A volta triunfal de Lula?

Por Douglas Rodrigues Barros

“Segundo se sabe, Voltaire mantinha quatro macacos presos em Ferney, aos quais pôs o nome de seus quatro oponentes literários: Fréron, Beaumelle, Nonnotte e Franc de Pompignans. Todos os dias, sem falta, o escritor lhes dava comida da própria mão, presenteava-os com pontapés, beliscava-os nas orelhas, espicaçava seus narizes com agulhas, pisava em seus rabos, enfiava sobre ele capuzes de frades e os maltratava de todas as maneiras imagináveis. Esses macacos da crítica foram tão importantes para baixar a bílis, satisfazer o ódio e suavizar o temor do velho de Ferney ante as armas da polêmica[1]”, quanto Lula é importante para nossa elite.


“Lula está para ganhar a eleição e o mercado está tranquilo. Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual. (Banqueiro Olavo Setúbal em 2006)

Também Lula e toda a esquerda ex-governista recebem de comer, são guarnecidos com argolas de ouro em volta do pescoço, ameaçados de serem metidos entre grades e jaulas, ora adulados, ora premiados com um par de pontapé da polícia, conforme o ódio ou o medo das classes privilegiadas[1].

O palco já está preparado: de um lado, um STF, totalmente comprometido com a elite e partidarizado (aliás, como sempre foi!), aperta o ex-presidente da república com acusações toscas e por vezes infundadas; de outro, a agenda de Temer segue o desmonte ortodoxo das políticas sociais e dos direitos. No circo, Lula sabe seu papel e o exclamou em alto e bom som numa das últimas aparições na Av. Paulista: “Eu… Eu sou o Lula Paz e Amor, eu não vou lá para brigar, nem acho que aqueles que me detestam são menos brasileiros que nós[2]!”. As cartas estão na mesa, o jogo está posto e, a depender dos desdobramentos e reações populares, 2018 já começa a se desenhar com clareza. É mais uma vez, a reafirmação de um projeto político derrotado e uma “esquerda” chafurdada no lamaçal do mal menor e da falta de perspectivas.

As raízes da tragédia

Pode-se pensar que de 1988 até 2016 ocorreu o esgotamento de um ciclo no Brasil. Ciclo no qual não apenas houve uma transferência de poder militar para civis aliados ao regime, senão uma vitória reativa sob os principais aspectos do que se chamaria período democrático. Nesse sentido, além de se manter o legado dos militares em posições chaves no aparelho de Estado, se sustentou políticas e aparelhos de segurança diretamente vinculados à repressão.

Ficamos assim permeados de restos autoritários em diversas instituições ditas democráticas. Como nos lembra Maria Rita Kehl: “Muita gente ainda insiste em pensar que a prática da tortura teria sido (ou ainda é) uma espécie de mal necessário imposto pelas condições excepcionais de regimes autocráticos[3]”. Essa forma, conivente com a estrutura de uma democracia sustentada por uma elite privilegiada, gerou aberrações sociais que nos colocou numa espécie de vanguarda de medidas sócio-repressivas. No caso mais grave: a polícia militar que ostenta não só o título de a mais assassina do mundo, como também, a de menos efetiva na resolução de crimes[4]. No caso mais efetivo, uma mídia monopolizada que impõe pautas que deverão ser acatadas pelos governos além de trabalhar com o medo diário da violência urbana, abandonando qualquer senso de dignidade.

Algumas análises apontam inclusive que “no caso brasileiro, a Constituição democrática de 1988 recebeu o Estado estruturado sob a ditadura militar (1964‑1985)[5]”. Nossa chamada transição à democracia pôde ser assim caracterizada como medidas liberais que foram introduzidas conforme uma estratégia moderada sob a direção do governo ditador e com a colaboração da oposição “responsável[6]”. Oposição que nada mais impunha do que uma mudança dentro do que está pressuposto, ou seja, uma mudança para nada mudar. A negociata, desde o início, privilegiava não apenas interesses de classes centenários, como infligiram o tema conservador da governabilidade. Tema de governabilidade, aliás, que enfeitiçara grande parte da esquerda.

