Perante a morte de Ernesto “Che” Guevara

Por Louis Alhusser, via PCB, traduzido por Igor S. Livramento e revisado por Matheus Cornely.[1]

Segue reprodução de carta escrita pelo filósofo Louis Althusser ao dirigente comunista cubano e diretor da revista Casa de las Américas, Roberto Fernandez Retamar, enviada poucos dias após a morte de Che Guevara, na Bolívia, em 09 de outubro de 1967. Nela, Althusser deixa claro que sem movimento de massas populares, não há revolução.


Paris, 25 de outubro ‘67

Querido Retamar:

Recebi teu telegrama e tua carta. Te enviei um telegrama em que estou inteiramente de acordo com seu projeto de publicar minha carta ao Régis, assim como com dar as devidas honras. De fato, as circunstâncias são impositivas.

A morte de “Che” me abalou. Essa morte trágica, o processo do Régis e o destino que o ameaça me causam uma dor e uma dúvida lancinantes. Não apenas uma dor, mas também uma dúvida. Tu me compreendes.

Pedes uma página ou algumas linhas sobre “Che” para o número especial da Casa.

O que eu posso dizer, como simples indivíduo, podem dizer tantos outros e certamente melhor que eu. Não apenas todos que conheceram “Che”, como também todos aqueles para quem ele existiu e existe, ainda que não o tenham conhecido: militantes e pessoas do povo. Seu testemunho é infinitamente mais valioso e tem mais peso que o de um simples intelectual.

Se é absolutamente necessário que eu me pronuncie (mas é absolutamente necessário?), o farei como intelectual comunista, quer dizer, como um intelectual que se esforça em ser ideólogo da classe trabalhadora (Lênin emprega essa fórmula), de quem se espera, como de todos os revolucionários conscientes, que veja um pouco além de sua dor e suas emoções, em síntese, que seja capaz de refletir sobre o exemplo e sobre a morte de “Che”.

Está aqui o que diria, levando em conta a situação atual, se fosse absolutamente necessário fazer uma declaração pública.

“Como milhões de homens no mundo, me senti, abalado pela morte de ‘Che’ e as circunstâncias dessa morte, em combate.

Sabemos há muito tempo que ‘Che’ não pode ser esquecido. Agora sabemos o que nos legou: não somente sua vida, mas também sua morte, para que meditemos.

Com sua vida, ‘Che’ nos deixou um admirável exemplo de consciência, de vontade, de coragem e de abnegação revolucionários. Sua morte chama a todos os revolucionários a cumprirem com seu dever: A Revolução.

‘Che’ nos deixa uma definição marxista-leninista da estratégia geral da luta das classes revolucionárias na América Latina; em seu apanhado, a luta revolucionária das massas da América Latina passa e passará necessariamente pela luta armada.

O exemplo de ‘Che’ impõe aos revolucionários o dever de jamais esquecerem a estratégia geral que ele definiu.

No entanto, a morte de ‘Che’ impõe aos revolucionários outro dever. Os revolucionários devem superar suas emoções e cerrar suas fileiras. Os revolucionários devem refletir sobre as condições da morte em combate de ‘Che’, sobre as condições da luta que levam adiante. Devem aprofundar seus conhecimentos e suas reflexões sobre as relações de classes existentes na América Latina, em escala nacional e em escala internacional; sobre as formas concretas de aplicação, em cada caso e em cada etapa da luta, da estratégia geral definida por ‘Che’; sobre as táticas particulares a pôr em prática que correspondam concretamente a cada caso e a cada momento.

Não se pode refletir concretamente fora da luta. Como a luta de classes é internacional, os revolucionários do mundo inteiro podem contribuir para definir uma estratégia geral, podem compreendê-la, apreciá-la e aprová-la. Todavia, somente os revolucionários imersos na luta numa região do mundo estão em condições de refletir concretamente, podem analisar objetivamente as relações de força econômicas, políticas e ideológicas da luta de classes com que lidam, para definir as táticas adequadas a sua luta.

