Notas para uma crítica da política milleriana

Por David Pavon-Cuellar, via Blog, traduzido por Daniel Alves Teixeira

David Pavon-Cuellar é um filósofo e psicanalista mexicano, reconhecido por suas investigações e reflexões sobre a intersecção entre o marxismo, a psicologia crítica, a análise do discurso e a psicanálise de Jacques Lacan. Neste texto, David Pavon Cuellar comenta e crítica o posicionamento e os comentários de Jacques-Alain Miller, herdeiro da obra lacaniana na França, durante a eleição francesa para presidência do ano de 2017.


Introdução explicativa

É muito o que se deve ao psicanalista francês Jacques-Alain Miller (doravante denominado JAM). Ele esteve na origem de um dos periódicos mais interessantes do pensamento contemporâneo, os Cahiers pour l’Analyse, onde apareceram textos cruciais de autores tão influentes como Canguilhem, Bachelard, Althusser, Derrida, Bouveresse, Foucault, Badiou, Dumézil, Grosrichard, Pêcheux, Irigaray, Milner e Regnault. Com pouco mais de vinte anos de idade, escreveu textos já clássicos tão fundamentais e revolucionários como Ação da Estrutura e Sutura: elementos da lógica do significante. Em seguida, dedicou anos de trabalho incansável estabelecendo e editando os seminários de Jacques Lacan, respondendo assim à vontade expressa do próprio Lacan, que, significativamente, teria querido que JAM, que sabia como lê-lo, aparecesse como co-autor.

De modo global, tanto por meio de seu trabalho editorial e seus escritos, cursos e conferências, JAM tem dado uma contribuição decisiva a preservação, elucidação e transmissão da obra de Lacan, evitando sua dispersão, fragmentação, mutilação, banalização, degeneração ou aprisionamento em interpretações herméticas e esotéricas. Evidenciou e algumas vezes reconstruiu algumas das principais formulações teóricas lacanianas em torno da clínica psicanalítica. Ele tem também valiosas contribuições próprias e originais, entre elas as concepções da sutura, da escola como uma instituição, das psicoses ordinárias ou não desencadeadas, o capricho, o partenaire-sintoma e o corpo falante, para mencionar somente algumas.

É preciso também reconhecer o que JAM ensinou a seus discípulos, entre eles importantes expoentes atuais da teoria psicanalítica, como Éric Laurent e Slavoj Žižek. E como esquecer o trabalho de organização institucional que o fez participar da fundação da Escola da Causa Freudiana, da Escola Europeia de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise? Enquanto isso, JAM dissipava erros e rumores com suas Cartas à opinião ilustrada. E se isso não bastasse, ele reivindicou e defendeu exitosamente a psicanálise contra as tentativas de regulamentação governamental e contra panfletos anti-freudianos como o Livro negro da psicanálise.

Eu poderia continuar, mas não terminaria. Levaria muitas páginas para dar uma imagem clara de tudo que se deve à JAM. Ademais, de qualquer forma, este não é o propósito deste artigo. O que aqui se pretende não é reconhecer o mérito inestimável e os valiosos aportes editoriais, teóricos e institucionais de JAM, mas sim questionar algumas de suas posições políticas mais recentes em torno da última eleição presidencial na França. O objetivo é aproximar-se dessas posições para questionar, criticar e denunciar algumas de suas implicações, e não somente para desassociar e distanciar-se deles, como o fez, de modo franco e destemido, o argentino Jorge Alemán (2017, 07 de maio).

A diferença invisível entre o centro e a extrema direita

JAM participou com entusiasmo nas discussões em torno das eleições francesas de abril e maio de 2017. No primeiro turno em 23 de abril de 2017, ele defendeu e promoveu a sua decisão de votar no centrista neoliberal Emmanuel Macron para fechar o caminho à extremo direita da Frente Nacional e seu candidato Marine Le Pen. Ele também rejeitou veementemente a opção política de seu irmão Gérard Miller e dos demais simpatizantes do candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon. Pouco depois, antes do segundo turno de 7 de maio que foi disputado entre Macron e Le Pen, JAM voltou a se lançar contra os esquerdistas que preferiram se abster em vez de votar em um candidato neoliberal.

Em sua crítica dos abstencionistas, JAM comparou-os com os trotskistas franceses que não participaram da resistência armada contra os invasores alemães durante a Segunda Guerra Mundial, mas que se esforçaram para convencer os soldados alemães a se rebelarem contra seus superiores. Esta estratégia, baseada em um espírito pacifista e internacionalista, fez com que os stalinistas os chamassem de “hitlero-trotskistas”, denominação retomada por JAM e convertida em “lepeno-trotskistas” para designar aqueles que “não conseguem ver nenhuma diferença, exceto talvez a diferença sexual, entre Le Pen e Macron.”(Miller, 2017, 27 de abril).

