Na hipótese de derrota, a derrota na hipótese

Por Clarisse Gurgel

Desde o primeiro mandato de Lula, o Judiciário tem sido o reduto da direita, com destaque especial ao STF. Esta conformação era a que restava ao empresariado que teve seus quadros e seu projeto de flexibilização do Estado desgastados, ao fim do mandato FHC, com ministros fugindo de mandados de prisão. A transição teria de ser para algum nome que fosse capaz de dialogar com a classe trabalhadora e que tivesse de concreto uma base social de trabalhadores. Neste sentido, alguém que contivesse os trabalhadores no duplo sentido do termo: de conter em termos de possuir, de conter em termos de impedir. Alguém, portanto, que carregasse em si, positivamente e negativamente, um caráter proletário.


Lula, quando eleito, encaminhou a agenda neo-liberal. Mas, como quadro político qualificado no dia-a-dia do ABC paulista, o fez articulada com ações dirigidas às três camadas sociais, em termos de estrutura das classes. Os pobres tornaram-se classe C, graças, especialmente, ao Programa de Bolsa Família e a políticas de crédito. A classe média estabilizou-se, em parte, através de concursos públicos e primarização de setores do Estado, antes terceirizados. Os ricos bateram recordes em lucros estratosféricos, tendo o Estado como parceiro através de isenções fiscais, PPPs, OSs e reformas como a da previdência e a trabalhista. Lula, além disto, era um militante engajado na produção de consensos entre setores da classe trabalhadora e setores do empresariado. Mantinha ativo o Conselho de Desenvolvimento Social e Econômico e sua influência sobre a CUT e o MST, por exemplo, preservava-se estreita e orgânica.

Quando o governo Lula caminhava para o fim de seu segundo mandato, prenunciava-se um vazio, em termos de quadros políticos capazes de ocupar seu lugar. Este vazio carregava nele mesmo algo de determinado pela própria figura de Lula como insubstituível, em termos de representação imediata e em termos de efetividade. Aquela capaz de conter a classe trabalhadora.

Naquela ocasião, alguns nomes transitaram no imaginário da esquerda: Tarso Genro, Mercadante… A indicação do nome de Dilma demonstrava minimamente duas coisas: 1. o PT como um partido que já consolidava a separação entre atividade na máquina administrativa e atividade interna, dado que a candidatura não reproduzia a realidade das disputas entre as diversas correntes petista; 2. A confiança no legado de Lula como o maior eleitor do Brasil. Em síntese, testemunhávamos uma conjuntura em que o maior partido de esquerda da América Latina perdia, ainda mais, capacidade de intervenção no governo, ao mesmo tempo em que, nele, fortalecia-se uma burocracia mais bem estruturada e verticalizada, centrada na figura de um indivíduo singular. A vitória do Lulismo sobre o petismo.

A eleição de Dilma vem acompanhada, mais tarde, da eleição de um dos parlamentos mais conservadores dos últimos anos. Em grande medida, como expressão do transformismo das Jornadas de Junho e da centralidade de pautas como de segurança pública e religiosas. O tema da corrupção surge como bandeira central, nos marcos de uma criminalização da política e de um desgaste de instituições como partido e sindicatos.

Eleita, Dilma se abstém de manter ativo o Conselhão produtor de consensos intra-classes, fecha os cofres para novos concursos e avança no processo de reforma do Estado, sem, porém, contar com a adesão leal e orgânica de setores da classe trabalhadora. Nem mesmo o Lula era um parceiro estável. Assim, seu desgaste, que tinha como cenário concreto a crise de circulação iniciada em 2008, torna-se tática preferencial para o deslocamento da ação política para o parlamento. Dilma, atacada pela direita, conduziria os trabalhadores para o seu lado e, da oposição que se produziria, desdobraria-se o apoio: os trabalhadores contidos deixavam os deputados da turma do Cunha mais liberados, mais ativos na execução – e o termo é cirúrgico – da agenda neo-liberal.

O único inconveniente de Dilma torna-se sua especularidade, através de Lula, a ameaça do eleitor principal retornar como eleito, em 2018. Encaminhar as reformas e impedir a dinastia do PT apresentam-se, assim, como tarefas centrais de setores do empresariado. A questão passa a ser em que medida este mesmo empresariado pode dispensar um quadro que contenha a classe trabalhadora. Algo que Lula parece não ser mais capaz, haja vista os obstáculos que CUT, MST e demais vêm enfrentando para manter seus filiados e militantes fiéis ao governo.

Neste sentido, situaríamos a derrota que estamos presenciando naquele ponto de virada em que uma Era se encerra. Mas a questão passa a ser quanto à natureza deste encerramento: pois se entendemos que, de fato, um quadro politico que contenha os trabalhadores se tornou dispensável, somos levados a constatar um avanço estrutural do projeto capitalista que dispense atores capazes de diluir tensões. Mas se não, se este quadro político ainda se faz necessário e apenas o Lula é que não mais cumpre o papel a ele exigido, a conjuntura aponta para: 1. uma possível superação da crise de quadros na direita, o que é pouco provável; 2. para a relevância significativa que ainda possuem o imaginário e o conteúdo simbólico de esquerda, algo duvidoso; 3. e para impasses ainda por serem vividos pelos conservadores no encaminhamento de medidas impopulares, sem um escudo popular. Neste último caso, medidas como as que FHC adotou, de oficializar a espionagem em movimentos sociais pode servir de amostras do que virá.