‘Che’ deixa aos revolucionários, com sua vida e com sua morte, esse grande exemplo. Nunca deixou de unir a reflexão e a luta. Pôs a serviço de sua luta toda sua inteligência, toda sua lucidez.

Os revolucionários seguirão esse exemplo. As condições nas quais ele lutou e morreu impõem aos revolucionários a tarefa, indispensável para a vitória de sua causa, de aprofundar, na luta mesma, a análise das relações de força nas situações concretas da luta de classes, para definir as táticas apropriadas a levar a cabo, em cada caso, e em cada momento, segundo a estratégia geral da luta revolucionária na América Latina.”

Está aí, em termos gerais, o que tinha a dizer. Quem sabe “Che” não estaria de acordo com todas as formulações, porém esses desacordos parciais formam parte da luta pela qual se sacrificou. Um verdadeiro canto fúnebre não pode deixar de ser ao mesmo tempo uma reflexão política, quando o que se comemora é a morte de um homem político. Dito isso, não te escondo que prefiro que não publiques nada meu. Mas, se é absolutamente indispensável, e se este texto pode ser publicado, então te dou.

Quanto ao mérito das questões, ao que simplesmente aludi nestas linhas, eis aqui meu sentimento.

A exigência da reflexão, da análise, da definição de táticas concretas não implica julgar a estratégia geral de “Che”, senão, ao contrário, realizá-la. Em seu conjunto, a revolução na América Latina passa e passará necessariamente pela luta armada. Contudo, essa estratégia geral é uma estratégia geral que, enunciada de tal forma, torna-se abstrata. Ela exige sua realização nas formas concretas de luta, que correspondam, para cada país, ao conteúdo de classe de cada momento da luta. Portanto, impõe-se definir as formas concretas de organização, os objetivos concretos (numa luta revolucionária de longa duração esses objetivos variam com o desenvolvimento da luta, e as modificações nas relações de classes), as táticas concretas e os métodos de luta concretos que correspondem aos objetivos concretos de cada etapa importante da luta de classes.

Essas diversas definições (organizações, objetivos, táticas, métodos, etc.) se baseiam por sua vez sobre a estratégia geral e sobre a análise concreta, conduzida de acordo com os princípios da teoria marxista, assim como das relações de classe econômicas, políticas e ideológicas que existem em cada país, e em cada momento.

Uma estratégia geral justa não é suficiente. Fazem falta organizações, objetivos, táticas e métodos de luta corretos e justos, que não se podem definir sem os resultados concretos dessa análise concreta das relações de força que constituem o estado presente, e as potencialidades da luta de classes em cada país, e no conjunto dos países.

Ora bem, no que pude ler do “Che”, e no livro do Régis, encontra-se uma definição da estratégia geral, cuja demonstração se baseia sobre uma análise global da luta de classes; se encontra também a definição de uma organização militar, de sua tática e de seus métodos de luta (a guerrilha), mas não se encontra a análise concreta sobre o estado das forças da luta de classes em cada caso.

A guerrilha resulta como objeto de uma simples afirmação, e não de uma demonstração baseada sobre uma análise, ou melhor sobre as análises de classes concretas. Por outro lado, trata-se de uma organização única, encarregada de todas as tarefas, sem que sua unidade esteja fundada demonstrativamente nas análises concretas.

Na ausência de análises concretas, que nesse nível decidem quase tudo, na ausência de análises concretas das relações de classes nas situações concretas, por um lado; em presença de uma só forma de organização (que não é objeto de nenhuma demonstração baseada sobre análises concretas), por outro lado, se tem a impressão de um curto-circuito. De modo brusco se coloca a estratégia geral em relação com uma forma única de organização com tática e métodos próprios. Nesse curto-circuito desaparece um termo importante: a definição de objetivos concretos (que implica necessariamente seu carácter gradual, sua mudança em função dos desenvolvimentos da luta de classes). Substituem-se os objetivos concretos por um objetivo global, que é abstrato: a vitória da revolução, a tomada do poder. A ausência de análises concretas e a ausência de objetivos concretos por etapas seguem de mãos dadas desse curto-circuito da estratégia geral e da organização única e de sua tática própria.

