Nosso mal vem de mais longe

Por Alain Badiou, via La-bas, traduzido por CEII – Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia

Eu gostaria de falar esta noite sobre o que aconteceu na Sexta-feira, 13 de novembro, isto que nos aconteceu, o que aconteceu nesta cidade, neste país, neste mundo, finalmente.


Eu gostaria em primeiro lugar dizer em qual estado de espírito eu penso que é preciso falar disso que é uma tragédia terrível; porque, obviamente, como sabemos, e como é perigosamente martelado pela imprensa e pelas autoridades, a função do afeto, da reação sensível, nesse tipo de situação, inevitável, e num certo sentido indispensável. Há algo como um traumatismo, como um sentimento de exceção intolerável ao sistema da vida ordinária, de uma irrupção insuportável da morte. Isso é algo que se impõe a todos e que nós não podemos conter, nem criticar.

Entretanto, é preciso de toda forma saber – é um ponto de partida para a consideração do que eu chamo o estado de espírito – que este inevitável afeto, nesse tipo de circunstâncias trágicas, expõe a diversos riscos, riscos que eu gostaria ainda assim de lembrar, para indicar qual será o meu método.

RESUMO

Introdução: Os três riscos do afeto

  1. Estrutura do mundo contemporâneo
  2. Efeitos nas populações
  3. Subjetividades reativas
  4. O fascismo contemporâneo
  5. Quem são os assassinos?
  6. A reação do Estado: “França” e “guerra”
  7. As condições para o retorno de uma política de emancipação, esquema separado do mundo contemporâneo.

Introdução: Os três riscos do afeto

Eu vejo três principais riscos aos quais nos expõe, após esta tragédia, a dominação sem partilha do trauma e do afeto.

O primeiro é o de permitir que o Estado tome medidas inúteis e inaceitáveis, medidas que, na realidade, trabalham para seu próprio benefício. O estado é subitamente colocado na frente do palco e encontra momentaneamente, ou ele acredita encontrar, uma função de representação simbólica, de garantir a unidade da nação, e outras posturas semelhantes. Isto nos permite, vou voltar a isso, perceber no líder pessoal um bastante sinistro, mas evidente gozo desta situação criminal. Nestas condições, é preciso ainda manter uma medida. Devemos permanecer capazes de medir naquilo que é feito, no que é pronunciado, aquilo que é inevitável e necessário e o que é inútil ou inaceitável. Esta é a primeira medida de precaução que vejo, uma preocupação de medida tendo em vista o caráter, repito mais uma vez, inevitável e indispensável do afeto.

O segundo risco dessa dominação do sensível, vamos chamá-lo assim, é o de fortalecer os impulsos de identidade. É também este um mecanismo natural. É evidente que quando alguém morre acidentalmente em uma família, a família se reagrupa, se une, e em um certo sentido se fortalece. Estes dias nos é assegurado, nos é dito, e redito, a bandeira tricolor na mão, que um horrível massacre em território francês não pode senão reforçar o sentimento nacional. Como se o traumatismo se referisse automaticamente a uma identidade. De onde que as palavras “França” e “Francês’ são pronunciadas de toda a parte como um componente evidente da situação. Bem, devemos nos perguntar: a que título? O que exatamente é a França nesta situação? Do que estamos a falar quando falamos hoje da França e dos Franceses? Na realidade, estas são questões muito complexas. É preciso absolutamente não se perder de vista essa complexidade: as palavras Francês, França, não tem hoje qualquer significado particularmente trivial, particularmente óbvio. Além disso, eu acho que devemos fazer o esforço, justamente contra essa pulsão identitária, que encerra o evento terrível em uma espécie de faz-de-conta, de lembrar que esses assassinatos em massa e assustadores, aconteceram e acontecem todos os dias em outros lugares. Todos os dias, sim, na Nigéria e no Mali, mais recentemente, no Iraque, Paquistão, Síria … É importante lembrar também que a alguns dias mais de duas centenas de russos foram massacrados dentro de um avião sabotado, sem que a emoção, na França, tenha sido considerável. Talvez os supostos “franceses” identifiquem todos os russos ao vilão Putin!

Eu penso que é uma tarefa fundamental da justiça sempre expandir, tanto quanto ela possa, o espaço dos afetos públicos, de lutar contra a sua restrição identitária, de se lembrar e de saber que o espaço de infelicidade é um espaço que devemos observar, definitivamente, ao longo de toda a humanidade, e que nós não devemos nunca nos encerrar em declarações que restrinjam à identidade. Senão, é atestado através da própria infelicidade que o que conta são as identidades. Ora a ideia de que o que importa na infelicidade é somente a identidade das vítimas é uma percepção perigosa do próprio evento trágico ele mesmo, porque inevitavelmente essa ideia transforma a justiça em vingança.

Evidentemente, a tentação da vingança, neste tipo de crime em massa, é um impulso que parece natural. A prova é que em nosso país, que sempre se orgulha de seu Estado de Direito e que rejeita a pena de morte, a polícia, no tipo de circunstâncias que nós conhecemos, mata os assassinos assim que ela os encontra, sem, é o caso de dizer, sem outra forma de processo, e sem que ninguém, aparentemente, os formalize. É preciso contudo recordar que a vingança, longe de ser uma ação justa, abre sempre um ciclo de atrocidades. Nas grandes tragédias gregas, há muito tempo, nós opomos a lógica da justiça à lógica da vingança. A universalidade da justiça é o oposto das vinganças familiares, provinciais, nacionais e identitárias. Esta é a questão fundamental do Orestes de Ésquilo. A mola identitária da tragédia, é mesmo o perigo de conceber a busca dos assassinos como a pura e simples perseguição vingativa:  “Nós vamos, por nossa vez, matar aqueles que mataram”. Talvez haja algo de inevitável no desejo de matar aqueles que mataram. Mas não há, sem dúvida, nenhuma razão para disso se alegrar, gritar ou cantar como uma vitória do pensamento, do espírito, da civilização e da justiça. A vingança é um dado primitivo, abjeto e além disso perigoso, isto é o que os gregos já nos ensinam há muito tempo.

A partir desta perspectiva, eu também gostaria de me preocupar com coisas que foram saudadas como evidências. Por exemplo: a declaração de Obama. Ela não tinha o ar de nada, essa declaração. Ela vinha a dizer que este terrível crime não era apenas um crime contra a França, um crime contra Paris, mas um crime contra a humanidade. Muito bem, muito justo. Mas o presidente Obama não declara isso cada vez que há um assassinato em massa desse tipo, ele não o faz quando as coisas acontecem em lugares distantes, em um Iraque tornado incompreensível, num Paquistão nebuloso, numa Nigéria fanática, ou num Congo que está no coração das trevas. E então, a declaração contém a ideia, supostamente óbvia, que esta humanidade assassinada reside antes na França, e sem dúvida também nos Estados Unidos, do que na Nigéria ou na Índia, no Iraque, no Paquistão ou no Congo.

Na verdade, Obama quer nos lembrar que para ele a humanidade é de saída identificável ao nosso bom e velho Ocidente. Pode-se bem dizer: Humanidade = Ocidente, nós o ouvimos, como um baixo contínuo, em declarações, oficiais ou jornalísticas. Uma das formas dessa inaceitável presunção identitária assume a forma, sobre a qual eu retornarei, da oposição entre bárbaros e civilizados. Mas é escandaloso, do ponto de vista da justiça mais elementar, de deixar entender, mesmo sem quer, mesmo que indiretamente, que há partes da humanidade que são mais humanas do que outras, e temo que neste caso isso foi feito e que continua a ser feito.

Eu penso que é preciso romper com o hábito muito presente, inclusive na forma como as coisas são contadas, apresentadas, organizadas, ou ao contrário são calados, excluídas, sim, devemos perder o hábito, quase inscrito no inconsciente, de pensar que uma morte ocidental é terrível, e que milhares de mortes na África, na Ásia ou no Oriente Médio, e até mesmo na Rússia, não é ao final lá grande coisa. Isso ainda é a herança do imperialismo colonial, a herança do que é chamado o Ocidente, a saber os países desenvolvidos, civilizados, democráticos: esse hábito de ver a si mesmo como representante da humanidade inteira e da civilização humana enquanto tal. Este é o segundo perigo que nos espera se nós reagirmos somente com base em nossos afetos.

Depois, há um terceiro risco, que é fazer exatamente o que os assassinos desejam, isso quer dizer obter um efeito desmesurado, ocupar a cena interminavelmente de modo anárquico e violento, e, finalmente criar ao redor das vítimas uma paixão tal que nós não poderemos mais, por fim, distinguir entre aqueles que iniciaram o crime e aqueles que o sofreram. Porque o propósito desse tipo de carnificina, esse tipo de violência abjeta, é despertar nas vítimas, suas famílias, seus vizinhos, seus compatriotas, uma espécie de sujeito obscuro, eu o chamo assim, um sujeito obscuro de uma vez deprimido e vingativo, que se constitui em razão do caráter de ataque violento e quase inexplicável do crime, mas que é também homogêneo com a estratégia de seus patrocinadores. Essa estratégia antecipa os efeitos do sujeito obscuro: a razão vai desaparecer, aqui incluída a razão política, o afeto vai assumir a dianteira e nós espalharemos por toda parte o par da depressão abatida – “Estou atordoado”, “Estou chocado” – e do espírito de vingança, par que vai deixar o Estado e os vingadores oficiais fazer qualquer coisa. Assim, em conformidade com os desejos dos criminosos, este sujeito obscuro se revelará capaz por sua vez do pior, e acabará ao fim por ser reconhecido por todos como simétrico dos organizadores do crime.

Então, para evitar esses três riscos, penso que devemos avançar e pensar o que aconteceu. Partimos de um princípio: nada que os homens fazem é ininteligível. Dizer: “Eu não entendo”, “Eu nunca compreenderei”, “Eu não consigo entender,” é sempre uma derrota. Nós não devemos deixar nada no registro do impensável. É a vocação do pensamento, se nós queremos poder, entre outras coisas, se opor aos que declaram impensável, o pensar. Bem entendido, existem comportamentos absolutamente irracionais, criminosos, patológicos, mas tudo isso se constitui para pensamento de objetos como os outros, que não deixam o pensamento no abandono ou na incapacidade de fazer a medida. A declaração do impensável é sempre uma derrota do pensamento, e a derrota do pensamento é sempre a vitória precisamente do comportamento irracional, e criminoso.

