Da linguagem ao ato: uma nova perspectiva sobre a violência

Por Camila Koenigstein

Auchwitz inaugurou um novo rumo para a violência, pois tudo indica que o seu horror se tornou uma espécie de ficção para as gerações seguintes. Assim, o horror que vemos hoje diariamente, não encontra relação com o horror do passado. Será que o humano busca cada vez mais expor, falar, digerir a violência para buscar uma forma de registrar de fato o que é o horror? Ou o horror já nos constitui como sujeitos?


Queremos delatar o judeu como inspiração, original e beneficiário desta catástrofe terrível [a Guerra civil espanhola] (…). É ele o inimigo do mundo, o destruidor de culturas, parasita entre os povos, Filho do caos, encarnação do mal, agente de decomposição, demônio responsável pela degeneração da humanidade”. Joseph Goebbels – Encontro do Partido em Nuremberg, setembro de 1937. (Wistrich, 2002, p. 59)

Hobbes afirmou: os pactos sem a espada nas costas são apenas palavras e não tem força.

Na afirmação do autor constatamos a ausência de fé no poder da palavra, e que somente a força física garante a defesa de algo, que inclusive pode ser uma ideia. Mas, como pensar a ascensão do nazismo, após ler o discurso proferido por Goebbels, então Ministro da Propaganda Nazista, sem analisar a dimensão que a linguagem tem enquanto instrumento de violência na ordem do simbólico, que facilmente caminha para uma violência em forma de ato?

Diferentemente de qualquer outra guerra, a Segunda Guerra Mundial contou com todo um arsenal propagandista que permitiu a difusão rápida de discursos como esses, inflamados, que buscavam de toda forma evidenciar a ferida narcísica causada na população alemã, que saiu desolada e em estado de miséria com todo o ônus da catástrofe deixada com o fim da Primeira Guerra Mundial, e consequentemente com os acordos estabelecidos via Tratado de Versalles, que alterou todos os aspectos da vida social, principalmente, a vida econômica que ficou destroçada: “Por fim, a fixação de pesadas somas a serem estabelecidas em dinheiro e matérias primas, veio como forma de reparações de guerra”. (Almeida, 2008).

O ódio instalado nesse momento fez com que as distâncias antes toleradas entre os judeus e os alemães ficassem evidenciadas pelas lacunas postas no âmbito social.

“A chave do nazismo encontra-se no espírito alemão, inclusive na alma germânica. Uma filiação estabelecida entre o luteranismo e o nacional-socialismo […]. Supõe-se que o próprio misticismo protestante tenha favorecido a submissão ardente dos alemães à “mística profana” que foi o nazismo […]. A Alemanha traumatizada pela derrota de 1918 e pelas crises que se seguiram, teria ingressado num estado de anomia [1]”. (Châtelet, 2009, p. 232)

Da anomia, surgiu o desamparo e que deste sentimento, emergiu o ódio que se instalou como substitutivo a identidade perdida. Assim na falta surgiu a hostilidade com o aquele que estava mais próximo. Nesse sentido Jacques André reflete sobre o poder do ódio na esfera social:

“Quando a distância entre o eu e o outro tende a ser abolida à força de ser demasiadamente tênue (entre um sérvio e um croata, um hutu e um tutsi…), quando o narcisismo é reduzido às “pequenas diferenças”, grande é o perigo de ver o ódio rasgar violentamente o que a realidade parece confundir. Pureza (da raça), purgação, limpeza (étnica)…O eu, o puro, o ódio habitam o mesmo território.” (Jacques André, 2015, p. 113)

Sabemos que a propaganda como arma de difusão discursiva e identitária foi apoiada nesse ódio narcísico das pequenas diferenças, que permeava o imaginário coletivo de um país constituído por diferentes etnias, mas que na cena da derrota e da frustração fora absorvida como um fator ideológico importante.

Na necessidade de suprir a falta de perspectivas, a ideologia nazista surgiu como uma opção viável a ser seguida e assim tornou-se fácil odiar o vizinho judeu e seus familiares que há décadas compartilhavam o mesmo espaço, do que o inimigo fronteiriço o qual se combateu, mas não vejo em meu cotidiano. Assim, há uma transferência frente ao desamparo social para um ódio voltado ao próximo, porém, com características culturais distintas.

