O “sinceramento” da economia

Por Sandino Nuñez, via La diaria, traduzido por Daniel Fabre

“Se detrás do sinceramento econômico anunciado por Alfonso Prat-Gay estava, efetivamente, a crença que uma sociedade “vive melhor” quanto maior é seu poder de compra e consumo, e que os governos de esquerda não puderam, não souberam ou não quiseram fazer nada que não fosse tomar medidas para melhorar o nível aquisitivo dos mais pobres, para trazê-los a dinâmica carnívora da circulação de bens de consumo, mercadorias e dinheiro, então o problema não é a derrota da esquerda em mãos da direita, senão a da política em mãos da economia.”


Já se falou muito da brutal expressão “sinceramento da economia”, atribuída ao ministro da fazenda e finanças argentino. Esse título introduz a intenção de reacomodar em forma realista, sadia e pragmática uma orientação e um estilo populista que haviam criado a ficção ou esperança destorcida de que um docente podia comprar um automóvel, ou que um trabalhador do setor administrativo podia pagar por férias no Uruguay ou no Brasil. Tratava-se de uma esperança infame, mas não tanto por estar apoiada na corrupção, no tráfico mafioso de dinheiro, influencias e armas, na maquiagem e no ocultamento de cifras, na irresponsabilidade e improbidade administrativa, senão, sobretudo, por carecer de princípio de realidade. Era infame por ter criado um mundo que nenhum organismo multilateral vacilaria em qualificar de atrasado, retirando-o do círculo dos bons discípulos, os que têm pontuação aceitável e grau de investimento, e esperam, penteados e ansiosos, seu turno para entrar no mundo desenvolvido. Vita pelo tecnocrata liberal, a alternativa argentina é teatralmente clara: a) a corte monárquica de uma economia ridícula e maquiada como uma velha vaidosa e soberba que se endivida e passeia exibindo sua riqueza sem recursos genuínos (mas que, curiosamente, foi capaz de manter a canastra familiar – aluguéis, alimentos, eletricidade, gás, agua, transporte – ao alcance de um salário médio), ou b) a austeridade e a neutralidade técnicas que assegurem à gestão uma boa sintonia com a única coisa sagrada do liberal: o princípio (econômico) de realidade. Portanto, a César o que é de César.

Chamemos “populismo” a opção a) e a deixemos em paz. E chamemos “sinceramento” a opção b) e insistamos nela. O ponto extremo ao que chegou o liberalismo técnico e administrativo não é cínico absolutamente. Somente se pode falar de sinceramento se se tocou uma espécie de nó ontológico: o princípio da realidade somente pode ser econômico, e a economia somente pode ser capitalista. E o terrível é que, precisamente, não mente. Diz: veja, vivemos em um mundo de ficção nos últimos anos; é hora de abrir os olhos à realidade. E essa realidade se empenhou em provar que há poucos ricos e há muitos pobres, que os primeiros têm acesso irrestrito ao bem social, enquanto que os segundos, lamentavelmente, não. Não podemos fazer os pobres crer que podem comportar-se como os poucos ricos. Corremos o risco de alterar esse equilíbrio e de fazer voar pelos ares a equação econômica da realidade.

Pareceria, em um primeiro momento, que vamos em direção à uma resposta óbvia e já clássica: se a famosa realidade objetiva nos mostra obstinadamente um mundo que nosso juízo político o qualifica como injusto, mal, alienado, violento, etecetera, o que deveríamos fazer é modificar essa realidade em acordo como juízo ou à linguagem política. Mas nunca o contrário – e muito menos podemos chamar de política essa “inversão” (ou capitulação, ou prostituição) de nossa linguagem e nosso juízo para corrigi-lo de acordo com o real pragmático ou econômico. Se a economia, em sua plenitude e na densidade justa de sua sinceridade, traz mais acesso ao bem social para as minorias de sempre e menos para as maiorias cada vez maiores de sempre, devemos ir contra toda a economia. O problema, claramente, não é a ficção: é a realidade mesma, o inapelável axioma econômico que estrutura e rege a realidade. Pois é aí que parou o liberalismo tecnológico. No ponto exato em que, por fora de toda ideologia (no sentido clássico da palavra), pode assegurar que a tendência espontânea (ou natural, sincera, realista, pragmática) das leis que regem a vida social é coincidir ou sintonizar com o próprio capitalismo. Isto foi dito antes, está claro: mas nunca como agora. Pois agora todos “vivemos” ou “sentimos” sem que seja necessário acreditar, nem dizer, nem entender. É um axioma: a famosa globalização do capital não pode ser explicada em termos de hegemonia.