Eu vou então tentar aqui diante de vocês, uma elucidação integral disso que aconteceu. Eu vou de qualquer forma tratar esse assassinato em massa como um dos muitos sintomas atuais de uma doença grave do mundo contemporâneo, deste mundo em seu todo, e eu vou tentar indicar as exigências ou os caminhos possíveis de cura a longo prazo desta doença, cuja multiplicação de eventos desse tipo no mundo é um sintoma particularmente violento e particularmente espetacular.

Esta vontade de elucidação integral irá comandar o plano da minha apresentação, sua lógica.

Eu vou primeiro tentar ir da situação geral do mundo como eu o vejo, como eu acredito que nós podemos pensá-lo sinteticamente, aos crimes em massa e à guerra que, pelo lado do Estado, foi pronunciada ou declarada. E então, eu vou remontar a partir daí, através de um movimento inverso, em direção à situação de conjunto não mais como ela é, mas como se deveria desejar que ela se tornasse, querer e agir para que tais sintomas desapareçam.

Inicialmente nosso movimento irá portanto da generalidade da situação do mundo ao evento que nos importa, e depois nós voltaremos do evento que nos importa a situação do mundo como nós a tínhamos esclarecido. Este movimento de retorno deverá nos permitir indicar um certo número de necessidades e tarefas.

Ele irá incluir sete partes sucessivas. Vocês a tem por um momento!

– A primeira parte apresentará a estrutura objetiva do mundo contemporâneo, o quadro geral do que aconteceu, o que aconteceu aqui, mas que também ocorre quase que todos os dias. É a estrutura objetiva do mundo contemporâneo tal como ela se coloca desde os anos oitenta do último século. Onde está o nosso mundo, do ponto de vista daqueles que tem sido deslocados insidiosamente, depois de forma evidente, depois com ferocidade, desde um pouco mais de trinta anos?

– Em segundo lugar, eu examinarei os principais efeitos desta estrutura do mundo contemporâneo sobre suas populações, sobre sua diversidade, sobre seu enredo e sobre suas subjetividades.

– Isto irá preparar meu terceiro ponto, que concerne às subjetividades típicas assim criadas. Eu acredito de fato que este mundo criou subjetividades singulares, características do período. Como vocês verão, eu distinguirei entre três subjetividades típicas.

– A quarta parte, que vai me aproximar do objeto próprio desta exposição, irá focar sobre isso que eu chamaria de figuras contemporâneas do fascismo. Como vocês verão, eu penso que os atores do que se passou lá merecem ser chamados de fascistas, num sentido renovado e contemporâneo do termo.

– É tendo chegado a tal ponto, eu tentarei ir em outra direção, para o que devemos fazer para mudar o mundo, de tal modo que este seja excluído de tais sintomas criminosos. Minha quinta parte será portanto dedicada ao evento em si, nos seus diferentes componentes. Quem são os assassinos? Quem são os agentes desse assassinato em massa? E como qualificar sua ação?

– Em sexto lugar, nós teremos a reação do Estado e a formação da opinião pública em torno das duas palavras “França” e “guerra”.

– A sétima parte será inteiramente consagrada à tentativa de construir um pensamento diferente, isto quer dizer se substrair dessa modelagem da opinião pública e da orientação reativa do Estado. Ele irá se concentrar nas condições, esclarecidas pelo conjunto do trajeto, disso que eu chamaria de um retorno da política, no sentido de um retorno da política de emancipação, ou do um retorno de uma política que refuta toda inclusão no esquema de mundo do qual eu terei partido.

  1. Estrutura do mundo contemporâneo

Trata-se da estrutura do mundo contemporâneo, tal como eu o vejo e tal como ele vai nos servir evidentemente para esclarecer o que é nosso desafio. Eu acho que podemos o descrever, em traços largos, em torno de três temas, temas que estão profundamente intrincados, profundamente entrelaçados.

A princípio, isso pode parecer de uma banalidade aflitiva, mas na minha opinião as consequências desta banalidade estão longe de ser desdobradas: há trinta anos, o que estamos testemunhando, é o triunfo do capitalismo global.

Este triunfo é a princípio, de modo particularmente visível, o retorno de algum tipo de energia primitiva do capitalismo, o que foi chamado por um nome questionável de neoliberalismo, e que é na verdade o ressurgimento recente da eficácia constitutiva da ideologia do capitalismo desde sempre, à saber o liberalismo. Não é certo que o “neo” seja justificado. Eu não acredito que isso que se passa seja “neo”, quando nós o olhamos de perto. Em todo caso, o triunfo do capitalismo global, é uma espécie de energia reencontrada, a capacidade retornada e incontestável de exibir, agora de forma pública e sem pudor, se assim posso dizer, as características gerais deste tipo muito particular de organização da produção, das trocas e finalmente das sociedades inteiras, e também sua pretensão de ser o único caminho razoável para o destino histórico da humanidade. Tudo isso, que foi inventado e formulado na Inglaterra próximo ao final do século XVIII na Inglaterra e que dominou em seguida sem contestação por décadas, foi reencontrado com uma espécie de alegria feroz pelos nossos mestres hoje.

Mundializado, é uma inflexão ligeiramente diferente. Nós temos hoje um capitalismo instalado explicitamente em uma escala que é a escala planetária. O que torna este capitalismo mundializado não é apenas um capitalismo que recuperou sua energia dissolvente, mas que, também, tem se desenvolvido de tal modo que no presente podemos dizer que, considerado como uma estrutura global, o capitalismo constitui um controle praticamente inconteste do conjunto do planeta.

O segundo tema é o enfraquecimento dos Estados. Esta é uma consequência bastante sutil do primeiro, mas que é de fato interessante de desenvolver.

Todos vocês sabem que um dos temas mais zombados do marxismo foi o tema do desaparecimento do Estado. O marxismo anunciou que a reorganização do Estado, após a destruição revolucionária dos Estados-nação dominados pelo capitalismo, implantaria em definitivo, por um poderoso movimento coletivo do tipo comunista, uma sociedade sem Estado, uma sociedade que Marx chamou de “associação livre”. Bem, estamos a assistir a um fenômeno realmente patológico, ou seja, um processo capitalista de desaparecimento dos Estados. É um fenômeno fundamental hoje, mesmo se ele é mascarado pela subsistência, por um tempo histórico provavelmente muito longo, por polos estatais de um poder bastante forte. Na verdade, a lógica geral do capitalismo global é não ter uma relação direta e intrínseca à subsistência dos Estados nacionais, pois sua implantação é hoje transnacional. Desde a década de sessenta, nós colocamos em evidência o caráter multinacional das grandes empresas. Mas essas grandes empresas se tornaram desde então monstros transnacionais de natureza totalmente diferente.

Enfim, o terceiro tema é o que eu chamaria novas práticas imperialistas, os modos de ação em força, por assim dizer, da expansão do capitalismo mundial, as novas figuras do imperialismo, isso quer dizer a conquista do planeta, enquanto a base de existência e de lucro do próprio capitalismo.

Eu retomo estas questões uma a uma.

1) O triunfo do capitalismo global

O triunfo do capitalismo global é uma evidência que todo mundo tem no espírito. Hoje, o mercado mundial é a coordenada absoluta da historicidade planetária. Ele é uma questão a todo momento. Sabemos muito bem que logo depois dos calafrios da Bolsa Shanghai, o mundo inteiro se inquietou, parece apavorado, se pergunta o que vai acontecer, e assim por diante …

A agressividade que acompanha esta extensão do caráter dominante do mercado mundial como referência de uma historicidade global, é particularmente espetacular. Nós assistimos hoje a destruição, por toda parte, das tentativas anteriores de introduzir no Capital uma medida. Eu chamo “medida” os compromissos passados, notadamente no período após a última Guerra Mundial, entre a lógica do capital e outras lógicas. Outras lógicas que podem ser as lógicas de controle estatal, de concessões feitas aos sindicatos, as reticências diante das concentrações industriais e bancárias, as lógicas de nacionalizações parciais, as medidas de controle de certos excessos de propriedade privada, antitruste… Houve também a introdução de medidas estendendo os direitos sociais da população, tais como a possibilidade para que todos possam acessar à saúde, ou limitar as formas de exercício privado de funções liberais, etc., etc.

Tudo isso está a caminho de ser metodicamente destruído, inclusive em países que eram o paradigma. Eu não estou nem falando dos estados socialistas, dos países socialistas de fato: a França era um dos países que oferecia a maioria desses exemplos desse espírito de medida. Ora, nós destruímos tudo isso hoje com uma aplicação extrema. Nós começamos evidentemente com a desnacionalização pelas privatizações. A palavra “privatização” é de fato agressiva, mesmo se nós não nos damos mais conta disso. É uma palavra que se refere diretamente ao fato de que as atividades que foram destinadas para o bem público devem ser restituídas à propriedade privada como tal. É uma palavra de agressividade extraordinária, embora ela seja agora uma banalidade. Da mesma forma, e de modo incessante – que se trate da direita ou da esquerda, não há nesse ponto nenhuma diferença – partes inteiras da legislação social foram derrotadas, que se pense no código do trabalho, na segurança social, no sistema de ensino…

É preciso reconhecer que a vitória objetiva do capitalismo global é uma prática destrutiva, agressiva. Não é apenas uma espécie de expansão racional ou razoável de um determinado sistema de produção. E não podemos senão nos inquietar com a baixa resistência observada nessas destruições sucessivas. Esta resistência é de fato um recuo constante. Ela está localizada, dispersada, muitas vezes corporativista, setorial, nenhuma visão global a sustenta. Na realidade, este recuo é ininterrupto faz trinta anos.

Tendencialmente, nós temos uma representação dominante que interdita que seja imposto ao capitalismo qualquer forma de medida. Neste sentido, podemos dizer que a lógica do capital é liberada. O liberalismo é liberado. Voilá! Nós assistimos nos últimos trinta anos, balançando os braços, a liberação do liberalismo. E essa liberação assume duas formas: a mundialização, ou seja, a expansão ininterrupta do capitalismo a territórios inteiros, como a China, e ao mesmo tempo o poder extraordinário da concentração do capital, isto é, esse movimento dialético característico do capital: ele se estende, e estendendo-se ele se concentra. A expansão e concentração são duas modalidades, absolutamente ligadas uma a outra, do caráter proteiforme do capital.