Se a “incapacidade” para distinguir Macron de Le Pen basta para transformar alguém em um lepeno-trotskista, então a dura imputação de lepen-trotskismo pode recair em muitos intelectuais de esquerda considerados os mais críticos e radicais na atualidade. Didier Eribon e Slavoj Žižek, por exemplo, estão entre os que identificaram Le Pen com Macron. Eribon (2017, 16 de abril) não hesitou em colocá-los no mesmo “sistema”, concluindo que “votar em Macron é votar por Le Pen”. Por sua parte, o filósofo esloveno observou que Macron e Le Pen coincidem em apresentarem-se como “anti-sistema” e fundarem toda sua força no “medo” (Žižek, 2017, 03 de maio).

A equação Macron = Le Pen, que nos lembra muito a recente fórmula Hillary = Trump, fez com que o segundo turno da eleição francesa fosse praticamente irrelevante: não importava se ganhasse Le Pen ou Macron, já que eles representavam dois lados do mesmo. Eles eram, por assim dizer, intercambiáveis. Como o próprio Žižek (2017, 3 de maio) afirmou claramente, não havia uma “escolha real entre Le Pen e Macron”. É este raciocínio de Žižek que era inaceitável para JAM, para quem havia sim uma escolha real entre o neoliberal e neofascista, já que havia uma grande diferença entre um e outro. A diferença estava lá, e aqueles que não a viam, como Žižek ou Eribon, mereciam o nome pejorativo de “lepen-trotskistas”.

O capitalismo neoliberal e seu fruto neofascista

É verdade que havia vários aspectos visíveis pelos quais poderíamos diferenciar Macron de Le Pen. Alguns desses aspectos, na verdade, foram admitidos pelos próprios Eribon e Žižek. Eribon (2017, 16 de abril) admite que Le Pen e Macron personificam não apenas o mesmo “sistema”, mas dois “pólos” opostos do sistema. Quanto a Žižek (2017, 03 de maio), este nota que, embora Macron e Le Pen coincidam em fundar toda a sua força no medo, se tratava em cada caso de um medo de coisas ou pessoas diferente: Le Pen, o medo do mundo, da Europa e dos imigrantes; ao contrário, em Macron, simplesmente o medo de Le Pen. O mesmo Žižek faz uma observação ainda mais perspicaz: embora Le Pen e Macron se apresentassem como anti-sistema pela sua exterioridade relativamente aos partidos centristas convencionais, Macron se distinguia por ser capaz de representar o sistema em seu conjunto, o que só podia conseguir precisamente ao desempenhar o seu papel anti-sistema, que, situando-o aparentemente no exterior, permitiu a ele superar e abranger todas as categorias dentro do sistema, entre elas as categorias fundamentais da esquerda e da direita.

O interessante é que o sistema capitalista neoliberal, tão bem representado por Macron, é o mesmo sistema que produziu Le Pen, a qual, por conseguinte, como um produto do sistema, também o representa de alguma forma. Esta é, além disso, a convicção de Žižek e Eribon. É por tal convicção que Eribon (2017, 16 de abril) considerou, com uma clareza assustadora, que a votação por Macron, pelo sistema que produziu Le Pen, era uma maneira de votar antecipadamente por Le Pen nas próximas eleições. No mesmo sentido, Žižek (2017, 3 de Maio) sublinhou o paradoxo de se optar pela causa, pelo neoliberalismo de Macron, para vencer o seu efeito, o fascismo de Le Pen.

JAM foi um daqueles majoritários que decidiram paradoxalmente lutar pela causa neoliberal para combater seu efeito neofascista. E esta decisão tão desconcertante, para dizer o mínimo, fez com que ele insultasse e amaldiçoasse a quem ele mesmo chamou de “lepeno-trotskista”, ou seja, aqueles que tiveram a coragem de recusar-se a escolher entre neoliberalismo e neo-fascismo, entre o sistema e seu produto, entre a causa e seu efeito.

Lutando pela reprodução do sistema e contra a revelação de sua verdade

Em contraste com os chamados “lepeno-trotskistas”, JAM escolheu a causa neoliberal contra o efeito neofascista. O engraçado é que, ao escolher a causa para evitar o efeito, também elegeu, automaticamente, o mesmo efeito que ele desejava evitar, o efeito da causa, mas sem se dar conta, indiretamente e para mais tarde, para as próximas eleições. Digamos, seguindo o raciocínio de Eribon, que JAM se dedicou em 2017 a fazer campanha pelo neofascismo para as eleições presidenciais francesas de 2022.

