Capitalismo e “alta tecnologia”

Por Sam Williams, via Critique of Crisis Theory, traduzido por J. P. Guarnieri

Um leitor me perguntou o motivo de tantos dos exemplos que eu dou serem da indústria de alta tecnologia. Na verdade, há bons motivos para se usar exemplos de alta tecnologia para ilustrar as leis que governam a economia capitalista.

A produção capitalista se desenvolve de maneira assimétrica, não só de país para país mas de indústria para indústria. Marx deixa claro em “O Capital” que nem todas as indústrias fizeram a transição de artesanato para manufatura e de manufatura para “maquinofatura” ao mesmo tempo. (1)

No século 19, o que Marx e Engels chamaram de “indústria moderna” significava as indústrias que haviam adotado o vapor como sua fonte primária de força motriz. Por esta definição, a indústria têxtil, tanto de fiação quanto de tecelagem, foi durante três quartos do século 19 a mais moderna das indústrias modernas. Consequentemente, no começo e no meio do século 19 – os tempos de Marx – a indústria têxtil foi a indústria onde as leis de funcionamento do capitalismo se mostraram mais claramente. Entender o desenvolvimento da indústria têxtil foi (e é) crucial para se entender a política do século 19.

O maior centro de produção têxtil foi na Inglaterra, centrado na cidade industrial de Manchester. O colega de Marx, Friedrich Engels, trabalhou lá por muitos anos gerenciando a fábrica de produção têxtil de sua família. A principal matéria-prima para a indústria têxtil do século 19 – algodão – era produzida nos Estados Unidos, não por trabalho assalariado, mas pelo trabalho dos escravos africanos.

Durante o século 19, os EUA estavam desenvolvendo sua própria indústria têxtil, baseada nos estados da Nova Inglaterra, naquela época o centro da indústria estadunidense. Assim como a indústria têxtil inglesa, a indústria têxtil americana era dependente do algodão produzido pelo trabalho escravo nos estados do sul dos Estados Unidos.

No período da guerra de independência americana (1775 – 1783), que representa a primeira fase da revolução democrático-burguesa dos EUA, a escravidão, que existia tanto nos estados do sul quanto nos estados do norte, parecia estar morrendo. Mas a invenção do descaroçador de algodão, combinada com a dramática ascensão da indústria têxtil movida a vapor tanto na Inglaterra quanto na Nova Inglaterra, deu nova vida à escravidão nos estados do sul dos EUA.

A questão de se os Estados Unidos seriam dominados pelo sistema de trabalho livre – trabalho assalariado – ou pela propriedade de escravos se colocou no centro da política estadunidense e até mundial, onde ela permaneceria até ser finalmente resolvida à força nos EUA na guerra civil de 1861 – 1865 e então na reconstrução pós-guerra civil que terminou em 1876. (2)

A Inglaterra e a Guerra Civil americana

O papel do Sul como provedor de algodão barato produzido pelo trabalho de africanos escravizados forjou a aliança entre os produtores têxteis ingleses e os proprietários de escravos do sul dos EUA. Quanto os donos de escravos se rebelaram no sul dos EUA em 1861, a classe dominante capitalista da Inglaterra fez tudo o que pôde para manter a relação já existente com os donos de escravos rebeldes. De fato, a oligarquia inglesa no poder fez o que pôde para garantir a vitória dos rebeldes escravistas.

Os governantes capitalistas ingleses, entretanto, enfrentaram a oposição da classe trabalhadora inglesa, que se opunha fortemente aos rebeldes escravistas apesar do desemprego massivo nos distritos têxteis causado pelo bloqueio dos portos do sul pelo governo americano. Uma das razões para isso foi que a possibilidade de se emigrar para os EUA e conquistar terras livres no oeste americano (3) limitou, até certo ponto, o quão longe os capitalistas ingleses poderiam ir na exploração da classe trabalhadora britânica e europeia durante o século 19.