As concentrações continuam ao mesmo tempo que as privatizações e as destruições  aceleram. Vocês todos notaram, porque ela tem um lado um pouco espetacular, a recente fusão da Fnac e da Darty, dois supermercados de grande distribuição. Temos aqui uma fusão do livro e da geladeira. Que o objetivo seja puramente financeiro, isso é claro, e caracteriza a fusão puramente capitalista, sem qualquer interesse pelo público. Estas concentrações criam gradualmente polos de poder comparáveis aos Estados, se não superior a muito entre eles.Trata-se de polos de poder financeiros, produtivos por vezes, especulativos, envolvendo sempre um pessoal considerável, muitas vezes dotados de milícias poderosas, e que se espalham por toda parte, frequentemente pela força, sempre pela corrupção. Estes polos são transnacionais, se bem que eles têm uma relação diagonal com os Estados. Aos olhos destes poderes massivos e transnacionais, a soberania estatal vão vale nada em si mesma.

Assim, nós podemos constatar que as empresas de tamanho considerável, a maior empresa francesa, por exemplo, Total, não paga nenhum imposto na França. Em que consiste então seu caráter “francês”? Bem, sua sede deve estar em algum lugar em Paris, mas… O estado francês, você vê, não tem realmente um controle, inclusive em polos de poder que afirmam sua nacionalidade francesa. Há, atualmente, uma vitória, vasta e ramificada, das empresas transnacionais sobre a soberania dos Estados.

Mas há também uma vitória subjetiva que acompanha esta vitória objetiva do capitalismo. É o desenraizamento total da própria ideia de um outro caminho possível. Isso é de importância considerável, porque é a afirmação, de alguma forma estratégica, que uma outra orientação global, sistêmica, da organização da produção e do jogo social está no momento praticamente ausente. De modo que, aqui incluídas as propostas de resistência, as propostas de reintroduzir a medida, etc. já se situam numa visão derrotista do movimento geral. Elas não são inscritas em uma estratégia que seria de reconquista da territorialidade da Ideia. Mas elas são a nostalgia impotente da época dos compromissos sociais e das medidas de controle semi-estatal do capital.

É surpreendente ver que o programa do Conselho Nacional da Resistência tornou-se o magnífico modelo nostálgico da França. É a época em que, ao sair da ocupação nazista, durante a qual os capitalistas franceses tinham muitas vezes colaborado com a ocupação, a aliança dos gaullistas e comunistas instituiu medidas importantes de estatização e redistribuição social.

Mas esta nostalgia do programa reformista do fim da guerra esquece que à época, primeiramente nós saíamos de uma guerra mundial, em segundo lugar a burguesia colaboradora não ousava mostrar-se, e, em terceiro lugar, havia um poderoso partido comunista. Hoje, nada disso existe. E a nostalgia do programa social do CNR é um devaneio completamente separado da vitória subjetiva espetacular do capitalismo global. Esta vitória fez com que num período de tempo bastante curto, entre 1975 e hoje, tenha sido anulada, reduzida a quase nada, a força da ideia de que, quaisquer que sejam as dificuldades, uma outra possibilidade existia. Ideia que, ainda nos anos 60-70 do século passado, animava no mundo inteiro milhões de revoltados políticos

Esta ideia, cujo nome genérico, desde o século XIX, é “comunismo”, está de tal modo doente hoje que nós temos vergonha de somente nomeá-la. Nem, não eu. Mas, no nível do conjunto, ela é criminalizada. Esta criminalização pode ter razões: Stalin, etc. Mas o objetivo perseguido pelos apoiadores da mundialização capitalista não tem qualquer objetivo ético, como os seus divulgadores o fazem crer. Eles têm por objetivo o desenraizamento, se possível definitivo, da ideia de uma alternativa global, mundial, sistêmica, ao capitalismo. Nós passamos do dois para o um. Isso é fundamental. Não é a mesma coisa quando sobre uma mesma questão, existem duas ideias em conflito, ou não há senão que uma. E esta unicidade é o ponto-chave do triunfo subjetivo do capitalismo.

2) O enfraquecimento dos estados

Os Estados não são definitivamente, hoje, senão os gestores locais desta ampla estrutura global. Eles são uma espécie de mediação, além do mais instável, entre a lógica geral que eu venho de descrever e as situações particulares, definidas por países, coligações, federações, Estados… Isso depende do caso. E é preciso muito para dizer a norma do poder seja representada pelos Estados e por eles apenas. Claro, ainda existem polos estatais constituídos ou que manifestam ainda um certo vigor, grandes polos do tipo EUA e China. Mas, mesmo nestes casos, o processo é aquele que acabamos de descrever. Estes grandes polos não são portadores de outra coisa. Como eu os recordei, as grandes empresas têm o tamanho de Estados médios. Aliás, é muito impressionante que os próprios bancos tenham se tornado conjuntos tão consideráveis, que nós admitimos, como um axioma, que sua queda é impossível: “Too big tofail”. Muito grande para cair. Isto é que muitas vezes é dito sobre os grandes bancos norte-americanos. Isto significa que a macroscopia econômica supera a capacidade do Estado. Isso é o que eu chamo de enfraquecimento dos estados. Não somente os estados foram amplamente transformados no que Marx já pensava deles, a saber, “os fundamentos do poder do capita”. Mas eu não sei se Marx jamais imaginou que ele tinha tanta razão ao ponto que, depois de trinta anos, a realidade lhe deu. Não somente os estados são os fundamentos do capital, mas há cada vez mais uma espécie de discordância entre a escala de existência das grandes empresas e a escala de existência dos Estados, que faz com que a existência das grandes empresas seja diagonal para os estados. O poder dos grandes conglomerados industriais, bancários ou comerciais não coincide nem com a esfera estatal, nem mesmo com aquela das coalizões de Estados. Esse poder capitalista atravessa os Estados como se ele fosse de uma vez independente e comandante.

Isso me leva ao meu terceiro ponto, isso quer dizer às novas práticas imperialistas.

3) As novas práticas imperialistas

Como vocês sabem, o imperialismo antigo, aquele do século XIX esteve inteiramente sob o controle da ideia nacional, do Estado-nação. Sua organização global resultava de uma divisão do mundo entre as nações poderosas, que eram feitas em reuniões como a reunião de Berlim em 1885, onde nós cortamos a África como um bolo e onde nós dizíamos isso é para a França, isso, para a Inglaterra, isso, para a Alemanha, etc. E onde nós instalamos um poder metropolitano de gestão direta dos territórios, naturalmente com a presença de grandes empresas predatórias de matérias-primas e da cumplicidade eventual de alguns notáveis locais.

E depois houve as guerras mundiais, houve as guerras de libertação nacional, houve a existência do bloco socialista apoiando as guerras de libertação nacional. Em suma, tudo progressivamente eliminou, durante os anos 40 a 60 e seguintes, a esse regime de administração direta que foi chamado colonialismo em sentido estrito, ou seja, a instalação de um poder metropolitano nas regiões dominadas.

Apesar disso, as tarefas soberanas de proteção das empresas, o controle dos circuitos de matérias-primas ou das fontes de energia, tiveram que continuar a ser assumidas em parte por meio do Estado. Elas não poderiam ser assumidas apenas pelos mercenários das empresas. Então há por anos, até mesmo por décadas, uma atividade militar incessante dos Estados Ocidentais. É preciso lembrar que as intervenções militares da França na África durante os últimos quarenta anos, houve mais de cinquenta! Nós podemos dizer que houve um estado quase crônico de mobilização militar na França para manter seu quadrado na África… E ocorreram, como se sabe, grandes expedições, conflitos gigantescos, a guerra da Argélia, a Guerra do Vietnã e depois finalmente a destruição do Iraque, e em seguida o que se passa nesse momento.

Assim o ponto não é o fim das intervenções imperialista, absolutamente não. A questão incide sobre a diferença na modalidade de interferência imperialista. A questão permanece sempre: O que fazer para proteger os nossos interesses em áreas distantes? A propósito da intervenção no Mali, eu li em um jornal particularmente sério, que esta intervenção foi um sucesso, porque nós tínhamos conseguido “proteger os interesses do Ocidente”. Foi dito assim, com toda a inocência. Assim, em Mali, nós protegemos os interesses do Ocidente… Não se protegem primeiro os malianos, aparentemente. Além disso, eles cortaram seu país em dois. A defesa do ocidente o obriga. Assim, mesmo se as modalidades mudam, a necessidade de intervenções imperialistas continua a ser urgente, tendo em vista a dimensão dos interesses capitalistas em jogo: urânio, petróleo, diamantes, madeiras preciosas, metais raros, cacau, café, bananas, ouro, carvão, alumínio, gás. E assim por diante.

Eu penso que o que aparece pouco a pouco, é a ideia de que em vez de assumir a difícil tarefa de constituir Estados sob a tutela da metrópole, ou até mais, dos Estados diretamente metropolitanos, a possibilidade é muito simplesmente a de destruir os estados. E vocês vêm a coerência desta possibilidade com a desestatização gradual do capitalismo mundializado. Nós podemos tudo criar, em determinadas zonas geográficas cheias de riquezas latentes, zonas francas, anárquicas, onde não há mais Estado, onde, consequentemente, não se tem mas que discutir com esse monstro terrível que é sempre um Estado, mesmo se ele é fraco. Nós podemos esbarrar no risco permanente que um Estado prefira um outro cliente, ou outros aborrecimentos comerciais. Em uma zona onde todo o poder estatal verdadeiro desapareceu, todo o pequeno mundo das empresas irá operar sem muito controle. Haverá uma espécie de semianarquia, os bandos armados, controlados ou incontroláveis, mas os negócios podem assim mesmo continuar, e mesmo melhor do que antes. É preciso bem se dar conta que, contrariamente ao que é dito, ao que se conta, as empresas, seus representantes, os agentes gerais do capital, podem perfeitamente negociar com grupos armados, e de certa forma mais facilmente que com os Estados constituídos. Não é verdade que a anarquia estatal e as crueldades inimagináveis que vêm com ela estejam necessariamente em contradição formal com a estrutura do mundo tal como ele é hoje.

