Unhas da mão esquerda

Por Clarisse Gurgel*

Hegel, em suas lições mais mundanas, já nos alertava para a ilusão da liberdade, quando, sabiamente, distinguia o que era efetivamente livre do que era espontâneo, ao tratar da figura do hábito. Basta imaginarmos a atitude espontânea de roermos as unhas para compreendermos a distinção que o filósofo buscava ilustrar. O fazemos, espontaneamente, sem percebermos que ferimos os dedos assim. Neste contexto, em que a esquerda rói suas próprias unhas, a luta política ganha, ainda mais, feições de mero oportunismo: simulamos radicalidade para compensar nossa falta de raiz…


Recentemente, fui chamada para fazer algo que, supostamente, todos nós da esquerda estamos acostumados a fazer fartamente: uma análise de conjuntura. Ciente de que este exercício aparentemente fácil não é simples, resolvi adotar a fórmula basilar: uma análise de conjuntura implica em analisar como eles (o capital) estão e como nós (trabalhadores em luta) estamos. Entretanto, certa de que uma investigação como esta deve servir de compreensão do cenário para um prognóstico, arriscaria aqui um esforço a mais: partir do conjunto para ensaiar a visão de nosso horizonte. Este ensaio, porém, impôs a mim um incômodo que tem se tornado, cada vez mais, comum: o mal estar de expor o nosso mal mais íntimo, aquele que nos habita. Ainda assim, incomodada, busco cumprir a tarefa de ajudar a recuperar o lugar da verdade como instrumento revolucionário. Mesmo quando nua e crua, mesmo quando dói, é ela que precisamos encarar de frente, na esteira do que tentava nos ensinar Lênin, ao criticar os oportunistas que, em um gesto imoral, forçam as cores da verdade. Em suas teses sobre as tarefas fundamentais do Segundo Congresso da Internacional, de 4 de Junho de 1920, Lênin afirma: ”o dever dos comunistas reside em não esconder as debilidades de seu movimento, mas criticá-las abertamente para livrar-se delas o mais cedo possível e de maneira mais radical”. Caso contrário, deslizando “como uma cobra entre pontos de vista que se excluem mutuamente, esforçando-se por ‘estar de acordo’ com um e com outro, reduzindo suas discrepâncias a pequenas alterações, a dúvidas, a bons desejos inocentes, etc., etc.”, os encarregados da tarefa revolucionária caem vitimas de sua própria miopia (Obras Completas, t. 8, p. 416). Assim, na contramão da cobra, sigo as lições do camarada.

Comecemos, pois, por como eles estão. É sabido que, desde 2008, o capital – e não o capitalismo, com seus valores e crenças – produz mais uma de suas crises cíclicas e estruturais. Crise esta relativa aos limites para a realização do próprio capital ou, em outros termos, uma crise de circulação de mercadorias, cuja base se encontra no aumento da pobreza, na queda da capacidade real de consumo de massa. Os empresários, cada vez mais, investem em tecnologia para reduzir, o quanto pode, o tempo de trabalho socialmente necessário para o trabalhador se reproduzir, mas esbarra neste próprio trabalhador pauperizado que, cada vez mais, não tem condições de comprar mercadorias e força os limites à desejada liberdade do empresariado em aumentar incessantemente os preços dos produtos. Para aqueles apegados a tabelas e fontes, basta uma busca rasa de índices de queda na compra a varejo, em todo o mundo, para entendermos a expressão, no consumo, da crise estrutural a que nos referimos. Na busca mesquinha por compensar este impasse, o capital zela por seu desenvolvimento desigual e combinado, tal como Marx já apontava nos Grundrisse, em seu fragmento sobre as máquinas, quando, após certos ensaios futurológicos e animadores que inebriam pós-modernos acerca do General Intellect, mantém o senso de realidade sobre a capacidade que o capital tem de reverter suas próprias contradições. Mesmo em suas cartas a Vera Zazulith, Marx já fazia menção a esta habilidade perversa do capital. Em face do que o mesmo Marx denominou como a tendência decrescente da taxa de lucro, o empresariado preserva um nível de atraso nas forças produtivas – variável e constante – em sua eterna conjugação de Haitis e Suíças, e conta com medidas que oscilam desde as políticas que hoje chamamos de keynesianas – em que o Estado atua, estimulando a demanda por consumo, por meio de obras públicas como o PAC, por exemplo -, até a financeirização de promessas, por meio do capital fictício, em que riquezas garantidas tais como o Pré-Sal – exploradas no silêncio da especulação – servem como motor para as loterias parasitárias do capital, sem a mínima distribuição de renda. O consumo, assim, mantém-se por meio do crédito, na crença ilusória no poder de compra, e os serviços públicos sofrem reformas em suas administrações, de tal maneira a se tornarem um negócio atraente, de fácil retorno, com prestações e servidores de baixo custo. Os direitos que, agora, são definitivamente retirados com a PEC 55 deixam de onerar as folhas de pagamento dos exploradores e expropriadores, de forma que a crise recai apenas sobre quem trabalha e os lucros do empresariado são garantidos. Deste modo, o pânico encarnado na materialização da ficção em trabalho social real – a pavorosa obrigação do cumprimento da promessa, seja a do crediário, seja a do especulador -, é adiado o quanto é viável, tal como Marx antecipou, em sua principal obra. Em um tempo de máxima ilusão, a alusão expressa o lugar que assume o futuro: aquele que deve, na medida do possível, ser permanentemente protelado. O trabalhador nada poupa e o empresariado não poupa o povo com seus jogos de eterna projeção a juros.

