvimentos, conseguiu com a publicação de seu Segundo Volume, provocar um outro tipo de discussão. O passar dos anos desde o lançamento do jornal até os tempos atuais, marcaram um antagonismo fundamental entre Jacques-Alain Miller  e Alain Badiou. Um posicionamento politicamente basal, que toca em especial nos problemas da ética em psicanálise.

As diferenças entre os pensadores, que foram se estabelecendo no caminhar do tempo, encontram sua raiz no projeto de repensar a psicanálise diante de problemas da atualidade, se valendo de aportes teóricos do marxismo (uma das propostas do próprio jornal). Mas o desfecho desta proposta é diametralmente antagônico entre os pensadores, uma vez que Jacques-Alain Miller, mesmo ainda se valendo das ferramentas teóricas do marxismo, abre mão das conseqüências radicais desta utilização, enquanto Alain Badiou, é justamente, aquele que denuncia as implicações deste abandono. E, desta discussão muito mais densa e delicada, mas certamente fundamental para a Filosofia e Psicanálise atual, temos aqui a tradução das cartas trocadas entre ambos e o convite para a reflexão das conseqüências éticas deste debate.


J.A. Miller: Carta aberta à Peter Hallward.

Paris, 26 de Fevereiro de 2013.

Prezado Peter Hallward,

Muito obrigado por me encaminhar duas volumes da belíssima edição de Cahiers pour l’Analyse.

Eu as recebi quando me encontrava profundamente envolvido numa campanha de opinião-pública, tentando libertar um colega iraniano Dr. Mitra Kadivar, internado num hospital psiquiátrico em Tehran.

Mesmo assim, eu consegui ler o Segundo Volume, parte por parte. Eu o terminei há dois dias atrás. E sorri bastante. Depois, menos.

Eu poderia ter esclarecido alguns episódios menores. A querela sobre a “Causalité métonymique”  é ainda apaixonadamente discutida depois de meio século. E “Suture”. Incrível!

Às vezes, parece que estou morto, e todos podem dizer o que querem de um pobre morto, sem defesa enquanto ele deita sobre o chão como un rat mort (um rato morto). Mas eu não estou com meu corpo. Entramos na morte, como num moinho «On entre dans un mort comme dans un moulin», como dito no famoso Flaubert de Sartre. Lendo o volume Segundo, eu senti ser aquele moinho. Não se esqueça caro Peter, meu nome é Miller. Moinhos e ventos sempre foram importantes para mim. Uma divindade dos ventos por Albrecht Dürer é o símbolo que dei para a Associação Mundial de Psicanálise. Se posso lhe dizer prontamente de onde isso veio, e ninguém mais pode, você saberá que eu escolhi e ninguém mais. É Africanus, da Weltkarte de Johannes Satbius, o humanista austríaco e cartógrafo que Dürer ilustrara. Entendeu?

O mesmo com «Causalté métonymique» (Causalidade metonímica). Não, não era conhecimento comum entre nós, não era uma invenção coletiva ou, apropriação delirante de um jovem convencido. Naquele tempo, preparando para a agrégration (agregação)[3] em filosofia, eu vivia no interior, numa vila chamada Clairefontaine, próximo de Rambouillet, imerso em meus livros de filosofia, e aprendendo grego. Meu pai queria que eu aprendesse espanhol além do inglês, ao invés de grego (no sistema francês daquela época, você não podia aprender grego se aprendesse latim e duas línguas vivas). Eu havia desistido de fazer parte do Lire le Capital (Ler o Capital), por várias razões, uma delas sendo que tinha a intenção de me concentrar para me preparar para a agrégration, que outros já haviam passado, e mesmo sendo eu o mais novo, por pelo menos três anos em relação à estes.

Então neste ano, eu vi muito pouco os meus preciosos amigos. Ia a Paris uma vez por semana, toda quarta, comparecia aos Seminários de Lacan, para preparação do agrégation com Derrida e para transar com minha jovem amante – aquela mesma garota da qual Althusser se refere quando veio me visitar certa vez naquele ano em Clairefontaine, com a pobre e triste Hélène. Ele tomou seriamente o que lhe disse acerca dessa belíssima menina que colhia flores do jardim: “Ela inventa um conceito por dia”. Ele era completamente louco, como mostra seu comentário desta sentença em seu livro O Futuro dura muito tempo (L’ Avenir dure longtemps). Eu sou um porco.

