Todas as cartas chegam ao seu destino? Resposta a uma carta sobre o futuro

Por Gabriel Tupinambá

Esse texto foi minha resposta a uma carta, escrita por um amigo em Março de 2017, convidando a mim e a outros correspondentes para um debate sobre o problema do futuro.


 

Meus amigos,

Tenho que admitir que, num primeiro momento, eu não entendi por que falar do futuro através de cartas. Não partilhamos já de tantos fóruns em comum onde poderíamos tratar do assunto? O que seria possível dizer numa carta que não poderíamos dizer um para os outros em nossas conversas, através de textos acadêmicos, comentários em redes sociais, etc? Mas mesmo sem saber o que o  Joelton [Nascimento] pensou quando propôs esse formato, eu tenho certeza que não foi por capricho, e essa convicção me levou a pensar mais seriamente sobre a relação entre as cartas e o futuro.

Foi quando me lembrei de uma pergunta que o Lacan se colocou nos anos 50, quando estava organizando as bases de seu “retorno a Freud”. Em um comentário bastante hermético sobre o conto de Edgar Allan Poe A Carta Roubada – comentário que escolheu como texto de abertura de seus Escritos – Lacan faz a seguinte pergunta: será que toda carta chega ao seu destino?

A questão é mais capciosa do que parece. Não se trata de saber se uma missiva chega sempre ao seu destinatário designado. É claro que existe a possibilidade do extravio. A questão é saber se o eventual ponto final de seu trajeto poderá sempre considerar-se um destino. Uma caixa de “achados e perdidos” não deixa de ser um lugar, afinal de contas. Nenhum presente é dado com o objetivo de ser perdido, mas, se por contingência é o que ocorre, nem por isso deixamos de ser capazes de encontrar um lugar para ele – pode ser tanto a lata de lixo ou uma outra pessoa. Não se trata, portanto, de garantir as condições para que uma mensagem chegue ao seu endereço previsto, mas a qualquer endereço. Isto é, o que interessava a Lacan era saber o que faz de um ponto contingente qualquer um “lugar”.

Em termos filosóficos, essa pergunta poderia ser formulada assim: será que qualquer percurso contingente pode ser reconstruído como “tendo sido” necessário, ou essa reconstrução é ela mesma condicionada por determinações contingentes, que podem não estar presentes? Esse não é um problema menor para a clínica psicanalítica, que lida quase que exclusivamente com o destino das palavras. Será que toda palavra materialmente emitida – e portanto exposta às contingências do som, da grafia, do entendimento do outro, etc – será que essa palavra é sempre significante? Isto é, será que sempre poderemos incluí-la num processo de significação, mesmo quando, à despeito do sentido que pretendíamos, ela se “extravia” num lapsus linguae?

O que me cativou aqui foi perceber que a questão do destino da carta é, no fundo, uma questão de “futuridade”. Não é uma questão sobre o futuro propriamente, pois, como vimos, não se trata de prever o que vai acontecer, ou em qual lugar a carta chegará, mas antes de saber quais as condições para que, qualquer que seja esse ponto, ele seja significável. E esse é um problema com o qual eu lido todo dia na clínica, mas que nunca tinha colocado nesses termos. Em uma sessão de análise, a pessoa fala do que quiser, mas no curso dessa livre associação vão emergindo certas repetições: pode ser uma expressão que a pessoa sempre usa, mesmo quando descreve situações diferentes, ou algo que o analisando sempre titubeia na hora de falar – enfim, certos fragmentos da fala ganham um relevo distinto, ganham “significância”. E é onde aparecem essas repetições que a interpretação analítica pode incidir. Não é que eu saiba o sentido do que se repete – pelo contrário: meu trabalho é evitar que essas repetições sem sentido desapareçam sem vestígio, seja pela minha própria ação (ficar quieto quando o outro interrompe o próprio discurso, ou apela para o nosso consentimento, pode ser bem difícil!) ou pela ação do próprio analisando (que logo busca explicar os elementos em seu discurso que despontam sem razão aparente, recobrando a continuidade de seu monólogo). A interpretação analítica visa, seja através do silêncio ou da pontuação, tornar essas repetições legíveis. Digo “legíveis” porque isto é realmente o máximo que posso fazer: transformar um traço repetido em um hieróglifo, já que não sabemos o que isso quer dizer – e chamar a relevância de um equívoco, de um investimento excessivo na pronúncia, ou uma ambiguidade de “inteligível” seria certamente um exagero. Eu tento transformar um extravio num possível destino para uma carta – mas o que está escrito nela, e que sentido a carta ganha quando “retirada” nesse novo endereço, isso eu não tenho como antecipar e é algo que depende muito mais da maneira como o analisando vai responder à interpretação. Coisa que às vezes a gente só descobre semanas ou meses depois.