Tu sabes que tudo depende em definitivo da validade das teses de Régis acerca das relações entre a guerrilha e o Partido. Por duas razões: porque a tese geral de Régis é, como tese geral, discutível (que a guerrilha é o Partido in nuce[2]); e também, e sobretudo, porque a tese de Régis reduz os complexos problemas da luta revolucionária de massas a esse único problema: as relações entre a guerrilha e o Partido. As coisas não são tão simples. Consideremo-las em ordem crescente de importância.

1) A tese de Régis (relações entre a guerrilha e o Partido) concerne à relação entre, por um lado, a organização militar da luta de classes revolucionária e, por outro, a organização política da luta de classes. É uma questão muito importante, ainda que não a mais importante.

2) A questão mais importante, decisiva em última instancia, não concerne à relação entre duas organizações, senão à relação entre a organização ou organizações por um lado, e as massas populares por outro. Essa articulação entre uma ou várias organizações e as massas é capital, porque, como ditam a teoria e a experiência revolucionária marxista-leninistas, são as massas que fazem a história em última instância.

Numa luta popular como a que se desdobra na América Latina é necessário, portanto, levar em conta as duas articulações e não apenas uma. É necessário levar em conta não apenas a articulação entre a organização de luta militar (a guerrilha) e a organização de luta política (o Partido), como também e ao mesmo tempo a articulação entre as organizações de luta e as massas populares. E é preciso nunca perder de vista qual dessas duas articulações é decisiva em última instância (a articulação organização/massas) e a outra, apesar de toda sua importância (e através de todos os deslocamentos da dominante), a ela está subordinada.

Se se mantêm firmemente esses princípios, que eu não invento, os quais estão inscritos com todas as letras na experiência revolucionária existente, derivam-se importantes consequências teóricas e práticas.

Se se têm em conta essas duas articulações, assim como a primazia da segunda diante da primeira, adverte-se que o conceito de guerrilha não é adequado para designar as características da luta em seu conjunto, os caracteres do processo de luta que, no entanto, sempre estão mais ou menos presentes na consciência dos guerrilheiros politicamente mais formados. O conceito que reconhece a existência e a importância dessas duas articulações é o conceito de guerra popular, com todas as exigências que ele implica. Na primeira fila dessas exigências: o povo. O povo são as massas populares. As massas são o conjunto de classes e grupos sociais que estão num mesmo lado na luta, contra o mesmo inimigo. O conteúdo do povo varia segundo as etapas da luta de classes: segundo as etapas da luta, uma classe ou um grupo social dado se une ao povo ou o abandona para passar ao lado oposto.

Disso se infere que é preciso saber sempre quem é o povo, em cada momento da luta, onde está o povo, como está constituído, o que quer, de que é capaz, etc. Daí a necessidade vital de análises concretas da situação das classes e das relações de classe.

Infere-se que nenhuma organização pode sobreviver sem conseguir o apoio do povo, por menor que seja esse povo no início, sem tratar de obter rapidamente o apoio do povo. Por ele é preciso que a organização defina objetivos concretos, que correspondam ao que quer o povo, e saiba traduzi-los em coisas concretas. É sobre esta base que se podem empreender ações, incluso da parte da guerrilha. Sem objetivos populares concretos, que podem obter a adesão do povo, ou pelo menos de certas camadas populares para daí alcançar as outras camadas mais amplas, a ação das organizações é estéril, e certas organizações, que não podem viver sem o apoio direto do povo, podem desaparecer, ou ser destruídas.

Isso não quer dizer que se deva abandonar por um só instante o princípio da guerrilha. O que quer dizer é que em una guerra de classes prolongada como a que se prepara na América Latina, precisa situar a guerrilha em seu justo lugar, em função das duas articulações que foram indicadas, e não esperar milagres rápidos de uma organização que é um elemento capital da guerra popular, porém que só pode exercer sua função num conjunto complexo definido, no qual o estado das massas na luta de classes desempenha o papel determinante em última instância.

