A crise da reprodução capitalista e a formação de um novo “proletariado ex lege”

Entrevista de Silvia Federici realizada por Francesca Coin em 23.07.2017, via Nazione Indiana, traduzido por Rafael Almeida Lemos.

Nos anos setenta você foi a primeira a falar contra o trabalho doméstico mostrando como o processo de acumulação nas fábricas inicia-se sob o corpo da mulher. O que mudou nesses anos?


O trabalho gratuito explodiu, aquilo que nos víamos de um ângulo específico do trabalho doméstico foi difundido em toda a sociedade. Na verdade, se olhamos para a história do capitalismo vemos que o uso do trabalho não remunerado foi enorme. Se pensarmos no trabalho dos escravos, no trabalho de reprodução, no trabalho agrícola dos camponeses aos peões[i] em condições de semiescravidão, compreendemos que o trabalho assalariado foi, na realidade, uma minoria cercada de um oceano de trabalho não remunerado. Hoje este oceano continua a crescer na forma de trabalho tradicional, mas também em novas formas, porque agora para ascender ao trabalho assalariado é preciso também se submeter ao trabalho não remunerado. Hoje na Grécia é necessário trabalhar por sete meses de trabalho não remunerado na esperança de encontrar um trabalho remunerado, então em várias situações se repetem a mesma dinâmica: te contratam na condição de trabalhador não remunerado, você trabalha por seis ou sete meses depois dispensam seus serviços. A coerção do trabalho não remunerado é então uma pratica mais disseminada. Nesse sentido, as escolas foram as primeiras a adotar essa prática. Nesse caso é central a ideia do treinamento. O treinamento é apresentado como um benefício para o estudante, mas na verdade o explora desde os primeiros anos. A idade, na verdade, está sendo reduzida, começa-se a falar de trabalho não remunerado desde o high school. Atualmente nos jornais se fala muito de worker gig. Gig é uma expressão que vem do mundo do jazz, um gig é um concerto improvisado, agora este conceito tem sido aplicado ao mundo do emprego. Se trata de uma prestação de acordo com a necessidade, sem nenhuma garantia e que estende o modelo do Uber a todos os setores, indicando uma precarização da vida transversal ao mundo do trabalho, que atingiu níveis elevadíssimos. Isto é importante do ponto de vista do feminismo, em particular do ponto de vista daquelas feministas que consideravam o ingresso no trabalho remunerado como uma espécie de avanço ou de emancipação, enquanto se prefigura cada vez mais como um trabalho não remunerado.

Você já tinha indicado há algum tempo como a crise do fordismo tinha sido marcada pela repetição da ‘crise reprodutiva’, caracterizada pela degradação de todos os seguros sociais. A transformação dos últimos quarenta anos foi quase impressionante desse ponto de vista, porque de um lado modificou o sistema de trabalho não remunerado, e de outro lado foi marcado pela tentativa de torna-lo invisível, através de um discurso de atribuição da culpa da agonia social atual a quem mais paga as contas. Destaco como exemplo a narração que produz e estigmatiza os “espertos do cartão[ii]”- que está sendo discutida atualmente – e que esconde o esfacelamento do welfare state e a necessidade de disciplinar todos esses sujeitos que – se dizem que – “vivem às custas da sociedade”. Quais implicações existem em todas essas relações sociais?