Me vem agora à cabeça uma frase que me marcou muito quando comecei a estudar psicanálise, uma descrição que o filósofo Jean-Claude Milner faz do que seria o “significante”, esse elemento que ganha um relevo distintivo na fala de alguém, uma definição que articula de saída a significância e o futuro. Ele diz que o significante é “um holograma de um pensamento vindouro”. Eu acho que essa ideia de que a intervenção analítica transforma um lapso num holograma – isto é, numa espécie de virtualidade ou imagem nebulosa – que por sua vez guarda o lugar de um pensamento ainda por vir é uma caracterização bem interessante do trabalho do analista. É um trabalho parecido com o do carteiro, só que aqui as cartas transitam primariamente no tempo e não no espaço – o difícil é fazer o que é significante durar, transformando a falta de lugar de uma palavra (um extravio) num indício de um sentido por vir (um destino). O que chamei de “futuridade” é essa propriedade meio nebulosa – que Milner associou a um holograma – que faz com que o que é significante “tenha futuro” e se disponibilize temporalmente de maneira a se enganchar em acontecimentos e pensamentos que ainda não ocorreram.

Esse tema tem claramente a ver com a ideia benjaminiana de “sinais do futuro”. Isto é, estamos certamente falando da “arte de reconhecer, a partir de uma posição subjetiva engajada, os elementos que estão aqui, no nosso espaço, mas cujo momento é um futuro antecipado”, como diz Zizek em O ano em que sonhamos perigosamente. Mas existem algumas diferenças importantes entre “significante” e “sinal”, que eu gostaria que a gente considerasse.

A primeira diferença tem a ver com o papel da alteridade: os sinais são emitidos para um outro, enquanto o significante é formado através do outro. No primeiro caso, os sinais estão aí, ilegíveis, até que eu, adotando “uma posição subjetiva engajada”, me faça endereço dos sinais, isto é, adote o ponto de vista futuro a partir do qual esses sinais são legíveis. No caso do significante, eu não me posiciono de modo a ser capaz de ler um sinal, ao invés, meu engajamento informa a legibilidade para o próprio analisando daquilo que ele falou. Trata-se menos de ler do que de compor um fragmento do futuro. Essa diferença me parece que é o que está em jogo no adendo que Zizek faz à Benjamin, quando diz “contudo, apesar de aprender a observar os sinais do futuro, também devemos estar cientes de que o que fazemos agora só se tornará legível quando o futuro chegar”. A arte de ler os sinais do futuro é importante, mas existe uma outra arte através da qual, com nossa ajuda, certos materiais têm a chance de servirem de sinais do futuro para os outros.

É por isso que nunca é demais enfatizar que, na clínica, a intervenção do analista faz parte da legibilidade do significante – isto é, a pontuação analítica não apenas “mostra” uma repetição, mas “molda” essa repetição, dá forma a ela. Através da interpretação, aquilo que era outro na fala do analisando aparece para o falante como sendo outro de sua fala – é como se houvesse uma decantação da fala, e o “holograma” significante precipitasse dali como uma substância heterogênea. É por que o analista participa da catalização desse precipitado que o analisando raramente se indaga nesse momento “o que é que eu quis dizer com isso?” mas sim “o que é que meu analista acha que eu quis dizer?”: é porque um outro participa na transformação de um lapso num elemento significante que a questão também se coloca através de um outro. No entanto, através dessa suposição de que o analista saberia alguma coisa sobre o sentido de suas repetições, o analisando está, na verdade, indagando-se sobre um sentido ainda por vir. Através de sua intervenção, o analista se faz de depositário de um “pensamento vindouro” que ele não sabe qual é.