Talvez possamos até mesmo prever que o neofascismo de 2022 será mais difícil de superar do que 2017, pois será mais forte, graças a toda a força que lhe será dada pelo neoliberalismo de Macron. Se assim for, então JAM teria lutado agora para fortalecer o neofascismo e não apenas o neoliberalismo. A história seria muito triste: JAM, que aparentemente não queria o neoliberalismo e nem o neo-fascismo, só acabou se resignando ao neoliberalismo para evitar o mal pior, o neo-fascismo, mas ao fazê-lo, teria sido condenado a ter os dois males que aparentemente não queria, a destruidora enfermidade neoliberal e o insuportável sintoma neofascista. É o que acontece quando nos apressamos para remediar o sintoma ao invés de escutá-lo com atenção.

O surpreendente é que foi um psicanalista que se recusou a escutar com a maior atenção a sintomática denunciação neofascista do capitalismo neoliberal. Como a maioria de seus compatriotas, JAM preferiu borrar o sintoma do que atacar a doença. Em vez de enfrentar o capitalismo neoliberal e se posicionar como abstencionista ou como votante contra Macron, JAM e milhões de francês, de fato, apenas tentaram sufocar o revelador sintoma neofascista ao votar contra Le Pen. E eles conseguiram: tomaram um analgésico, um sedativo que vai tirar o desconforto neofascista por cinco anos, mas o que vai acontecer em 2022?

Talvez seja possível prever ao menos que o voto neoliberal promovido por JAM não servirá para evitar a ameaça neofascista da Frente Nacional. Assim como Viviana Saint-Cyr (2017, 20 de abril) bem observou, “não podemos superar o neofascismo com o neoliberalismo que o fez nascer”. Essa estratégia já mostrou sua total ineficiência na história mais recente da França e de outros países. Os sucessos atuais do neofascismo são precisamente a consequência da estratégia de voto neoliberal contra o neofascismo. Aqueles que promovem essa estratégia, como JAM, são os menos propensos a dar “lições antifascistas”, como observou o irmão de JAM, Gérard Miller (2017, 27 de abril).

Votar pelo necessário e contra o contingente

Para ser justo com JAM, devemos elogiá-lo por sua inteligência e honestidade ao reconhecer abertamente que sua campanha por Macron havia sido proselitismo em favor do “candidato de dinheiro” [candidat du Fric], dos “meios financeiros”, do ” grande capital “(Miller, 2017, 27 de abril). Agora, se JAM sabia o que fazia, por que o fez? Por que ele se dedicou a lutar indiretamente em favor do capital, das finanças e do dinheiro? Porque supôs que disponha somente do voto pelo capital para frear a ascensão do neo-fascismo, porque supostamente não havia outra alternativa, porque de qualquer forma “ninguém na França foi eleito presidente da Quinta República [regime constitucional em vigor em França desde 1958 até agora] contra o Grande Capital “(Miller, 2017, 27 de abril). Como o Grande Capital sempre venceu no passado, continuaria a ganhar no presente e no futuro, e como continuaria a ganhar, seria necessário votar por ele. É verdade que não há alternativa! O presente e o futuro só podem ser idênticos ao passado. Você tem que votar no que sempre ganhou e que de qualquer modo vai ganhar. Isso é agir estrategicamente.

Desde a sua chamada para votar em Macron no primeiro turno, a ação impecavelmente estratégica do previdente JAM, como a de qualquer bom especulador ou empresário no sistema, foi baseada em um cálculo de probabilidade e consistiu em fazer exatamente o que teria de ser feito para que acontecesse o que fatalmente deveria ocorrer. Esse tipo de ação totalmente submissa, perfeitamente subjugada às regras de operação do sistema, costuma ser a mais estratégica precisamente porque dispõe de toda a força do sistema que opera para ter sucesso. Mas então, por que se preocupar com o triunfo de Marine Le Pen? Por uma razão muito simples: porque nunca se deixou de saber que o sistema não estava condenado a funcionar sempre da mesma forma. No entanto, independentemente das temidas mudanças no funcionamento, por acaso um psicanalista, um especialista da surpresa, um cientista do singular, um crítico incansável do saber absoluto, nunca considerou o risco de uma desfuncionamento, de uma exceção, de uma irrupção do sujeito, de uma perturbação no funcionamento do sistema?

