A Nova Revolução Sexual

Por Jenny McCartney, via The Spectakor , traduzido por Matias Vale

Em artigo de outubro de 2015, Jenny McCartney reflete sobre a atualidade da questão de gênero e a problemática da identidade sexual. “Se a fluidez de gênero esteve sempre conosco, alguns traços

dessa nova revolução parecem flertar mais com a censura do que com a liberdade. Se no passado a flexibilização de gênero significava desafiar rótulos, hoje, tornou-se frequente sua proliferação. Gênero tornou-se terreno para uma nova onda de políticas identitárias.”


A primeira coisa que você tem que saber sobre a nova revolução sexual é que ela não está sendo feita, ela está sendo falada. Prender-se a termos como gay, hétero ou bissexual – o que até então você acreditaria que daria conta da maior parte daquilo que você precisava saber sobre a orientação sexual de uma pessoa – é aderir a uma visão “binária” de sexualidade. Rapidamente está se tornando o equivalente a andar por aí de bombachas e monóculos, uma maneira fora de moda de entender o desejo humano.

Atualmente as pessoas – sobretudo adolescentes e aquelas nos seus vinte e poucos anos – estão se declarando “pansexuais”, “gênero fluido” e “genderqueer”, o que significa que elas não querem ficar confinadas com a velha galera aborrecida que tem uma visão “preto no branco” sobre atração e gênero. Peguemos o exemplo de Miley Cyrus, a cantora pop antes conhecida como a estrela infantil da Disney Hannah Montana. Até pouco tempo atrás, a jovem adulta Miley poderia ser facilmente definida como uma exibicionista berrante. Em uma memorável ocasião em 2013, suas sugestivas reboladas com uma mão de espuma gigante intimidou até mesmo o astro pop Robin Thicke: próximo a Miley no palco do Video Music Awards, ele foi gradualmente assumindo a postura de uma ansiosa viúva vinda de Edimburgo.

Então, no último agosto Miley saiu do armário como “pansexual”: definindo-se como atraída “por pessoas de qualquer sexo ou identidade de gênero”, incluindo as que são “transgênero” ou “genderqueer”. Uma pessoa transgênero, como muitos de nós sabemos, é alguém que não se identifica com seu sexo biológico e deseja unir suas formas corpóreas com seus anseios – por exemplo, Caitlyn Jenner, atleta norte-americana aposentada que ora foi conhecida como Bruce ou Kellie Maloney, originalmente o promotor de boxe Frank Maloney. Embora ambos tenham sido homens e tornando-se mulheres, o caminho oposto também pode ser traçado.

No entanto, por vezes, indivíduos querem sair de um gênero e não necessariamente chegar a outro, permanecendo em uma terceira via: “não-binários e genderqueer”. Tais pessoas dizem que ora eles se identificam como homens, ora como mulheres; ou ainda elas nunca se sentem nenhum dos dois e permanecem em um espaço entre os dois gêneros. Algumas pessoas “genderqueer” insistem em ser chamadas de maneira pronominal neutra ao invés de “ele” ou “ela”. A maneira educada de se agir quando em dúvida é perguntar antes de tudo: Qual pronome você prefere?

Se Miley é potencialmente atraída por homens, mulheres, pessoas trans e ”genderqueer” ela não está só. A modelo do momento, Clara Delevingne, está atualmente namorando St. Vincent – nome de nascença: Anne Clark . Uma musicista e compositora vanguardista, St. Vincent é de uma beleza delgada e etérea, como uma herdeira de David Bowie em seus anos de Ziggy Stardust, e diz: “Eu acredito em fluidez de gênero. Eu não me identifico como alguma coisa”. Há também Ruby Rose, a modelo australiana e estrela da série The Orange Is The New Black, que combina um rosto surpreendentemente belo com um corte de franja e braços repletos de tatuagens. Rose, que é lésbica e se descreve como “gênero bastante fluido”, tem arrebanhado legiões de pessoas apaixonadas, sobretudo mulheres heterossexuais que admitem publicamente em mídias sociais que “eu seria gay pela Rose Ruby”. Diversas lésbicas desaprovam, argumentando que orientação sexual não é algo como uma peça de roupa que você tira e põe quando bem entende. De acordo com a pesquisa feita pela empresa YouGov, aproximadamente metade das pessoas britânicas entre 18 e 24 anos não se consideram exclusivamente gays ou héteros.