Esse é o mundo de pernas para o ar. Até os anos setenta predominou-se uma política fordista – na verdade se trata de uma política que precede o fordismo e que se funda no investimento de parte do Estado na reprodução da força de trabalho. Trata-se de uma concessão que culmina com o New Deal, a fim de criar uma força de trabalho mais dócil e mais reprodutiva, e no final da época fordista esta concessão aumenta. Do investimento estatal passa-se a financeirização do trabalho de reprodução, aquilo que certa vez o Estado subsidiou hoje se deve pagar. Uma vez que o subsídio estatal foi eliminado, a reprodução foi transformada em uma oportunidade de acumulação. A remoção dos subsídios tem forçado os estudantes a assumir um débito enorme, então nos deparamos hoje com uma população estudantil fortemente endividada antes mesmo de entrar no mercado de trabalho. O mesmo ocorreu no campo da saúde e no campo da assistência social, especialmente no que diz respeito à assistência aos idosos, o day-care e às creches. Os Estados Unidos foram os primeiros nesse processo. Nos Estados Unidos quem precisa de assistência deve pagar quantias consideráveis e a pouca assistência social que sobrou está sobrecarregada. Ocorreu uma taylorização da assistência social nesses anos. De um lado o orçamento social foi cortado e do outro os serviços foram taylorizados. Portanto, hoje a quantidade de pessoas que necessita dos serviços de assistência social dobrou, enquanto aumentou também o trabalho não remunerado. Esta redução do mínimo dos serviços está no centro da crise de reprodução que estamos vivendo. Trata-se de uma crise que afeta antes de tudo as mulheres, as crianças e os idosos, de forma muito mais dramática. A situação no nursing home, nos lares para idosos é preocupante, e a insuficiência de pessoas é compensada com uma continua medicação. Os maus tratos nas instituições de tratamento são difundidos e contínuos. Os idosos estão sempre sedados e presos à cama. Não por acaso o número de suicídios entre eles aumentou significativamente. O uso de remédios é uma prática comum também entre as crianças na escola com o intuito de forçá-las a serem dóceis e disciplinadas. Esse lado da crise da reprodução é resultado da transferência das despesas sociais para o mercado. O que significa que este deve assumir o custo da reprodução capitalista e em muitos sentidos há consequências letais para a população. Você faz referência também a um outro aspecto da crise da reprodução que é o public shaming – os rituais de humilhação pública que sofrem os poucos que ainda desfrutam do mínimo do subsídio estatal acusados de serem privilegiados e fraudulentos. Estes infelizes são colocados na berlinda e são acusados de serem os responsáveis pelo colapso da economia. Na Itália, o public shaming atingiu níveis vergonhosos. Parece-me importante reiterar que se deve refutar com veemência a ideia de que o colapso financeiro do Estado se desenvolveu através do abuso do subsídio estatal, e dizer que é uma responsabilidade direta do Estado que em tantos casos força o proletariado à criminalidade. Eles são forçados a serem criminosos para sobreviverem porque retiraram suas possibilidades de subsistência e de acesso legal a reprodução de maneira drástica, de forma que não é possível a sobrevivência por grande parcela da população sem entrar na ilegalidade: sem vender um pouco de droga, sem a prostituição, sem um cheque falso. É por isso que os Estados Unidos, o país exemplo na aplicação do neoliberalismo, é também o país exemplo para a criação de uma sociedade carcerária, que é uma sociedade onde sistematicamente, como sistema de governo, se encarcera uma grande parte da população porque ela não produz renda e porque é vista como potencialmente subversiva e combativa, como uma população que foi historicamente discriminada e pode reivindicar reparações por aquilo que lhe foi retirado, e que então vem sendo preventivamente encarcerada e excluída das poucas possibilidades legais que lhe sobraram para sobreviver, em um círculo vicioso e perverso. Marx destacava como o desenvolvimento do capitalismo portaria a formação de um proletariado ex lege (Nota do tradutor: fora da lei). Podemos dizer que a formação do proletariado ex lege é no dia de hoje um fenômeno sistematicamente perseguido a nível global. O vemos claramente no caso da imigração. Para sobreviver é sempre mais comum a necessidade de entrar na ilegalidade e isso permite a intervenção violenta do Estado na força de trabalho.

Recentemente li os dados da Grécia que constatam como o desmonte das contas públicas vão de encontro com as mulheres em duas ocasiões, a primeira porque o corte das despesas sociais deixa em casa, antes de tudo, as mulheres que trabalham predominantemente com a assistência social  e a segunda porque o corte força as mulheres voltarem a desempenhar papéis tradicionais de assistência e de tratamento não remunerado. Os dados indicavam também que a violência contra a mulher deveria ser interpretada como um verdadeiro teste do clima de violência social introduzido pela política de austeridade.