Desta forma, na ausência de significantes, o ódio emergiu como significado, e a propaganda se instalou como arma de difusão do discurso. Ou seja, os rumos históricos tomaram proporções nunca antes vistos, justamente por inaugurar uma forma de guerrear pautada na linguagem e ao mesmo tempo na ausência de sentido no que era dito, um discurso vazio que ganhou potência quando encontrou a esfera social vazia.

Portanto, pensar a Segunda Guerra Mundial somente através do avanço tecnológico (ataques aéreos, utilização de gazes, redução dos confrontos corpo a corpo) é negligenciar um aspecto extremamente importante para o entendimento de toda a dimensão do que essa guerra inaugurou: a importância da linguagem como fator estruturante. A partir deste momento, os meios de comunicação de massa passaram a servir à um propósito maior: difusão de ideologias que perpetuam a violência, além da construção imagética da figura dos grandes líderes, tal aspecto é visto até os dias atuais.

Nesse sentido, pensar a importância que a mídia atribui ao Estado Nação como forma de sustentação do ódio e da violência na contemporaneidade continua sendo fundamental.

Stuart Hall nos mostra de maneira contundente a importância desse aspecto simbólico que foi utilizado na Alemanha os nos demais países envolvidos no conflito e que presenciamos até os dias de hoje, de maneira cada vez mais evidente.

“Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos […]. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre (a nação), sentidos dos quais podemos nos identificar, constroem identidades”. (Hall, 2006, p. 50)

É na afirmação da nação alemã, no senso de coletividade, na premissa da identidade em comum e nos mitos ancestrais que Hitler encontrou espaço para afirmar seu discurso.

A busca do retorno à posição que um dia esteve (superioridade) no contexto Europeu, permitiu de certa forma, o surgimento de um desejo que já era patente de todo o indivíduo alemão: retorno ao passado glorioso. Assim, com a criação do fuhrer, surgiu uma espécie de bálsamo para a ferida causada por este processo de humilhação coletiva, portanto, na sua imagem foi condensado o pai que representava a Lei, detentor da linguagem, sujeito do significante e da ordem. Nas palavras de Lacan, o sujeito do suposto saber “objeto de uma fé que não é senão a fé que se tem na linguagem”.

Joseph Gobbels, inaugurou uma nova forma de atender a demanda da população criando através de Hitler um indivíduo que traria justiça à população miserável e desolada, e conseguiu com o uso da linguagem apropriada para o momento.

“No Édipo, temos uma outra versão do pai como instância simbólica, articulada ao que Freud chamou de herdeiro desse complexo, com o qual o sujeito vai se identificar. Trata-se do Ideal do eu, que se constitui a partir de um traço do pai, lugar para onde o sujeito vai endereçar sua questão sobre o desejo e sobre o gozo perdido. O Ideal do eu é a versão neurótica do pai, esse pai ideal, que se constitui como um pai do amor, uma espécie de Deus-pai que protege o sujeito do desamparo de ficar sozinho”. (Sandra Oliveira, 2012, p. 7)

Além da linguagem como fator estruturante e talvez, o grande símbolo da Segunda Guerra Mundial, uma vez que Hitler tinha o poder de conduzir massas para ouvi-lo, o que até os dias de hoje estudiosos de várias áreas buscam o entendimento dessa comoção generalizada, não podemos deixar de lado que Goebbels trabalhou Adolf Hitler como um todo. Inaugurou algo que hoje é muito comum nos articuladores políticos: a junção do discurso e imagem.

O fuhrer era um homem de face comum, sujeito considerado medíocre intelectualmente, porém com atributos importantes: domínio do discurso, características físicas medianas, soldado na Primeira Guerra Mundial, condecorado, ou seja, aspectos pouco distintos dos homens comuns da Alemanha à época, alguns dos quais, inclusive, estiveram nas trincheiras, assim como ele. Embora esses aspectos fossem pouco diferenciados, a eloquência e a capacidade de convencimento causava um engrandecimento imagético, que transformava a experiência de estar diante dele, em um momento único.