Eu ainda amo você, querida A*. Sua irmã me disse que você me odeia desde que me casei com Judith um ano depois disto, apressadamente, quando ela engravidara de Eve. Você é o meu remorso. Eu ainda me lembro da mancha vermelha em minha cama na rua d’Ulm.

Há muito pouco sexo em suas entrevistas com o povo normalense. Vamos deixar as coisas mais quentes. Nossos predecessores existencialistas eram menos puritanos. Alguns de nós éramos monges. Badiou não era. Nem eu. Eu apenas sentia isso, para ser um pensador sério, você tinha de permanecer solteiro e não ter filhos. Então, eu me casei com 22 anos de idade – dia 12 de novembro de 1966 e fui pai aos 23 – em 29 de maio de 1967. Então foi por isso que nunca amadureci para me tornar um pensador sério, mas me mantive um brincalhão normalense curtindo pregar peças como preparação para me tornar um praticante da psicanálise.

Se na época em que Althusser escreveu uma resenha especial acerca da “Causalidade Metonímica” no comecinho do Lire le Capital (Ler o Capital) – aquele pedaço desapareceu das edições subsequentes –  é porque, naquele momento, todos admitiam minha colocação. Mas mesmo assim, não se tratou também de um roubo.  Eu nunca contei a história toda publicamente durante aquele tempo. Cinquenta anos depois, o episódio é inacreditavelmente quente. E você o faz com seu Segundo Volume.  Irá o principal culpado se levantar dentre meus amigos e contará a história? Ou devo eu mesmo fazê-lo?

Eu me recordo muito bem que você me convidou inúmeras vezes para responder seus questionamentos e também me convidou para seu colóquio. Eu em momento algum lhe dei mandei embora. Tiemo Danaos et dona ferentes (Temo que carregam presentes de grego). Eu temia o por-vir da História. Eu sentia que não era um do passado, mas um do futuro. A geração do próximo ano. Deixem os mortos enterrarem os mortos. Porque voltar a vida empoeirada e sombria dos meus vinte anos, magro e esbelto, cheio de cabelo, e quase que “traînant tous les cours après soi” (arrastando todos os corações atrás deste). Roland Barthes estava apaixonado por mim. Tão desapontado ele estava que quando lhe disse que amava garotas. “E desde quando você é assim, Jacques-Alain?” Gloria me disse que certa vez, eu fui à rua Lille com um dos meus melhores amigos de Ulm, ela nos anunciou à Lacan dizendo: “As duas bichas (pédés) estão aqui”.

Não, eu não queria confessar publicamente a minha história na Middlesex. Não beneficiaria um analista. Mas eu não posso também dar às costas ao jovem Miller, quando o vejo sendo mal interpretado. Na maior parte do tempo, meus velhos amigos de 50 anos atrás o fazem por ignorância, por não saberem como o truque fora feito. Só algumas vezes havia malícia, mas uma palavra se destaca: renegado.

Meu bom amigo Badiou, cuja entrevista fecha o segundo volume me conta como um dos “renegados”. Isso, eu não irei tolerar.

Você encontra a palavra na primeira linha da ultimíssima página do Volume II, p. 290. É o ponto de partida “la flèche du Parthe”, o “point de capiton” de todo o empreendimento.

“Eu me oponho, Vossa Excelência” (Your Honour) E pergunto: Há honra em Alain Badiou?  Isto é o que veremos. Isto é o que iremos testar. Este será o teste crucial da vida, dos feitos e desfeitos de Badiou.

Alguns anos atrás, quando Badiou odiava Milner e Milner odiava Badiou, eu convidei ambos para contribuir num pequeno livro sobre Lacan, que eu buscava publicar. Milner, disse sim. Badiou e Žižek, meu ex-analisando – disseram não. Badiou, me procurando novamente tentando ser “l’ami de tout le monde” (o amigo de todo mundo). Sim. Eu tentei ser o link entre eles, apesar deles mesmos. Mas não mais. Eu me sinto corrompido e traído. Eu não vou mais aceitar. Como Peter Finch, “o profeta maluco das ondas televisivas” entoa em Network, “Eu sou louco como o inferno, e não irei mais tolerar mais isto.” Adeus, Badiou! E você não escapará do meu aperto, meu aperto intelectual. Bas les masques! (Tire a máscara!) Abandone o fingimento!