Sei que a este esquema geral (que não é mais que um esquema) se poderia opor o exemplo de Cuba, onde as coisas não sucederam dessa forma. Em Cuba a guerrilha passou com grande rapidez e com facilidade relativa da simples guerrilha a formas da guerra popular. Contudo, esse resultado tem causas específicas que mereceriam ser analisadas: a situação da luta de classes na mesma Cuba por um lado, a conjuntura internacional por outro (os Estados Unidos não intervieram), permitiram essa passagem rápida e (relativamente) fácil. Não é certo que as coisas sucedam da mesma maneira nos outros países da América Latina. A situação interna da luta de classes pode ser diferente ali (até onde conheço, na Bolívia os campesinos tomaram posse das terras ao ocorrer a revolução do MNR; o grito mobilizador dos campesinos, o grito secular dos campesinos, a Terra para os Campesinos!, não podia desempenhar ali, apesar da atroz miséria campesina, seu papel revolucionário); igualmente é distinta a situação da luta de classes no plano internacional (os Estados Unidos intervieram agora diretamente, com métodos que, para ora, desgraçadamente parecem ser relativamente eficazes). A conjuntura que permitiu à guerrilha cubana desembocar rapidamente numa forma de guerra popular (apoio e participação ativa das massas) não existe quiçá em lugar nenhum da América Latina. É impossível pronunciar-se sobre esse ponto sem análises concretas. Não é possível pensar, a priori, que a guerrilha desembocará rapidamente e por seus próprios meios numa guerra popular.

Se assim fosse (e é possível que eu me equivoque, é possível que se tenham feito análises concretas), haveria que se pensar o papel da guerrilha, indispensável, em função do processo de desdobramento da guerra popular, que ameaça ser uma guerra prolongada. Se for assim, as exigências que indiquei (as duas articulações e suas consequências) devem ser tomadas em consideração para atribuir à guerrilha não apenas seu lugar de intervenção no espaço, como também suas formas de intervenção no tempo, e suas condições de intervenção (mínimo de apoio popular, perspectivas de incremento do apoio das massas populares), igualmente aos objetivos, às táticas, aos métodos concretos do conjunto da luta, em seus distintos momentos. Pôr em primeiro plano o conceito de guerra popular, com todas as suas consequências, é reconhecer o papel determinante da segunda articulação (organizações/massas). Está alinhado com todas as formas de experiências legadas pelo movimento trabalhador nas dissimilares lutas que este empreendeu (tanto as frustradas pelo fracasso como as coroadas pela vitória).

Sei que é fácil dizer estas coisas de longe e escrever frases sobre uma folha de papel. Não tenho de forma alguma a pretensão de ensinar nada a ninguém. Não faço mais que recordar princípios provados, e provados por inumeráveis lutas, seja qual for a forma. Só me permito esta chamada dentro dos limites, extremamente estreitos, em que um intelectual, que pode ter, pelo menos através do estudo, acesso às lições dessas experiências de luta do movimento trabalhador, pode auxiliar com isso os companheiros que fazem infinitamente mais que ele, porque eles sim estão na luta em que frequentemente deixam a vida. Porém, creio que dentro desses limites é meu dever fazer esse chamado.

Se julgares útil dar a ler essas últimas considerações aos companheiros responsáveis – ou um dos –, deixo a teu bom juízo. De minha parte, não dirijo o anterior mais que a ti.

Um abraço,

Althusser


[1] Inserções do tradutor estão [entre colchetes]. Tentou-se preservar a estrutura sintática e os matizes vocabulares castelhanos da carta traduzida.

[2] In nuce é uma expressão latina que significa literalmente “em [uma] noz”, ou seja, “resumidamente, no núcleo, no osso, em suma, de modo conciso”.

 

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