Como Lenin estudava Marx

Por Nadezhda Krupskaya, via Marxists.org, traduzido por Gabriel Landi Fazzio

Devido ao atraso da indústria na Rússia, o movimento operário só começou a se desenvolver nos anos [18]90, quando a luta revolucionária da classe trabalhadora já estava se desenvolvendo em vários outros países. Já havia transcorrido a experiência da grande Revolução Francesa, a experiência da revolução de 1848, a experiência da Comuna de Paris em 1871. Os grandes líderes ideológicos do movimento operário – Marx e Engels – foram forjados no fogo da luta revolucionária. Os ensinamentos de Marx mostraram a direção tomada pelo desenvolvimento social, a inevitabilidade da desintegração da sociedade capitalista, a substituição dessa sociedade pela sociedade comunista, os caminhos que serão tomados pelas novas formas sociais, o caminho da luta de classes; eles revelaram o papel do proletariado nessa luta e a inevitabilidade de sua vitória.


Nosso movimento operário se desenvolveu sob a bandeira do marxismo. Não cresceu cegamente, tateando seu caminho, mas seu objetivo e seu caminho eram claros.

Lenin desempenhou um tremendo papel na iluminação do caminho da luta do proletariado russo com a luz do marxismo. Cinquenta anos se passaram desde a morte de Marx, mas para o nosso Partido o marxismo ainda é o guia para a ação. O leninismo é apenas mais um desenvolvimento do marxismo, um aprofundamento do mesmo.

Portanto, é óbvio por que é tão grande o interesse em esclarecer a questão do estudo de Marx por Lenin.

Lenin tinha um conhecimento maravilhoso de Marx. Em 1893, quando chegou a São Petersburgo, surpreendeu a todos nós que éramos marxistas na época com seu tremendo conhecimento das obras de Marx e Engels.

Nos anos noventa, quando os círculos marxistas começaram a se formar, foi principalmente o primeiro volume de “O Capital” que foi estudado. Foi possível obter “O Capital“, embora com grandes dificuldades. Mas as coisas eram extremamente ruins com relação às outras obras de Marx. A maioria dos membros dos círculos nem sequer havia lido o “Manifesto Comunista“. Eu, por exemplo, o li pela primeira vez apenas em 1898, em alemão, quando estava no exílio.

Marx e Engels eram absolutamente proibidos. Basta mencionar que, em 1897, em seu artigo “As Características do Romantismo Econômico“, escrito para o “Nova Palavra”, Lenin foi obrigado a evitar o uso das palavras “Marx” e “Marxismo”, e falar de Marx de maneira indireta para não causar problemas ao jornal.

Lenin entendia línguas estrangeiras, e ele dedicou seu melhor a escavar tudo o que podia de Marx e Engels em alemão e francês. Anna Ilinishna conta como ele leu “Miséria da Filosofia” em francês, juntamente com sua irmã, Olga. Ele teve que ler a maior parte em alemão. Ele traduziu para russo, para si, as partes mais importantes das obras de Marx e Engels que o interessavam.

Em seu primeiro grande trabalho, publicado ilegalmente por ele em 1894, “Quem são os ‘Amigos do Povo’ e como lutam contra os social-democratas?” há citações do “Manifesto Comunista”, da “Crítica da Economia Política”, “Miséria da Filosofia”, “Ideologia Alemã”, a carta de Marx a Ruge de 1843, dos livros de Engels “Anti-Dühring” e “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”.

O “Amigos do Povo” ampliou enormemente a visão marxista da maioria dos então marxistas, que ainda tinham muito pouco conhecimento das obras de Marx. Ele tratou de uma série de perguntas de uma maneira totalmente nova e foi tremendamente bem sucedido.

Na obra seguinte de Lenin, “O conteúdo econômico dos ensinamentos dos Narodniks e uma crítica deles no livro de Struve”, já encontramos referências ao “Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte”, à “Guerra Civil na França”, “Crítica do programa de Gotha” e ao segundo e terceiro volumes de “O Capital”.

Mais tarde, a vida na emigração possibilitou a Lenin familiarizar-se com todas as obras de Marx e Engels e estudá-las.