Todos podem constatar que já faz um bom tempo que nós falamos em destruir o Daech (Estado Islâmico), mas na realidade, até o presente, nada de realmente sério foi feito, exceto pelos curdos que estão presentes no local e têm seus próprios interesses na região. Todo mundo diz: “Ou lá lá, enviar trezentos mil homens pra lá? Talvez seja melhor continuar a limitar mais ou menos a coisa, reconduzi-la a um regime normal de negociação…” Afinal, o Daech é um poder comercial, uma empresa de negócios competente e multiforme! Ela vende petróleo, ela vende obras de arte, ele vende muito algodão, é uma grande potência produtora de algodão. Ela vende muitas coisas para todo mundo. Porque para vender alguma coisa, é preciso ser dois. Não é o Daech que compra seu algodão.

Para designar estas novas práticas imperialistas, à saber destruir os Estados, em vez de corrompê-los ou substituir-se a eles, eu sugeri a palavra “zoneamento”. Eu propus dizer que ao imperialismo fabricava pseudo-países fracionados não importa, mas que tinham o estatuto de países sob a tutela da metrópole, nós podíamos substituir, na África, no Oriente Médio ou em certas regiões da Ásia, zonas infraestatais, que são, na realidade, zonas de pilhagem não estatatizadas. Nessas zonas, será preciso intervir militarmente de vez em quando, mas sem ter a carga realmente da gestão integral e pesada dos Estados coloniais, nem mesmo ter de manter no local, pela corrupção, um bando de cúmplices locais que se aproveitam das funções que nós lhes concedemos para se entregar à pilhagem das riquezas.

Recapitulemos. Temos uma estrutura do mundo contemporâneo dominada pelo triunfo do capitalismo global. Temos um enfraquecimento estratégico dos Estados, até mesmo um processo em curso de deterioração capitalista dos Estados. E em terceiro lugar, temos novas práticas imperialistas que toleram e até mesmo incentivam, em algumas circunstâncias, o despedaçamento ou mesmo a destruição dos Estados.

Nós não podemos ignorar essa hipótese, se nós nos perguntamos, por exemplo, qual foi o interesse verdadeiro da expedição na Líbia. Nós destruímos completamente um Estado, criamos uma zona de anarquia onde toda a gente se queixa ou pretende se queixar, mas depois disso tudo os americanos fizeram a mesma coisa no Iraque, e os franceses novamente em Mali e no centro da África. Me parece mesmo que a completa destruição da Iugoslávia, para a qual foram necessárias pesadas intervenções ocidentais, e que retalhou o país em uma dezena de pedaços, quase todos muito doentes e corrompidos, já dava sinal das práticas de zoneamento. Em áreas importantes, a prática foi de destruir Estados, para colocar em seu lugar, praticamente, quase nada, isto é, acordos frágeis entre minorias, religiões e bandos armados diversos. Nós substituímos os sunitas pelos xiitas, ou tentamos o contrário, mas tudo isso são operações não-estatais no sentido sério do termo. Isto é absolutamente evidente. Mas isso tem sobre as populações afetadas efeitos desastrosos, que precisamos agora examinar.

  1. II) Efeito sobre as populações

O mais surpreendente de tudo isso que eu venho de lembrar é que o desenvolvimento desigual é sem precedentes. Mesmo a direita parlamentar se inquieta disto às vezes. É que existem desigualdades tão monstruosas que, dado os enfraquecimentos dos Estados, nós não sabemos como manter o controle de seus efeitos sobre a vida das populações.

Há sobre este ponto cifras fundamentais, que é preciso que todo o mundo conheça, que é preciso que todo o mundo tenha em seu bolso, chifras que subjazem isso que é preciso mesmo chamar uma lógica de classe, extremamente estrita, extremamente destacada, de tal forma que ela torna estúpida ou impraticável a norma democrática, mesmo a mais formal. Em um certo grau de desigualdade, falar de democracia ou norma democrática não possui sentido algum.

Eu lembro, essas cifras:

1% da população mundial possui 46% dos recursos disponíveis. 1% – 46%: é quase a metade.

10% da população mundial possui 86% dos recursos disponíveis.

50% da população mundial não possui nada.

Então, a descrição objetiva desta questão, em termos de população, em termos de massa, significa que temos uma oligarquia planetária que representa cerca de 10% da população. Essa oligarquia possui, eu o repito, 86% dos recursos disponíveis. 10% da população, isso corresponde aproximadamente ao que era a nobreza no Antigo Regime. É mais ou menos da mesma ordem. Nosso mundo restitui, reconfigura, uma situação oligárquica que ele atravessou e conheceu há muito tempo e a qual, sob outras formas e sob outros aspectos, ele retorna.

Nós temos então uma oligarquia de 10%, e depois nós temos uma massa desprovida de quase a metade da população mundial, é a massa da população pobre, a massa africana, asiática, na sua esmagadora maioria. O total é de cerca de 60%, E resta 40%. Esses 40% é a classe média. A classe média que compartilha, dolorosamente, 14% dos recursos mundiais.

É uma visão estruturada bastante significativa: nós temos uma massa de desprovidos que faz a metade da população mundial, nós temos uma oligarquia planetária, seu eu posso dizer, do ponto de vista de seu número. E depois nós temos a classe média, pilar da democracia, que, representando 40% da população, divide 14% dos recursos mundiais.

Esta classe média está concentrada principalmente nos países ditos avançados. É portanto uma classe largamente ocidental. Ele é o suporte de massa do poder local democrático, do poder parlamentarizado. Eu penso que nós podemos avançar, sem querer insultar sua existência – uma vez que nós participamos todos aqui mais ou menos, não é? – que um objetivo muito importante desse grupo, que ainda tem acesso a apenas uma parcela muito pequena dos recursos mundiais, um pequeno 14%, é de não ser devolvida, identificada, a imensa massa de desprovidos. O que é bastante compreensível.

Eis porque esta classe, colocada em seu conjunto, é porosa ao racismo, a xenofobia, ao desprezo dos desprovidos. Estas são as determinações subjetivas ameaçadoras desta massa mediana, a qual defini o Ocidente em sentido largo, ou a representação que ele tem de si mesmo, determinações que alimentam um sentimento de superioridade. Nós sabemos bem que a classe média ocidental é o vetor da convicção que o Ocidente, em definitivo, é o lugar dos civilizados.

Quando nós lemos um pouco em toda parte hoje que é preciso fazer a guerra aos bárbaros, é evidentemente no nome dos civilizados que nós falamos, uma vez que esses bárbaros são provenientes da enorme massa daqueles que são deixados para trás, e aos quais a classe média não quer a nenhum preço ser identificada.

Tudo isso esclarece a posição bastante singular da classe média, notadamente europeia. Ela é uma marca sensível da diferença – ao final constantemente ameaçada pelo real capitalista – entre ela mesma, a classe média, e a enorme massa, um pouco afastada, um pouco distante, mas que é representada também em nosso país, daqueles que não tem grande coisa ou nada. E é essa classe média ameaçada de precariedade que sustenta o discurso de defesa dos valores “Defendamos nossos valores!”. Na realidade defender nossos valores, isso quer dizer defender o modo de vida ocidental da classe média, isso quer dizer a partilha civilizada de 14% dos recursos mundiais entre 40% de pessoas “medianas”. Desse modo de vida, Pascal Bruckner, o queixo erguido como o de Hollande como chefe de guerra, diz que ele não é negociável. “O modo de vida ocidental não é negociável””. Tal é a sentença de Pascal Bruckner, que ele, em todo caso, não negociará. Com ninguém. Eles já está convencido, Pascak Bruckner, ele coloca seu uniforme. “A guerra! A guerra!”. Essa é seu desejo, seu catecismo.

É uma das razões pela qual o assassinato em massa do qual nós falamos essa noite é significativo e traumatizante. Ele com efeito golpeia, nessa Europa, que, em alguns aspectos, é o ponto fraco do capitalismo mundializado. Ele golpeia no coração a classe média, a classe média, que ela mesma se representa como uma ilha de civilização no centro de um mundo – que se trate da oligarquia tão pouco numerosa que nós a vemos a duras penas, ou que se trate da imensa massa de desprovidos – que a cerca, a enquadra e a comprime, essa classe média. É por isso que o evento sinistro é vivido como uma crise da civilização, isso quer dizer como um atentado contra qualquer coisa que já é, em sua existência histórica e natural, ameaçada pelos desenvolvimentos em curso do capitalismo mundializado, e ao qual, entretanto, ela ainda se apega.

Tal é o primeiro dos efeitos sobre as populações da estrutura do capitalismo mundializado. Mas além disso existe aí algo também muito importante para compreender isso que se passa.

No mundo hoje existe um pouco mais de dois milhões de pessoas que nós podemos dizer não são consideradas para nada. Não é nem mesmo que elas fizessem parte, como é evidente, da massa de 50% de desprovidos. É pior. Eles não são considerados para nada pelo capital, isso quer dizer que aos olhos do desenvolvimento estrutural do mundo, elas não são nada, e que portanto, com todo o rigor, elas não deveriam existir. Elas não deveriam estar aí. Mas elas estão mesmo assim.

O que quer dizer que elas não são consideradas para nada? Isso quer dizer que elas não são nem consumidoras, nem força de trabalho. Pois não há que duas maneiras de existir para o capital se você não pertence à oligarquia. Você deve ser um assalariado de um lado, ganhar assim um pouco de dinheiro, e após você deve gastar esse dinheiro consumindo os produtos que são fabricados por esse mesmo capital. Sua identidade aos olhos do movimento dominante do mundo de hoje é a dupla identidade, estruturada pelo dinheiro, do assalariado e do consumidor.

