Desejo, consumismo e subjetivação

Por Naiara Pereira da Silva e Anna Isabel Araújo Vaz

Neste ensaio teórico, levantamos os caminhos que o desejo encontra no consumismo como uma forma de subjetivação. Considerando o sujeito inserido em um sistema capitalista que propicia a instauração da falta, e que está relacionada à experiência do desejo no qual em nossa constituição nos vemos sem o objeto primordial, o “objeto a” em Lacan. O capitalismo se apropria e incentiva cada vez mais a produção e consumo de objetos, prometendo felicidade. Em consequência, temos sujeitos que buscam objetos para não se haverem com sua realidade faltosa, resultando em uma busca frenética, sem fim e de satisfação ilusória. Discutiremos as relações que configuram o consumo e a falta no sujeito, construindo assim, novos parâmetros para a atual discussão social. Com base nessa leitura, o diálogo ocorrerá na relação entre desejo, sujeito faltoso e a sociedade capitalista que traz como constituição da subjetividade o consumismo.


1 – Introdução

Freud, em seu trabalho O inconsciente (1996), discorre sobre a constituição do sujeito para a psicanálise, conceituando-a como uma inter-relação estabelecida entre o mundo externo e interno. Freud (1996) discute também sobre os desejos inconscientes que se caracterizam por impulsos e que tem como meta a reprodução da satisfação original experienciada no narcisismo primário[1]. Posteriormente, Freud  (1996) acrescenta à lógica psicanalítica o constructo teórico da pulsão como uma linha tênue de representação do psíquico e o somático.

Para Lacan (apud QUINET, 2012) a organização subjetiva do sujeito se dá na relação com o Outro, esse Outro com “O” maiúsculo é da ordem do significante, ponto de origem do sujeito que ocorre pela identificação após a saída do complexo de Édipo e que servirá de base para as construções das escolhas, sintomas e desejos deste sujeito.

Dentro de uma ordem simbólica, termo que é empregado por Lacan (apud QUINET, 2012) para representar os conteúdos inconscientes e estruturados pela linguagem, o desejo está atrelado à ordem da fantasia – pensamentos oníricos latentes – e barrado pelo Real, que é o que nos escapa à cadeia significante, a inscrição. O Real castra nossas fantasias e nos coloca de frente com nossas impossibilidades. Desse modo, somos então pegos pelo objeto que se “perde” e toma uma nova representação no simbólico (NAGERA, 1998).

Quando falamos em objeto, temos por conceituação em Freud (2010) representações psíquicas como constituidoras da linguagem. O objeto pode tomar diversas conceituações e significações perante o desejo do sujeito, o que Freud nomeou de “escolhas analíticas de objeto” (1914 apud COELHO 2001, p.40), que seriam um modelo da relação que o sujeito estabelece consigo mesmo e que vai servir para como este virá a escolher os objetos que o representam.

Freud (1905 apud COELHO 2001) formula que o primeiro objeto para qual o sujeito dirige seu desejo seria o seio materno e que o ato de sugar o seio da mãe será o protótipo que carregará em toda relação de amor. Assim, quando encontramos um objeto, estamos na realidade o reencontrando. A partir dos movimentos externalizados por este sujeito, busca-se novas significações que partam de marcas registradas em seu psiquismo, registros afetivos e emocionais.

“A objetalidade refere-se a uma experiência da identificação que não se confundiria com a descrição psicológica da imitação. Não há, de fato, nessa concepção, a possibilidade de um objeto empírico “estável”, que venha a ser imitado. Nas identificações, a ênfase recairia muito mais sobre a relação entre um sujeito e os objetos, do que nos termos em si, de forma isolada. Assim, o sujeito criaria seu objeto, da mesma forma que o objeto criaria o sujeito através de sucessivas relações.”(COELHO, 2001, p.43).

Lacan (2005) designa objeto a como função da causa de angústia no sujeito e que permanece aprisionado ao significante, parcela de um signo linguístico tomado como único para cada sujeito, e para sempre irrecuperável. Ocorre uma transposição na relação sujeito/objeto atrelado ao desejo e angústia.