Se os rebeldes tivessem sido vitoriosos, talvez pela intervenção direta da Inglaterra na Guerra Civil Americana, uma boa parte do oeste dos Estados Unidos – por exemplo, a Califórnia – poderia ter sido tomada pelos rebeldes escravistas. Os donos de escravos vitoriosos teriam, então, tirado proveito do clima quente da Califórnia para plantarem algodão com trabalho escravizado.

Parcialmente por estes motivos, parcialmente pelo ódio natural dos trabalhadores assalariados pela propriedade de escravos, a oposição inglesa à intervenção na guerra foi tão forte que a intervenção inglesa direta na Guerra Civil Americana com a qual os rebeldes escravistas contavam nunca se materializou.

De sua parte, Karl Marx fez tudo o que estava ao seu alcance para organizar marchas “pró-americanas” com o objetivo de impedir a ajuda inglesa aos rebeldes e a possível intervenção direta da Inglaterra na guerra ao lado dos escravistas rebeldes. Portanto, a luta contra a propriedade de escravos nos estados do sul dos Estados Unidos se tornou uma questão central não somente na política americana, mas também na política inglesa.

Nada disso teria acontecido se a indústria têxtil não tivesse tido um papel tão crucial nas economias tanto inglesa quanto mundial. Portanto, é bastante lógico que em “O Capital” Marx tenha usado exemplos derivados principalmente da indústria têxtil, apesar do fato do colega de Marx, Friedrich Engels, ser um industrial têxtil ter com certeza tido um papel aqui.

A ascensão da indústria pesada

No final do século 19, a mais dinâmica das indústria capitalistas não era mais a “leve” indústria têxtil, mas as “pesadas” indústrias do ferro e do aço. Ao contrário da indústria têxtil, as principais matérias-primas para as indústrias do ferro e do aço – minério de ferro e carvão – eram produzidas através de trabalho assalariado em vez de trabalho escravo.

Junto com as indústrias do petróleo e ferroviária, o monopólio capitalista começou a se afirmar na indústria do aço. Por exemplo, a gigante United States Steel Corporation – que ainda existe hoje – foi organizada e 1901 pelo maior banqueiro de Wall Street da época, Sr. J.P. Morgan (1837 – 1913). Os negócios de Morgan se baseavam principalmente na mobilização de capital pertencente aos capitalistas monetários ingleses para investimento em indústrias americanas de desenvolvimento rápido, como a siderúrgica e a ferroviária.

Na indústria do aço, o capital não era apenas altamente concentrado – em grandes fábricas – mas também altamente centralizados. As fábricas eram possuídas por um punhado de capitalistas industriais como a família Krupp alemã ou a U.S. Steel Corporation, organizada por Morgan. Em contraste, tanto a concentração da produção quanto a centralização do capital na indústria têxtil procediam de maneira lenta. A indústria têxtil passou a representar a “antiga organização” da indústria baseada em uma escala de produção relativamente pequena e na concentração de trabalhadores organizados em diversas firmas capitalistas em competição livre entre si.

A ascensão à dominância da indústria do aço rapidamente se refletiu em grandes mudanças na política mundial. Os Estados Unidos e a Alemanha começaram a desafiar a Inglaterra não apenas economicamente, mas, com o tempo, também militar e politicamente. A Inglaterra também desenvolvia uma indústria do aço, mas seu progresso era muito mais lento do que na Alemanha ou nos Estados Unidos. Aqui eram plantadas as sementes da Primeira Guerra Mundial.

As relações em mudança entre as indústrias do aço e têxtil também se refletiram de maneira poderosa na Revolução Russa. São Petersburgo – mais tarde, Leningrado – estava no centro da ultramoderna indústria do aço russa. E foi o “proletariado de Petersburgo”, como era chamado entre os revolucionários russos, que surgiu como o líder reconhecido do proletariado do Império Russo e, começando com a Revolução de Outubro, da classe proletária em todo o mundo. Era natural que a Revolução de Outubro explodisse em São Petersburgo – oficialmente renomeado para Petrogrado em 1914 (4) – enquanto Moscou, que estava no centro da indústria têxtil russa, ficava para trás.