Isso nos traz à segunda diferença entre a “futuridade” do significante e os sinais que antecipam a abertura do futuro, que é que esses sinais são essencialmente fragmentos de cultura que representam um outro modo de vida ou uma “possibilidade impossível”, a disposição futura do significante – sua qualidade de ter um destino – é material, ou mesmo infra-estrutural. Parece estranho definir esse trabalho de carteiro analítico dessa maneira, mas acho que se a gente olhar bem, “infra-estrutura” é um bom nome para aqueles dispositivos técnicos que funcionam através de seu próprio desaparecimento, isto é, que são determinantes justamente por deixarem o caminho livre para um outro princípio de determinação. E eu acho que o psicanalista é um técnico em logística (talvez a gente possa mesmo suplementar a “lógica do significante” com uma  “logística do significante”…), que, ao invés de remeter espacialmente as cartas extraviadas em análise, dá uma forma à elas para que possam ser retiradas em um outro momento no tempo – um momento descontínuo com o presente (já que o sujeito não será mais significado da mesma maneira por suas próprias palavras).

Ou seja, além da arte de reconhecer elementos que pertencem ao futuro, há também a arte de “enviar” elementos para o futuro, que eu acho que é uma arte que a psicanálise aplica no seu dia a dia, e que a metáfora da carta e seu destino, que Lacan usou no começo de seu ensino, nos ajuda a entender.

Tudo isso para chegar ao problema que nos interessa, que não é a psicanálise, afinal de contas, mas a política. Na política, quais as condições necessárias para que uma carta chegue ao seu destino? Isto é, o que permite que um processo político envie algo para ser determinado pelo futuro?

Me veio à cabeça agora o livro do David Graeber Utopia of Rules, em que ele analisa criticamente nossa “paixão pela burocracia”. Lá ele comenta como o sistema postal serviu de inspiração e modelo organizacional para diversos pensadores comunistas, de posições muitas vezes antagônicas, na virada do século vinte – Lenin e Kropotkin, por exemplo. Graeber critica essa fascinação pela burocracia “top-down” do serviço dos correios, demonstrando como ali já se insinuava o veneno do socialismo de Estado. Mas é engraçado, porque, à luz do problema da “futuridade”, e da minha apresentação do psicanalista como um “carteiro temporal”, eu vejo que uma outra forma de crítica é possível, e que tem um pouco a ver com a análise que a Susan Buck-Morss faz da sociedade do trabalho no tempo das “utopias de massa” em seu Dreamworld and Catastrophe – um livro maravilhoso, por sinal. Para Buck-Morss a gente pode diferenciar a imaginação política liberal da imaginação revolucionária em termos da diferença entre espaço e tempo, comparando, por exemplo, a obsessão liberal com a “expansão do mundo livre” à maneira como Lenin explicou a negociação territorial no tratado de Brest-Litovsk em termos de “ceder espaço (…) para ganhar tempo”. E, de fato, a gente acaba com duas concepções muito diferentes de política, de história e de estratégia se a gente privilegia o espaço sobre o tempo, ou o inverso.

Com isso em mente, eu acho que a crítica ao serviço dos correios como inspiração para a organização política deveria focar mais no fato de que há uma tendência “espacializante” desse tipo de infra-estrutura organizacional. Isto é, “organizar toda a economia nacional como um serviço postal” (como Lenin chega a dizer em Estado e Revolução), ou propor a organização do anarquismo em termos da “União Postal Internacional” (como faz Kropotkin em Comunismo Anarquista), não é tanto o problema: de fato, os correios ofereciam a visão de uma instituição de vocação internacionalista, mas com presença imediata na vida das pessoas, atrelada aos seus locais de moradia, que fazia às vezes de banco popular, oferecia serviços de cartório e permitia o trânsito de informação sem se interessar por seu conteúdo – uma forma de construir o tecido social de maneira potencialmente antitética ao Estado etc. O que é problemático é antes a base sobre a qual essa visão se constituía, pois o sistema dos correios foi pensado em sua origem como uma ferramenta de consolidação dos impérios, como uma forma de homogeneização de um território habitado por culturas heterogêneas – em outras palavras, como uma maneira de submeter diferentes concepções de tempo (seguindo aqui a dica do Benedict Anderson sobre a base temporal das “comunidades imaginadas”) a um índice espacial comum. Não é à toa que os correios tiveram um papel essencial na consolidação de alguns Estados-Nação, como a Alemanha. Dá para imaginar que um cara como o Lenin, empenhado na construção do movimento revolucionário russo através da distribuição de jornais clandestinos, olhasse para os correios com uma certa inveja: toda aquela infra-estrutura dedicada a garantir que um Iskra chegasse em seu destino…