Antes, diante do esgotamento das primeiras fases de flexibilização do Estado na América Latina, o capital foi obrigado a certas inflexões: elegeu quadros políticos que mobilizavam o imaginário popular e que continham as pressões sociais. Este papel, no Brasil, foi muito bem executado por Lula, que, hoje, é dispensado, em face de um grave descenso da luta dos trabalhadores. O que permitiu ao capital expor sua face opaca, sem seus vernizes. Pois, quanto menos pressão exercemos sobre o capital, mais o Estado reassume sua condição exclusiva de comitê da classe dominante. Ainda que a hipótese aparente pouca dialética, o aparelho burocrático do Estado, no contexto de desorganização da classe trabalhadora, parece mesmo retornar a um estado puro, na contra-mão de caracterizações muito bem vindas, tais como a do grego Nicos Poulantzas, que, ainda assim, preserva sua atualidade metodológica, demarcando o condicionamento mútuo entre poder e luta. E aqui não aderimos a uma possível crença de que este condicionamento não contou, até hoje, com a forte hegemonia dos dominantes, por mais tautológica que esta observação possa parecer.

Mas como estaríamos nós, então, em face disto tudo? O exercício de caracterização de nosso tempo-espaço requer ainda maior esforço já que a classe trabalhadora, pela ausência de uma orientação comum, produz uma sociologia política ainda mais contraditória. Esta cena atual, de fragmentação e desalento, é o retrato de um novo tempo, em que se testemunha uma virada de época, em termos políticos: vivemos o amanhã do grande ato, em que o PT expôs sua identidade – tal como toda identidade -, desmantelada. Mas não se trata de um momento de constatação de que servimos de leito para o ovo da serpente. O luto do PT ainda nos provará que o que se perdeu está fora do PT. Mais precisamente, os diferentes estágios pelo qual passará o processo de elaboração desta perda poderá nos indicar que o lugar para o qual devemos olhar é aquele em que podemos reconhecer os limites políticos do social de nossos tempos. Um retorno ao social é o movimento necessário para a recuperação de seu papel político, em que se permita a ligação das diversas forças sociais com potencial revolucionário e sua narrativa, em especial no que diz respeito a certos valores universais que subjetivaram um campo de esquerda, em um passado recente. De todo modo, é deste social esvaziado de política que devemos tratar, ao buscar analisar como estamos. Algo que requer, desde já, que compreendamos as diferentes dimensões deste esvaziamento. Assim, do que podemos desenvolver de análise, há que se partir das diversas matizes oriundas do trauma do PT, desde aquelas que permanecem satélites do petismo, passando por outras que já se descolam, ainda que não tenham forjado novas práticas, até aquelas que já entendem a necessidade de um recúo na direção da reconstrução de uma sociologia política, nos termos a que nos referíamos de retorno da política ao social: o velho e ainda pouco experimentado trabalho de base. Nossa tese é a de que a superação de uma possível confusão entre o luto e a tristeza – e os dois termos, em alemão, evidenciam ainda mais esta proximidade (trauer, como marcas do estado do luto, é raiz para o adjetivo traurig, sinônimo de triste) – que desalenta muitos dos que experimentaram o PT no mundo, requer o preenchimento de forças efetivas daquilo que, sem isto, é puro semblante: a política. Curiosamente, alguns comparam o deserto em que nos encontramos ao cenário de vazio produzido pela ditadura civil-militar. Seriam duas heranças do avesso do avesso, de uma manobra que resulta na mesma face: 1. o regime autoritário de 64 como fertilizante da alienação política; e 2. seus herdeiros, cuja ousadia, senso de distinção de classe e desejo por participação genuína forjaram a própria CUT, o PT e o MST, estes que seriam os futuros coveiros da política. Se esta caracterização estiver certa, estaríamos diante de uma história forjada ciclicamente, em que a critica marxiana à economia política, com suas repetições como tragédia e como farsa, parecem ter vencido a crítica hegeliana dos atos sem cultura, distintos dos grandes feitos que, por meio da repetição, determinam-se na história como compreensões cultivadas.