Desde logo se vislumbrou o perigo da “contingência”, que “tudo podia acontecer” que “o real que não deixava de não se inscrever” de repente “deixava de não se inscrever” (Miller, 2017, 17 de maio). Mas esse perigo é significativamente assimilado ao neofascismo, como se a esquerda não fosse o último bastião de esperança da surpresa, como se este fosse o monopólio da extrema direita e como se a eventualidade fascista não estivesse suficientemente simbolizada, como se não fosse parte do sistema, como se não fosse um produto concebível e um efeito previsível do capitalismo em sua modalidade liberal mais extrema. (Neumann, 1944).

O neofascismo, como o neoliberalismo, é um passo, talvez até um salto, mas não um simples tropeço do sistema capitalista. No entanto, mesmo que admitíssemos que fosse um tropeço, por que seria o único possível? E a esperança de que o capitalismo tropece pela esquerda? Isso teve que ser descartado. Ele teve que deixar semelhantes ilusões de colegiais para os insubmissos de Mélenchon e os anticapitalistas de Poutou, que aparentemente não haviam atravessado o fantasia de seu gozo populista e revolucionário, de sua rebeldia e seu anti-capitalismo, pois evidentemente se tratava de uma fantasia. Se não fosse uma fantasia, o que mais poderia ser? Uma verdadeira militância cuja radicalidade estaria precisamente no fato de não ser fantasística? Uma travessia da fantasia possibilitada pela desidentificação dos ideais oferecidos pelo capitalismo neoliberal? Uma ruptura com uma certa ideologia dominante? Uma identificação provisória e autodestrutiva, suicida como a entidade Estado comunista, e não infinitamente reproduzida como aquelas oferecidas por Marx e Lênin, mas também por Freud, Lacan e JAM e seus leais e incondicionais acólitos? Bah! Todas essas possibilidades eram em si mesmas fantasias e deviam ser atravessadas, não ao fim da análise, mas desde o início, já na primeira lição da educação sentimental, no 1848 de JAM, no início dos anos setenta, na conversão ao pós-modernismo, quando tinha a necessidade de tomar o caminho de Lacan e por isso mesmo esquecer o maoísmo, a Gauche Prolétarienne, o comunismo althusseriano, a necessidade da contingência, a regra da exceção.

Calculando e explorando o objeto da psicanálise

Ao menos JAM sabe que se trata do sistema capitalista, das finanças e do dinheiro, e não disfarça sua opção em favor daquilo que se trata. Isto o faz contrastar com Eric Laurent (2017, 12 de maio), que deseja acreditar e nos fazer acreditar que “o sistema é uma palavra usada como uma tela para dizer a democracia representativa em seu múltiplo”. Então, agora o sistema é aquilo com o que se oculta a democracia no lugar de ser aquilo que é encoberto pela democracia em sua multiplicidade? E, a propósito, que multiplicidade? O da dualidade? O do voto neoliberal mais o voto neofascista? O do pensamento único em suas expressões diversas e até contraditórias? O dos múltiplos efeitos ativos e reativos da mesma causa?

Que multiplicidade se só podemos escolher, se acreditarmos em JAM, no que já foi escolhido pela Grande Capital? Após essa eleição, no segundo turno, Laurent e JAM já dispõe de um critério normativo para regular sua escolha no seio da suposta multiplicidade. Haverá apenas duas opções: entre o já elegido e o não elegido, ou seja, entre o elegível e o não elegível, entre o possível e o “impossível” (Miller, 2017, 17 de maio). Só poderá ser escolhido, em outras palavras, entre o democrático e o populista, entre o múltiplo e o único, entre o estratégico e o torpe, entre o realista e o fantasmático, entre o voto útil e o inútil, entre a utilidade e o gozo. Pelo menos esta normatividade binária é confessada por Laurent (2017, 12 de maio), e é nessa confissão, neste lapso, onde se radica toda sua honestidade, “o oposto do utilitário é sempre o gozo.” É dizer, considerando o postulado de JAM, o contrário da determinação do capital é o gozo inútil, inservível, inexplorado pelo capital.