Pensando a ordem de nossos desejos, Lacan (1988) compreende a pulsão e como ela pode nos dizer algo do gozo, ou seja, da satisfação de nossos desejos na medida em que mesmo que se possua o que tanto se deseja, ainda há um saldo de insatisfação que estimula a repetição e deslizamento para novas buscas de objetos.

Como exposto anteriormente, ao considerar o sujeito na inter-relação com os meios e na relação com o Outro, não conseguiremos compreender sua constituição senão pelo paralelo sujeito/cultura, como parte do processo civilizatório e considerando seu papel como atuante. É possível supor que neste paralelo ocorra uma constante reestruturação cultural, e desse modo, podemos conjecturar que neste movimento haveria diferentes formas de pensar as subjetivações?

Freud em “O Mal-Estar na Civilização” (2010) fez apontamentos sobre os efeitos civilizatórios nos sujeitos e que estes seriam a fonte do grande mal-estar. Segundo o autor, a felicidade não é algo atingível, pois ao vivermos em sociedade repreendemos nossas pulsões. Com finalidade civilizatória, devemos abdicar de parte de nossas pulsões de forma a viabilizar estarmos em sociedade.

Para Freud (2010) a felicidade é o propósito da vida humana, visando sempre à ausência de sofrimento e desprazer. O que decide o propósito da vida é o programa do princípio de prazer, qual Freud (2010) levanta como um processo em que as pulsões, em uma tentativa de auto-conservação do Eu, são barradas pelo princípio de realidade, vindo a renunciar temporariamente a sensação do prazer pelo recalque, quando não há a possibilidade de serem completamente satisfeitas.

“O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito, provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio de prazer se prolonga, ela produz tão somente um sentido de contentamento muito tênue.” (FREUD, 1930 apud LIMA, 2007, p.16).

Assim, de acordo com Freud (2010), a felicidade, no contexto do princípio de prazer, é a satisfação imediata e pontual de um acúmulo de estímulos represados pelo sujeito, porém a satisfação de uma pulsão destina-se a parcialidade.

Freud (2010) indica que o programa de ser feliz imposto pelo princípio de prazer é irrealizável, mas não somos permitidos ou capazes de desistir dessa busca. Podemos seguir pelo lado positivo da meta que seria a obtenção de prazer, ou ao negativo que seria evitar o desprazer. Quando nos negamos passar pela experiência do sofrimento, estrangulamo-nos na busca de algo que instaure prazer, afinal de contas este é o mais alto patamar a se alcançar.

Em relação à felicidade, não há uma fórmula pronta, cada um deve descobrir de qual maneira se é feliz: “(…) acerca da finalidade e intenção de sua vida, o que pedem eles da vida e desejam nela alcançar? É difícil não acertar a resposta: eles buscam a felicidade, querem se tornar e permanecer felizes.” (FREUD, 2010, p. 29).  Freud (2010) nos diz então, que a felicidade, o caminho para se chegar até ela é singular e que as fórmulas prontas que nos são entregues no social são traduções genéricas de objetos pulsionais que satisfazem parcialmente e que tomam inúmeras conceituações e significações a cada sujeito, como exposto anteriormente.

Teixeira e Couto (2010) levantam que o homem parece buscar uma integralidade que nunca lhe pertenceu e jamais encontrará. É através dessa busca que o capitalismo se agrega, no seu meio de produção e funcionamento, criando objetos potencialmente descartáveis. Descrevem que para a psicanálise essa promessa que é veiculada pelo homem através de objetos, não é algo atingível na sua totalidade. Os autores levantam que desde que o homem entrou no campo da linguagem e se organizou de forma civilizatória, se constituiu como sujeito faltoso.