Ora existem dois milhões de adultos que não encontram nenhum acesso nem a um nem a outro. Eles não têm acesso ao trabalho, eles não são mais escolarizados, ou aposentados e, por via de consequência, ele não tem mais acesso ao mercado. Do ponto de vista da lógica geral do mundo, da imperiosa e satisfeita mundialização capitalista, eles estão como se não existissem. Nós começamos de resto a escutar uma propaganda sobre o caráter extremamente perigoso de uma invasão de nossa querida Europa civilizada por essas pessoas que não existem ou que deveriam não existir. Tudo isso que envolve a questão dos movimentos migratórios, a questão da natalidade na África, concerne diretamente à essa angustiante questão: “Meu Deus! Haverá uma vinda massiva dessas pessoas, em nossa casa, a partir de um crescimento de seu número, uma vez que eles já são provavelmente mais de dois milhões?” A partir disso, passar de que eles não deveriam existir à práticas tendentes a sua inexistência, não há mais que um passo.

Mas de onde vem essa massa de pessoas que o mundo contemporâneo não conta para nada? Para compreender esse ponto, basta ser um pouco, um pouquinho, marxista. O capital, e então seus detentores, não valorizam a força de trabalho – isso quer dizer: não empregam pessoas nas firmas que eles dirigem – a não ser na medida em que eles possam tirar lucro disso. É o que Marx chama, em seu jargão, a extração da mais-valia. Então nuca é certo que o capital possa valorizar toda a força de trabalho disponível. Já existiram outros períodos de desemprego em massa, notadamente durante os anos 30, depois da grande crise de 1929. Mas hoje, parece que mesmo para além da crise iniciada em 2008, este impasse do emprego seja mais estrutural, talvez definitivo. A mundialização talvez crie uma impossibilidade intrínseca, para o capitalismo que atingiu sua máxima extensão, de valorizar, sob a forma de lucro que ela retira, a força de trabalho disponível. E talvez isso vá se agravar ainda. Pode ser que o sistema dos lucros, os quais são as únicas fontes da dinâmica do capital, enfrentem uma barreira criada por sua própria extensão, uma vez que ele teria o dever, para valorizar a totalidade de força de trabalho disponível, de baixar muito fortemente a duração média do trabalho, de modo a poder contratar as dois milhões de pessoas que permanecem abandonadas.

Ora, isso ele não pode. E não o pode porquê? Porque ele não pode baixar a duração do trabalho. E por que é que ele não pode baixar a duração do trabalho? Bem, muito simplesmente em razão dos mecanismos de reprodução do lucro: nós sabemos que um número importante das horas de trabalho é destinada a mais-valia, eu que, abaixo desse número, ele não tirará mais lucro. Nós podemos considerar que provavelmente, hoje, para haver uma valorização capitalista razoável da força de trabalho, é preciso que a duração média do trabalho, a escala mundial, continue a se situar por volta de quarenta horas. Enquanto que durante esse tempo existe milhões de pessoas, e provavelmente um pouco mais, que não tem trabalho.

Nós poderíamos então calcular em sentido inverso. Nós poderíamos dizer: levando em conta a situação, um governo mundial razoável e preocupado com o bem público, poderia considerar que é preciso decidir – como Marx imaginou que aconteceria – que a duração média do tempo de trabalho a escala mundial deve ser reduzida para vinte horas. Talvez para menos. Evidentemente nós teríamos assim uma rápida reabsorção desta enorme massa de pessoas que não podem ascender ao trabalho, se tornarem assalariados. A redução da duração do trabalho era um ponto central das proposições reformistas revolucionárias de Marx, pois ele viu bem que, para arrancar o trabalho da dominação capitalista, a ação de massa operária deve empurrar a diminuição do tempo de trabalho até o ponto onde o capital não toleraria mais.

Mas no momento, é o capital quem venceu. E como é ele quem venceu, não somente ele não tolera mais a diminuição do tempo de trabalho, nem mesmo as magras trinta e cinco horas de Martine Aubry. E aqueles que não podem entrar nesse quadro, bem, eles declaram impavidamente que eles não são absolutamente nada. É porque há em nosso mundo uma enorme massa de pessoas que não são consideradas para nada. É um ponto que é absolutamente necessário de levar em conta se nós queremos compreender isso que se passa.

Notemos também que a geografia de tudo isso, a repartição no espaço destas forças disponíveis consideradas para nada, está claramente ligada ao zoneamento. Nas áreas em que a situação é anárquica, onde o Estado está ausente, onde circulam os bandos armados, nos resignamos sem muita dificuldade que as pessoas que estão lá estejam em sentido estrito sem nenhuma defesa instituída, que elas apodreçam nos campos “humanitários”. Por que se preocupar exageradamente com sua existência, uma vez que elas não são nem consumidores nem força de trabalho? Elas só têm que errar entre os bandos armados e os predadores capitalistas de todos os tipos, viver como elas puderem.

Isso explica porque zonas inteiras estejam entregues a um gangsterismo político de tipo fascista, o que não seria o caso, o que não poderia ser o caso, se não houvesse milhares de pessoas que são consideradas para nada. Se em função de uma duração racional do tempo de trabalho, todo o mundo estaria integrado nas figuras da sociabilidade ordinária, da sociedade comum, essas situações de banditismo e de tráfico humano seriam impossíveis. Mas a combinação do zoneamento, isto é a destruição dos Estados pelos predadores ocidentais, e do fenômeno da existência de milhares ou de milhões de pessoas que são consideradas para nada, conduziu a existência, em espaços consideráveis, às vezes em imensos países, como o Congo, de isso que nós podemos chamar de dominação de tipo gangster.

De que se tratam eles? Uma espécie de firmes capitalistas armados, selvagens, ocupando os lugares vacantes, lá onde o Estado desapareceu, arregimentando os que foram abandonados, notadamente as crianças e os adolescentes, e se entregam a uma pilhagem articulada ao mercado mundial. Como quando o Daech vende para a Turquia fileiras de caminhões que transportam gasolina. É neste contexto que aparecem os bandos armados fascistas de coloração religiosa.

Ah, a religião! O islã! Enfim você vem a ele, vão dizer nossos grandes pensadores islamofóbicos. Sim, sim, eu venho a ele. Me eu vou lhe dizer logo de início, a religião sempre pode ser um pretexto, uma cobertura retórica, manipulável e manipulada pelos bandos fascistas. O cristianismo não ficou para trás. Pegue muito simplesmente o fascismo espanhol, aquele de Franco, extremamente focada sobre as execuções em massa, inclusive muito tempo depois do fim da guerra civil: esse fascismo estava literalmente colado à religião católica. Os bandos armados de Franco foram abençoados pelos bispos, e falou-se da grande Espanha católica que iria substituir a horrível Espanha republicana. No entanto, na realidade não foi outra a questão do poder do Estado e seu saque pelos fascistas. Então, não é muito sério culpar o Islã, francamente. Acima de tudo, a natureza dos bandos armados é de ocupar um terreno de tipo capitalista devastado para ali instalar um gangsterismo rentável, que em seguida poderá tomar, para agradar aos jovens revoltados, as cores espirituais as mais variadas. As religiões, como aliás muitas outras ideologias, aí incluídas, infelizmente, revolucionárias, sempre puderam se combinar com as práticas mafiosas. A própria máfia italiana, aquela dos padrinhos, exibiu, sempre exibe, um catolicismo arrogante.

Mas tudo isso cai no lado subjetivo de nossa situação.

III) As subjetividades reativas

Eu gostaria de vir às subjetividades típicas que aparecem em nossa conjuntura. Por “subjetividades típicas” eu compreendo as forças psíquicas, as formas de convicção e de afeto que são as produções do mundo sobre o qual eu falo. Esta não é uma declaração de todas as subjetividades possíveis. São aquelas que considero serem induzidas ou produzidas pela estrutura do mundo contemporâneo.

Eu penso que elas existem em três: a subjetividade ocidental, a subjetividade do desejo do Ocidente, que não é a mesma, e a subjetividade que eu chamaria “niilista”. Eu penso que essas três subjetividades são as criações típicas do estado contemporâneo do mundo.

A subjetividade ocidental é a subjetividade daqueles que compartilham os 14% deixados pela oligarquia dominante. É a subjetividade da classe média e ela está além disso largamente concentrada nos países mais desenvolvidos. É aqui que as migalhas podem se distribuídas. Essa subjetividade tal que nós a vemos funcionar, e na minha opinião trabalhada por uma contradição. Um primeiro elemento, é um grande contentamento de si mesmo, os Ocidentais são muito contentes de eles mesmos, eles se apreciam bastante. Existe uma arrogância histórica por trás disso, evidentemente: não há tanto tempo assim os Ocidentais eram os detentores do mundo. À época, nada a não ser adicionar as possessões, conquistadas por violência pura, os Franceses e os Ingleses, eles tinham quase a cartografia do mundo extra-europeu inteiro; O que resta desse poder imperial direto e imenso, é uma representação de si mesmo como sendo, de alguma forma, a representação do mundo moderno e como inventando e defendendo o modo de vida moderno.

Mas isso é apenas um dos lados. O outro lado, é um medo constante. O medo constante de que? Eu direi, usando um materialismo um pouco brutal, o medo de se ver balançar, a partir dos 14% que nós compartilhamos, do lado dos 50% que não tem nada. No mundo tal como ele é, os membros da classe média são esses que nós podemos chamar dos pequenos privilegiados? E o medo constante de um pequeno privilegiado, e de perder seu privilégio.

Talvez de fato, que, nas tensões do capitalismo contemporâneo, nós não poderemos mais conservar como antes a classe média. Isso não é impossível. Não é impossível, dada a crescente ferocidade da oligarquia e os conflitos bélicos custosos que ela é forçada a assumir para defender suas zonas de lucro, que nós não pudéssemos mais dar a classe média seus atuais 14% de recursos disponíveis, mas somente 12% por exemplo. Haveria então o espectro ameaçador disso que nós chamamos a “pauperização das classes médias”.