E o desejo? Para Laurent, o desejo se apoia no que é útil, servível, explorável, que determina o voto pelo capital. Em suma, é a utilidade, o valor de uso, o que está em jogo no desejo. Desejamos em função do que é útil. Sim, o útil! É assim que aprendemos que a utilidade não é nem mais nem menos que a causa última do desejo. Desejamos o útil. Que revelação! Que mensagem que nos transmite agora, de repente, “o novo vento” que sopra da França e que nos traz “audácia prudente” e “feitiços impressionantes” (Miller, 2017, 16 de maio)! Como não podemos entender que os argentinos reajam resistindo e se defendendo contra tais descobertas? Se Freud tivesse sabido o que Laurent nos revela, ele teria tranquilamente enriquecido ao fazer a fácil apologia do sistema em que se define a utilidade e não teria tido tanto trabalho para inventar a psicanálise. Então se tratava tão somente do útil? Sim, assim é, e Laurent (2017, 12 de maio) nos explica de forma transparente: o voto útil, o “votútil”, é o “voto de desejo”, enquanto o outro voto, o inútil, é o ” voto de um gozo indizível que surge “. Ao reduzir assim o desejo ao desejo do útil, Laurent está confessando tacitamente o mesmo que foi admitido abertamente por Miller. Existe apenas um sistema totalizador que atingiu o que nenhum outro sistema conseguiu: reabsorver o objeto do desejo e reincorporar o desejo à utilidade, a funcionalidade, ao funcionamento do sistema, sua estratégia, seu cálculo. É aqui onde vamos encontrar o objeto que não encontramos em nenhum lugar.

O objeto a deixa de ser o que sempre escapava ao sistema, o que escorregava entre suas engrenagens, o inassimilável à sua lógica, o inquantificável, o incomensurável, o incalculável. Agora os psicanalistas podem calculá-lo como o fez JAM em seus cálculos probabilísticos antes do primeiro turno das eleições. Podemos finalmente superar o abismo que se abria entre os métodos quantitativos e o método eminentemente qualitativo da psicanálise. Os psicanalistas podem finalmente generalizar e avaliar quantitativamente, através de um cálculo probabilístico da utilidade social, aquilo irredutivelmente singular que está em jogo no desejo. Mais ainda: eles devem fazê-lo, porque só assim eles poderão chegar ao único voto do desejo, o voto útil.

Na sua falta

Nossos psicanalistas caíram na mesma armadilha que Lacan (1968-1969, 1969-1970) viu Marx cair: a de querer apreender quantitativamente o objeto do desejo, o mais-gozar, através do cálculo da mais-valia entendida como excedente do valor de uso do trabalho sobre o seu valor de troca. Mas o cálculo de Marx lhe permitiu aproximar-se da noção de mais-gozar ao isolar aquilo que não pode ser reduzido ao cálculo, o que ultrapassa o mais-valor, aquilo que é perdido pelo trabalhador, assim como intransferível, inexplorável, inutilizável para o capitalista. Este inútil é o que se traduz na infelicidade generalizada no capitalismo de Marx, assim como no mal-estar da cultura de Freud, e é também aquilo em nome do que podemos condenar a redução ideológica tipicamente burguesa do desejo ao princípio supremo da utilidade, como se manifesta em JAM e em Laurent.

Naturalmente, nossa condenação do burguês, como bem notou JAM, nos converteu em uma espécie de “superego de toda a esquerda”, e especialmente dos “submissos”, dos “aburguesados”, os “burgueses” entre os quais JAM bravamente se inclui (Miller, 2017, 27 de abril). E se assim é, alguém deve interpretar aqui o papel do eu aburguesado, e alguém o de um superego que não é necessariamente o do burguês. Claro, nenhum dos dois papéis é honroso ou reconfortante, mas é preciso desempenhá-los. Cada um deve cumprir sua função no sistema. É o que acontece quando os estreitos limites do sistema fecham o horizonte, quando não deixamos de fora nem mesmo o objeto do desejo, quando sintetizamos e sistematizamos tudo, quando cedemos à dialética positiva e ao saber absoluto, quando compreendemos tudo tão bem e com tanta facilidade (Lacan, 1955-1956).

Por exemplo, como podemos não entender o que Laurent nos diz sobre a incompatibilidade entre a democracia e a Frente Nacional? Que o neofascismo seja antidemocrático é facilmente compreensível. No entanto, além da compreensão, está simplesmente o que acontece: Le Pen está ganhando terreno no sistema, na democracia, e como um produto da própria democracia, do mesmo sistema que ganha em cada eleição. O neofascismo abre caminho, seu pequeno caminho ziguezagueante, através de suas derrotas contra o neoliberalismo que o nutre. Durante vários anos, temos visto como o centro ganha cada vez para perder terreno para a extrema direita que é quem sempre acaba ganhando terreno no final. É quase como se tudo estivesse sendo tramado pelo neo-fascismo, como se a Frente Nacional segurasse as rédeas, como se o neo-fascismo não fosse apenas um produto do sistema neoliberal, mas a transformação atual do mesmo sistema possuído por seu produto. Talvez finalmente Anaëlle Lebovits-Quenehen (2017, 19 de março) tenha razão quando supõe que a Frente Nacional “já está governando” na França.