O problema, eu arriscaria, é que enxergando nos correios um modelo para a sociedade, os comunistas não enxergaram no carteiro um modelo para si mesmos. E seduzidos pela capacidade dos correios de tecer espacialmente a malha social, nós nunca nos colocamos a pergunta do que significaria construir um tecido temporal, enviando o que é dito e feito hoje para uma avaliação e apropriação futura. A primeira diferença entre essas duas concepções é que, se entendemos o destino de uma carta espacialmente, então seu endereço tem que ser uma instância espacialmente diferente daquela do emissor: se eu falo alguma coisa, o receptor tem que ser outra pessoa. Entendendo “destino” em termos temporais, de um futuro, essa discriminação não é necessária, a mesma pessoa pode ser remetente e destinatário. O problema, portanto, não é tanto se interessar ou não pela logística dos correios, mas não submetê-la à imaginação revolucionária propriamente, não desenvolver uma concepção da infra-estrutura como mecanismo de atravessamento do presente.

Para concluir, eu gostaria de abrir algumas vias possíveis de elaboração dessa ideia.

Ponto um: não é verdade que ninguém tentou politizar a teoria lacaniana da carta – Laclau e Mouffe fizeram exatamente isso em Hegemonia e Estratégia Socialista. Mas ali o que nós temos é uma lógica do significante sem uma logística. Por isso que o que sobra é uma teoria do discurso: as “cartas” circulam, organizam diferentes demandas políticas, articulando-as através de um significante sem significado que aponta para uma outra situação política. Mas ninguém se pergunta o que garante a circulação social desses significantes políticos – qual a organização que oferece a infra-estrutura para que a palavra emitida num dado contexto de luta se articule àquela emitida em uma outra frente? É um pouco (ou muito) como achar que o dinheiro como meio de circulação não depende do dinheiro como medida de valor, que é possível haver uma homogeneidade formal na esfera de circulação sem existir uma homogeneidade na esfera da organização social do trabalho. Piora ainda mais a situação quando esse “fetichismo do significante” encontra respaldo entre os psicanalistas eles mesmos, que reificam o trabalho analítico necessário para que algo seja significante na fala do analisando, tratando o significante como um elemento a priori da linguagem.

Ponto dois: no entanto, é possível errar pelos dois lados. Extremos como Laclau, de um lado, e Negri, do outro, pecam da mesma forma aqui: seja como teoria do discurso, seja como teoria da multidão, ambos concordam que há uma homogeneidade social básica que é dada, e com a qual podemos contar. Para o primeiro, todas as cartas circulam sem extravio, porque essa é a essência das cartas, circularem. Para o segundo, as cartas podem até se extraviar, e é bom que o façam, mas todo extravio se torna automaticamente, pela força criativa das pessoas, em novos destinos. Excluída de ambas as posições está a hipótese de que a homogeneidade social é construída, que sem carteiros as cartas não chegam em lugar algum, não tem futuro. E eu acho que hoje é essencial colocarmos a questão: quem foi o carteiro da esquerda no século vinte? Me parece que a resposta está ligada à certeza que tínhamos de que o capital nunca deixaria de organizar o tecido social em torno do trabalho. Quanto mais o capitalismo de crise demonstra que organizar o circuito do valor não implica necessariamente a organização do mundo do trabalhador – ao contrário do que achávamos, essa coordenação era acidental, fruto dos limites tecnológicos e fisiológicos do homem e não um aspecto essencial do modo de produção capitalista e da extração de mais-valor – mais a palavra política perde tração: pode até chegar, por sorte ou azar, a algum lugar inusitado, mas esse lugar não se transforma num destino. Não convida quem recebe as notícias de um outro mundo a se incorporar nesse processo. Se ignoramos esse esgarçamento do tecido social, o desagregamento conflitivo das diversas regiões espaciais do mundo, só nos resta a perplexidade quando a palavra certa, chegando aos ouvidos certos, ainda assim não chegou ao seu destino.