A biografia de Marx, escrita por Lenin em 1914 para a “Enciclopédia Granat” ilustra melhor do que qualquer outra coisa o maravilhoso conhecimento das obras de Marx por Lenin.

Isso também é mostrado pelos inúmeros extratos de Marx que Lenin anotou constantemente ao ler suas obras. O Instituto Lenin tem muitos cadernos de notas com extratos de Marx.

Lenin usou esses extratos em seu trabalho, leu-os repetidamente e fez anotações sobre eles. Lenin não só conhecia Marx, mas também pensava profundamente em todos os seus ensinamentos. Em seu discurso no Terceiro Congresso da Liga de Jovens Comunistas de Toda a Rússia, em 1920, Lenin disse aos jovens que era necessário “tomar toda a soma do conhecimento humano e levá-lo de tal forma que o comunismo não seja algo aprendido de coração, mas algo que você pensou, algo que forma a inevitável conclusão do ponto de vista da educação moderna.” “Se um comunista fosse se vangloriar do comunismo com base em conclusões prontas, sem fazer trabalhos sérios, grandes e difíceis, sem entender completamente os fatos frente aos quais ele deve tomar uma atitude crítica, esse comunista seria um muito pobre.” (Volume XXV)

Lenin não estudou apenas as obras de Marx, mas estudou o que foi escrito sobre Marx e o marxismo pelos opositores do campo da burguesia e da pequena-burguesia. Em uma polêmica com eles, explica as posições básicas do marxismo.

Seu primeiro grande trabalho foi “Quem são os ‘Amigos do Povo’ e como lutam contra os social-democratas” (uma resposta a um artigo em “Riqueza Russa” contra os marxistas), onde ele traçou um contraste entre o ponto de vista dos Narodniks (Mikhailovsky, Krivenko, Yushakova) e o ponto de vista de Marx.

No artigo “O conteúdo econômico dos ensinamentos dos Narodniks e uma crítica deles no livro de Struve” ele ressaltou de que maneira o ponto de vista de Struve era diferente do ponto de vista de Marx.

Ao examinar a questão agrária, ele escreveu um livro, “A questão agrária e os críticos de Marx” (Volume IV), onde o ponto de vista pequeno-burguês dos social-democratas David e Hertz, e dos críticos russos Chernov e Bulgakov, foi contrastado com o ponto de vista de Marx.

De choc des opinions jaillit la verite” (do conflito de opiniões emerge a verdade), diz o provérbio francês. Lenin adorava realizá-lo. Ele trouxe constantemente à luz e contrastou os pontos de vista de classe com base nas questões do movimento dos trabalhadores.

É muito característico como Lenin estabeleceu vários pontos de vista lado a lado. Uma grande quantidade de luz é lançada sobre isso no Volume XIX de “Obras Completas”, onde são coletados os extratos, anotações, planos para ensaios, etc., sobre a questão agrária para o período anterior a 1917.

Lenin recapitula cuidadosamente as declarações dos “críticos”, seleciona e copia as frases mais claras e mais características e as contrapõem às declarações de Marx. Ao analisar cuidadosamente as declarações dos “críticos”, ele tenta mostrar a essência de classe de suas declarações, apresentando as questões mais importantes e urgentes em alívio proeminente.