Hitler no Reichstag, era uma espécie de quadro de arte que representava toda a angústia desse povo ferido. As pessoas se aglomeravam numa catarse coletiva para vê-lo, senti-lo. Como uma espécie rei taumaturgo, buscavam no toque do seu corpo a cura para seu mal-estar, frente à situação de desamparo infantil.

Assim, se deu a criação de um laço social quase inquebrantável que sustentou seu discurso e práticas de maneira efetiva, a ponto de não existir contestação da maioria da população.

Adorno afirmava que: “A imagem moderna do líder algumas vezes parece ser o engrandecimento da personalidade do próprio sujeito, uma projeção coletiva de si mesmo […] às identificações em jogo na formação, de grupos fascistas é reconhecido na teoria freudiana como idealização”.

Ainda em busca de manutenção do regime em forma de linguagem e não mais do confronto bélico, o qual já estava perdido com a derrota de Stalingrado, Goebbels ainda com uma fé gigantesca no seu poder de convencimento, e proclama em 18 de Fevereiro de 1943, um icônico discurso do qual busca resgatar aspectos identitários criados durante todo o período de ascensão e poderio do regime nazista, apelando para o nacionalismo e o orgulho da população alemã.

Em discurso proferido em 18 de fevereiro de 1943: “Eu lhes pergunto: Vocês querem a guerra total?” Interrompido por aplausos e gritos de “sim”, o orador insistiu na pergunta. “Vocês a querem, se necessário, mais total e radical do que a podemos imaginar hoje?”. E recebeu nova ovação e um decidido “sim” da plateia. Joseph Goebbels (1897-1945), no dia 18 de fevereiro de 1943, diante de 14 mil pessoas reunidas no Palácio dos Esportes, em Berlim.

Nesta última tentativa de manutenção percebemos o quanto foi importante a figura do propagandista como agente de formação da linguagem e do discurso proferido por Hitler. Não à toa, em um momento de decadência do regime o próprio assume um papel de pai detentor da linguagem e proclama o discurso se colocando à frente do furher. Importante atentar que o próprio Hitler classificou como uma obra prima da propaganda, ou seja, a própria realização de uma linguagem que poderia tocar e manter o sentimento de hostilidade, mesmo diante do fracasso do Nacional Socialismo.

É na linguagem, que o ministro tenta manter a idealização da figura inquebrantável de Hitler, ainda que todos os indícios no âmbito da realidade evidenciassem o contrário. Percebemos assim, que a concretude dos fatos não é suficientemente importante, se há uma brecha para manipular o imaginário coletivo e sustentar a subversão da realidade.

Assim, a população alemã só conseguiu entender a dimensão da perda quando o suicídio de Hitler, Goebbels e algumas figuras importantes do partido, evidenciaram de fato, novamente o desamparo que a população ficou. Não é de se estranhar que dentro desta lógica, muitos colaboracionistas do regime, ainda vivos, neguem, não falem, omitem, qualquer participação ou identificação com o que ocorreu durante o período da Segunda Guerra Mundial.

Olhamos para esta cena criada por toda esta política que mistura elementos econômicos e sociais, mas principalmente psicológicos, e chegamos à conclusão que as palavras de Seligmann-Silva “et. al.” são as mais expressivas para entender este nosso passado.

“A violência política pontuou o século XX. Uma violência de direita e de esquerda, de totalitarismos, genocídios e guerras. […]. De onde observamos hoje, vemos um século marcado pela dor, pelo sangue, em uma palavra, pela violência. Não por acaso novamente retomamos de modo caloroso o debate em torno dessa questão: a violência humana – demasiado humana. Mas também a questão da memória do mal que lança sua sombra sobre nós e com ela todos os debates em torno de memórias, museus, antimonumentos e do mapeamento da memória que passou a pontuar nossas paisagens urbanas”. (Márcio Seligmann-Silva, “et. al.”, 2012, p. 09)

Após o seu retorno à Itália, Primo Levi (2004), não cansou de registrar na escrita, na fala, ou seja, na linguagem tudo o que viu e sofreu naquele um ano que viveu em Auchwitz, ainda assim, dizia que quem realmente viu o horror da guerra, não estava mais lá para relatá-lo. Com isso, pensamos no conceito de real para o Lacan, a experiência do inominável. Aquilo que não é registrado em linguagem, o sofrimento do qual não encontra ressonância, é uma espécie de grito que não consegue sair.