Os resultados foram de que com a imposta democracia e seu sistema eleitoral se deslocava todo o debate para o campo Executivo-Legislativo deixando de lado a identificação dos centros de poder com suas conexões econômicas. (Tais problemas, aliás, recorrentes na maior parte do globo, deslocarão o campo teórico, cada vez mais, para abstrações carentes de conteúdo, até culminar no identitarismo consoante à esquerda formada a partir da mentalidade neoliberal).

Já no governo FHC, por exemplo, ficava claro a independência de setores ligados a estratégica área empresarial (responsáveis pela política de comércio exterior, de privatizações, de comunicações, de educação etc.). Se resguardava o monopólio sobre decisões em áreas sociais determinantes. Dessa maneira, nossa democracia passou a ser um monstro de duas cabeças cujo arranjo autoritário neoliberal, já nos anos 1990, combinaria discurso ideológico de liberdade de mercado, com práticas políticas autoritárias e violentas.

Com o gostinho do poder, mas de fato longe dele, o PT e grande parte da esquerda entraram assim cegamente no jogo eleitoreiro. Ignoraram totalmente o fato de que a obtenção de muitos votos não quer dizer que a sociedade esteja menos conservadora e, diante dos ataques cada vez mais fortes da direita e setores da burguesia, se viu cada vez mais em posições defensivas. Em 2002 a chamada carta ao povo brasileiro[7] marcava, desde já, a posição de não mudar a questão estruturalmente conservadora imposta desde 1988. De fato, ficou evidente que o meio se tornava um fim em si mesmo e que a disputa em marcos da ordem e defesa do status quo seria a guia de um número gigantesco de pessoas e partidos de esquerda. Pulávamos de cabeça no fundo do poço.

O fim da conciliação

Passado o curto período de bonança, no ano em que sonhamos perigosamente, 2013, a desaceleração econômica já era notável em duas vias e em dois sentidos: por um lado, as políticas adotadas pelo PT não privilegiaram um investimento em infraestrutura e levou a problemas cada vez mais drásticos nas áreas urbanas; por outro lado, as desonerações liberalizantes levadas à cabo pelo governo de Dilma Rousseff, unida a forte desaceleração econômica, diminuíram o índice de arrecadação dos cofres públicos. Já em 2014 a arrecadação caia em 1,8% enquanto o déficit primário chegava a casa de 0,6%.

Para entender essa desaceleração, entre outros motivos, talvez o principal seja os sucessivos desgastes e rachas sociais produzidos em 2012 que acabaram por desmontar o pacto de interesses de classes acomodados pela era Lula. Estava em curso uma briga subterrânea entre governo e os bancos causada pelo despencar dos juros que na série histórica chegava, então, ao seu ponto mais baixo. Nesse período as quedas da Selic foram sucessivas. Para se ter uma ideia, de agosto de 2011 até novembro de 2012, a taxa passou de 12,5% para 7,25% fazendo com que setores ligados ao mercado financeiro, polvorosos, declarassem guerra ao governo pelo ineficiente resultado dos investimentos marcados pela depressão do índice Bovespa.

As baixas sucessivas dos juros e a “ingerência” nos bancos públicos – Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal – se tornaram inaceitáveis e a hidra neoliberal começava a se mexer criando suas seitas nas redes sociais. Ao mesmo tempo, os discursos técnicos passaram a minar a estrutura do chamado “capitalismo social” e ocuparam cada vez mais o imaginário da opinião pública hegemonizada por uma mídia centralizadora.

Deve-se, no entanto, ter em vista a quem essa baixa de juros favorecia e porque seu drástico aumento foi orientado a partir de maio de 2013. Precisa-se passar a noção de que houve (e ainda está em curso) uma disputa política intercapitalista que se efetiva pelas mudanças, alterações e variações dos rumos econômicos. A política de valorização do Real encontraria, por exemplo, forte resistência no setor exportador, principalmente àquele vinculado ao agronegócio minando a influência do governo junto a bancada ruralista. Enquanto, por outro lado, fortaleceria a indústria local que precisava importar seus recursos e maquinários.