Ponto três: o que me entusiasma nessa ideia é ver todo mundo errado. O psicanalista precisa aprender com o marxista, o marxista com o psicanalista, e os dois com os carteiros, que também estão perdidos, sem futuro, como todos nós – de modo que nenhum dos três está completamente certo.

O psicanalista precisa elaborar sua “teoria do carteiro temporal” para que seja possível pensar deslocamentos mais rigorosos da teoria analítica para outros domínios do pensamento, mas para tal precisa aprender a condicionar a teoria do discurso na teoria da organização – e eu chamaria de “infra-estrutural” o registro dessa interação: infra-estrutural é aquilo sem o qual um regime de determinação não é consistente, mas que não contribui de maneira ativa para a lógica desse regime. E chamaria de “logística” a relação entre a lógica do condicionante e a lógica do condicionado: uma relação que é tão mais funcional quanto menos ela interfere, uma espécie de lógica “fática”.

Por outro lado, o comunista poderia aprender com a psicanálise que nem todo carteiro desloca palavras de ordem ou demandas no espaço, pois é possível fazê-lo no tempo também: eu acho que isso alteraria de maneira fundamental a teoria da forma-partido, por exemplo. Hoje me parece que a metáfora do sistema postal nos oferece três posições para uma organização política: ou bem a organização emite cartas para um destinatário, ou bem a organização se entende como destinatário das cartas, ou bem a organização busca mediar e entregar cartas de um remetente para um destinatário. Como esses três lugares precisam ser distinguidos como três regiões espaciais, ou bem o partido emite suas posições para um destinatário – o famoso problema da consciência de classe: como fazer do povo um destino da palavra política? – ou bem o partido recebe cartas de um remetente – o problema aqui é saber decifrar o conteúdo dessas cartas, saber quem é o verdadeiro agente revolucionário hoje – ou bem o partido faz a mediação entre remetentes e destinatários – e como essas três instâncias precisam ser diferentes, se o remetente é a sociedade civil, seu destinatário, não sendo o partido, só pode ser o estado, o que nos leva ao problema da representação, etc. Uma teoria do partido baseada nessa possibilidade de dar “futuridade” às cartas, de transformar o extravio em um destino, dá verdadeira inteligibilidade a ideia de uma forma-partido: a forma do partido é a de pegar cartas que iam, por exemplo, para o estado, mas não chegam lá – como tantas demandas por saúde, educação, segurança, etc – e transformar esse extravio em uma nova destinação. As cartas nunca chegam no outro que visávamos, a caixa postal do estado continua vazia, mas agora esse material extraviado confronta o próprio remetente como um chamado para que ele se posicione de outra forma: o que é possível fazer no vácuo desse estado de direito? Que novo sentido pode adquirir esse material à luz dessa transformação – essencialmente temporal – em que a mensagem de falta de amparo que motiva o endereçamento ao poder público “retorna ao emissor em sua forma invertida”?

Ponto quatro: eu sempre tive um problema com o marxismo autonomista justamente porque ali parece que “autonomia” funciona como o contrário de “mediação”. Mas eu acho que isso só faz sentido, mais um vez, porque a teoria da autonomia aqui ainda é utópica no sentido estrito, ainda sugere que deve haver um destino que é “outro” que a sociedade capitalista aqui e agora, um lugar a partir do qual podemos construir um projeto que seria, portanto, “outro” que o projeto capitalista. Eu seria o primeiro a aderir a um movimento autonomista que entendesse a autonomia como um processo cujo “outro” é temporal e não espacial: o que é feito agora é remetido ao futuro, onde essa carta me encontrará e eu acharei ela estranha – vou dizer “nossa, por que que eu escrevi isso?” (é um pouco como o Agamben entende a infância: a infância manda cartas para o futuro – e é por isso que o Lacan gostava tanto da frase de Buffon: “a criança é o pai do homem”). Que tipo de organização seria capaz de sobreviver, e mesmo promover, esse tipo de autonomização? Só uma organização interessada na construção de um aparato logístico, de uma base que desse às palavras políticas alguma “futuridade”.

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