Lenin com muita frequência agudizou deliberadamente uma questão. Ele considerava que o tom não era o importante. Você pode se expressar de modo grosseiro e mordaz. O importante é que você vá direto ao ponto. No prefácio à publicação da correspondência de F. A. Sorge, ele repete uma citação de Mehring em sua correspondência com Sorge: “Mehring está certo ao dizer que Marx e Engels se importaram pouco com um ‘tom alto’. Eles não paravam para pensar longamente antes de um golpe, mas eles não se queixaram por cada golpe que receberam.” A incisividade da forma e do estilo era natural para Lenin. Ele aprendeu com Marx. Ele diz: “Marx relata como ele e Engels lutaram constantemente contra a condução miserável desse ‘social-democrata’ e muitas vezes lutaram incisivamente (wobei oft scharf hergeht)”. Lenin não temia a afiação, mas ele exigia que as objeções fossem direito ao ponto. Lenin tinha uma palavra favorita que ele usava com frequência: “palavrório”. Se uma polêmica começasse sem ir direto ao ponto, se as pessoas começassem a escolher bagatelas ou a fazer malabarismos com fatos, ele costumava dizer: “isso é mero palavrório”. Lenin expressou-se com uma força ainda maior contra polêmicas que não tinham o objetivo de trazer clareza nas questões, mas de tirar a limpo pequenos rancores fracionistas. Este era o método favorito dos mencheviques. Escondendo-se atrás de citações de Marx e Engels, retiradas de seu contexto, das circunstâncias em que foram escritas, eles serviram inteiramente a objetivos fracionistas. No prefácio da correspondência de F. A. Sorge, Lenin escreveu: “Imaginar que o conselho de Marx e Engels ao movimento dos trabalhadores anglo-americanos pode ser simples e diretamente adaptado às condições russas significa utilizar o marxismo não para elucidar seu método, não estudar as peculiaridades históricas concretas do movimento operário em países definidos, mas para ressentimentos mesquinhos da inteligentsia.” (Volume XI)

Aqui chegamos diretamente à questão de como Lenin estudava Marx. Isso pode ser visto em parte a partir na citação anterior: é necessário elucidar o método de Marx, aprender com Marx como estudar as peculiaridades do movimento operário em países definidos. Lenin fez isso. Para Lenin, os ensinamentos de Marx eram um guia para a ação. Ele usou uma vez a seguinte expressão: “Quem quer se consultar com Marx?” É uma expressão muito característica. Ele mesmo constantemente “se consultou com Marx”. Nos pontos de viragem mais difíceis da revolução, ele mais uma vez voltou à leitura de Marx. Às vezes, quando se entrava em seu quarto, quando todos estavam ansiosos, Lenin estava lendo Marx e dificilmente poderia desviar sua atenção. Não era para acalmar seus nervos, não para se armar com a crença no poder da classe trabalhadora, acreditando em sua vitória final. Lenin teve o suficiente dessa fé. Ele se enterrou em Marx para “se consultar” com Marx, para encontrar uma resposta dele às candentes questões do movimento operário. No artigo “F. Mehring, sobre o Segundo Duma”, Lenin escreveu: “A argumentação de tais pessoas baseia-se em uma pobre seleção de citações. Eles assumem a posição geral sobre o apoio da grande burguesia contra a pequena burguesia reacionária e, sem críticas, a adaptam aos Kadets russos e à Revolução Russa. Mehring dá a essas pessoas uma boa lição. Qualquer um que queira consultar com Marx sobre as tarefas do proletariado e da revolução burguesa deve tomar o raciocínio de Marx que se aplica precisamente à época da revolução burguesa alemã. Não é por nada que nossos mencheviques tão temerosamente evitem esse raciocínio. Neste raciocínio, vemos a expressão mais completa e clara da luta implacável contra a burguesia conciliadora que foi realizada pelos bolcheviques russos na Revolução Russa”. (Volume XI)

O método de Lenin era tomar as obras de Marx tratando de situações similares e analisá-las cuidadosamente, compará-las com o momento atual, descobrindo semelhanças e diferenças. A adaptação à revolução de 1905–1907 ilustra, melhor que tudo, como Lenin fez isso.

No panfleto “Que Fazer?”, em 1902, Lenin escreveu:

“A história agora coloca diante de nós uma tarefa imediata que é a mais revolucionária de todas as tarefas imediatas do proletariado de qualquer outro país. A realização desta tarefa, a destruição do apoio mais poderoso não só para a reação europeia, mas também (podemos dizer agora) asiática, faria do proletariado russo a vanguarda do proletariado revolucionário internacional”. (Volume IV)

Sabemos que a luta revolucionária de 1905 elevou o papel internacional da classe trabalhadora russa, enquanto a derrubada da monarquia czarista em 1917 fez com que o proletariado russo se tornasse a vanguarda do proletariado revolucionário internacional, mas isso ocorreu apenas 15 anos após “Que fazer?” ser escrito. Quando em 1905, após o Domingo Sangrento em 9 de janeiro, a onda revolucionária da Praça Dvortsoff começou a subir cada vez mais alto, surgiu urgentemente a questão de para onde o Partido devia liderar as massas, que política devia seguir. E aqui Lenin consultou Marx. Ele cita com atenção especial as obras de Marx que tratam das revoluções democrático-burguesas francesas e alemãs de 1848: “As lutas de classes na França de 1848–50” e o terceiro volume de “A herança literária de Marx e Engels”, publicado por F. Mehring, tratando da revolução alemã.