Sendo assim, a forte mudança na política econômica de Dilma, que novamente sobrevalorizaria a taxa de juros, teve como pressuposto tentar reconciliar de alguma maneira os variados interesses capitalistas. No entanto, só demonstrou falta de planejamento político-econômico e evidenciou a desconfiança geral da elite do país[8]. Era a hora de avançar na radicalização do desmonte. De abril de 2013 a julho de 2015 a taxa Selic saltou de 7,25% para 13,75%. Superando rapidamente sua baixa histórica.

Devido os limites desse artigo não poderei avançar nas análises desses números, para isso sugiro a leitura do artigo de Pablo Polese intitulado Tempestade perfeita[9] que, sem dúvida, é um dos mais aprofundados sobre o tema do PT como braço forte da direita[10]. É preciso salientar, entretanto, que estava dado o sinal de uma mudança de órbita na economia nacional. Se, antes o neodesenvolvimentismo junto ao campo democrático-popular davam os tons da política, agora, era preciso deixar claro que, ante a crise, estava na hora de suspender[11] o ciclo “democrático”. Tanto o Partido dos Trabalhadores quanto o gabinete de Dilma sabiam que a polarização nas ruas era fomentada pela quebra do pacto de paz social e mesmo assim não deram sinais de mudanças à esquerda. A esperança de tal guinada era monopólio de corações “valentes” que acreditavam (e acreditam) que a mudança só poderia ser feita pelas urnas no corrupto pleito eleitoral. Triste imbecilidade.

A nomeação de Joaquim Levy foi, portanto, a tentativa de dar um sinal positivo ao mercado. Por um lado, reavivou-se o plano de privatizações de 2012, cujo título era Programa de Investimento em Logística, que previa entregar R$ 200 bilhões em ativos para a iniciativa privada. Por outro, a presidenta da esquerda governista chegava a afirmar que era possível fazer um ajuste fiscal sem afetar o consumo e os investimentos[12]. Triste engodo. Com os ajustes fiscais efetivados, diga-se de passagem, logo depois de sua eleição, as receitas despencaram vertiginosamente a cada trimestre levando a graves problemas sociais como a queda do emprego e de renda.

Do mesmo modo, a inflação começou a ganhar cada vez mais espaço e as diversas elevações de juros, com o aumento recorde da taxa Selic, a desvalorização da moeda e o corte em investimentos públicos serviram para aprofundar o problema[13]. A massa salarial, isto é, o dinheiro disponível para consumo, em apenas seis meses caiu 10%[14]. Isso sem contar com o favorzinho de criminalização dos movimentos sociais, e da esquerda no geral, com a assinatura da lei antiterrorista.

Os detentores da riqueza financeira ganhavam, desse modo, a queda de braço e sua quinta coluna (Globo, Veja, Record, Bandeirantes etc.,) insuflavam uma reação e remoção do governo Dilma. Reação exitosa que teve amplo apoio da “nova classe média” tão propalada por Lula. No dia 31 de agosto de 2016 o Senado, numa horrenda demonstração dos mais pútridos resultados de uma exceção à brasileira, aprovaria o Impeachment abrindo ainda mais o caminho para aprovações em tempo recorde para as reformas capitalistas introduzidas pelo governo petista.

O longo ano Temerário

É muito bom ter baixa popularidade tendo em vista que a alta popularidade não permite que se faça as mudanças necessárias no país”. Essa frase, que poderia ser ouvida numa peça de Gogol, é a verdade de um projeto político surgido às custas de um golpe para servir uma classe capitalista sedenta por impor sua pauta. Por todos os cantos, a sensação é a mesma: o governo Temer não é sério, mas suas manobras são nefastas. E essa sensação vigora a despeito de seus cães pagos, que vivem a ladrar “elogios” as medidas econômicas, em busca de likes e fama instantânea nas redes sociais.

