Explicando os Panama Papers, ou, porque o cachorro lambeu a si mesmo?

Por Slavoj Žižek, via Newsweek, traduzido por Leojorge  Panegalli

A única coisa verdadeiramente surpreendente sobre o vazamento dos Panama Papers é que não há surpresa alguma neles: Não aprendemos exatamente o que esperávamos aprender deles? Contudo, uma coisa é saber sobre contas em bancos offshore em geral, e outra é ver provas concretas. É como saber que o parceiro está te enganando – pode-se aceitar o conhecimento abstrato sobre isso, mas a dor surge quando se conhece os detalhes picantes. E quando xd recebe fotos do que eles estavam fazendo… Então agora, com o Panama Papers, nós somos confrontados com algumas das fotos sujas da pornografia do mundo rico, e não podemos mais fingir que nós não sabemos.


Em 1843, o jovem Karl Marx alegou que antigo regime alemão “apenas imagina que acredita em si mesmo e demanda que o mundo deveria imaginar a mesma coisa”. Em tal situação, causar envergonha naqueles que estão no poder torna-se uma arma por si só. Ou, como Marx continua, “a real pressão deve ser feita pressionando por adição à consciência da pressão, a vergonha deve ser feita mais vergonhosa por publicizá-la”.  

Esta é nossa situação hoje: Nós estamos encarando o cinismo desavergonhado da ordem global existente, cujos agentes apenas imaginam que eles acreditam nas suas ideias de democracia, direitos humanos, etc., e através de movimentos como WikiLeaks e as divulgações dos Panama Papers, a vergonha – nossa vergonha por tolerar tal poder sobre nós – torna-se mais vergonhosa pela publicização disto.

Uma rápida olhada nos Panama Papers revela uma característica positiva de destaque  e uma característica negativa de destaque. A positiva é a solidariedade abrangente dos participantes: no mundo sombrio do capital globalizado, nós somos todos irmãos. O mundo Ocidental desenvolvido está lá, incluindo os incorruptíveis escandinavos, e seu aperto de mãos com Vladimir Putin. E o Presidente Chinês Xi, Iran e Coréia do Norte também estão lá. Muçulmanos e Judeus trocam piscadelas amigáveis – é um verdadeiro reino do multicuturalismo onde todos são iguais e todos são diferentes. A característica negativa: contundente ausência dos Estados Unidos, o que dá alguma credibilidade para a alegação russa e chinesa de que interesses políticos particulares estavam envolvidos no inquérito.

Então o que faremos com toda esta informação? A primeira (e predominante) reação é a explosão de raiva moralista, claro. Mas o que nós devemos fazer é mudar a pauta imediatamente, da moralidade para o nosso sistema econômico: políticos, banqueiros e gestores sempre foram gananciosos, então o que em nosso sistema legal e econômico permitiu a eles realizarem sua ganância de uma maneira tão grande?   

Do desmoronamento financeiro de 2008 em diante, figuras públicas, do papa para baixo, nos bombardearam com injunções para combater a cultura da ganancia excessiva e consumo. Como um dos teólogos próximos ao papa colocou: “A presente crise não é uma crise do capitalismo, mas a crise da moralidade”. Até mesmo partes da esquerda seguiram este caminho. Não existe falta de anticapitalismo hoje: protestos Occupy explodiram há alguns anos, e nós até percebendo uma sobrecarga de criticas sobre os horrores do capitalismo: abundam, livros, jornais, investigações profundas e reportagens televisivas sobre companhias impiedosamente poluindo nosso meio-ambiente, sobre banqueiros corruptos que continuam a ter gordos bônus enquanto seus bancos tem de ser salvos por dinheiro público, advindo de locais de trabalho em condições degradantes, onde crianças trabalham fazem horas extras.    

Existe, no entanto, uma questão nesse grande fluxo de crítica: o que, via de regra, não é questionado, é o quadro democrático-liberal de luta contra estes excessos. O objetivo explicito ou implícito é o de democratizar o capitalismo, para estender o controle democrático sobre a economia, através da pressão da mídia pública, inquéritos governamentais, leis mais duras e investigações policiais mais honestas. Mas o sistema como tal não é questionado, e seu quadro institucional democrático de Estado de Direito permanece a vaca sagrada que até mesmo as formas mais radicais desta “ética anticapitalista”, como o Occupy, não toca.