“É nesse sentido que, a partir do arcabouço da linguística, Lacan (1992) propõe que o significante introduz a barra à satisfação total, ou seja, o homem é incompleto porque fala. A estrutura de linguagem permite-lhe apenas aproximações daquilo que nomeia e isso configura a representação. Não se pode dizer tudo, uma vez que faltam palavras para fazê-lo. Assim, entrar na estrutura discursiva do simbólico implica em uma perda estrutural e, dessa maneira, o ser falante constitui-se como falta-a-ser.” (TEIXEIRA E COUTO, 2010, p.584)

Teixeira e Couto (2010) levantam que os sujeitos passam a se relacionar com os objetos a partir de sua desejabilidade, e não conforme sua necessidade. Logo, há uma distância entre o que se necessita e o que nos diz nossos desejos. É possível articular a subjetivação e a relação com os objetos com o capitalismo conceituado por Karl Marx (1988) e o que Lacan (apud TEXEIRA E COUTO, 2010) se refere sobre o marco do consumismo.

Para Karl Marx (1988) o capitalismo é um processo de acumulação de bens que asseguram o poder econômico ou contábil a uma pessoa, centralizando o poder de propriedade a poucos, enquanto que Lacan (apud TEXEIRA E COUTO, 2010), ao se referir sobre o marco do consumismo, discorre sobre a transição da sociedade para a revolução industrial e que essa não trouxe melhorias para a qualidade de vida humana como foi pretendido, mas instaurou uma ilusão de gozos igualitários por meio de acesso aos produtos.

De acordo com Marx (1988) e Lacan (1970), podemos entender de que mais do que sustentar a base de completude, ao falarmos de objeto, suplementamos e diluímos o desejo em produtos que nem sempre estão disponíveis, mas com os quais podemos pensar a satisfação do desejo.

“As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas, os homens transformam o seu modo de produção e, ao transformá-lo, alterando o modo de ganhar a sua vida, eles transformam todas as suas relações sociais. O moinho movido pelo braço humano nos dá a sociedade com o suserano; o moinho a vapor dá-nos a sociedade com o capitalista industrial.” (IANNI, 1988, p. 51).

Desta forma, o que Ianni (1988) propõe é de uma construção das relações que permeie a utilidade que o sujeito desempenha no social, para se fazer parte desta pede-se também que se produza.

O capitalismo permeado por mercadorias onde os sujeitos exercem força de trabalho é uma linguagem de troca onde pelo desejo de consumir e exercer este papel de consumidor, o sujeito abdique de seu corpo e tempo em troca dos produtos oferecidos por este sistema, como aponta Karl Marx (1978, p.11).

“Enquanto na mercadoria o valor de uso é o um objeto determinado com propriedades determinadas, agora (referindo-se à força de trabalho) se torna transformação de coisas – de valores de uso – que operam como matéria prima e meios de trabalho, em valor de uso de figura modificada: no produto; tal transformação se faz no meio de trabalho vivo, ativo, que é precisamente a capacidade de trabalho em ação (actu).”

Em uma analogia ao desejo, pede-se que o sujeito deseje para que se dê continuidade ao processo do capitalismo, e para sentir sua valia no social o sujeito deseja e consome, sendo que, de acordo com Karl Marx (1978), o valor empregado a um homem é o valor dado e determinado pela estimativa que os outros lhe dão.

Em Ianni (1988), podemos entender que este valor simbólico é empregado ao sujeito pela sociedade e implica em uma felicidade que se conquista na negação do sofrimento inerente da própria existência. Existem várias conceituações teóricas que contextualizam o momento social atual, tomamos como referenciais os autores que compreendem a época presente como pós-modernidade. A civilização pós-moderna, conceituada por Fortes (2009, p.1139), é um mundo contemporâneo regido pela negação de sofrimento, com a busca da satisfação dos desejos de modo imediato. A reinvindicação pela satisfação faz com que nos posicionemos em um lugar de mais-gozar; repetição de um gozo que se perdeu e que precisa ser recuperado.

2 – Sujeito de consumo

Somos conduzidos diariamente a consumir e em grandes proporções. Ao ligarmos nossos televisores, ao acessarmos nossas redes-sociais com propagandas que podemos supor, asseguram a promessa de plenitude e o alcance da satisfação de nossos desejos na obtenção de um determinado objeto.