As medidas econômicas adotadas por sua equipe rapidamente impuseram um cenário de inaceitável escassez, só justificada pela torpe sustentabilidade da dívida pública cujo déficit chegou a R$170,5 bilhões em 2016. Naturalmente, está de antemão vedada qualquer possibilidade de auditoria dessa mesma dívida, pois, isto abriria a caixa de Pandora e rapidamente se verificaria que a corrupção é determinante para a manutenção do sistema.

O primeiro passo de Henrique Meirelles, e seus asseclas, foi aprovar o PLP-257/2016 que não apenas incluiu o corte de direitos de ativos e aposentados do setor público como restringia os serviços sociais transformando a União em seguradora de investimentos internacionais e privados. Apesar de levemente alterado, ficou a requisição de que os gastos primários das unidades federadas não extrapolem o concretizado no ano anterior e que seja acrescida a variação da inflação medida pelo IPCA. É necessário lembrar que o projeto original da PLP 257/2016 era da ex-presidenta Dilma.

O segundo passo foi a aprovação da PEC-241/2016 que não apenas congelará os gastos sociais por vinte anos como também aumentará o capital de “empresas não dependentes” – na prática um verdadeiro golpe que desviará dinheiro público aos capitalistas com exoneração de impostos. O principal argumento era o de que seriam necessários cortes de gastos para sobrarem recursos para o pagamento da dívida pública. Enquanto isso, se processou o PLS 204/2016 que visava legalizar o direto desvio do dinheiro público aos capitalistas de empresa não dependentes cujos donos fatalmente serão os mesmos que votaram o Projeto de Lei do Senado, ou seja, é a legalização da corrupção.

Assim, o desmonte de todas as seguridades sociais foi aos poucos sendo levado a cabo. Aos poucos entre aspas, pois, o regime de votação em Brasília era como uma verdadeira blitzkrieg contra os trabalhadores. As PEC 143/2015 e 31/2016 acrescentaram a desvinculação das Receitas da União (DRU) para 30% e retiraram os recursos da Seguridade Social desvinculando-os dos estados e municípios. E, desse modo, todo o terreno fora aplainado para fazer entrar em cena a PEC 287, a famigerada PEC da previdência. Se até a PEC do fim do mundo passou, por que essa não passaria?

O governo Temer iniciou, então, a promoção da ideia do déficit da previdência. Pode-se chamar tal ação de ofensiva neoliberal, levando-se em conta, contudo, que já no governo Dilma tais propostas rematavam o plano de governo. Olhado atentamente cai por terra a hipótese de Emir Sader de que os anos lulistas instauraram uma espécie de pós-neoliberalismo[15]. O preço do pacto de paz social de Lula foi não somente o reforço do conservadorismo, como também, o fortalecimento da ideologia neoliberal a despeito da catástrofe que tal teologia promoveu no mundo.

Aproveitando-se do refluxo geral da esquerda e do desmonte levado pela burocratização das organizações trabalhistas durante os anos petistas, o momento oportuno parece finalmente se desenhar para a aprovação da reforma previdenciária e trabalhista (no momento que escrevi esse texto, a PEC das terceirizações era só uma hipótese que já se configurou, o que mostra que a agenda de Temer é mais flexível que a de nossos sindicatos e organizações de esquerda).

A principal argumentação do governo para restringir o direito à Saúde, Previdência e Assistência Social são as despesas supostamente exorbitantes que consomem 22,69% do Orçamento da União. Nada se diz, entretanto, da Proposta de Orçamento da União enviada a pouco para Brasília que visa elevar de 42,4% para 50,6% os gastos com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública.

A desfaçatez dos meios de comunicação, e dos youtubers pagos, que buscam promover a aceitação da ideia de um crash iminente, se acaso não se fizer a reforma, ignora totalmente o fato de que as receitas do sistema de seguridade é a totalidade das contribuições sociais e, dessa forma, o cálculo deveria ser feito levando-se em consideração a arrecadação geral. Como mostrado pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) o saldo, apesar das consecutivas quedas, ficou em R$ 24 bilhões positivos conforme tabela abaixo[16]:

Tabela 1

Nada se diz também do aumento da DRU (Desvinculação de Renda da União) de 20 para 30% que permite ao governo federal usar livremente todos os tributos federais vinculados a fundos e despesas, o que deixará o caminho livre para o governo mais uma vez apoiar o lucro dos banqueiros. Ora, a crise se revela afinal muito boa para os negócios.