A moda mainstream está focada nisto. Nesta temporada, a marca Fendi escolheu a musa da costura Amanda Harlech como o rosto de sua coleção masculina. Harlech é retratada a cavalo, com um bigode preto parecendo um filho perdido de Salvador Dalí. A diretora criativa da seção masculina, Silvia Venturini Fendi, sugeriu que vê em um futuro próximo a mistura com a seção feminina: “Sem mais classificações, sem mais divisões, sem mais rosa para garotas.”.

E isso é novidade? Definitivamente, não. Se toda geração pensa que inventou o sexo, o mesmo ocorre com a androgenia. Sempre há aqueles que por várias razões se preocupam em fugir das restrições impostas pela biologia. Essas figuras estão presentes na mitologia e na arte, seja na figura do deus grego Afrodito – com vestes e formas de mulher, exceto por seu discreto pênis –, seja nos elencos travestidos de Shakespeare. Em algumas épocas esse comportamento representou um risco às autoridades: os inimigos políticos de Joana D’Arc valeram-se de seu hábito de se vestir como homem para levá-la à execução.

Outros tempos se mostram mais indulgentes. A poeta Natalie Barney, por exemplo, – talvez a coisa mais interessante que Dayton no Ohio conseguiu produzir – era de certa maneira uma precursora da juventude de gênero fluido de hoje. Natalie fez parte da Paris fin-de-siècle como uma lésbica abastada e aventureira que publicamente denunciou a monogamia (apesar de ter uma amante de longa data, a artista Romaine Brooks, que se valia ainda mais do vestuário masculino). O salão literário de Natalie perdurou timidamente por 60 anos, já em matéria de sedução ela era bem mais desenvolta: em 1899, uma jovem Natalie se interessou pela famosa cortesã francesa Liane de Pougy. Vestindo-se com uma fantasia de página, apresentou-se à porta da casa de Liane como “uma página de amor” enviada por Safo. Liane escreveu um romance best-seller sobre seu romance com Natalie.

Se a História é uma série de reações, podemos entender por que tantas jovens mulheres nos dias de hoje buscam refúgio na androgenia. Na primeira década deste século a feminilidade descambou em uma paródia de si mesma: os ditames sobre glamour beiram à tirania. Somos testemunhas da expansão e popularização dos seios cirurgicamente inflados, bronzeados falsos, preenchimentos faciais, bombas a vácuo para lábios, extensões capilares, cílios semipermanentes, verniz para os dentes e saltos altos oscilantes. Garotinhas são banhadas em glitter, lustradas com brilho labial e criadas em seções de lojas de brinquedo onde tudo possui o mesmo tom rosa-choque. E assim como alguns homens – repelidos, talvez, pelo machismo – são atraídos para as luzes brilhantes desse parque temático feminino, algumas mulheres estão decidindo que o caminho mais seguro é o de fora, calçando um par de botinas.

Se a fluidez de gênero esteve sempre conosco, alguns traços dessa nova revolução parecem flertar mais com a censura do que com a liberdade. Se no passado a flexibilização de gênero significava desafiar rótulos, hoje, tornou-se frequente sua proliferação. Gênero tornou-se terreno para uma nova onda de políticas identitárias.

Um ingrediente foi a ascensão do ativismo transgênero organizado. No momento em que organizações gays e lésbicas ganhavam influência política e reconhecimento social, muitas pessoas transgênero se sentiam isoladas deste processo: elas eram ridicularizadas e tinham que lidar sozinhas com o preconceito contra elas (um estudo do ano passado descobriu um dado preocupante: 48% das pessoas trans de até 26 anos tentaram se suicidar). É mais do que patente que a sociedade ainda está distante de um tratamento digno a estas pessoas. Algumas das mulheres trans com quem conversei me contaram que é comum pessoas totalmente estranhas questionarem-nas a respeito de sua genitália.

No entanto, discussões sobre sexo e gênero têm crescido cada vez na forma de facções. Em campi universitários e nas mídias sociais se criou não só uma nova utopia de tranquila tolerância, mas disputas claustrofóbicas sobre terminologia e crimes de pensamento. Em um clima de competição de vitimismos, no qual a frase-chave é “reveja seus privilégios”, há uma batalha sobre quem pode reclamar de sofrer as piores opressões.