“A sedução do mercado é, simultaneamente, a grande igualadora e a grande divisora. Os impulsos sedutores, para serem eficazes, devem ser transmitidos em todas as direções e dirigidos indiscriminadamente a todos aqueles que os ouvirão. No entanto, existem mais daqueles que podem ouvi-los do que daqueles que podem reagir do modo como a mensagem sedutora tinha em mira fazer aparecer. Os que não podem agir em conformidade com os desejos induzidos dessa forma são diariamente regalados com o deslumbrante espetáculo dos que podem fazê-lo (…) Eles também aprendem que possuir e consumir determinados objetos, e adotar certos estilos de vida, é a condição necessária para a felicidade, talvez até para a dignidade humana.” (BAUMAN, 1998, p.55).

Assim, em Bauman (1998), notamos que o capitalismo é atrelado ao mercado que nos instigam a uma tendência de consumo exagerado, Bauman (1998) levanta ainda o consumo como uma forma de condição para a felicidade e infelicidade ou até mesmo para a dignidade e indignidade humana. Lima (2007) discute que a forma de se adquirir uma identidade reconhecida é através do consumo de mercadorias ou através de um objeto que se têm um determinado significado para o sujeito que o consome. Supõe-se de um deslumbre qual é exercido pelos sujeitos que podem assim ir de um nível de inclusão e exclusão social, de felicidade e infelicidade, manifestos pelo potencial de consumo.

Rivera (2008) ponta que “A imagem nunca é espelho perfeito, onde nós, narcisos apaixonados, miramos nosso reflexo apaziguadores em falhas” (p.55). De acordo com a autora, quando somos convocados a olhar para dentro, para nossa imagem constituída inegavelmente pela falta que a castração nos provoca, tendemos a olhar sempre para o Outro, este Outro acalentará a minha falta se por intermédio de algum objeto, conclua que sou perfeito, completo.

De acordo com Lima (2007) e Rivera (2008), podemos supor desta forma que o comércio capitalista nos mostra a possibilidade de nos tornamos sujeitos completos, felizes. Se olharmos demais para este estranho no espelho que somos convidados a nos tornar, tendemos a vertigem, a um ciclo vicioso, a nos afogarmos no rio em que nossa imagem está refletida.

Segundo Goés (2008) a psicanálise nos mostra que o desejo está no campo do impossível, opondo-se a lógica do capital onde a felicidade está na obtenção do seu próximo objeto, na acumulação. Sustentado no campo da repetição – pulsão de morte[2] – como mantenedor do ideal de vida do sujeito, o que se pode articular é uma economia da falta em um excesso; sujeitos que não sabem de seu desejo e escolhem o viés do excesso para tentarem satisfazer seus desejos. Tomamos, na psicanalise, qualquer objeto que não seja da necessidade de sobrevivência para o sujeito como excesso. A pulsão desta forma está articulada ao significante, mas nem tudo nela é da ordem do significante.

Devido às impossibilidades de satisfação total da pulsão, ordenada pela rede de significantes, a forma que se encontra para a satisfação da pulsão é nas derivações, como exemplo o sintoma. A libido, com a incomensurável energia das pulsões, se satisfaz aí, no sintoma. Compreendendo o sujeito neste processo do capital, entende-se por que é tão difícil o abandono de um sintoma, como o consumismo, pois há gozo (QUINET, 2002).

Temos como efeito da linguagem sobre o gozo o objeto a, a libido é contabilizada. O capital desta forma é permeado pelo dinheiro e objetos, que buscam mascarar a todo o momento a castração à esses sujeitos, dando uma ilusão de que tudo se pode ao se obtê-los (QUINET, 2002).

Lacan (apud QUINET, 2006) formula uma metaforização do gozo ao expor o discurso do capitalista colocando o significante mestre (S1) do lado esquerdo na parte de baixo e que parte para sujeito barrado ($), do lado direito do algoritmo têm-se (S2) o saber (o Outro no discurso) e logo abaixo o objeto a – causa de desejo como (a).

Figura 1: Discurso do Capitalista

Discurso

Fonte: Quinet, A., 2006, p.38.