É por isso que nós temos a relação dialética tipicamente ocidental entre um extremo contentamento arrogante de si mesmo e um medo constante. De onde a definição da arte dos governos democráticos hoje: a arte de dirigir esse medo, que anima a sua base ideológica e eleitoral, a classe média, não contra seus governos, mas contra tais ou tais representante da massa desamparada. Esta é uma operação importante: fazer compreender a classe média que com efeito existem os riscos, que seu medo é legítimo, mas que esse medo não é de forma alguma motivado pelas sábias medidas do governo e pela gestão democrática dos negócios, pois sua única causa e a intolerável pressão exercida constantemente sobre a classe média pela enorme massa dos desamparados, e em particular pelos representantes internos a nossa sociedade desta massa: os trabalhadores estrangeiros, seus filhos, os refugiados, os habitantes das cidades sombrias, os fanáticos muçulmanos. Eis o bode expiatório entregue no pasto, pelos nossos mestres e seus burocratas, ao medo das classes médias, o que é a organização de uma guerra civil insidiosa, da qual nós vemos cada vez mais os efeitos sinistros. Tais são as contingências subjetivas desses que representam, em um certo sentido, o corpo mesmo do Ocidente.

Consideremos agora aqueles que não são nem da oligarquia, nem da classe média. Isso quer dizer que não são nem consumidores nem assalariados, e que desse fato são situados fora do mercado mundial. É preciso entender que eles são constantemente expostos ao espetáculo da abundância e da arrogância dos dois primeiros grupos. A mídia de massa os fornece. As mídias de massa acompanham em toda parte a expansão mundial do capitalismo, e organizam o espetáculo permanente dessa expansão. Nós vemos aqui dois fenômenos absolutamente ligados. E além disso as mídias planetárias estão concentradas em empresas multinacionais gigantescas, como Apple, Google, etc.

O efeito deste acompanhamento espetacular e que não somente, o modo de vida ocidental, modo dominante, não é negociável, como o fiz o valoroso Bruckner, mas que além disso, ele se mostra a todo mundo como tal. E então, os despossuídos, onde quer que eles estejam, tem o espetáculo constante da abundância e da arrogância dos outros. E isso, na ausência, que eu espero provisória, de uma saída ideológica e política de conjunto, visando à contrariar, depois fazer desaparecer a hegemonia do capitalismo; ele vêm então, esses despossuídos, que em algum lugar há um núcleo de abundância, de arrogância, de pretensão à civilização, à modernidade, ao qual eles têm nenhuma meio de se opor realmente no pensamento ou na ação, não mais do que não lhe compartilha a realidade. E o resultado é uma frustração amarga, uma mistura clássica de inveja e revolta.

De onde as duas outras subjetividades típicas. Aquela que vem primeiro é a que eu chamaria de o desejo do Ocidente: o desejo de possuir, de compartilhar, isso que é representado, e é por toda parte apresentada com a abundância ocidental. Se trata então de tentar adaptar um comportamento e um consumo de classe média sem ter os meios para isso. Ora, isso evidentemente leva a fenômenos como o fluxo migratório, pois a forma simples do desejo do Ocidente é muito simplesmente o desejo de deixar as áreas devastadas para juntar-se esse famoso mundo ocidental, pois é bem ali, pois que todo mundo lá é contente e se banha na abundância moderna e magnífica. E se não podemos lá ir, nós podemos nos abandonar às alienações locais, isso é, as tendências a copiar, com meios miseráveis, as configurações e os modos de vida ocidentais, como as mulheres africanas que, desesperadamente, tentar embranquecer a pele ou alisar os cabelos.

Nós poderíamos falar bastante desse tema do desejo do Ocidente, que é fundamental hoje no mundo e que tem efeito consideráveis bastante desastrosos.

A última subjetividade, a niilista, é um desejo de revanche e de destruição que, evidentemente, está acoplada com o desejo de partir e de imitação alienada. Este desejo violento de vingança e destruição, é natural que ele seja frequentemente expresso, formalizado, em mitologias reativas, em tradicionalismos que nós exaltamos e que nós declaramos defender, aqui incluído as armas à mão, contra o modo de vida ocidental, contra o desejo do Ocidente.

Se trata do niilismo daqueles que a vida não é contada para nada. Esse niilismo se constitui em aparência contra o desejo do Ocidente, mas porque o desejo do Ocidente é seu fantasma secreto. Se o niilista não ativa a pulsão de morte, se ele não der livre curso à sua agressividade, eventualmente assassina, ele sabe muito bem que na realidade ele também sucumbiria ao desejo do Ocidente, já presente nele.

É preciso ver bem que essas duas subjetividades típicas – a subjetividade do desejo do Ocidente e a subjetividade niilista de revanche e de destruição – forma um par que gravita, versão positiva e versão negativa, – em torno do fascínio exercido pela dominação ocidental.

E tudo isso, em um contexto onde nada é proposto que seria um levante coletivo afirmando e organizando a perspectiva de uma outra estrutura de mundo. De sorte que essas três subjetividades típicas são em realidade todas internas à estrutura de mundo tal como eu a descrevi. E é a partir desta interioridade que eu vou caracterizar isso que eu chamaria de fascismo contemporâneo.

IV) O fascismo contemporâneo

De maneira geral, eu penso que nós podemos chamar « fascismo » a subjetividade popular que é gerada e provocada pelo capitalismo, seja por que há em uma crise sistémica grave – o que foi o caso nos anos trinta – seja talvez mais profundamente, sob o efeito dos limites  estruturais do capitalismo colocados em evidencia pela mundialização. Mundialização que, lembremos, é de uma só vez uma expansão e uma revelação da sua incapacidade de valorizar o conjunto da força de trabalho disponível.

O fascismo é uma subjetividade reativa. Ela é intra-capitalista, pois ela não propõe nenhuma outra estrutura do mundo e se instala dentro do mercado mundial, na medida em que ela reprova o capitalismo de não estar em condições de cumprir as promessas que ele faz. Se fascisando, a desiludido do desejo do Ocidente se torna inimigo do Ocidente pois na realidade o seu desejo de Ocidente não é satisfeito. Este fascismo organiza uma pulsão agressiva, niilista e destrutiva, pois ele se constitui a partir de uma repressão intima e negativa do desejo de Ocidente. Ele é amplamente um desejo reprimido do Ocidente no lugar do qual vem se situar uma reação niilista e mortífera no qual o alvo é precisamente isso que era o objeto possível do desejo. Nós estamos em um esquema psicanalítico clássico.

Quanto a sua forma, podemos definir o fascismo moderno como uma pulsão de morte articulada dentro de uma linguagem identitária. A religião é um ingrediente de fato possível dessa articulação : o catolicismo o foi para o fascismo espanhol durante a guerra civil, o Islã é hoje em dia no Oriente Médio, particularmente lá onde a divisão imperial destruiu os Estados. Mas a religião não passa de uma roupagem, ele não é de forma alguma o fundo da questão, é uma forma de subjetivação, mas não é o conteúdo real da coisa. O conteúdo real ao qual os detritos de fabula religiosa dá a sua forma deriva da onipresença do desejo do Ocidente, sob a forma afirmativa e explicita ou sob a sua forma reprimida e mortífera.

A forma prática deste fascismo, é sempre a lógica do bando, do gangsterismo criminal, com a conquista e defesa dos territórios onde temos o monopólio dos negócios, como tem o intermediário de negócios no seu canto da cidade. Para se manter, é necessário o caráter espetacular da crueldade, da pilhagem, e também no caso das diferentes máfias, a reciclagem permanente das coisas no mercado mundial. De onde que o desejo niilista não passa do inverso do desejo do ocidente, mesmo as zonas desestatizadas onde prospera a subjetividade niilista são articuladas ao mercado mundial, e portanto ao real do Ocidente. Daesh, como lhes disse, é uma firma comercial que vende o petróleo, obras de arte, algodão, armas, várias coisas. E os seus mercenários são de fato assalariados, com alguns privilégios suplementares devido à pilhagem e a redução à escravidão dos presos e prisioneiras.

Esta forma de fascismo é na realidade interna à estrutura do capitalismo mundializado da qual ela é de alguma forma uma perversão subjetiva. Todo mundo sabe, além disso, que as firmas, mas também clientes ocidentais comprovados como o governo da Arábia Saudita, não cessam de negociar com os bandos fascistas instalados nos zoneamentos do oriente médio, e eles negociam em prol de seus interesses próprios. Digamos finalmente que este fascismo é o reverso de um desejo do Ocidente frustrado, mais ou menos organizado militarmente sob o modelo flexível do bando mafioso e com colorações ideológicas variáveis onde a religião tem um lugar puramente formal.

O que me interesse aqui, é o que esta subjetividade fascisante propõe aos jovens. Apesar de tudo os assassinos de janeiro assim como os de novembro são jovens, esses são os jovens daqui. São jovens homens com entre vinte e trinta anos, majoritariamente originários da imigração operária, na segunda ou terceira geração. Estes jovens se consideram como sem perspectiva, sem um bom lugar que eles pudessem ocupar. Mesmo aqueles que são um pouco educados, que tem um vestibular (bac), estão nesta visão das coisas : não há lugar para eles, não há lugar em todo caso conforme aos seus desejos. Estes jovens se veem então na margem ao mesmo tempo do salariado, do consumismo e do futuro. O que então os propõe a fascização (que chamamos estupidamente, na propaganda, uma « radicalização », enquanto que é uma pura e simples regressão) é uma mistura de heroísmo sacrificial e criminal e de satisfação « ocidental ». De um lado, o jovem vai se tornar alguém como um mafioso orgulhoso de o ser, capaz de um heroísmo sacrificial e criminoso: matar os ocidentais, vencer os assassinos dos outros bandos, praticar uma crueldade espetacular, conquistas territórios, etc. Isto por um lado, e por outro, os toques da « bela vida , de satisfações diversas. Daech paga bastante bem ao conjunto da sua mão de obra, muito melhor do que o que eles poderiam ganhar « normalmente » nas zonas onde vivem. Há portanto um pouco de dinheiro, há mulheres, há carros, etc. Temos portanto uma mistura de proposições heroicas mortíferas, e ao mesmo tempo, uma corrupção ocidental pelos produtos. E isto, é uma mistura consistente que sempre esteve no fundo, uma das características dos bandos fascistas.

A religião pode perfeitamente ser a fonte identitária disto tudo, enquanto justamente ela é um referencial antiocidental apresentável. Mas como nós o vemos, no fim das contas, a origem dos jovens importa pouco, a sua origem, digamos, espiritual, religiosa, etc. O que conta, é a escolha que eles fizeram quanto à sua frustração. E eles vão ser agregados à mistura de corrupção e heroísmo sacrificial e criminoso em razão da subjetividade que é a sua, e não a razão de sua convicção islâmica. De resto podemos observar que, na maior parte dos casos, a islamização é terminal ao invés de inaugural. Digamos que é a fascização que islamiza, e não o Islã que fascisa.