Em junho-julho de 1905, Lenin escreveu um panfleto, “Duas táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática”, onde a tática dos mencheviques, que tomaram a linha de conciliação com a burguesia liberal, foi contrastada com as táticas dos bolcheviques, que pediam à classe trabalhadora que continuasse com uma determinação e luta irreconciliável contra a monarquia até o ponto de rebelião armada.

Era necessário pôr fim ao czarismo, escreveu Lenin em “Duas táticas”. “A conferência (dos neo-iskristas) também esqueceu que, enquanto o poder permanecer nas mãos do Czar, quaisquer decisões de qualquer representante segue sendo uma conversa vazia e tão lamentável como as ‘decisões’ do parlamento de Frankfurt, famosas na história da Revolução Alemã de 1848. Por essa razão, Marx, na ‘Nova Gazeta Renana’, derramou sarcasmo sem piedade sobre os liberais ‘libertadores’ de Frankfurt, porque falavam excelentes palavras, adotaram todos os tipos de ‘decisões’ democráticas, ‘estabeleceram’ todos os tipos de liberdade, mas na realidade deixaram o poder nas mãos da monarquia e não organizaram a luta armada contra as tropas da monarquia. E enquanto os libertadores de Frankfurt tagarelavam, a monarquia aguardou seu tempo, concentrou suas forças militares e a contrarrevolução, confiando na força real, derrubou os democratas com todas as suas lindas decisões.” (Volume VIII)

Lenin levanta a questão de saber se a burguesia poderia destruir a revolução russa com um acordo com o czarismo “ou”, como Marx disse ao mesmo tempo, “se acertando com o czarismo de maneira ‘plebeia’. “Quando a revolução vencer decisivamente, deveremos nos acertar com o czarismo de maneira jacobina ou, se você quiser, de maneira plebeia.” O terrorismo francês inteiro, escreveu Marx na famosa “Nova Gazeta Renana” em 1848, não era senão a maneira plebeia de se estabelecer com os inimigos da burguesia, com o absolutismo, o feudalismo, a respeitabilidade. (Ver “A herança literária de Marx e Engels”, publicado por Mehring).

As pessoas que assustaram os trabalhadores russos social-democratas com o monstro do “jacobinismo” na época da revolução democrática já pensaram no significado dessas palavras de Marx? (Volume VIII)

Os mencheviques disseram que sua tática era “permanecer o Partido da extrema oposição revolucionária”. E que isso não excluía as tomadas parciais do poder de tempos em tempos e a formação de comunas revolucionárias em uma cidade ou outra. O que significa “comunas revolucionárias”, pergunta Lenin, e responde:

“A confusão do pensamento revolucionário os leva (os neo-iskristas), como muitas vezes acontece, a frases revolucionárias. O uso das palavras ‘comuna revolucionária’ na resolução de representantes da social-democracia é uma frase revolucionária e nada mais. Marx mais de uma vez condenou tais frases, quando as tarefas do futuro estão escondidas por trás de termos tranquilizadores do passado morto. O fascínio dos termos que desempenharam um papel na história é convertido em tais casos em um ouropel vazio e prejudicial, em palavreado. Devemos dar aos trabalhadores e a todo o povo uma ideia clara e inconfundível de por que queremos estabelecer um governo revolucionário provisório, que mudanças exatamente devemos levar a cabo se influenciamos decisivamente o poder, mesmo amanhã, se a revolta nacional que começou for vitoriosa. Estas são as questões que enfrentam os líderes políticos.” (Volume VIII)

“Esses vulgarizadores do marxismo nunca pensaram nas palavras de Marx sobre a necessidade de substituir a arma da crítica pela crítica das armas. Usando o nome de Marx em todos os lugares, eles, na realidade, criam uma resolução tática totalmente no espírito dos tagarelas burgueses de Frankfurt, criticando livremente o absolutismo, aprofundando a consciência democrática e não entendendo que o tempo da revolução é um tempo de ação, acima e abaixo.” (Volume VIII)

“As revoluções são as locomotivas da história”, diz Marx. Por essa referência a Marx, Lenin avalia o papel da revolução que estava sendo deflagrada.