Resistir ou desistir?

Na verdade, como Viviana Saint-Cyr (2017, 20 de abril) mostrou, a Frente Nacional “ainda não está governando”. O neofascismo não domina tudo na França. E se não domina tudo, é porque o capitalismo neoliberal não se totalizou ao ponto de se tornar totalitário. Há bastiões que resistem aos ataques do capital e seu neoliberalismo. Existem bolsões de resistência, rebeldia, anti-capitalismo, generosidade, hospitalidade, igualdade, horizontalidade, comunidade e comunismo, que têm sido e continuarão a ser, sempre para baixo e para a esquerda, as únicas defesas eficazes contra isso que agora leva o nome de neoliberalismo e neofascismo.

Não existe apenas o sistema de Macron e do Grande Capital, da burguesia e da gentrificação, dos cálculos, da submissão e da utilidade. Não existe apenas isso para a que se viu reduzir a política da Causa Freudiana. Mesmo dentro da instituição francesa de “Lacano-centristas”, aparece um solitário que vai na “contra-mão”, que se move na “contracorrente” e cujo movimento revela a “imobilidade” dos demais, e não é obviamente quem se move com “todos”, com as maiorias que ganham eleições e que “não vão a lugar nenhum”, senão seu irmão, Gerard Miller, esse “um sozinho” que se multiplica por “cem” na escola Argentina (Miller , 2017, 17 de maio).

Temos de admitir, no entanto, que a maioria é a maioria. Domina o que domina. O centro está no centro. O capitalismo neoliberal, com seus cálculos utilitaristas e seus produtos neofascistas, decidi quase tudo na França como no resto do planeta. Como vimos, o sistema governa até mesmo o critério dos psicanalistas lacanianos, lacano-centristas, que se conformam à norma do centrismo. O centro segue atraindo tudo com essa inércia, com esse peso da fatalidade, com essa força da gravidade que certamente se enfraqueceu após a recente crise econômica, mas que segue ainda vencendo qualquer outra força na maior parte do planeta, como vem fazendo por pelo menos três décadas. E por que? Ao menos no contexto francês, uma razão decisiva é mencionada por JAM: o Partido Comunista Francês não soube “se manter firme ante o golpe da pós-modernidade”. E é assim que contribuiu para que triunfasse, por um lado, a pós-verdade operante no neoliberalismo e não apenas o neo-fascismo, mas também, por outro lado, a única verdade admitida, a desse autoritário pensamento único da multiplicidade e da democracia em que Laurent ainda acredita, isto é, essa meta-narrativa pós-moderna que ainda opera como a perfeita justificativa ideológica de um sistema capitalista neoliberal que não aceita alternativas diferentes daquelas que nos oferece.

JAM tem toda a razão em considerar que o triunfo do pós-modernismo foi diretamente favorecido pela rendição do comunismo. Mas aquele que afirma isso é o mesmo que, apenas dois parágrafos antes, celebrou tal rendição sob a forma atual do decidido apoio ao candidato neoliberal no segundo turno das eleições francesas (Miller, 2017, 27 de abril). Mas como não aplaudir a claudicação quando se é o que é graças a ela? De fato, como Macron e Marine Le Pen, o atual JAM é um produto da claudicação que foi o Partido Comunista, mas também da maior parte de sua geração, pelo menos nos meios intelectuais. Me refiro a isso que Alain Badiou (2013, 28 de fevereiro), outro “arqui-minoritário” que se distingue da “maioria de seus contemporâneos”, chamou de “renegação” em sua condenação superegóica de JAM.

É verdade que só temos a certeza de que JAM se converteu nesse-majoritário-que-agora-é-com-outros: isso que ganha eleições na França e que predomina nos meios de comunicação de massa, assim como na escolas e associações de psicanálise. No entanto, de certo ponto de vista, esta conversão corresponde ao gesto de quem deixa de se mover na contra-mão, contra a corrente, e abandona-se confortavelmente no ar dos tempos. Tal gesto não é nem mais nem menos que uma renegação “sem uma razão defensável aos olhos” daqueles que acreditam saber para onde ir e que se esforçaram para permanecer no curso contra ventos e marés (Badiou, 2015, 31 de janeiro). O mesmo JAM acabou confessando em francês, em inglês e até mesmo em russo em uma divertida missiva para Badiou: “J’avoue, I confess, ani mitvade; estou aqui para isso, para confessar “(Miller, 2013, 27 de fevereiro).