Então devemos entender que se criou um novo conflito que nos obriga a ser muito mais radicais. Talvez já não podemos dizer que há uma operação ideológica que projetou o capitalismo sobre a economia. Talvez tenhamos chegado a um ponto em que já não podemos entender, com a certeza de 50 anos atrás (digamos), que o capitalismo é o nome que damos a um modo histórico de produção (produção abstrata, livre mercado, livre concorrência, propriedade privada de bens e meios de produção, etecetera) e que a economia é uma dimensão irredutível da existência social e humana (sempre esteve aí, não tem história propriamente dita, é um universal abstrato), e que a operação ideológica então consiste em naturalizar o capitalismo fazendo-o coincidir com a economia, ou, em outras palavras, em fazer que vivamos em sua coexistência.  Já não podemos seguir sustentando a ideia de que a lenta história impessoal de evolução dos hominídeos (ou sua irmã gêmea, a do desenvolvimento do organismo vivo, ou a da vida mesma) obedece a um princípio ou a uma lógica econômica ou tecnológica abstrata irredutível (apetite-satisfação, adaptação, sobrevivência, economia de recursos, uma boa equação técnica esforço-resultado, etecetera), enquanto que a história política mostra a irrupção do capitalismo como uma anomalia ou uma perversão dessa boa economia antropológica, no momento terrível em que alguém se apropria dos meios de produção, explora a força de trabalho e obriga toda a máquina a funcionar na psicologia mesquinha do lucro, da acumulação, do benefício individual, etecetera. Nessa perspectiva, lutar contra o capitalismo seria algo assim como exorcizar da história esse sujeito ideológico mal (o capitalista), para liberar as forças produtivas e o trabalho humano na mesma linha neutra da tecnicidade da máquina econômica da natureza.

Essa ingenuidade é a que nos foi arrebatada pelo liberalismo técnico-administrativo. E essa deve ser sua única característica benéfica, por outra parte: tirar-nos da crença perigosa de que podemos combater o capitalismo sem tocar teoricamente a lógica de produção e do desenvolvimento das forças produtivas, ou (o que é mais ou menos o mesmo) que podemos combate-lo em nome de uma produção pensada nesse ponto em que ainda não havia sido corrompida pelo espirito do capitalismo e se mantinha como atividade técnica libre e utópica, propriamente humana. Estamos obrigados, sobretudo hoje, em tempos de sinceramento, a ir mais longe e mais fundo. Devemos entender que a economia é uma dimensão irredutível da existência social e humana somente porque a pensamos desde o horizonte de essas práticas históricas de produção chamadas capitalismo. Porque a rigor, e ainda que soe mal, o capitalismo é anterior à economia. Não é possível sustentar uma posição crítica ao capitalismo sem tocar toda a ontologia da economia (ou da economia política). Pois o capitalismo não é o ponto em que um sujeito avaro, aberrante e explorador toma a condução da máquina técnica: é, sempre já, a máquina mesma, a lógica mecânica, a adaptação monstruosa das pessoas a essa máquina, as linhas da evolução tecnológica das peças e partes da máquina em um ideal abstrato de desenvolvimento, funcionamento, desempenho, rendimento. Porque o capitalismo, em última instancia (como observa o próprio Karl Marx), tende a se desentender das relações “sócio-simbólicas” de produção para se realizar plenamente na generalização sem piedade das relações técnicas (é dizer, econômicas): um princípio ergonômico generalizado do semblante perfeito entre tecnologia e natureza, uma como prolongação da outra, uma como a imagem especular da outra. Um mundo objetivo ilimitado feito de problemas, obstáculos, soluções e funcionamento, e despojado de toda pergunta pelo significado. A velha ideologia se alojava nas relações sócio-simbólicas (sistema de representação, discurso, lei, teoria, hipótese, interpretação), e permitia cumprir a fantasia de uma crítica aos aspectos propriamente políticos do capitalismo. Mas a lógica econômica, a técnica e o princípio ergonômico se alojam não em uma “visão da realidade”, senão na própria estrutura objetiva da realidade (de fato, a ideia de que vivemos em uma realidade objetiva que podemos medir, calcular, descrever, planejar, etecetera, somente pode provir de uma sistemática e sustentada pratica sócio-histórica de apropriação técnica e econômica do mundo natural.