V – Quem são os assassinos?

Quem são nessas condições os assassinos de novembro, e o que dizer de seus atos? Digamos que os assassinos são os jovens fascistas, no sentido que eu venho de dizer. Uma comparação que eu faço de bom grado é entre eles e certas milícias fascisantes da França da última guerra. Nesses bandos de jovens milicianos, colaboradores dos Alemães, havia também o aspecto “Viva a morte!”, o aspecto, nós fazemos qualquer coisa, nós estamos armados, nós podemos matar as pessoas, torturá-las. Havia a crueldade exibida. E ainda havia também um monte de pequenos lucros do tipo, boa vida, ir aos bares, belos carros, dinheiro, garotas….. Era então a mistura dos mesmos ingredientes. E também, em um sentido, pelas mesmas razões. Quem eram, os milicianos? Eram os Franceses mas os Franceses da guerra civil, contra os interesses nacionais mais evidentes, uma vez que eles colaboravam com a ocupação nazista. Havia alguma coisa clivada lá dentro. Como seu imã, Petain, eles se reclamavam abundantemente da França, da bandeira nacional: “A França! A França!”. Agora eles estavam a caminho de trabalhar, inclusive em condições sórdidas contra os interesses nacionais elementares, que são sempre de não ser ocupado por uma potência estrangeira. É isso que chama a cisão interna dessa subjetividade fascista. Os assassinos de hoje são, em um certo sentido, os produtos típicos do desejo do Ocidente frustrado, as pessoas habitadas por um desejo reprimido, as pessoas constituídas por esse desejo. Eles se imaginam ser portados pela paixão antiocidental mas eles não são que um dos sintomas niilistas da vacuidade cega do capitalismo mundializado, de sua incompetência, de sua incapacidade de contar todo mundo no mundo tal como ele o molda.

Seu ato – um assassinato de massa cego – não é um atentado. Um atentado é isso que era organizado pelos resistentes contra os ocupantes nazistas e seus cúmplices petanistas, ou melhor ainda, isso que as gloriosas populistas russos montaram para matar o czar. De fato, se vemos o massacre da sexta 13 de novembro tal como ele se desenrolou, não é um evento organizado, nem militar, é em uma palavra, um evento sangrento, mas miserável. Ele pode o ser, pois os jovens fascistas decidiram que sua vida não vale nada. Essa é a mola absoluta deste tipo de evento. Sua vida para eles não vale nada. E como sua vida para eles não vale nada, a vida dos outros não vale mais nada também. É verdadeiramente o niilismo que está na base de tudo isso. Finalmente nós vamos queimar sua vida em um “heroísmo” tão ridículo e artificial quanto criminal. Eu penso que é preciso chamá-lo “um assassinato de massa” horrível no qual, ponto também horrível, os assassinos se incluem eles mesmos. Existe uma forma criminal suicida que porta em seu auge o instinto de morte. Não há mais nada, nem vítimas, nem assassinos.

A evidência, é um ato fascista atroz e criminal. No entanto, é adequado, como se tornou o chamado oficial, de falar em “bárbaros”. Essa palavra “barbárie” e desde sempre oposta a “civilizado”. A “guerra aos bárbaros” é a guerra dos civilizados contra os bárbaros. Mas então, não há razão alguma de conceder à arrogância ocidental que ela representa a civilização em relação a um ato atroz e criminal. É mesmo o momento de lembrar que os assassinatos ocidentais são hoje permanentes e extraordinariamente sangrentos.

Três exemplos somente:

Os ocidentais têm o poder atualmente, com os drones, mas também com as equipes especializadas nisso que nós chamamos na França de expedições “homo” (para “homicídio”) de assassinar as pessoas sob ordem secreta dos chefes de Estado. O assassinato é mais cômodo com os drones, pois nós não temos mesmo necessidade de sair do escritório. Nem Obama, nem Hollande se privam de seus meios, cômodos ou menos cômodos. Mas se tratando dos drones, nós fizemos as estatísticas: para a morte do alvo realmente buscado (digamos um chefe de bando) há em geral nove vítimas colaterais, não importa quem, as crianças locais. Para matar dez adversários é preciso matar noventa pessoas que não tem nada a ver. É isso o drone. Então, se você multiplica os assassinatos de alvos pelo drone, como o fez ao longo de todo o seu reinado o calmo e resoluto Obama, você tem muito rapidamente as centenas e centenas de pessoas que foram massacradas por nada. Se então nós chamamos barbárie o fato de matar as pessoas por nada, os Ocidentais são bárbaros todos os dias, é preciso sabê-lo. Simplesmente, no primeiro caso de barbárie, a barbárie dos bárbaros, nós temos um assassinato de massa assumido e suicida. No caso da barbárie dos civilizados, é um assassinato de massa tecnológico, dissimulado e satisfeito.

Segundo exemplo. A proporção dos mortos ocidentais nos conflitos explícitos, Iraque ou Palestina, é de aproximadamente 1 para 20. Os Ocidentais chegaram a pretender que isso que é o objetivo, é zero morte de seu lado e todos os mortos do outro, o que é uma prática da guerra bastante especial. Eles não chegaram a isso de fato. Mas nós estamos a pouco, se nós contamos os mortos nos conflitos iraquianos, afegãos, palestinos, etc. em média um morto de um lado para vinte do outro. Essa desproporção fantástica é registrada pelas pessoas, as pessoas que vivem esse tipo de situação veem bem que é assim que isso se passa, e para eles, o maior bárbaro é o Ocidental.

Terceiro exemplo. Peguemos, sem mesmo examina-lo em sua significação política, a questão de Gaza: 2000 mortos do lado palestino, entre os quais cerca de 450 crianças. Então, isso é civilizado? Porque são os aviões que matam, retalhando, triturando e queimando as pessoas, e não os jovens estúpidos que atirem contra a multidão antes de se suicidar?

Os assassinos são jovens fascistas que lembram os milicianos de Pétain, cujos motivos são sujos, mortíferos e além disso sem conteúdo verdadeiro. Mas não há razão particular de fazer como se, aos olhos desse tipo de gente, os exércitos ocidentais representassem a civilização. É algo de fato inadmissível. A guerra é a guerra, é sempre os assassinatos mais ou menos sujos, nós mesmos torturamos, matamos, departamos tanto e mais nas guerras coloniais, e depois. E nós continuaremos a fazê-lo, em grande escala, se, como nossos governantes o proclamam, é chegado o tempo de uma guerra final contra o “terrorismo”.

VI) A reação do Estado: « França » e « Guerra »

Eu penso que a função fundamental de um Estado como o Estado na França, é de disciplinar a classe média. E esta é espetacularmente a obra da esquerda. A esquerda é excelente quando se trata de disciplinar a classe média. Eu lhes lembraria que à época da minha juventude, durante a guerra da Argélia, a esquerda, que, com Guy Mollet, dirigia o governo, obteve os «poderes especiais» – como hoje ela obtém uma quase unanimidade pelo “estado de urgência” – para lançar uma guerra total. Parece bem que para disciplinar a classe média dizendo-lhe “a guerra, a guerra”, coisa – a guerra – que não está mais nos hábitos da sobredita classe, é preciso o queixo erguido de um orgulhoso socialista.

Agora evidentemente esta disciplina da classe média sob a palavra de ordem da guerra é também uma ficção. É uma enganação, ninguém está pronto para fazer a guerra aqui, neste país. A palavra “guerra” não está no seu lugar. Em janeiro o Estado havia utilizado a laicidade republicana, desta vez ele tenta utilizar o velho nacionalismo, a França, a bandeira tricolor ligada a isso que é sua eterna mola “É a guerra”. Mas hoje, esta ligação é obviamente absurda. E além disso na minha opinião isso não funcionará por muito tempo.

Então eu gostaria de dizer algumas palavras sobre estas duas palavras. Comecemos pela França. A França, hoje, é um significante sem conteúdo afirmativo definível. Hoje, o que é a “França”? É um ator de segunda classe na estrutura global que eu descrevi. Então nós dizemos “nossos valores!”, mas os valores da França são quais? Eu tenho meu ponto de vista a respeito. A França, o que a singularizava — porque se há valores franceses, é preciso se perguntar o que os singularizam – era a tradição revolucionária. Republicana no início, a partir da Revolução de 89. Depois socialista, anarco-sindicalista, comunista e finalmente esquerdista, tudo entre 1789 e, digamos, 1976.

Mas isto acabou. Acabou. Hoje, a França não é mais representável de maneira decente como o lugar privilegiado de uma tradição revolucionária. Ela é sobretudo caracterizada por uma coleção singular de intelectuais identitários. Ela é também manifestada por algo que não tem sido feito em nenhum outro lugar: leis abertamente discriminatórias concernindo uma parte dos pobres que ela criou. As leis sobre o véu islâmico, tudo isso, eu lamento, são leis de estigmatização e de segregação visando quem? Visando os pobres, as populações pobres que têm sua religião, como os bretões foram católicos no tempo passado. Demonizá-los, eles, enquanto é o capitalismo francês que criou a sua pobreza. Por que? Porque é ele que destruiu o aparelho industrial francês. Por que há tantas pessoas vindas do Terceiro Mundo conosco? Porque nós fomos buscá-las! É preciso lembrar a época dos anos cinquenta aos anos oitenta: nós íamos de avião para o Marrocos para trazer os trabalhadores, necessários para o trabalho nas linhas de montagem. Essas pessoas fizeram vir suas famílias, houve uma segunda geração, houveram os jovens cujos destino normal era o de se tornar trabalhador, trabalhador qualificado, técnico, … Mas nós destruímos o aparelho produtivo, as fábricas estão praticamente terminadas, tudo foi progressivamente deslocado. Então, esses jovens não têm nenhum futuro. Tudo isso é baseado em uma enganação, uma detestável enganação. Nós os importamos sem garantia, e agora queremos exportá-los … Mas não é assim, isso não se trata como “material humano” mesmo…

Portanto, eu realmente penso que hoje “França” quer dizer um pouco tudo isso, que não cria um emblema significativo, visível e interessante. E aqueles que estão em tensões identitárias na França, nós vemos bem o que eles querem. Ao final eles querem, como sempre nas tensões identitárias, que nós persigamos os outros. Porque é sempre isso a identidade, no fim das contas, quando ela não tem o significado universal como tinha a tradição revolucionária. Uma identidade que não tem significado universal não se define senão pela perseguição daquilo que não é ela própria. Não existem outros meios para lhe dar uma aparência de vida. As pessoas que dizem “França, França”, mas o que eles fazem pela França? Bem, eles bradam contra os árabes, isso é tudo. E eu não penso que isso seja um serviço eminente prestado à França. Isso não honra particularmente os franceses. Contudo, estes valorosos “franceses” são menos de 3% a aceitar, se necessário, morrer pela pátria (a pesquisa foi feita …).