Como eleger no lugar do eleitor?

A carta de JAM ao camarada Badiou é o melhor exemplo dessa liberdade e leveza dos pós-modernistas que pretendem planar por cima de tudo o que acontece. Mas não nos deixemos enganar pela aparência livre e ligeira da pós-modernidade: essa aparência, a mesma da multiplicidade e da democracia pela qual se deixa enganar Laurent, serve apenas para esconder a mais tirânica e opressiva das meta-narrativas, a que exclui qualquer outra meta-narrativa que não a sua própria (Lyotard, 1979). O dogma pós-modernista acaba descartando qualquer outra alternativa que não esteja entre os produtos do capitalismo, entre o neo-liberalismo ou neo-fascismo, o voto útil ou inútil, Macron ou Le Pen, Le Pen hoje ou Le Pen amanhã, a submissão ou a submissão, o capitalismo ou o capitalismo, a bolsa ou a bolsa. Não há lugar aqui, desde o início, para escolher “a bolsa ou a vida”, o capitalismo ou o anti-capitalismo, a submissão ou a insubordinação (Saint-Cyr de 2017, 20 de abril). Caso ocorra a alguém de escolher a insubordinação ou o anticapitalismo, diremos que eles está escolhendo, na realidade, a pior expressão da submissão e do capitalismo. Será decidido o que se deve decidir. Não é isso que JAM e muitos outros fizeram no primeiro turno da eleição francesa, quando decidiram que votar contra o neoliberalismo era votar pelo neofascismo, como se não houvesse nenhuma outra alternativa?

Para começar, quando só podemos escolher entre neoliberalismo e neo-fascismo, nossa liberdade de escolher se resume a uma escolha entre duas faces do mesmo, entre duas expressões do mesmo grande capital, entre um capitalismo e outro capitalismo, “entre o igual e o mesmo “, sem que haja lugar para algo que seja ” Outro” e que se distinga, que “faça insígnia “(Miller, 1986-1987). Mas isso não é tudo. Se aceitarmos a nos submeter ao que nos interpela através da boca de JAM, nem sequer teremos o direito de escolher entre as duas expressões neofascistas e neo-liberais do mesmo capitalismo, pois uma, a neofascista, é a que não podemos escolher, enquanto a outra, a neoliberal, é o que devemos escolher. É assim como teremos que escolher livremente o que devemos escolher forçosamente, uma vez que outra escolha, qualquer outra, irá contra a liberdade que se estaria exercendo na escolha.

A chantagem constitutiva da suposta liberdade oferecida pelo neoliberalismo se põe manifesta na fórmula pela qual Žižek (2017, 8 de maio) lê a primeira página de um jornal francês: “façam o que quiserem, mas votem em Macron” ou, o que é o mesmo: “façam o que quiserem, mas tome a decisão certa”. Em outras palavras, é claro que você é livre para escolher, mas sempre e quando escolher o que deve escolher, isto é, segundo JAM, o que já foi escolhido pela Grande Capital, isto é, na França, Macron. Não é isso que JAM e tantos outros ordenam ao exortar imperativamente a exercer adequadamente essa liberdade que já é por si encurralada ao direito de votar?

O pai, sua horda e o populismo lacano-milleriano

A liberdade neoliberal é uma chantagem na qual você é livre para escolher, mas deve escolher o que já é escolhido pelo sistema, porque, se não o fizer, perderá sua liberdade de escolha. É lógico: se você não adotar a escolha do sistema, votará em um candidato anti-sistema, e então talvez te arranquem a liberdade neoliberal de escolher o que já foi escolhido pelo sistema. E para persuadi-lo a escolher o que você deve escolher para exercer a sua liberdade, te mostram o que aconteceu na Venezuela, onde se teria perdido essa valiosa liberdade neoliberal pelo fato mesmo de perder o suposto “Estado de Direito”, o qual, no limite, seria “a condição mínima para o desenvolvimento da psicanálise” (Bassols, 2017, 3 de abril). A psicanálise, então, exigiria essa liberdade que JAM tem reivindicado apaixonadamente nos últimos meses: a liberdade de votar apenas em Macron, a liberdade de escolher o neoliberalismo e nada mais, a liberdade de fazer o que deve ser feito. Parece que esta liberdade imposta e impositiva é a única entendida por JAM, que talvez por isso não seja capaz de entender que Mélenchon, no segundo turno da eleição francesa, não deu instruções de voto e tenha preferido permitir que seus eleitores votassem pelo que desejassem, mesmo se não fosse aquilo pelo que eles deveriam votar. Isso, para JAM, não era mais do que uma “farsa” que revelava os “pudores de gazela” do candidato da esquerda (Miller, 2017, 27 de abril).