A violência acentuou-se de maneira significativa nos últimos anos. É a violência da guerra permanente. Atualmente em poucos anos se destrói um país. O mundo é cada vez mais um lugar de guerras e um sistema carcerário. A violência capitalista continua a aumentar, vemos com o aumento das penas e da militarização da vida. Hoje nos Estados Unidos e na América Latina as polícias são adestradas pelos militares, os Estados Unidos construíram prisões em todo o mundo, as companhias e corporações possuem os seus próprios exércitos privados e o número de guardas de segurança está em contínuo crescimento. O modelo da violência está definindo a sociedade e a subjetividade a partir da subjetividade masculina. Já que se trata de um processo que atinge antes de tudo as mulheres. Recentemente participei de um Fórum sobre Feminicídio na Colômbia em um porto no Pacífico na região de Boaventura onde ocorreram muitos massacres. Lá é possível compreender diversos fatores que contribuíram para esta violência. Boaventura é talvez um dos lugares mais bonitos do mundo, é uma cidade no Pacífico em meio a uma floresta tropical maravilhosa, mas recentemente contaminada por causa da extração do ouro. As águas e os rios que a população usava para a própria subsistência e produção foram contaminados com mercúrio. Então são diversos infortúnios, porque a política adotada leva à exploração e à expulsão da população local. Nesses locais a violência, principalmente a violência contra a mulher, intimida a população. Uma antropóloga latino-americana, Rita Segato, escreveu um livro muito interessante sobre esse tema. Ela fala da mensagem de violência, da crueldade pedagógica no sentido de que assassinam terrivelmente as mulheres, que são pessoas indefesas e que não fazem parte dos exércitos combatentes. Como existe uma população que não pode resistir à expulsão, porque se depara com forças que não têm piedade, assassinar as mulheres é o equivalente a enviar uma mensagem de crueldade incondicional. Deve-se acrescentar que as mulheres são o motor da retomada do crescimento da economia mundial. Nos anos setenta o trabalho feminino reativou a máquina econômica, tradicionalmente as mulheres confrontavam com a violência na esfera doméstica, o marido através da violência disciplinava a mulher quando aquela não cumpria o seu trabalho doméstico. Hoje, as mulheres, para sobreviverem, devem frequentemente trabalhar em lugares que são particularmente expostas a violência masculina. Dizem que as mulheres que imigram da Guatemala para os Estados Unidos levam contraceptivos porque estão seguras de que durante o percurso serão abusadas. Muitas buscam formas de sobreviverem vendendo coisas na estrada e assim que se deparam com a violência e com a polícia todos os dias. O trabalho do sexo, o trabalho nas maquilas[iii] –  as novas plantações no qual se trabalha cerca de 14 – 16 horas por dia – o trabalho dos vendedores ambulantes, são todos exemplos de violência. A violência também tem um efeito de intimidação. Previne ou limita a possibilidade de auto-organização. A militarização da vida faz que as mulheres se encontrem sempre mais com homens que trabalham com a violência: soldados, agentes penitenciários e agentes de segurança. Essa militarização tem uma influência sobre a subjetividade e suas relações pessoais. Fanon escreveu que quem tortura todos os dias não pode transformar-se no marido modelo quando volta para casa, porque continuará a resolver os conflitos do modo ao qual está habituado. Hoje assistimos isso em uma sociedade que é cada vez mais orientada à guerra, onde a exploração se rege através da violência direta e isso tem cada vez mais influência sobre a relação entre mulheres e homens.

Os anos setenta mostrou a exploração como se estivesse escondida na subjetividade, na feminilidade, naturalizada e assim tornou-se invisível ao ponto que o trabalho das mulheres era considerado um dom natural. Transformar esta invisibilidade em uma luta política foi fundamental para colocar em evidência a maneira pela qual a acumulação ocorre através do corpo e sobre o corpo. Essa invisibilidade da exploração da subjetividade – penso no trabalho migrante e a “A raça ao trabalho” de Anna Curcio e Miguel Mellino –  é considerada como algo superado, no entanto, me parece, ao contrário, um problema ainda a ser combatido. Penso na ideia do homo oeconomicus. Presenciamos ainda um amplo uso desta categoria, da ideia de liberdade e do empreendedor de si mesmo, contudo hoje o empreendedor de si mesmo não tem mais certeza, a única certeza sobre o futuro é trabalhar ainda mais e a um custo ainda mais baixo, não é esse homo oeconomicus uma outra forma de exploração apresentada como emancipação?

A ideia do homo oeconomicus, da escolha, do auto emprego, é uma ideologia no todo neoliberal. Na realidade a autonomia concedida pelo auto emprego é limitadíssima. Se de um lado os regulamentos da fábrica das 9 às 17 era uma prisão, é igualmente uma prisão não saber se em seis meses você terá uma renda que te permita viver, que te possibilite planejar, se programar. De fato, não tem nada de emancipatório em viver em uma instabilidade continua, com a ânsia permanente frente a precarização da vida. Bifo falava sobre isso em um dos seus livros. Dizia que a precariedade incide nas relações pessoais, cria personalidades dispostas a um certo oportunismo, obrigadas a cultivarem relações sociais em função da sobrevivência. Isso nos vemos também nos movimentos. Se uma vez havia uma separação clara entre trabalho e política – a política envolvia-se com o trabalho quando era refutado, mas o trabalho não era de uso político – agora as fronteiras se confundem, o que tem consequências negativas, porque introduz formas de oportunismo na política e creio eu, que isso é um dos maiores problemas que enfrentamos hoje.