Lacan (apud QUINET, 2006) sugere que há um apagamento do sujeito em relação ao objeto, pois mediante a ele (ao objeto), se torna agente de um processo objeto-mercadoria, um mais-de-gozar, conceito de significado semelhante ao termo utilizado por Karl Marx (1988) de mais-valia, que segundo Lacan (apud QUINET, 2006, p.39) “é a causa de desejo da qual uma economia faz seu princípio.” Sugere-se um aumento no valor de um objeto pelo o que lhe é atribuído na medida em que outros assim indicam.

Segundo Lacan (apud QUINET, 2006, p.39) esse valor é atribuído pelo olhar do Outro, quanto mais se têm, maior valor há ao sujeito perante o social. Ao consumir o que o social pede, o sujeito faz com que a maquinaria do capitalismo funcione, não há a necessidade do objeto, mas sim do desejo de acumular para aceitação perante a sociedade capitalista.

O que Karl Marx (1988) e Lacan (apud QUINET, 2006) discutem é um gozo sem limites, sustentado pela pulsão de morte, sendo a promessa de satisfação instaurada pelo discurso do capitalista, produzida pelo capital em que o gozo se mostra através do preço, como afirma Quinet “É um discurso que excluí o Outro do laço social” (2006, p.38). Para o autor, esse discurso sobrepõe o mercado à sociedade, pois o sujeito se relaciona somente com as mercadorias.

O discurso capitalista neste sentindo mostra que conviver no capitalismo é segregante. Para pertencermos a este meio, que determina o que e quem somos, é o mercado que nos diz como devemos nos relacionar com os objetos, e traduzimos essa relação a partir dos nossos desejos. Gera-se um conflito, pois nem todos possuem acesso a tais meios de obtenção destes objetos materiais e faz-se também a tradução subjetiva da não possibilidade de aquisição. (BAUMAN, 1998).

O capitalismo como uma estrutura que engendra e determina o laço social, reflete uma dinâmica de se consumir e se posicionar como objeto de consumo. Nesta relação que se estabelece o modo de se relacionar baseia-se na produção. O que se produz é o laço social. Sob uma articulação de produção capitalista e a satisfação dos sujeitos neste meio, a condição simbólica apresenta-se enfraquecida. O simbólico, permeado pela linguagem implica em se posicionar no limite do Real, torná-lo consistente a partir de um enlace (GOÉS, 2008).

Para a produção que estabelece o laço social, Góes (2008) levanta que, além disso, estabelece-se também uma troca de mercadorias, qual seria o tempo gasto nesta sustentação do consumo; o trabalhador para consumir gasta seu corpo para produzir força de trabalho, gasta seu tempo de vida.

O que se articula é um valor que não se situa somente em um discurso econômico, mas sob toda forma-sujeito e forma de pensamento que se emprega para se configurar e se encaixar nos moldes de mercadoria (GOÉS, 2008).

Pensando isso, Bauman (1988) nos diz de uma reprodução pela ameaça de que esta estrutura saliente os medos reprimidos dos sujeitos retirando da civilização uma “normalidade” instalada na sociedade:

“(…) a ameaça é uma projeção da ambivalência interna da sociedade sobre seus próprios recursos, sobre a maneira como vive e perpetua seu modo de viver. A sociedade insegura da sobrevivência de sua ordem desenvolve a mentalidade de uma fortaleza sitiada. Mas os inimigos que lhe sitiaram os muros são os seus próprios “demônios interiores” – os medos reprimidos e circundantes que lhe permeiam a vida diária e a “normalidade”, e que, no entanto, a fim de se tomar suportável a realidade diária, devem ser dominados, extraídos do cotidiano vivido e moldados em um corpo estranho, um inimigo tangível com que se possa lutar, e lutar novamente, e lutar até sob a esperança de vencer.“(BAUMAN,1988, p.52).

Neste escrito de Bauman (1988), dá a se entender que o tempo seja o inimigo com o qual os sujeitos lutam na esperança de pertencimento a algo, pois estamos em desemparo, fomos constituídos assim. Mas ainda assim, tropeçamos ao tentarmos operar essa promessa de amparo sustentado pelo capitalismo, pois escapa pelas mãos tanto o valor de uso quanto o valor de troca; digo de um tempo que se emprega no exercício de pertencer a esta maquinaria e que nos tornamos simples engrenagens que sustentam seu funcionamento, isso faz de nós alienados ou queremos estar alienados a isso?