Mas a superação da Era Lula traz nela mesma um fenômeno de absorção indubitável: algo é apropriado deste imaginário de esquerda desde que ele mesmo seja jogado fora. Estaríamos tratando de um processo de suprassunção por subsunção. Lula só deixa de ser o grande eleitor do Brasil quando o fator que o fazia assim é radicalizado ao máximo: quando sua habilidade em negociar, forjada, principalmente, na luta de classe sindical, é sobredeterminada por sua essência material, a lei do valor. É aquilo que possui de negatividade e de positividade em Lula que o torna, hoje, uma alternativa ao capital, no tempo que o capital decidir. Trata-se de uma afirmação que traz em si sua negação. É quando Lula torna-se equivalente a “todos da política” que Lula pode ser incluído pra ser excluído. Não sem razão, em uma de suas performances, diante da condução coercitiva, Lula brincou que, para poder atuar livremente, bastaria filiar-se ao PSDB. Não porque sendo psdebista ele seria petista livremente, mas porque, como psdebista, ele seria livremente psdbista.

Disto que estamos diagnosticando como suprassunção – do capital – pela subsunção – do trabalho -, caminhamos na direção de supor que a derrota está, em especial, no fato de o capital já possuir ou recuperar alguma capacidade de negar o trabalho, preservando-o. Na dimensão estritamente econômica, isto ainda parece impossível, dada a tendência decrescente das taxas de lucro – tal como Marx já sinalizava – e a própria crise cíclica de circulação. Desta suposição, o lugar da derrota parece estar mais situado no campo da subjetividade política, naquilo que corresponde aos princípios e valores que Lula veiculava, ainda que meramente como representação imediata e como, portanto, contrário a eles em efetividade. A sobredeterminação, neste caso, do político como caracterizador da derrota da esquerda explica-se pelo fato de que ambos, governo e oposição, conduziriam a aprovação da agenda neo-liberal. O tempo e as condições desta condução é que parecem ser o diferencial.

Muitos certamente, ao verem Lula sendo conduzido coercitivamente por ordem do Juiz Moro, recordaram-se da imagem antiga do Lula, sendo preso, em 1980. Lula, na época, presidente do sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, foi mantido preso por ir contra a ordem, através da luta, em plena ditadura, por liberdades e melhores condições de trabalho. Tratava-se de um quadro atuante em greves massivas. De centenas de operários. Hoje, Lula tem mandado de prisão decretado por ir na lógica da ordem. Suas acusações são de apropriação do dinheiro público. Algo que, em sua versão legal, é equivalente à expropriação pela atividade empresarial: apropriação individual do trabalho socialmente produzido. Se a criminalização da política e de Lula se dá por via da figura da corrupção, é ela própria que cria condições para a generalização de sua versão legal, no campo econômico. Afinal, o ponto está em sobre qual corrupção estamos falando. E não é o judiciário que condenará Lula, em sentença. É a classe trabalhadora que já faz justeza em atentar para um Lula corrompido: Paz e Amor, curvado diante do prédio da FIESP. Por esta razão, na hipótese de derrota, a derrota está na hipótese. Porque a condenação de Lula já está contida na sua própria acusação.

Diante da possibilidade de imprimirmos certa atenção à dimensão subjetiva da derrota que estamos testemunhando, a questão passa por saber qual será aquele sujeito – coletivo – capaz de preencher o lugar de uma esquerda que preserve sua essência classista, fiel aos interesses de suas bases. Neste sentido, mantemo-nos no mesmo terreno e somos desafiados a enfrentar o tema da essência de esquerda. Aquela que também “contém” a classe trabalhadora.

Lula se forjou como quadro, pelo processo histórico de determinar-se a partir da confrontação com o capital. A tarefa da esquerda, daqueles que ocupam o lugar de oposição de esquerda ao Governo, torna-se, pois, enfrentar dilemas acerca desta derrota subjetiva encarnada na desfiguração de Lula. Uma das perguntas a serem feitas é sobre qual momento e sob que roupagem o imaginário socialista, encarnado na figura de Lula, transitou de projeto possível para necessário e dispensável. O significado destes termos e desta transitoriedade é algo a se investigar com minúcia, pois é o que força os socialistas a uma lealdade também no que há de impossível em seu projeto. Tal desafio implica em assumir pra si o exercício de lidar com a contradição de que a esquerda também se determina através da luta por uma indeterminação contrária à determinação pelo capital. Dizer isto é encarar de frente o fato de que a luta contra os limites burgueses traz nela também seus próprios limites.

De qualquer modo, é esta esquerda que agora é convocada a recuperar um projeto por ser construído e que tem como parâmetro a emancipação do ser genérico, de um ser cuja essência é não possuir essência. Deste modo, se a negatividade em face do capital engendra uma força de indeterminação e de libertação, há que se pensar em uma indeterminação diferenciada que permita à esquerda revolucionária conter os trabalhadores sem contê-los. Algo que requer a disposição para a auto-crítica e para o diálogo fraterno e sereno entre os militantes, na contramão de práticas que, pra si, é, por si, nos marcos socialistas, corrupção: mesquinharia, sectarismo e fratricismo.

Assim, quem sabe, para os socialistas se levantarão outras hipóteses.

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