Durante o ano passado em a sua visita à Grécia, você falou das ocupações de Atenas como experiência importante para enfrentar as condições da reprodução do comando monetário. Nos últimos anos ocorreram experiências enriquecedoras, formas coletivas de expropriação nos supermercados, práticas de auto redução dos aluguéis e dos boletos, experiências de reapropriações de terra, criação de um circuito econômico alternativo capaz de usar a reprodução como oportunidade para liberar a vida da exploração. Desse modo se desfaz esse comando monetário?

Foge do comando do dinheiro, antes de tudo defendendo os nossos “bens comuns” e reapropriando-se do controle e do uso da terra, das florestas, das águas. Esta hoje é uma das lutas mais importantes que ocorre no mundo, e não por acaso o capitalismo vem destruindo regiões inteiras para assegurar que suas riquezas minerais não vão para outras mãos. A luta contra o extrativismo, assim como contra a monocultura, os transgênicos, o controle das transnacionais sobre as sementes é o centro da política dos movimentos sociais na América Latina, como também nos Estados Unidos e no Canadá. Uma das lutas mais fortes hoje nos Estados Unidos é a luta dos Sioux contra a construção de um oleoduto que atravessa seu território conectando Dakota com Illinois. Representantes da população indígena, entre muitos outros ativistas, estão chegando de várias partes do país e da América Latina para impedir esse projeto. É importante reiterar que esta luta pela defesa dos bens comuns nunca é puramente defensiva, tudo cria “o comum”. Defender a terra significa defender também a possibilidade de controlar o território que é fundamentalmente para a construção da autonomia e do autogoverno. Na área urbana as ocupações e as redes de organizações que as mulheres criaram nas ruas – porque sinceramente a reprodução em muitos países sempre se transfere cada vez mais para as ruas – criam novas formas de subsistência e solidariedade. Nas favelas brasileiras ou nas villas argentinas, os expulsos das zonas rurais criam novos quarteirões, novos acampamentos onde constroem casas, hortas, espaços para as crianças. Eu visitei uma dessas “villas” na Argentina, Villa Retiro Bis, onde encontrei mulheres que me deixaram uma impressão muito forte. Tive a sensação de alguma coisa nova porque são mulheres que vivem em uma situação que em cada instante de sua vida cotidiana se transforma em um momento de discussão política. O ponto é que nada é garantido, tudo deve ser conquistado, tudo deve ser defendido. A água, as luzes devem ser contratadas com o Estado, mas não se permite que o Estado organize a própria vida. É um cenário de luta contínua com o Estado, luta para ter as sementes, para ter as luzes grátis, para ter a água potável, para ter materiais para poder construir as ruas em vez de ter apenas terra e então é sempre uma luta contínua. Essas mulheres estão procurando construir suas próprias vidas, são ligadas entre elas, criaram a casa das mulheres, onde existem espaços para a assistência preventiva. Construíram um muro para separar a “villa” do resto da cidade, para impedir outras apropriações e elas o destruíram, usam o teatro dos oprimidos como forma de formação política, para instaurar um debate político entre elas, para enfrentar certos problemas como pode ser o abuso sexual de um modo também divertido que motivam outras mulheres à participarem. Eu não sei se isso possui capacidade suficiente para contrariar a macro política, no entanto sei que alguma coisa de novo está acontecendo a partir disso.

Adaptado de:

Francesca Coin (a cura di), Salari rubati. Economia politica e conflitto ai tempi del lavoro gratuito, Verona, Ombre Corte, 2017, pp. 99-106.


[i] Trabalhador agrícola, lavrador, trabalhador não qualificado, o termo foi por séculos aplicado principalmente aos indianos e mestiços da América Central. Fonte: https://paroleforbite.wordpress.com/2013/04/page/3/ Acessado em 12/07/2017.

[ii] Uma categoria de dependente público, que não é atraído pelo trabalho. A expressão represente a conduta de funcionários que chegam ao trabalho e registram a presença com o cartão funcional e em seguida saem para dedicar-se a outras atividades não relacionadas ao trabalho. Adaptado de:  http://www.laprovinciacr.it/lettere/la-polemica/163381/i-furbetti-del-cartellino-e-il-pubblico-da-ripensare.html Acessado em: 12/07/2017.

[iii] As “maquilas” são as “zonas francas” da América Central, conhecidas pelo livre comércio, onde empresas como Nike, Adidas e muitas outras multinacionais estabeleceram boa parte de suas produções do setor têxtil. Nas maquilas trabalham quase que exclusivamente apenas mulheres e não oferecem nenhuma forma de segurança ou estabilidade para as trabalhadoras. Não existem regras que definem normas para licença, férias ou descanso e as trabalhadoras vivem com a constante possibilidade de desemprego por baixa produtividade. Adaptado de: http://www.nonluoghi.info/old/simona2.html Acessado em: 12/07/2017.

 

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