Em sua análise mais aprofundada dos escritos de Karl Marx na “Nova Gazeta Renana”, Lenin deixa claro o que significa a ditadura revolucionária do proletariado e do campesinato. Mas, ao desenhar a analogia, Lenin também se refere à questão de como a nossa revolução democrático-burguesa difere da revolução democrático-burguesa alemã de 1848. Ele diz:

“Assim, foi apenas em abril de 1849, depois que o jornal revolucionário “Nova Gazeta Renana” (que havia sido publicado desde 1 de junho de 1848) existia há quase um ano, que Marx e Engels se expressaram a favor de uma organização operária separada. Até então, eles simplesmente conduziam o ‘órgão da democracia’, que não estava conectado por nenhum vínculo organizacional com um partido proletário independente. Esse fato — monstruoso e improvável do nosso ponto de vista contemporâneo — mostra-nos claramente que havia uma enorme diferença entre o então Partido Operário Social-Democrata Alemão e o atual russo. Este fato mostra-nos quão mais fraco (devido ao atraso da Alemanha em 1848, economicamente e politicamente — ausência de unidade do Estado) foram as características proletárias do movimento na revolução democrática alemã, a sua camada proletária.”

Particularmente interessantes são os artigos de Vladimir Ilitch que se referem a 1907 e são dedicados à correspondência e à atividade de Marx.

Eles são o “Prefácio” da tradução das cartas de Marx a K.L. Kugelmann, “Mehring sobre o Segundo Duma” e o “Prefácio às cartas para F.A. Sorge”. Esses artigos lançam uma luz particularmente vívida sobre o método pelo qual Lenin estudou Marx. O último artigo é de interesse excepcional. Foi escrito no período em que Lenin retomou mais uma vez o estudo da filosofia, em conexão com suas divergências com Bogdanov, quando as questões do materialismo dialético exigiam sua atenção especial.

Enquanto estudava simultaneamente também as colocações de Marx que se referiam a questões análogas às que surgiram entre nós em conexão com o refluxo da revolução e as questões do materialismo dialético e histórico, Lenin aprendeu de Marx como aplicar ao estudo do desenvolvimento histórico o método do materialismo dialético.

No ‘Prefácio às Cartas para F.A. Sorge”, ele escreveu:

“Uma comparação entre o que Marx e Engels têm a dizer sobre as questões dos movimentos operários anglo-americanos e alemães é muito instrutiva. Se alguém leva em consideração que a Alemanha, por um lado, e a Grã-Bretanha e a América, por outro, representam diferentes estágios do desenvolvimento capitalista, diferentes formas de governo da burguesia como uma classe em toda a vida política desses países, a referida comparação assume um significado especial. Do ponto de vista científico, temos aqui uma amostra da dialética materialista, capacidade de avançar e enfatizar diferentes pontos, diferentes lados da questão em sua aplicação às peculiaridades concretas de várias condições políticas e econômicas. Do ponto de vista da política prática e das táticas do partido operário, temos aqui uma amostra da maneira como os criadores do ‘Manifesto Comunista’ definiram a tarefa do proletariado em luta aplicada às diversas fases do movimento operário nacional dos vários países”.

A revolução de 1905 trouxe à tona toda uma série de novas questões essenciais, durante a solução das quais Lenin foi mais profundamente nas obras de Karl Marx. O método leninista (marxista de uma ponta a outra) de estudar Marx foi forjado nas chamas da revolução.