É fato que testemunhamos o recrudescimento do papel que cumpriam certos valores que marcaram a trajetória da esquerda no mundo: o coletivismo, a cooperação, a fraternidade, a disciplina, a organização, a retidão de princípios. Valores estes que só se efetivam se experimentados. Em paralelo a esta derrocada, enquanto o capital se apropria do nosso repertório, gerenciando a reciclagem da revolução por meio de dinâmicas de grupo nas empresas, nós embarcamos no fetiche da autonomia, crédulos de que toda forma de ação coletiva é restritiva do desenvolvimento de nossas singularidades. Hegel, em suas lições mais mundanas, já nos alertava para a ilusão da liberdade, quando, sabiamente, distinguia o que era efetivamente livre do que era espontâneo, ao tratar da figura do hábito. Basta imaginarmos a atitude espontânea de roermos as unhas para compreendermos a distinção que o filósofo buscava ilustrar. O fazemos, espontaneamente, sem percebermos que ferimos os dedos assim. Neste contexto, em que a esquerda rói suas próprias unhas, a luta política ganha, ainda mais, feições de mero oportunismo: simulamos radicalidade para compensar nossa falta de raiz. Mesmo se pensarmos no ato de roer unha como aquele associado a uma espécie de obsessão pela perfeição de seu contorno, sobre nossos dedos, podemos identificar um paralelo com a nossa triste obsessão em forjar uma superfície lisa, a despeito do que, nós mesmos, produzimos em sua base. E a referência a Hegel permanece, pois é ele aquele que mais condenará o apego ao que chamou de Bela Alma, bem ilustrada por aqueles que, determinados a não se misturar às sujeiras do mundo, isolam-se, encastelados, em suas redomas de vidro claustrofóbicas, certos de que, assim, preservarão o ideal que forjaram de si mesmos. A esquerda está no mundo e precisa aprender com isto. É este aprendizado, que deve assumir feições de responsável constatação, que nos permitirá manter os olhos sempre atentos.