Auchwitz inaugurou um novo rumo para a violência, pois tudo indica que o seu horror se tornou uma espécie de ficção para as gerações seguintes. Assim, o horror que vemos hoje diariamente, não encontra relação com o horror do passado. Será que o humano busca cada vez mais expor, falar, digerir a violência para buscar uma forma de registrar de fato o que é o horror? Ou o horror já nos constitui como sujeitos?

Assim, não é raro o ressurgimento de debates acalorados e a busca constante por um revisionismo dos fatos ocorridos nos lagers [campos], ou seja, a morte em si se tornou algo de místico quando de fato deveria ser ela o debate principal.

O fundamental ainda não encontrou ressonância: a morte banal, fruto do significante vazio e dos princípios éticos cada vez mais esvaziados, estão sempre patinando dentro do circuito pulsional.


[1] Conforme esclarece Sérgio Salomão Shecaira: “a forma anômica […] consistia na ausência de um corpo de regras governando as relações entre as funções sociais, podendo ser detectada nas crises industriais e comerciais existentes no conflito entre capital e trabalho. Isso decorria, fundamentalmente, do súbito incremento industrial, de tal forma que os conflitos não puderam ser absorvidos pelo “corpo social”. […] São situações de desregulação que deixam os movimentos sociais sem um freio para discipliná-los”. (Shecaira, in Châtelet, 2009, p. 215)

Bibliografia:

André, Jacques. (2015). Vocabulário Básico da Psicanálise. São Paulo, Brasil: Ed. WMF Martins Fontes.

Burke, Edmund. (1993). Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo. UNICAMP. Campinas, Brasil: Ed. Papirus

Châtelet, F., Duhamel, O., Pisier, E. (2009). História das ideias políticas. Rio de Janeiro, Brasil: Ed. Zahar.

Clausewitz, Von, Karl. (2009). De la Guerra. Buenos Aires, Argentina: Ed. Ediciones Libertador.

Fabretti, Barrionuevo, Humberto. A teoria do crime e da pena em Durkheim: Uma concepção peculiar do delito. Recuperado em 16 de novembro de 2015, de: http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/FDir/Artigos/humbertorevisado.pdf

Freud, Sigmund.(2014) As pulsões e seus destinos. São Paulo, Brasil, Ed. Autêntica.

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Freud, Sigmund et al Einstein, Albert (1932). Por que a guerra? Paris Instituto internacional para cooperação intelectual (Liga das nações).

Garraffoni, Senna, Renata. (2008). Lendo sobre as arenas romanas e repensando o papel dos gladiadores. Bauru, Brasil: Revista Mimesis.

Hall, Stuart. (2006). A identidade cultural da pós modernidade. Rio de Janeiro, Brasil: Ed. DP&A.

Levi, Primo. (2004). Os afogados e os sobreviventes – Os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. São Paulo, Brasil: Ed. Paz e Terra.

Marek, Michael. 1943: Goebbels declara guerra total. Recuperado em 14 de novembro de 2015, de: http://www.dw.com/pt/1943-goebbels-declara-guerra-total/a-298910

Oliveira, Espinha, Sandra Maria. Versões do pai no ensino de Lacan. Recuperado em 14 de novembro de 2015, de: http://ebp.org.br/wpcontent/uploads/2012/08/
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Roudinesco, Elisabeth. (2010). Retorno à questão judaica. Rio de Janeiro, Brasil. Ed. Jorge Zahar.

Seligmann-Silva, M., Ginzburg, J., Hardman, F. (2012). Escritas da violência, vol. 2: representações da violência na história e na cultura contemporâneas da América Latina. Rio de Janeiro, Brasil: Ed. 7 Letras.

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