Este método de estudo de Marx armou Lenin para lutar contra as distorções do marxismo e a castração da sua essência revolucionária. Sabemos que papel importante o livro “O Estado e a revolução” de Lenin tem desempenhado na organização da Revolução de Outubro e do poder soviético. Este livro é inteiramente baseado em um estudo profundo dos ensinamentos revolucionários de Marx sobre o Estado. Lenin escreve:

“Dá-se com a doutrina de Marx, neste momento, aquilo que, muitas vezes, através da História, tem acontecido com as doutrinas dos pensadores revolucionários e dos dirigentes do movimento libertador das classes oprimidas. Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para “consolo” das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o. A burguesia e os oportunistas do movimento operário se unem presentemente para infligir ao marxismo um tal “tratamento”. Esquece-se, esbate-se, desvirtua-se o lado revolucionário, a essência revolucionária da doutrina, a sua alma revolucionária. Exalta-se e coloca-se em primeiro plano o que é ou parece aceitável para a burguesia. Todos os sociais-patriotas (não riam!) são, agora, marxistas. Os sábios burgueses, que ainda ontem, na Alemanha, se especializavam em refutar o marxismo, falam cada vez mais num Marx “nacional-alemão”, que, a dar-lhes ouvidos, teria educado os sindicatos operários, tão magnificamente organizados, para uma guerra de rapina. Em tais circunstâncias, e uma vez que se logrou difundir tão amplamente o marxismo deformado, a nossa missão é, antes de mais nada, restabelecer a verdadeira doutrina de Marx sobre o Estado.” (Primeira página de “O Estado e a Revolução).

Em “Sobre os fundamentos do leninismo”, o camarada Stalin escreveu:

“Somente no estágio seguinte, o estágio da ação direta, da revolução proletária, quando a derrubada da burguesia se tornara uma questão prática imediata, o problema de encontrar reservas para o exército proletário (estratégia) se torna real e quando todas as formas de luta e de organização, seja no campo parlamentar ou extraparlamentar (táticas), exige claramente uma solução. Até essa fase ter começado, a estratégia proletária não poderia ser sistematizada e as táticas proletárias serem elaboradas. As ideias geniais de Marx e Engels sobre tática e estratégia, que os oportunistas da II Internacional haviam sepultado, foram trazidas à luz do dia por Lênin, precisamente nesse período.”

Mas Lenin não se limitou a restabelecer proposições táticas individuais de Marx e Engels. Ele as desenvolveu e complementou com novas ideias e proposições, criando de tudo isso um sistema de regras e princípios condutores para a liderança da luta de classes do proletariado. Tais panfletos de Lenin como “Que fazer?”, “Duas táticas”, “Imperialismo”, “O Estado e a revolução”, “A revolução proletária e o renegado Kautsky” e “Esquerdismo” serão, sem dúvida, contribuições das mais valiosas para o tesouro comum do marxismo, para o seu arsenal revolucionário. “A estratégia e tática do leninismo é uma ciência sobre a liderança da luta revolucionária do proletariado” (J. Stalin, “Questões do leninismo”). Marx e Engels disseram que seu ensinamento “não são um dogma, mas um guia para a ação”. Essas palavras deles foram continuamente repetidas por Lenin. O método pelo qual ele estudou as obras de Marx e Engels e a prática revolucionária, todas as circunstâncias da época das revoluções proletárias, ajudaram Lenin a converter apenas o lado revolucionário de Marx em um guia real de ação.

Vou me debruçar sobre uma questão de importância decisiva. Há pouco tempo comemoramos o décimo quinto aniversário do Poder Soviético. E, neste contexto, recordamos como a tomada do poder foi organizada em outubro. Não era um ato espontâneo, foi profundamente pensado por Lenin, que foi guiado pelas instruções diretas de Marx sobre a organização de uma revolta.

A Revolução de outubro, colocando a ditadura nas mãos do proletariado, mudou radicalmente todas as condições da luta, mas apenas porque Lenin não se orientou pela letra dos ensinamentos de Marx e Engels, mas por sua essência revolucionária, porque sabia como aplicar o marxismo também à construção do socialismo na época da ditadura proletária.