As greves atuais nos servem, mais uma vez, de exemplo, porém, do quanto, desatentos, somos subsumidos à lógica de nosso inimigo. Se antes as greves eram enclausuradas por suas direções vacilantes, atando suas próprias mãos com prazos fatais, como a data de aprovação orçamentária do governo, hoje, são, pornograficamente, defendidas em assembleias como “greves por tempo determinado”, convertendo o potencial da indeterminação que um movimento paredista possui em um ato efêmero cujo alvo é a verdadeira alcova: parar até a votação da PEC 55. O que fazer após sua aprovação, prevista, formalmente e concretamente, para o dia 13 de dezembro?  Eis a ficção assumindo seu caráter formal, em que a redenção dos militantes se encontra, de antemão, na incorporação da forma onírica e ilusória do capital, impressa em suas ações e discursos, em uma série de equivalentes: rendem-se, sucessivamente, como se lutassem. Não é preciso STF com seus oxímoros, em que o direito de gritar é preservado desde que se grite baixo, para esvaziar de conteúdo qualquer “instinto de classe”. A esquerda já cuida de paralisar a labuta sem interromper os trabalhos, de alardear uma greve geral de um dia, sem subsolo nas lutas econômicas das categorias, de radicalizar sem raiz. Tal como a Ator Principal da peça de Luigi Pirandello, Seis Personagens em Busca de um Autor, nós, a esquerda, representamos, por vontade própria, nosso papel de fantoches de nós mesmos. E, em uma fácil analogia, somos personagens em busca do autor de nossos próprios erros, a forma vazia sem o recheio do instinto. Assim, diante de nossa patética e crônica irresponsabilidade, aqueles que sofreram significativos abalos em suas bases e composições – CUT e PT – mantém-se ainda como as ferramentas mais fortes, dentre os mais fracos. Ao menos em termos numéricos, quanto a seus filiados, composição e capacidade de negociação. Isto se deve, justamente, porque os trabalhadores lutadores que rompem com a Central e com o partido rompem, em sua maioria, com todas as centrais e partidos, pela descrença em tais ferramentas. Com exceção de uma vanguarda perseverante e persistente em sua fé, os trabalhadores se dispersam. Sozinhos e desorganizados, são impossibilitados de conduzir uma luta consequente e distinta da estratégia social-democrata, com todos os seus populismos e fisiologismos que marcam a trajetória da democracia brasileira. Os que, de algum modo, permanecem no automático de suas filiações seguem, infelizmente, com aqueles que cumprem melhor o papel de cínicos.

Há um desafio, portanto, a nós, em face deste desalentador diagnóstico. Pois, seguindo o caminho das simulações performáticas, pequenas vitórias só serão obtidas por cacos de realidade, por cenas chocantes de mártires acidentais, que sujam a alvorada do capital com sangues explícitos. Muitos de nós, a cada dia em que perdemos o que nunca conquistamos, assumem a condição daqueles que nada mais têm a perder. É nesta posição que vão aos fronts de luta sem direção. Razão pela qual, desde 2013, nossas ações públicas e de massa, quando chegam às vias de fato, assumem uma configuração desesperadora de guerra civil. E, assim, o que teremos será apenas uma repetição como farsa. Se, diante da tragédia ensaiada por nós, o capital vir qualquer traço verossímil em nossa misencene, um negociador intra-classes se fará necessário novamente. Não é sem razão que temos, hoje, a estranha sensação de estarmos diante de um mesmo passado, mas sem esperança. Se Lula, em sua covardia sacrificial, dispõe-se a servir, mais uma vez, de herói do povo, ao nos assegurar que “volta se for preciso”, é porque estamos na era fantasmagórica em que o medo, indubitavelmente, venceu a esperança. Não é bem a esperança, mas o medo que serve de motor para uma nova unidade de esquerda, ainda com maior flexibilização programática, com esvaziamento de valores antes determinantes e com disposição para a ação conjunta, apenas quando envolve a tal visibilidade. Não fica difícil imaginar que esta mesma esquerda reciclada engendre um mesmo Lula, reciclado.

Michel Foucault, em seus raros elogios ao marxismo e à psicanálise, identificou, nestes dois saberes, as exigências do que chamou de espiritualidade. Em sua A Hermenêutica do sujeito, delimitou o objeto marxiano e psicanalítico como aquele relativo à questão do que pode ser transformado no sujeito ao ter acesso à verdade. E se, nos termos foucaultianos, a verdade implica em cuidado de si e conhecimento de si, sejamos mais verdadeiros, ao menos entre nós e a nosso respeito. Eis a espiritualidade de esquerda que nos torna sujeito da história. É tempo de darmos dois passos atrás: sejamos menos individualmente autônomos e mais coletivamente autênticos.


*Colaboração de Danilo Ribeiro e Gabriel Landi Fazzio

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