Nada pessoal, senhor: se sua vida e seu corpo não convergem com as linhas da evolução tecnológica da produção, das forças produtivas, do mercado e da empresa, você morre. E isso não é ideologia, está claro. É o performático absoluto do capital: é a ameaça radical que obtura toda linguagem, toda política e toda ética. O medo da catástrofe nos põe a simplesmente viver, é dizer, nos põe em um estiramento técnico ansioso e incessante, em um continuo estado de urgência ou de emergência que logra a irmandade posconciliar abstrata de todas as classes e todos os estratos sociais. Ricos, pobres, trabalhadores, industriais, latifundiários, burocratas, artistas, feirantes, autônomos, lúmpens e marginais: todos atravessados pelo mesmo furor e a mesma pulsão: seguir vivendo, sobreviver, adaptar-se, resistir à morte, competir pelo espaço como condições de produção, comercio e intercambio. A especulação, o benefício, o oportunismo: a mesma lógica triste e achatada, acima e abaixo, à esquerda e direita, a mesma lei técnica real do grande deus pragmático e darwinista, o capital, que – sem dizer – nos diz a todos.

Com esta perspectiva, por outra parte, nos damos conta de que no absoluto fetichismo técnico da democracia, não podemos distinguir, sem certo mal-estar evidente, a governos de esquerda ou de direita. Se detrás do sinceramento econômico anunciado por Alfonso Prat-Gay estava, efetivamente, a crença que uma sociedade “vive melhor” quanto maior é seu poder de compra e consumo, e que os governos de esquerda não puderam, não souberam ou não quiseram fazer nada que não fosse tomar medidas para melhorar o nível aquisitivo dos mais pobres, para trazê-los a dinâmica carnívora da circulação de bens de consumo, mercadorias e dinheiro, então o problema não é a derrota da esquerda em mãos da direita, senão a da política em mãos da economia. Deveríamos nos situar nas antípodas de algo que ouvi o senador Rafael Michelini dizer pela televisão há pouco: “Em condições econômicas internacionais adversas, como a queda dos preços dos produtos de exportação, a lentidão ou estancamento da economia de nossos sócios regionais grandes, etecetera, quero que o povo de meu país consuma, com uma boa dinâmica de circulação interna de bens, serviços e dinheiro”. Se diria que tanto melhor a economia quanto maior a ameaça catastrófica (viva em excesso, pois a morte ronda). Quando se perde vitalidade fora é preciso estimular a exacerbação da vida de dentro, todos vivendo e comprando e vendendo como animaizinhos desesperados. Faz tempo já que o sistema política em bloco (e não só a direita, ou as classes dominantes) funciona como um sistema de proteção da máquina, de seu funcionamento abstrato, do fetiche das cifras e índices. Então a política não deveria se buscar ou se construir no sistema político. Uma política verdadeira não deveria ser um cuidado da economia, nem uma tecnologia que vem cuidar de nossas vidas ou inclusive nos ajudar a viver melhor (pois isso, a rigor, vem a ser o mesmo que cuidar a economia como princípio de realidade). Deveria ser essa linguagem que nos permitiria propor o que é (o que significa) “viver”. Mas para isso é preciso estar disposto a morrer.

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