A PEC 287/16 em nenhuma hipótese pode ser entendida como uma cartada final. As reformas do desmonte social são inúmeras e alteram artigos centrais da Carta de 1988. Esta última trata-se da restrição dos direitos elementares da Seguridade Social que, como sabemos, é um patrimônio mantido com o dinheiro da população. Mas, segundo o relator do projeto, o deputado Arthur Maia (PPS-BA) não há protestos capaz de demovê-lo dessa ideia[17].

Muito já se falou da referida PEC, mas vale a pena repisar algumas coisas, tais como: 1) a PEC não leva em consideração a diferença das expectativas de vida num país de proporções continentais e regionais gritantes. Nas periferias de São Paulo cuja expectativa de vida é menor que nas áreas centrais grande parte de sua população, se acaso a PEC for aprovada, não chegará a se aposentar; 2) a PEC não leva em consideração também a dupla (ou tripla) jornada das mulheres que, a despeito dos avanços e conquistas, são as responsáveis pelo trabalho doméstico e educação dos filhos; 3) com o aumento de 15 para 25 anos de contribuição, milhares de brasileiras e brasileiros que continuarão contribuindo para seguridade social morrerão sem a aposentadoria, em especial os mais pobres; 4) mesmo com a difícil conquista da aposentadoria num futuro remoto, o salário do aposentado dificilmente chegara a 100% devido ao fato de que se aumentou para 49 anos de contribuição à previdência para se obter todo salario. Enfim, é inescrupuloso o projeto de reforma e condenará o país a miséria.

Poder-se-ia perguntar se acaso o relator dessa proposta criminosa não apostou no impossível buscando negociar uma possível reforma “mais realista” que, ao mesmo tempo, deixará os banqueiros felizes e os sindicatos mais calminhos? A hipótese é a do jogador que blefa alto tentando negociar o inegociável.

A volta de Lula e o choque de gerações

Com esse quadro posto, enquanto alguns pedem ingenuamente unidade da esquerda, outros pedem unidade com a intenção de que a esquerda anticapitalista se dobre a adoção do “mal menor”. Desde 2013 não foram poucas vezes que a esquerda anticapitalista entrou em choque com o governismo fanático. Pouco se aprendeu – quando não se ignorou – as lições deixadas pelas jornadas de 2013 e as mais recentes mobilizações nas escolas estaduais. Na antiga esquerda tudo permanece rígido, carcomido, precisa-se verificar a agenda e observar se qualquer mobilização vai ou não favorecer a entrada de Lula em Jerusalém. Um nojo, uma hipocrisia.

Para estes é difícil não sucumbir aos vícios e o legado de trinta e sete anos de um partido que se tornou hegemônico no interior da classe trabalhadora paralisando qualquer alternativa efetiva e transformadora. Sabemos que nesse mundo há aqueles para quem o sonho pueril tornou-se uma madrasta que eles insistem em chamar de mãe. Sabemos também que tal hegemonização voltada para o sonho democrático-parlamentar sustentou um desmonte da autonomia do proletariado que demorará para ser superado.

Com um desenvolvimento desigual inclusive nas formas de atuação política, só depois de muito, começou-se a olhar com desconfiança para as formas tradicionais de organização que volta e meia admoestava o capital e indicava o melhor a se fazer. Ao mesmo tempo, contudo, novas formas de atuação passaram a ser ensaiadas, porém, presunçosamente ignoradas pela esquerda que lutou pela “democracia”. “Como num relógio com ponteiros atrasados, experimentamos, só muito depois, o fracasso da experiência trabalhista e do campo democrático-popular. A degeneração imposta pela legalidade e rotinização da pauta dos trabalhadores, o fracasso da modernização, a noção de progresso teleológico rumo ao futuro, encontram agora limites incontornáveis[18]”.

