Coletes Amarelos …. Psicanalistas ….

Atualmente vivemos um grande momento em que o pertencimento ao « povo francês » retoma seu sentido histórico. O que é o « povo », senão desde os gauleses, os levantes incessantes contra o imposto sobre o sal e – entre outros – a revolta contra um rei criminoso, a Comuna de Paris, Maio de 68 ?Nós pertencemos a este povo mosaico que hoje mistura os bretons, os lorenos, os judeus tornados franceses no momento em que a cabeça do rei caía, os filhos dos harkis, os negros da África : sim, eles são todos « franceses » quando chega a hora de produzir um sonho em comum. Isso incendeia ! O que mesmo ? Pessoas simples aos milhares com seus pensamentos matizados e que de repente sonham juntas : é algo mais forte que suas diferenças. Aquele que detestava os árabes ontem, hoje se encontra em torno de um braseiro, ao lado de um deles a beber um café. Ele diz apenas : « Eu quero viver… E você ? – Eu volto a viver assim que me aproximo dessas chamas. »


Mesmo sem colete amarelo, Freud é sempre jovem[1]! Quem são os psicanalistas, senão aqueles que servem aos sonhos elaborados em comum, dos quais temos algumas chaves ? Até o desastre de 1933, Freud foi essa grande figura liberadora de uma Viena multicolor. Lá ele abriu clínicas gratuitas. Ele interveio na redação de leis sobre o casamento, para que houvesse mais liberdade. Freud escreveu, a propósito da psyché, que ela é cega e surda : Wei nicht Davon ! « Ela não está a par » (Ela não se importa, ela não ta nem aí ». Mas, para que serve a análise, senão para liberar seu sujeito ?

«O inconsciente, isso é o político»[2], escreveu Lacan, pois a Res Publica se organiza de acordo com os sonhos construídos em comum. Caso contrário, a psicanálise seria somente um instrumento de opressão, pregando a submissão, reproduzindo nos tratamentos a ideologia em curso, seus silêncios e suas regressões. Freud não era assim, ele falava, ele liberava, como Lacan, Dolto e muitos outros. Aqueles que recomendam uma pretensa « neutralidade » do analista (termo que Freud jamais empregou) aceitam de tacada o statu quo.

Marx escreveu : « Nosso lema deve ser então:  a reforma da consciência – não pelos dogmas, mas pela análise da consciência mística ininteligível a si mesma, quer ela se manifeste na religião ou na política. Isso surgirá já que, desde muito tempo, o mundo porta o sonho de uma coisa da qual seria suficiente tomar consciência para realmente possuí-la ».

Mas veja aí o que acontece : o grande sonho dessa Coisa Comum se depara com a pobreza das coisas cotidianas que é preciso afrontar. O que haveria de mais humilde que dizer : « eu quero viver do meu trabalho ? » Haveria algo mais singelo que pedir que as crianças possam estudar, como os estudantes secundaristas o fazem, eles que foram colocados de joelhos com as mãos na cabeça ?

Nós também, psicanalistas, temos demandas de aparências modestas. Nós fazemos parte dos pobres quando pedimos o aumento do Numerus clausus (ainda em vigor, a despeito dos anúncios) ; uma formação de psiquiatras e psicólogos que lhes ensine algo sobre a psyché ; o fim do reino da Big pharma [Grande Farmacologia Mercantilista] que impõe falsos diagnósticos e medicamentos que impedem de sonhar. Nós estamos ligados a esse movimento. A psicanálise é sempre jovem [jeune] sem ter que vestir coletes amarelos [jaunes]. Ela traz uma compreensão política à altura do momento histórico que hoje compartilhamos.

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Marilia Etienne Arreguy, Jean-Marie Fossey, Florent Gabarron-Garcia, Elsa Godart, Hélène Godefroy, Gorana Manenti, Valérie Marange, Emerique Maria, Rosa Navarro-Fernandez, Wael Oliveira, Gérard Pommier, Rosangela Ribeiro dos Santos, Jean-Jacques Tyszler, Laure Westphal


[1] N. de T.: no original está Sans gilet jaune, Freud est toujours jeune ! Em francês, “jaune” quer dizer “amarelo” e “jeune” significa “jovem”. Optamos por uma tradução literal, sem perda de sentido, embora se perca a sonoridade do jogo de palavras, não encontrada equivalente em português. “Jovem/jeune” aqui seria também sinônimo de “avant-garde” ou mesmo “subversivo”, como também podem ser caracterizados os gilets “jaunes/amarelos”.

[2] N. de T.: L’inconscient, c’est la politique (Jacques Lacan citado por Gérard Pommier). Em português é possível acentuar o duplo sentido da palavra Isso (pronome) com Isso (Instância inconsciente, por excelência, o Id; Ça, ou seja, Es, do original em alemão).

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