3 – A cultura do consumismo e a idealização de satisfação

Neste apanhado que fizemos sobre sujeito que consome e se consume, Freud (2010) apresenta a problemática pelo imperativo do supereu, conceito esse levantado como uma instância crítica e reguladora das satisfações pulsionais e que obriga o sujeito a buscar prazer. O sujeito, ao se ver barrado pelas normas sociais implementadas, tende ao sentimento de culpa pela autocensura que permeia esse processo de consumir.

Não se trata somente de um objeto de desejo próprio da pulsão, mas de um objeto de desejo atribuído pelo apelo publicitário ao consumo e por sermos sujeitos desejosos queremos tamponar uma falta qual não se têm noção consciente e que inconscientemente impele o sujeito para que tente se apropriar de objetos que potencialmente propiciarão uma completude prometida (FREUD, 2010).

De acordo com Freud (2010), pode-se supor que há instaurada uma reciclagem de objetos, pois quando não encontramos a satisfação em um, a procura por outro ocorre imediatamente, como em um deslizamento de objetos. Iludidos de que somos donos de nossos desejos e vontades, optamos pelo excesso. Sem nos apropriamos do que consumimos, aliamo-nos da pulsão de morte e entregamo-nos ao prazer e nos alucinamos a sensação de sermos livres.

Vemos em Fortes (2009) que a sociedade de consumo segue um princípio individualista, no que podemos chamar de tempos pós-modernos, não há mais uma exigência de renúncia pulsional qual Freud (2010) delegou como constituinte da cultura, em que represávamos nossas pulsões em favor do social. Fomos libertos parcialmente de alguns tabus, dentre os quais alguns nos conduziram a um desprendimento do outro e a um gozo individualista, em que se consomem objetos vorazmente.

Já na pós-modernidade, Fortes (2009) diz que o sujeito não é mais a parte de um todo social, mas dono de si mesmo, visto que não há nada que o interdite e que o impeça de gozar, não há uma autoridade que o reprima. O autor levanta que ao quebrarmos alguns tabus, bem como laços e barras que interditavam o sujeito, este ficou a mercê do gozo, em que não se deve ser mais nada do que feliz.

Para Fortes (2009) há uma queda das expectativas dos ideais sociais do sujeito inserido nestes novos tempos, frente às instabilidades e incertezas apresentadas quanto ao futuro e aos laços sociais, e que faz com que nos perguntemos: por que adiar o gozo? A resposta comumente apresentada nos dias de hoje é que não há o porquê renunciá-lo. Busquemos de qualquer forma nos apropriar da felicidade que podemos encontrar aqui e agora.

Freud (2010) nos dizia da renúncia do prazer em prol da segurança, da instauração e manutenção da civilização, com a leitura que fizemos em Fortes (2009) podemos fazer uma ponte supondo que na atualidade o homem abre mão da sua segurança em sociedade em prol do prazer, o inverso do que ocorria nas observações de Freud (2010). Nota-se que os sujeitos e a sociedade em geral são acometidos pela fragilidade dos laços sociais, tornando-os mais propensos a compulsões e ao desamparo.

4 – O consumo e sua dimensão ética

O consumo passa por uma dimensão ética na psicanálise quando se aplica o valor simbólico dos objetos e sua desejabilidade, seu uso e a modificação da satisfação pulsional. O consumo como sintoma analítico define o campo do desejo, considera-se a marca deixada pelo significante analisando a necessidade de imediaticidade. (LACAN,1988)

Ao pensarmos o consumo em uma dimensão ética pelo viés da psicanálise, o que entra em questão é a pulsão. Posicionado o sujeito para o campo da pulsão de morte (FREUD, 1976), em que o sujeito devora-se, consume-se, se faz devorar e se é consumido, é neste campo de fazer-se que a pulsão se apresenta e pode encontrar sua significação no Outro. Este Outro na clínica psicanalítica refere-se ao papel do analista pela figura questionadora, dando consistência ao desejo do sujeito e fazendo-o produzir um saber acerca de si mesmo (LACAN,1988).

