“Era o Hotel Cambridge” e a exigência de uma igualdade política radical

Por Lígia Balista e Paulo Spina

Era o Hotel Cambrindge é um filme brasileiro fruto de uma criação coletiva – envolvendo a Frente de Luta por Moradia (FLM), o Grupo Refugiados e Imigrantes Sem Teto (GRIST) e a Escola da Cidade – que combina, de forma original, ficção e documentário, inclusive com trabalho de atores profissionais e não atores. Uma produção estética sensacional que enreda de forma complexa a trama de personagens que vivem numa ocupação no centro de São Paulo. Um filme sensível e não panfletário que mostra a realidade daqueles que não possuem direitos, mas que através do confronto político exigem uma igualdade política radical.


Histórias singulares que se entrecruzam na ação organizada por um movimento social. As cenas mostram que, apesar dos dilemas individuais dos personagens, é possível constituir uma determinação de agirem juntos ao compartilhar a moradia de um prédio e lutarem para resistir ao despejo.

De forma brilhante, o filme combina a vida precária dos brasileiros que vivem na ocupação com a questão dos refugiados que chegam ao Brasil sem nenhuma estrutura, marcados pelos confrontos nos países de origem, como Congo e Palestina. Ao articular temporalmente o confronto na ocupação da maior cidade brasileira com confrontos bélicos em outros países, o filme mostra com uma sensibilidade notável que, na luta por direitos, somos todos despossuídos de nacionalidade, ou – dizendo com as palavras do próprio filme – “somos todos refugiados”.

Assim como na vida real, o filme alterna momentos de humor e alegria com apreensão e drama. Algumas cenas são geniais e por si só valem o ingresso. Como na performance de confronto, ensaiada pela liderança da ocupação, em que a presença de crianças e o cheiro das mexericas serviriam para incomodar e pressionar a juíza. Ou ainda o paralelo com os palestinos que se defendem com pedras nas mãos e os ocupantes que se defendem da violência da polícia arremessando cocos.

Este filme nos pareceu uma obra de arte imperdível, sobretudo por revelar – através do entrelaçamento dos seus personagens com o confronto político pela moradia – potências capazes de, a partir do desamparo de brasileiros e refugiados, trazer à tona uma participação política corajosa que não se paralisa com medo do Estado e nem deposita esperança neste. Não são as individualidades que são o plano principal das cenas do filme, mas a constituição de uma igualdade política radical através de um objetivo comum – o direito à moradia. Se, pela lei, os refugiados são impedidos de participar de manifestações políticas no Brasil, sendo parte do movimento precisam também lutar, dilema este problematizado no filme.

Era o Hotel Cambridge, sem dizer uma única palavra sobre o assunto, defende que a exigência da igualdade política radical não vem através do sufrágio, não acontece através da participação em uma organização não governamental e também não acontece através de um partido político, mas sim através da forma de um movimento social. Dizendo de outra maneira, o filme demonstra que realizar confronto político coletivamente, superando diferenças, passando por cima do ódio virtual e enfrentando as estruturas do Estado, é uma forma de emancipação política e, portanto, de fortalecimento de uma ideia de democracia não baseada nos grandes consensos políticos. O filme da diretora Eliane Caffé tece uma ideia de democracia na qual os conflitos políticos podem ser os pontos de partida para transformações profundas.


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