Só me debruçarei em alguns pontos. Um trabalho de pesquisa completo é necessário aqui: selecione tudo o que foi tirado por Lenin de Marx e Engels, indicando em que períodos e em conexão com as tarefas do movimento revolucionário. Eu nem mencionei questões tão importantes como a questão nacional, o imperialismo, etc. A publicação dos trabalhos completos de Lenin torna este trabalho mais fácil. A maneira de Lenin de estudar Marx em todas as fases da luta revolucionária do começo ao fim nos ajudará a entender melhor e a aprofundar não só em Marx, mas o próprio Lenin, em seu método de estudar Marx e o método de converter os ensinamentos de Marx em um guia de ação.

Há mais um aspecto do estudo de Lenin sobre Marx que deve ser mencionado devido ao seu grande significado. Lenin não só estudou o que Marx e Engels escreveram, bem como o que os “críticos” de Marx escreveram sobre ele; ele também estudou o caminho que levou Marx às suas várias visões e as obras e livros que estimularam os pensamentos de Marx e os conduziram em uma direção definida. Ele estudou, por assim dizer, as fontes da filosofia marxista, o quê e quão precisamente Marx tirou desse ou aquele escritor. Ele estava especialmente preocupado em fazer um estudo profundo do método do materialismo dialético. Em 1922, no artigo “Sobre o significado do materialismo militante”, Lenin disse que cabe aos contribuintes do periódico “Sob a bandeira do marxismo” organizar o trabalho para um estudo sistemático da dialética de Hegel do ponto de vista materialista. Ele acreditava que, sem uma base filosófica séria, é impossível aguentar a luta contra a pressão das ideias burguesas e a restauração da filosofia burguesa. Foi com base em sua própria experiência que Lenin escreveu sobre a maneira de estudar a dialética de Hegel do ponto de vista materialista. Damos aqui o parágrafo correspondente do artigo de Lenin “Sobre o significado do materialismo militante”.

“Mas, para evitar reagir a um fenômeno desse tipo de forma pouco inteligente, devemos entender que nenhuma ciência natural, nenhum materialismo, pode aguentar a luta contra as investidas das ideias burguesas e a restauração da filosofia burguesa sem uma sólida base filosófica. Para dar ajuda a essa luta e ajudar a levar a cabo sua conclusão bem-sucedida, o cientista natural deve ser um materialista moderno — um adepto consciente desse materialismo que Marx representa, isto é, ele deve ser um materialista dialético. Para conseguir isso, os membros de ‘Sob a bandeira do marxismo’ devem organizar um estudo sistemático da dialética hegeliana do ponto de vista materialista, ou seja, a dialética que Marx aplicou concretamente em seu “O Capital” e utilizada em suas obras históricas e políticas. […]

Baseando-nos sobre a maneira como Marx aplicou a concepção materialista da dialética hegeliana, podemos e devemos elaborar essa dialética de todos os lados. A revista deve publicar trechos das principais obras de Hegel; deve interpretá-los de forma materialista e dar exemplos de como Marx aplicou a dialética, bem como exemplos de dialética do campo das relações econômicas e políticas. A história moderna, particularmente a guerra e a revolução imperialistas modernas, fornecem inúmeros exemplos desse tipo. Os editores e funcionários de ‘Sob a bandeira do marxismo’ devem, penso eu, representar uma espécie de ‘Associação de Amigos Materialistas da Filosofia Hegeliana’. Os cientistas naturais modernos encontrarão (se buscarem e se pudermos aprender a ajudá-los) na interpretação materialista da dialética hegeliana uma série de respostas para as questões filosóficas que são colocadas pela revolução no domínio das ciências naturais, que fazem com que os admiradores intelectuais das modas burguesas “deslizem” para o campo reacionário.” (P. 41, “Lenin sobre a religião”, “Little Lenin Library”, Volume VII.)

Os volumes IX e XII das obras selecionadas de Lenin já foram publicados na União Soviética. Eles divulgaram todo o processo do pensamento de Lenin quando trabalhava nas principais obras de Hegel; eles mostram como ele aplicou o método do materialismo dialético ao estudo de Hegel, o quão bem ele conectou este estudo com um profundo estudo sobre os escritos de Marx, com a capacidade de converter o marxismo em um guia de ação nas mais variadas circunstâncias.