Entretanto, o lema em grande parte da esquerda é o de que não há saída melhor do que a volta de Lula. A questão que se deve infligir é: melhor para quem? Certamente, nem mesmo o espectro da nova direita, que se fortaleceu nos últimos anos, mas, felizmente, cada vez mais perde adeptos, formatou até agora uma liderança capaz de impor com tranquilidade a agenda neoliberal sem provocar um levante. Com a instauração do golpe, os ratos do PMDB, que sempre atuaram como uma verdadeira camarilha por detrás das câmeras e das Câmaras literalmente, vieram à cena nacional. Todo o ranço, e o mofo de uma época, podem ser percebidas quando entram em cena seus parlamentares. A volta de Lula se mostra, portanto, uma das alternativas mais eficazes na pacificação, dormência e administração dos impulsos incômodos dos lascados. Ela é afinal ótima para os negócios e manutenção da radical exploração com as reformas já aprovadas. Uma carta na manga que deve ser usada se acaso rumores de levantes começarem a existir.

A esquerda de um modo geral, se tornou incapaz – e a anticapitalista fora incapacitada – de demonstrar uma alternativa realmente emancipatória e profundamente transformadora. Por outro lado, fora ignorado o processo de enraizamento intensivo de negação radical advindo das atuações horizontais de grupos autônomos. O processo de pacificação permanente imposto desde 2002 anestesiou qualquer mudança ou potência insurrecional. Os resultados disso aparecem com o crescimento do discurso conservador e com o desmonte de direitos, enquanto tudo é assistido com boca aberta e silêncio constrangedor da esquerdinha que culpa 2013 pelo seu próprio fracasso.

Todas as ratazanas burocráticas instaladas em postos chaves dos sindicatos, todos os imitadores de Lula com seus discursos evangelizadores e senis, olham ansiosos para o relógio, articulando a agenda para a promoção do seu partido em 2018. Enquanto cai a avaliação do governo escroque de Temer:

Tabela 2

Em primeiro lugar a péssima avaliação do governo Temer só tem crescido mediante as aprovações em ritmo frenético das propostas de sua equipe econômica, por outro lado, Lula começa a disparar nas intenções de votos para o primeiro turno de 2018: “De forma geral, Lula ganhou pontos em todos os segmentos da população. Entre os mais escolarizados, por exemplo, em que ele aparecia com 13% em julho, numericamente abaixo de Marina (18%) e no mesmo patamar de Aécio (12%) e Bolsonaro (13%), o petista agora fica com 17%, numericamente acima de Marina (13%), Bolsonaro (13%) e Aécio (11%). A vantagem do petista é maior em segmentos como o dos mais pobres (30%, ante 15% de Marina e 12% de Aécio), menos escolarizados (34%, e na sequência aparecem Marina, com 13%, e Aécio, 10%) e moradores da região Nordeste (41%, ante 14% de Marina e 10% de Aécio). Essa dinâmica na preferência pelo petista se estende aos demais cenários, com outros adversários na disputa[19]”.

O sucesso das aprovações da reforma de Temer determina o fracasso eleitoreiro de sua trupe de palhaços, ao mesmo tempo, que alça Lula como a possível solução. E todas as aparições públicas de Lula vão no sentido de alertar a classe burguesa ante o perigo iminente da falta de conciliação de interesses historicamente antagônicos. Falta de conciliação que teria fim, evidentemente, se mais uma vez ele subisse ao poder e deitasse com a medusa neoliberal.

Há, no entanto, e cada vez mais, um movimento de deserção, de fuga incessante, de radical negação do mundo da dominação, das formas constituídas e garantidas por uma legalidade que garante a própria dominação. Embora, hajam aqueles que observam e tentam capitalizar o dispêndio dessa fuga, que tentam transformar toda a mobilização, na “mobilização”, para logo em seguida falar em nome dela, fica evidente que o movimento de saída, de fuga da dominação capitalista aparece como único horizonte para as camadas pauperizadas pela crise permanente. Crise que se tornou modo de gestão política e contenção.