A pretensão de ser alguém terrivelmente incompreendido tem exercido um fascínio entre mulheres estudantes jovens e inteligentes. Um exemplo, Fabiana Khan escreveu recentemente para Independent sobre sua “pansexualidade”. Ao final de seu artigo, ela notou que praticamente só saiu com homens. É ultrajante que algumas pessoas duvidem de sua pansexualidade, em suas palavras, pois “eu sou atraída por todos os tipos de pessoa”. Parece-me que a Srta. Khan é pansexual da mesma maneira que eu resido em Ulan Bator. Apesar de eu nunca ter visitado esse lugar, gostaria de conhecê-lo a qualquer momento. Então, novamente, tal tipo de interpretação faz com que eu me sinta desatualizada: identidade já não é mais sobre o que você faz ou é, mas sobre como você se sente.

Ativistas transgênero e seus apoiadores usam o prefixo “cis” para descrever aquelas pessoas que se identificam com o sexo com que foram designados ao nascer, falando de um “privilégio cis”. Algumas feministas radicais, entretanto, ressentem-se do termo “cis” e contra-argumentam que, na realidade, são mulheres trans que nascem sob o privilégio masculino. Quando Germaine Greer falou em Cambridge Union no começo deste ano, ela teria dito com sua franqueza habitual que mulheres trans não sabem o que é ter “uma grande, gorda, peluda e fedida vagina”, e argumentou contra o “uso antiético” da cirurgia de transgenitalização. Um boicote à palestra de Greer foi organizado por Em Travis, primeiranista de Cambridge, que condenou a decisão de convidar “Germaine Greer, uma transmisógina sem culpa”.

Travis se descreve como “trans não-binária” apesar de ser “principalmente codificada como ‘aparentemente fêmea’”. Em outras palavras, ela se apresenta de maneira feminina – vendo nas fotos, de maneira bem perceptível – mas não se identifica com nenhum dos gêneros. Isso é difícil, diz Travis, uma vez que “frequentemente, nós estamos sendo esquecidos e apagados, seja pelo mundo no geral, seja pela própria comunidade LGBT”.

Fica uma grande questão a ser respondida. Para aqueles que de fato se sentem ou se comportam totalmente como homem ou como uma mulher, quais são as características definidas como estereótipos para cada caso? Deveria George, a teimosa heroína de cabelos curtos do livro de Enid Blyton Os Cinco, a partir de agora ser classificada mais corretamente como “trans não-binária”? Eu mesma sou amante de saltos e maquiagem, mas também gosto de andar desarrumada, não consigo realizar bem várias tarefas ao mesmo tempo e tenho bastante interesse nas histórias militares de Antony Beevor. Eu tenho um galpão no jardim e, às vezes, meu marido se diverte ao comparar-me a Mark Corrigan, o bacharel desajustado de Peep Show. Talvez eu seja internamente “trans não-binária” também, mas, então, – pelo prisma de não se encaixar em um conjunto mutante de estereótipos – muitas outras mulheres que conheço também seriam.

A não ser que a biologia e a identidade de alguém estejam descontroladamente fora de sintonia e que isto lhe provoque uma contínua e severa infelicidade, talvez não seja melhor – ao escolher o tipo de roupa ou de relacionamento que lhe traga alegria – encerrar as classificações nebulosas sobre autoidentidade e seguir com sua vida? Ou, talvez, concentrar suas energias em campanhas sobre situações em que as pessoas enfrentam perseguições verdadeiramente terríveis por ser percebido como estranho à heterossexualidade? – como o Estado Islâmico faz na Síria, por exemplo, ou ocorre na Rússia de Putin. Em vez disso, parafraseando Allen Ginsberg, eu vejo as melhores mentes de sua geração destruídas pelo jargão.

Borrar limites entre os gêneros atingiu a geração do Tinder. Em termos de escolha sexual, um “deslize para a direita” em direção ao mercado do capitalismo selvagem substituiu o velho sistema no estilo soviético, no qual a demanda ultrapassava da maneira vertiginosa a oferta. No entanto, muitos jovens estudantes agora parecem tão obsessivamente preocupados em meticulosamente categorizar suas identidades sexuais e de gênero que parecem seus avós com coleções de selos. Ainda assim, isso provavelmente colocará um freio na libido destes jovens, porque, embora não seja uma opção para se fazer gozar junto à cama, certamente é uma possibilidade para entediar alguém fora dela.

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