Mas Hegel não era o único objeto do estudo de Lenin. Ele leu a carta de Marx a Engels de novembro de 1859, na qual ele critica severamente o livro de Lassalle, “A Filosofia de Heráclito, o Obscuro, de Éfeso” (dois volumes) e chama esse trabalho de “amador”. Lenin dá, para começar, uma breve formulação da crítica de Marx: “Lassalle simplesmente repete Hegel, ele o descreve, rumina milhões de vezes certas palavras de Heráclito”. Mas, no entanto, Lenin mergulha no estudo deste trabalho de Lassalle, faz constatações e extratos dele, escreve notas e resume assim: “A crítica de Marx é, na sua totalidade, correta. Não vale a pena ler o livro de Lassalle.” Mas o trabalho sobre este livro deu ao próprio Lenin uma compreensão mais profunda de Marx: ele entendeu por que esse livro de Lassalle desagradava Marx e em que medida.

Em conclusão, mencionarei mais uma forma do trabalho de Lenin sobre Marx — a popularização dos ensinamentos de Marx. Se o popularizador levar seu trabalho a sério, se seu objetivo é dar uma forma muito simples e inteligível, uma explicação da própria essência desta ou daquela teoria, esse trabalho o ajudará muito.

Lenin tratou muito bem esse trabalho. “Não há nada que eu gostaria tanto quanto de poder escrever para os trabalhadores”, ele escreveu do exílio para Plekhanov e Axelrod.

Ele queria explicar e aproximar as massas dos ensinamentos de Marx. Na década de noventa, quando trabalhou nos círculos operários, ele tentou explicar antes de tudo o primeiro volume d’“O Capital”, e ilustrou as proposições apresentadas com exemplos da vida de seus ouvintes. Em 1911, na escola do Partido em Lonjumeau (perto de Paris), onde Lenin estava trabalhando arduamente para a preparação de quadros dirigentes para o movimento revolucionário em desenvolvimento, ele lecionou aos trabalhadores sobre economia política e tentou simplificar, o tanto quanto possível, os fundamentos dos ensinamentos de Marx. Em seus artigos para o “Pravda”, Ilitch tentou popularizar vários pontos dos ensinamentos de Marx. Uma amostra da popularização leninista é a sua caracterização, durante as disputas sindicais de 1921, da maneira de estudar o assunto com a aplicação do método dialético. Lenin disse:

‘Para conhecer bem um assunto, é preciso se apossar dele e estudar todos os lados, todas as conexões e seu lugar apropriado na situação dada. Podemos nunca atingir plenamente isso, mas a exigência de múltiplas faces nos permitirá afastar os erros e a inércia. Isso vem em primeiro lugar. Em segundo lugar, a lógica dialética exige que o objeto seja levado em seu desenvolvimento, em seu “auto-movimento” (como Hegel diz) e suas mudanças. Em terceiro lugar, a prática humana deve se concentrar na ‘definição’ completa da questão, como critério da verdade, bem como um indicador prático da conexão do objeto com o que o homem precisa. Em quarto lugar, a lógica dialética nos ensina que ‘não existe uma verdade abstrata, que a verdade é sempre concreta’, como costumava dizer o tardio Plekhanov, que era um seguidor de Hegel.”

Estas poucas linhas são a quintessência do que Lenin chegou como resultado de longos anos de trabalho sobre questões filosóficas, nas quais ele sempre usou o método do materialismo dialético, “consultando” o tempo todo Marx. Em uma forma comprimida, essas linhas indicam tudo o que é essencial, que deve ser um guia de ação, enquanto estudando fenômenos.

O modo como Lenin trabalhou em cima de Marx é uma lição sobre como estudar o próprio Lenin. Suas lições estão inseparavelmente ligadas às lições de Marx, são o marxismo em ação, o marxismo da época do imperialismo e das revoluções proletárias.


P.S.: Ao longo da tradução, me deparei com outra, também recente, à qual remeto aqui. Por algumas divergências estilísticas, mantive a distinção.

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