Quanto à guerra, uma coisa é clara: não são os “bárbaros” que declararam uma guerra, mas é o Estado francês que foi, ao reboque das empresas e algumas vezes dos Americanos, misturar-se aos sujos negócios imperiais, participar dos zoneamentos, destruir os Estados e mesmo criar por isso o conjunto da situação que eu tento fazer o panorama. E essa situação inclui a gênese subjetiva de jovens fascistas nas áreas devastadas da vida social, e o fato de que toda uma parte da população mundial é contada para nada.

VII / As condições de um retorno de uma política de emancipação, separada do esquema do mundo contemporâneo

Eu venho ao que vai me levar à conclusão: como nestas condições tentar construir um pensamento diferente? Como romper com tudo isso? Quero dizer: romper com a propaganda que acompanha toda declaração de guerra, mesmo se esta “guerra” é fictícia, ou falsificada. Há uma grande tradição de declarações de guerra, de delírios nacionalistas, de propagandas absolutamente fictícias. Basta ver a literatura sobre os alemães em 1914. Monstros! Assassinos! Na verdade, é preciso dizer, os alemães de 1914 eram muito pouco diferentes dos franceses.

Então, como fazer? Eu penso de início que o espaço que é definido como “a França” e os fantasmagóricos franceses, é preciso substituir, mentalmente e praticamente, um espaço internacional. Uma maneira de pensar internacional, eu diria mesmo transnacional, que esteja à altura da mundialização capitalista. Porque há muito tempo que os capitalistas deixaram de ser franceses, eles estão à frente. Eles estão em casa em Shanghai, em San Francisco, no Marrocos, no Congo, em São Paulo …

E nós estaríamos, nós, pequenos franceses da classe média bem acolhidos na França deles? Isso é um enorme atraso. E ainda mais se nós agravamos este atraso pelo fato de que não somos mesmo capazes de reconhecer como estando conosco, e junto de nós, as pessoas que estão lá, sob o pretexto ridículo que eles são muçulmanos, ou que eles vêm dos confins da África, ou, ainda pior, que eles se vestem e se penteiam de um jeito e não de outro, ou que eles comem uma carne preparada de maneira particular! Se por nossa vez nós contamos por nada, e mesmo como inimigos, as pessoas que vivem aqui, mas que o capital não conta para nada. Se nós somos incapazes de falar e agir com essas pessoas, muito especialmente eles, afim de criar na situação uma abertura, um caminho político novo, para empreender com eles  nossa saída afirmativa, criativa, de um Ocidente obscurecido.

É ainda terrível considerar que a derrota revolucionária foi tal que nós não estamos mesmo em condições de ter mentalmente uma representação mundializada dos problemas, enquanto nossos adversários imediatos a conquistaram há muito tempo. E eles o conquistado em detrimento justamente de tudo isso que eram as proteções estatais. Então é preciso que por nossa vez, que nós tenhamos a força de nos desinteressar parcialmente do Estado, em qualquer caso o Estado tal como ele é. Não votemos mais! Não demos nenhuma importância às proclamações enganadoras e vãs dos nossos governantes! Retiremo-nos para outros lugares, nos lugares onde se instala, muitas vezes indistinta, mas sempre real, a vontade popular. Porque o Estado é o que vem quando “França” não quer dizer mais grande coisa. É então que o Estado nos convoca, como faz hoje. Mas nós sabemos, nós, que o Estado, todas as tendências confundidas, é neste momento apenas um agente da nova sequência globalizada do capital.

Há certamente uma contradição entre o destino fascista e criminal da frustração de um lado, e o desenvolvimento mundial do capitalismo e de seu apoio de massa, a classe média. Existe uma contradição mortal, nós a vemos bem. No entanto, essa é uma contradição subjetiva interna ao próprio capitalismo. Não é uma contradição entre o Bem e o Mal. Não é uma contradição entre os valores da Civilização e da Barbárie. É uma espécie de torção interna que faz com que se retorne contra o Ocidente toda uma parte de sua impotência. Sua impotência quando se trata de criar  um espaço subjetivo habitável pelo conjunto da juventude do mundo.

Isso não desculpa nada, isso não desculpa qualquer crime. O fascismo sob todas  suas formas é um horror. Mas é preciso compreender bem que nesta contradição, a contradição entre o niilismo assassino dos fascistas e o desdobramento imperial destrutivo e vazio do capitalismo globalizado, nós não podemos e não devemos nos tornar seus agentes. Em nenhuma de nossas determinações mais essenciais, nós não podemos nos deixar estruturar por esta contradição.

Do que nós sofremos é da ausência em escala mundial de uma política que fosse apartada de qualquer interioridade ao capitalismo. É a ausência desta política em escala mundial que faz com que apareça e se crie uma juventude fascista. Não é a juventude fascista, o banditismo e a religião que criam a ausência de uma política de emancipação apta a construir sua própria visão e a definir suas próprias práticas. É a ausência dessa política que cria a possibilidade do fascismo, do banditismo e das alucinações religiosas.

Eu penso então na tragédia de Fedra, a peça de Racine, quando Fedra diz, no momento em que ela deve confessar seu amor que a seus próprios olhos é um amor criminoso: “Meu mal vem de mais longe”. Nós podemos dizer também que nosso mal vem de mais longe que a imigração, que o Islã, que o Oriente Médio devastado, que a África submetida à pilhagem … Nosso mal vem do fracasso histórico do comunismo. Portanto ele vem de longe, de fato.

Por “comunismo”, eu entendo simplesmente o nome, o nome histórico que foi dado a um pensamento estratégico disjunto da estrutura capitalista hegemônica. Este fracasso foi selado provavelmente selado de meados dos anos 70 do século passado. E é por isso que a periodização  que nós propomos aqui começa nos anos 80, quando começa a se fazer sentir, sob a forma de uma energia nova do capitalismo, os efeitos deletérios do fracasso.

Onde nós estamos hoje? Existem as experiências locais, existem as convicções, eu não digo que não há nada. Existe toda uma série de coisas que devem ser irrigadas por um novo pensamento. E há também uma representação muito clara de forças disponíveis. Há um proletariado nômade vindo das áreas mais devastadas. Esse proletariado nômade é fortemente internacionalizado, já, e na terra inteira. Numerosos trabalhadores na Coréia são nepaleses, ou vindos de Bangladesh, assim como uma massa de trabalhadores daqui vieram do Marrocos ou do Mali … Há esse enorme proletariado nômade, que constitui uma vanguarda virtual da massa gigantesca de pessoas cuja existência, no mundo tal qual ele é, não é levada em conta.

Ainda há também os intelectuais, as pessoas da classe média, aqui incluídos ocidentais, que estão disponíveis para esta nova forma de pensar, que a portam ou tentam portá-la. Todo o problema é que eles se liguem ao proletariado nômade, que eles fossem a vê-lo, consultá-lo, conversar com ele. O pensamento novo em política não nasce senão das alianças inesperadas, nas alianças improváveis. Nos trajetos e encontros igualitários.

E depois, há uma juventude … Há uma juventude que, pelas razões que eu disse, agora quando ela chega à borda do mundo, se pergunta o que este mundo lhe propõe. E ela talvez não tenha desejo de se incrustar em uma das três figuras que eu chamei típicas. Ela talvez não tenha desejo de entoar o canto da glória do Ocidente; ela talvez não tenha desejo de ser animada por um desejo dessa glória e de tentar instalar aí seu destino; e ela talvez não tenha mais o desejo de estar no niilismo assassino. Enquanto uma outra proposição estratégica não lhe seja feita, ela permanecerá em uma desorientação essencial. O capitalismo é uma máquina de desorientar os sujeitos, desde que eles não se resignem a simplesmente se instalar na vacuidade do binômio consumidor / assalariado.

E se houver esta proposição, se houver esta irrigação por um novo pensamento, será isso que virá a superar o fascismo contemporâneo. Não serão as guerra sórdidas do Estado que não nos prometem nada de bom. Será a capacidade de reduzir, de anular a fascização rastejante, porque outra coisa será proposta. Nós criaremos uma quarta figura subjetiva típica, aquela que quer passar para além da dominação do capitalismo globalizado sem nunca se instalar no niilismo, este avatar assassino do desejo do ocidente. Isso que é o essencial. E para isso, é preciso que se criem alianças particulares,  é preciso pensar em uma outra escala. É preciso que os intelectuais, os diferentes componentes da juventude, estejam organicamente ligados, pelas experiências locais no início depois mais gerais, pouco importa, no ponto onde nós estamos, a escala das coisas. Mas que os jovens de todas as proveniências, que os intelectuais, façam um gesto, façam um trajeto, deem um passo em direção ao proletariado nômade.

Há uma urgência, mas uma urgência estratégica, proposta a todos. É um trabalho, e é um trabalho para todos. É um trabalho do pensar, é também o trabalho, o trajeto, de ir ver quem é este outro de que eu falo a vocês, quem ele é realmente, de recolher seu pensamento, suas ideias, sua visão das coisas e de inscreve-lo, ele, e você ao mesmo tempo, em uma visão estratégica do destino da humanidade, que tentará fazer com que a história da humanidade oblíqua, mude de direção, se retire da infelicidade opaca em que neste momento ela se afunda.

Eu sou de um otimismo inabalável, não é, portanto eu penso que é isso que será feito. Mas o tempo urge. O tempo urge…

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