Qualquer liberdade sem chantagem é incompreensível e até mesmo impossível para alguém como JAM, que só parece conhecer a custosa liberdade condicional do neoliberalismo: a liberdade em troca da subjugação, a liberdade presa em seu própria utilidade, utilizável, manipulável, explorável para o que é necessário a cada momento. Esta é aparentemente a única liberdade aos olhos do JAM. Mas então essa “liberdade” está “vinculada com a possibilidade mesma da psicanálise” (Miller, 2017, 13 de maio)? Se assim for, teriam muita razão aqueles que denunciaram uma profunda cumplicidade entre a psicanálise e o capitalismo antes liberal e agora neoliberal. Entenderíamos então porque Laurent pode reduzir o desejo à utilidade para o Grande Capital. Concluiríamos que a política promovida por JAM é a única política possível para a psicanálise: a política do sistema capitalista neoliberal, a política da chantagem, do cálculo mesquinho, da estratégia, da utilidade, da ordem estabelecida sem alternativas, de uma falsa liberdade que só permite escolher o que deve ser escolhido.

E se a política neoliberal não fosse necessariamente a da psicanálise? E se estivéssemos em condições de libertar a herança freudiana de sua tradicional imbricação com a sociedade burguesa liberal e agora neoliberal (Pavón-Cuéllar, 2017)? Então teríamos que nos livrar de JAM como uma “referência política”, tal como Jorge Alemán (2017, 7 de maio) já fez. Quanto àqueles que coincidem politicamente com JAM ao permanecer no centro pós-moderno da democracia e da multiplicidade, talvez devessem pelo menos ser congruentes com seu espírito múltiplo e democrático, e impedir que JAM incarne a figura tão moderna do líder antidemocrático, do chefe máximo unificador, a ponto de só ele, só ele com todo o seu poder, “faça presentes” a eles, a todos eles, no campo da política (Miller, 2017, 13 de maio).

Por que os seguidores de JAM não têm o valor de analisar, nem mesmo após o fim-sem-fim de sua análise, o que faz com que seu líder se torne o sustento de suas identificações políticas alienantes e massificadoras, pensando e decidindo por eles, escolhendo o que eles deveriam escolher, fazendo-os existir e até mesmo convocando-os para defendê-lo quando é atacado? O que faz com que a dívida compreensível que se tem com JAM por seu inestimável trabalho teórico, editorial e institucional, desapareça atrás da massificadora identificação cega, atrás do deslumbramento amoroso até a servidão e atrás de uma devoção torpe que beira o culto da personalidade?

Talvez tivessem de proceder verdadeiramente a desidentificação oferecida pela psicanálise (Pavón-Cuéllar, 2014), desidentificando-se de JAM e não somente convidando os peronistas a se desidentificarem de Perón (ver Fuentes, 2017, 17 de maio; Izcovich, 2017). 17 de maio). Somente assim haverá condições de fazer frutificar tudo o que foi recebido e continua a ser recebido de JAM, a partir de suas próprias contribuições teóricas e não apenas das de Lacan, pois também seria necessário desfazer a identificação das identificações, a de JAM, que poderia estar sonhando que é Lacan, como Mélenchon, segundo JAM, sonharia que é Chávez e Perón (Miller, 2017, 27 de abril de 2017), os quais, por certo, entre parênteses, nunca foram anti-semitas, como se pode verificar em várias fontes (por exemplo Maler, 2006; Rein, 2016).

Enfim, a política da JAM pode ser injusta, para não dizer errônea e errática. Ou talvez, continuando com a dualidade da lógica fantasmática de tudo/nada, JAM seja verdadeiramente infalível e tenha razão em cada uma de suas abordagens e posições políticas. Neste caso, é o autor destas linhas que não entendeu nada, talvez cego pela sua “transferência negativa” que o impede de ascender à “bajulação”, uma vez que estas duas atitudes parecem ser a única possível para um latino-americano que se refere a JAM (Miller, 2017, 16 de maio). Como muitas vezes acontece, as relações do não-europeu com o Europeu, do ponto de vista do Europeu, tendem a ser irracionais, cegas, emocionais, apaixonadas, excessivas, oscilando entre a subjugação servil e o rancor infundado, entre uma humilhante submissão e uma rebelião injustificada. Estamos aqui evidentemente diante de um fenômeno fantasmático, se encontre ela na visão ou no visto, nos gestos imaginados ou nos efetuados, em Paris ou na América Latina


 Referencias

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