Lacan (1988) discorre que a análise vem a evidenciar um deslocamento na ganância de gozo, como levantamos mais acima; um gozo individualista. Para Lacan (1964) o sujeito de consumo inserido no excesso se coloca em uma posição na qual ele mesmo se consome no papel que se oferece como algo a ser consumido pelo olhar do Outro, como algo a se possuir. Em análise, na medida em que o sujeito se esvazia da repetição olhando para si mesmo, o olhar do Outro perde consistência no campo subjetivo.

5 – Considerações Finais

Neste contexto capitalista e pós-moderno no qual estamos inseridos, penso que podemos alterar como nos posicionaremos e vivenciaremos a experiência da vida, considerando o que nos rege nela – a pulsão, tal qual Freud (1976) nos propôs. Analisar ainda os pressupostos lacanianos, de que somos lançados ao mundo como sujeitos em constituição a partir da linguagem, e que assim temos acesso simbólico aos nossos desejos e podemos nominá-los (mesmo que parcialmente), a nossa falta constitutiva.

Freud (2010) aponta que mesmo na sublimação, compreendida como a capacidade que temos em direcionar nossas pulsões para aquilo que é um bem coletivo e socialmente aceito, nossa satisfação será sempre parcial.

Consumir e consumição são dois pólos, onde consumir é reforçado pelas propagandas que nos instigam a compra e a tendência é o consumo exagerado de materiais. Já a consumição, ao recorrermos ao Dicionário (1986), diz do ato de consumir-se, em que o sujeito faz uma economia libidinal do laço social com o Outro e se mortifica ao consumir. (QUINET, 2012).

O laço social como estruturação da civilização, vem de encontro com a forma que o sujeito se articula com o Outro. A articulação que se faz é que este, o laço social, seja o sintoma de nossa era. O articular do sujeito inserido neste contexto, penso, é o da alienação, alienação da experiência de satisfação proporcionada pelo objeto. O gozo individualista no capitalismo demarca o limite de simbolização que estes apresentam; um paradoxo entre Real e Simbólico.

Freud (2010) em seus escritos nos mostra a novidade de tratar os sintomas do sujeito, não como um defeito ou degeneração, mas como uma forma deste se expressar no mundo, “O princípio do prazer busca eliminar e evitar. Surge a tendência a isolar do Eu tudo o que pode se tornar fonte de tal desprazer, a jogar isso para fora, formando um puro Eu-de-prazer […]” (FREUD, 2010, p.18). Ao entendermos esse sujeito que abdica do prazer para um bem social, esse acumulo de libido sofre uma repressão, ela tem de ser satisfeita de alguma forma. Quando Freud (2010) nos diz de pensarmos o modo de expressão do sujeito, estamos também mantendo a dinâmica social; trata-se o individuo para que se continue instaurado o que ele chamou de civilização.

Como dito anteriormente, Freud (2010) levanta que a finalidade da vida e sua conduta passam a ser a de uma busca pela felicidade, pelo princípio de prazer. Esta vem a tomar o posto de intuito da vida, entretanto somos barrados pelo princípio de realidade e pelas possibilidades de sofrimento: “do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças poderosíssimas, inexoráveis, destruidoras; e por fim, das relações com os outros seres humanos”. (FREUD, 2010, p.31).

Diante desta constatação, é de se considerar plausível os arranjos que os sujeitos tomam para não se haverem com a dor, e que as fantasias diante do que os tornariam felizes ultrapassem as conexões com a realidade, com mensagens de produtos que prometem a aquisição da felicidade e completude.

Precisamos mediar à relação de linguagem com o Real que nos circunscreve socialmente. A psicanálise pode ser pensada como um dos dispositivos que pode auxiliar na reflexão ética, sobre o sentido das nossas ações, da nossa responsabilização por eles frente ao nosso sofrimento e ao coletivo, aos laços sociais frágeis que somos inseridos e na perpetuação da sua fragilidade.