Muita água, no entanto, ainda correrá debaixo da ponte. 2017 será um ano tão longo para a esquerda quanto 2016. A adesão massiva por parte da esquerda ao jogo eleitoreiro denota não só sua incapacidade imaginária como o sucesso da colonização capitalista que estendeu seu front sobre a totalidade da existência. Fica claro que a principal fonte de nossa paralisia é a crença utópica de que os horizontes para um futuro de bem-estar social permanecem abertos. Nessas condições, a passagem das lutas particulares para lutas universais, a reorganização de um tecido ético sobre a base da negação radical, a reapropriação da vida, da luta e do entendimento entre nós, constitui um horizonte inatingível. Assumir a lacuna radical e lutar radicalmente contra as reformas constitui um primeiro passo, saber de fato quem são os falsos amigos constitui o segundo e, talvez, mais decisivo passo.

Às ruas já!


[1] Esse é um pastiche de um texto de Marx escrito em 1859 – Spree e Mincio.

[2] https://www.youtube.com/watch?v=yyjJ5PszE6g

[3] In: KEHL, M. R. Tortura e sintoma social, p. 128 (cf: TELES e SAFATLE. O que resta da ditadura? A exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

[4] Conferir em http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2015/09/forca-policial-brasileira-e-que-mais-mata-no-mundo-diz-relatorio.html

[5] BERCOVICI, G. “O direito constitucional passa, o direito administrativo permanece”: a persistência da estrutura administrativa de 1967, p. 78 (cf. TELES e SAFATLE. O que resta da ditadura? A exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

[6] Conferir no artigo: Uma história política da transição brasileira: da ditadura militar à democracia http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782005000200008

[7] Ver a famosa aqui http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u33908.shtml

[8] https://economia.terra.com.br/banco-diz-a-clientes-que-queda-de-dilma-e-boa-para-economia,316ba397dcd67410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

[9] Conferir aqui http://passapalavra.info/2015/07/105485

[10] No Artigo de Polese fica claro, por exemplo, que a JBS foi a principal financiadora da campanha de Dilma.

[11] A meu ver a questão do encerramento do ciclo “democrático” (1988-2016) ainda é uma questão em aberto que possivelmente só será respondida no próximo pleito eleitoral

[12] Ver https://www.cartacapital.com.br/revista/841/peregrinacoes-do-austericidio-6667.html

[13] Quem tiver interesse a respeito do (des)controle da inflação consulte um interessante debate entre especialistas disponível aqui http://www.valor.com.br/cultura/4834784/juros-e-conservadorismo-intelectual  a maioria dos dados acima assinalados fora tirado do bom artigo de Belluzzo e Galipolo http://www.valor.com.br/opiniao/4860762/metas-de-inflacao-e-os-ardis-da-razao

[14] Confira http://www.valor.com.br/brasil/4119724/massa-salarial-cai-10-no-pais-em-seis-meses

[15] SADER, E. A vingança da história. São Paulo: Boitempo editorial, 2007

[16] Conferir aqui – http://fundacaoanfip.org.br/site/2016/06/a-dru-e-o-falso-deficit-da-previdencia-social/

[17] http://g1.globo.com/politica/noticia/protesto-nao-muda-absolutamente-nada-diz-relator-da-reforma-da-previdencia.ghtml

[18] http://diplomatique.org.br/o-que-nao-fazer/

[19] Conferir (http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2016/12/1840614-lula-amplia-vantagem-no-1-turno-mas-perderia-disputa-direta-contra-marina.shtml )

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Um comentário em “A volta triunfal de Lula?

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  1. Tá certo, estamos mesmos anestesiados. No entanto, como sair desse golpe superando os problemas atávicos do lulismo? O aparelhamento nacional e a dominação espiritual causada por “37 anos de partido hegemônico”? Se o Lula ganha nós perdemos, se o Lula é derrotado ou preso, nós perdemos de novo. Concordo com o autor, mas creio que levará um bom tempo para sairmos da “esquerdinha” e irmos para a “esquerdona”…

    Abraços

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