O erro a ser evitado aqui é melhor exemplificado pela história – apócrifa, talvez – sobre o economista esquerdo-keynesiano John Galbraith: antes da viagem para a URSS nos idos de 1950, ele escreveu para seu amigo anti-comunista Sidney Hook: “Não se preocupe, eu não serei seduzido pelos Sovietes e voltar para casa clamando que eles tem Socialismo!”. Hook prontamente o respondeu: “Mas é isso que me preocupa – que você volte alegando que a URSS NÃO é socialista!”. O que preocupava Hook era a defesa ingênua da pureza do conceito: se as coisas derem errado na construção de uma sociedade Socialista, isto não invalida a ideia mesma, somente significa que nós não a implementamos apropriadamente. Nós não detectamos a mesma ingenuidade nos fundamentalistas do mercado de hoje?  

Quando, durante um debate televisivo na França há alguns anos, o intelectual francês Guy Sorman alegou que a democracia e o capitalismo necessariamente vão juntos, eu não pude resistir em fazer para ele a pergunta óbvia: “Mas e a China hoje?” Sorman retrucou: ”Na China não existe capitalismo!”. Para o fanático pró-capitalismo Sorman, se o país não é democrático, significa simplesmente que não é verdadeiramente capitalista, mas pratica sua versão desfigurada, da exata mesma maneira que para um democrata o  Comunismo Stalinista simplesmente não foi uma forma autêntica de Comunismo.

O erro que subjaz não é difícil de identificar – é o mesmo como na conhecida piada: “Minha noiva nunca está atrasada para um compromisso, porque no momento que ela está atrasada ela não é mais minha noiva!”. É assim como hoje a apologia do mercado, em um inédito sequestro ideológico, explica a crise de 2008: Não foi uma falha do livre mercado que causou isto, mas a regulação excessiva, i.e., o fato de que nossa economia de mercado não o era verdadeiramente, que este ainda está nas garras do Welfare State. A lição dos Panama Papers é que, precisamente, isso não é o caso: A corrupção não é um desvio contingencial do sistema capitalista global, é parte do seu funcionamento básico.

A realidade que emerge do vazamento dos Panama Papers é a da divisão de classe, e é simples assim. Os papéis demonstraram como pessoas ricas vivem em um mundo separado no qual são aplicadas regras diferentes, no qual o sistema legal e autoridade policial são pesadamente torcidos e não apenas protegem os ricos, mas estão ainda prontos para sistematicamente flexibilizar a vigência da lei para acomodá-los.

Já existem muitas reações liberais direitistas aos Panama Papers colocando a culpa no excesso do nosso Welfare State, ou o que tenha sobrado dele. Já que a riqueza é tão fortemente taxada, não é de se admirar que seus donos tentem movê-las para lugares com taxas mais baixas, que, em última instancia, não é nada ilegal. Tão ridícula quanto essa desculpa é, este argumento tem uma verdade nuclear, e que faz dois pontos dignos de nota. Primeiro, a linha que separa transações legais de ilegais está ficando cada vez mais enevoada, e frequentemente reduzida a uma questão de interpretação. Segundo, donos de fortunas que as levam para contas offshore e paraísos fiscais não são monstros gananciosos, mas indivíduos que simplesmente agem como sujeitos racionais tratando de salvaguardar suas riquezas.  No capitalismo, você não pode jogar fora a água suja da especulação financeira e manter o bebê saudável da economia real. A água suja efetivamente é a linha sanguínea do bebê saudável.

Não deve-se ter medo de ir até o final aqui. O sistema legal do capitalismo global mesmo é, na sua dimensão mais fundamental, corrupção legalizada. A questão de onde o crime começa (quais negociações financeiras são ilegais) não é uma questão legal mas eminentemente uma questão política, de luta pelo poder.

Então porque milhares de homens de negócio e políticos fazem o que é documentado nos Panama Papers? A resposta é a mesma da velha piada: Por que os cachorros lambem eles mesmos? Porque eles podem.


Ilustração por Ole Tillmann, via Vice.

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