Em Fortes (2009) o que se percebe é que os excessos vão para além dos objetos em sua materialidade, facilitados pelo declínio da função significante. Os objetos na pós-modernidade tomam o lugar do discurso que definiram a civilização moderna – a linguagem, assim como a renúncia ao gozo. Hoje, o discurso do sujeito é ter, uma exteriorização do Eu construída na ausência de laços, negado e aniquilado em sua dimensão subjetiva por uma sociedade que valoriza a materialidade.

Penso que a psicanálise possa vir como uma das possibilidades na tentativa de explanar sobre os modos como vivemos individualmente e coletivamente a insatisfação constitutiva. Desde os repúdios e tabus que instalaram o mal estar na relação entre os sujeitos, com o advento mais tenro e perdido da humanidade. Mas tornamo-nos mais humanos com a civilização?

Quando tomamos essa sociedade na qual se preconiza o individual a partir da lógica capitalista, a psicanálise é concebida como um dispositivo de auxilio. Mas pensando nisto, a psicanálise seria uma individualização do sofrimento que tange o social? O sujeito surge então como consumista pelo capitalismo ou o capitalismo instaura o sujeito consumista pelo viés do acúmulo como sintoma? que já discutimos é que o sujeito inserido na pós-modernidade é um sujeito que preconiza sua individualidade e até mesmo seu gozo é tido desta forma, produziu-se também neste contexto um sofrimento individualista. A psicanálise vem como uma criação da modernidade para o desamparo, tendo em vista que não se faria necessário em uma sociedade estruturada, tradicional onde o sujeito fosse posicionado estratificamente em uma classe social e lugar familiar. Com os estudos de Freud, com a quebra de alguns tabus, ganhou-se “liberdade” e o sujeito pós-moderno vem pagando o preço de se ter essa liberdade: alienação, servidão voluntária (inconsciente).

A psicanálise não vem prometer o fim da angústia, entendemos que esta é inerente a natureza humana, mas pode ajudar a questionar o que se pode fazer perante a selvageria do capital, que assujeita, objetifica e patogêniza o sujeito e seus laços sociais. Não se trata de um dispositivo que evite os conflitos entre grupos – social – cria-se um “consenso”, também não se trata de uniformizar, mas de que viabilize a manifestação do que está atrelado a esse gozo individualista, de sair da posição de demandante, e de colocar o sujeito a se reconhecer em seu discurso, reconhecer que a pulsão pode nos mover para a vida e não torná-la uma condição patologizante dela.

Uma escuta ética do sintoma, que tanto se apresenta atualmente, é um movimento de fazer o sujeito questionar sobre si mesmo e o modo como estabelece suas relações sociais, e de fazê-lo se intrigar com a posição que toma neste contexto, e da posição que assume frente ao outro, trata-se de uma emancipação subjetiva que torne sua forma de participar do laço social mais criativa e empática.


[1] Modo de satisfação da libido em um autoerotismo, em que as pulsões encontram satisfação no próprio corpo. In: Sobre o narcisismo: uma introdução (1914).

[2] Conceito trabalhado por Freud em 1976 como uma pulsão auto preservativa narcísica de caráter libidinal relacionada a uma compulsão a repetição que tende a uma descarga, esta está voltada para o interior e a autodestruição dirigida para o exterior.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

COELHO, N. E. Jr. A noção de objeto na psicanálise freudiana. Ágora v. IV, n. 2. jul/dez. 2001. 37-49.

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Anna Isabel Araújo Vaz é professora especialista pelo Programa de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde do Adulto e Idoso com Ênfase em Atenção Cardiovascular (PRIMSCAV) pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Especialista em Saúde e Psicanálise pelo programa de pós-graduação do Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo- SP. Graduada em psicologia pela Universidade de Cuiabá (UNIC). Orientadora do curso de Psicologia do Centro Universitário de Várzea Grande – UNIVAG.

Naiara Pereira da Silva é bacharela em Psicologia pelo Centro Universitário de Várzea Grande – UNIVAG.

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