Ontem à tarde, segunda, dia 25 de Fevereiro, enquanto Regnault não recebeu – não sei como? – os 2 livros, eu lhe dei uma fotocópia de sua e da entrevista de Badiou. Somado à outra fotocópia de outra entrevista que Badiou deu à um autor francês, Eric Hazan[4], onde a  coisa renegada mostra sua cabeça: JAM é uma vira-casaca. JAM e seu irmão Gérard são Rastignac. Eles apenas buscavam poder. “Essas pessoas” (ces gens) eram desonestas. Etc.

Quem é você, Badiou, para falar de mim e de minha família – Gérard é única família que possuo de minha infância – nesses termos? Palavras têm algum significado para você? Eu lembro de uma vez em que você me disse: “Eu escrevo como escovo meus dentes”. Eu fiquei tão impressionado naquele momento.  Essa foi uma declaração verdadeira. Mas mostra, Badiou, mostra que você escreve como alguém que estava escovando seus dentes. Mas para escová-los, você precisa tê-los, certo? O duelo é uma tradição antiga da aristocracia. Se eu puder lhe mandar a minha testemunha, eu o faria. Mas o faço intelectualmente, somos ambos intelectuais.

Isto será uma luta intelectual até a morte.  Ou você se arrepende, ou eu irei arrumar todas as coisas e eu mesmo, providenciarei os detalhes.

A carta que mandei para Regnault ontem à noite está agora circulando a internet, pelos canais do Campo Freudiano. Caro Peter Hallward, eu estou disposto a me sentar com você para uma entrevista estendida sobre Cahiers pour l’Analyse. Navarin/ Le Champ editor freudiano ira financiar nossa reunião, e a publicará em francês. Se lhe interessar, a Verso poderá publicar em Inglês. Esse livro terá traduções em espanhol, italiano, português e russo.

Você ainda está interessado em Cahiers pour  l’Analyse e o meu papel nesta mesma? Se a resposta for sim, sou o seu homem.

Seu, com estima e expectativa.

Jacques-Alain Miller.


Alain Badiou: Resposta a Miller.

Paris, 1º de Março de 2013.

Caro Jacques-Alain,

Obrigado por me enviar a carta que você enviou para Peter Hallward com sua “confissão de um renegado”.

“Renegado” não é um insulto, é uma descrição. É claro para qualquer pessoa que viveu e pensou como você entre 1969 e 1972, e que hoje caminha de mãos dadas com a panelinha de Sarkozy, mesmo fazendo isso em nome de sustentar o comprometimento de uma escola lacaniana ao nojento e paradoxal apoio às expedições na Líbia e seu apreciador Bernard-Henri Lévy, é um renegado do esquerdismo, para não dizer nada sobre o maoísmo.

Porque então você se ofende com essa descrição? Ao meu ver, parece que você prefere se orgulhar disto e se defender como tendo se renegado no Mal em favor do Bem. Você poderia até chamar isto de Conversão Moral.

Digamos assim: O que é Conversão para você é Renegação para mim. Seu ponto de vista, além do mais, é o mesmo da maioria de seus contemporâneos, ao menos, tão longe quanto se preocupam os intelectuais. A extrema minoria, que sentia e se sente insultada – por ter recusado se renegar – sou eu e não você. Eu, vivi com isso já por um longo tempo.

Você duvida se as confissões de um renegado seriam prioridade de leitura para mim. Mas eu lerei o seu panfleto um dia, até mesmo, com interesse.

Sobre um debate, nem pense nisso. Eu certamente não debateria com um renegado.

Atenciosamente,

Alain.


[1] Link: http://cahiers.kingston.ac.uk/overview.html

[2] Concept and Form: Volume I and II pela VersoBooks (2013), que justamente trazia os textos teóricos centrais do Cahiers pour l’Analyse e também, entrevistas e textos novos sobre os desenvolvimentos do jornal.

[3] Preparação acadêmica para atribuição de aulas em Filosofia, de acordo com o currículo de ensino francês. (NT)

[4] Esta entrevista foi publicada originalmente na língua francesa por Eric Hazan, Changement de propruétarie. Paris, 2007.

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