Isso não significa que a indústria têxtil tenha desaparecido. Muito pelo contrário! As pessoas continuaram precisando de roupas no começo do século 20 tanto quanto precisavam no começo do século 19 e ainda precisam hoje no século 21. Consequentemente, a indústria têxtil continua bastante viva, ainda que hoje a produção têxtil esteja amplamente localizada no “sul global” e as fábricas têxteis de Manchester e da Nova Inglaterra sejam apenas uma memória. No começo do século 20, era lógico para os marxistas usar exemplos da indústria do aço no lugar da indústria têxtil.

A indústria automotiva

O meio do século 20 viu o crescimento dramático da indústria automotiva. Seu desenvolvimento começou a eclipsar o da indústria do aço – ainda que a indústria automotiva não pudesse e ainda não possa existir sem a indústria do aço. O automóvel baseado no motor de combustão interna foi uma invenção do final do século 19. Nos anos 20, a fábrica River Rouge de Henry Ford, com suas linhas de montagem e “produção em massa” foram a maravilha do mundo industrial.

Henry Ford (1863 – 1947) se tornou o capitalista mais famoso de seu tempo, do mesmo modo que Steve Jobs (1955 – 2011) emergiria como o capitalista mais famoso do nosso tempo. (5) Ford foi retratado na mídia como o homem que inventou a “era moderna”, com seu desenvolvimento das linhas de montagem de produção em massa e automóveis baratos. A Europa se viu ficando cada vez mais atrás dos EUA, especialmente na produção de automóveis.

Um novo mercado para automóveis surgiu nos Estados Unidos durante a década de 1920, simbolizados pelo “acessível” Modelo T Ford Motor Company, o primeiro automóvel a ser barato o suficiente para caber no orçamento de um trabalhador americano bem pago. Apenas após a Segunda Guerra Mundial um mercado em massa para automóveis de desenvolveria na Europa.

Quando o sindicalismo industrial finalmente chegou aos Estados Unidos no meio da década de 1930, a United Autoworkers Union-CIO surgiu como o mais dinâmico dos novos sindicatos industriais. Foi na indústria automotiva que a grande leva de greves de paralisação do meio da década de 1930 surgiu e se espalhou para outras indústrias. Mais tarde, nas décadas de 1950 e 1960, as paralisações industriais, agora declaradas ilegais nas indústrias americanas, inspiraram os protestos da luta por direitos civis contra as leis Jim Crow nos estados do sul dos EUA, de histórico escravagista.

Em “Capitalismo Monopolista”, Paul A. Baran e Paul Sweezy destacaram o papel enorme que a indústria automotiva teve no desenvolvimento do capitalismo americano no meio do século 20. Era, portanto, bastante lógico que os marxistas do meio do século 20 frequentemente usassem exemplos da indústria automotiva, do mesmo modo que os marxistas do início do século 20 usaram exemplos da indústria do aço e Marx e Engels usaram exemplos da indústria têxtil.

A ascensão da alta tecnologia

A alta tecnologia é na verdade a combinação de cinco tecnologias do século 20 e suas indústrias associadas. A tecnologia central da alta tecnologia é o computador digital. Duas outras tecnologias que formam a fundação da alta tecnologia são a miniaturização eletrônica, que começou com o desenvolvimento do transistor em 1947, substituindo o tubo de vácuo, ou válvulas, como as chamam os ingleses, e o circuito impresso.

Tubos e então transistores são cruciais para a computação digital porque sua habilidade em permitir ou interromper o fluxo de energia elétrica forma a base dos zeros e uns que estão por trás do computador digital.

Ao contrário de um tubo, um transistor pode ser reduzido a um tamanho medido em átomos. Isso tornou possível a redução dos computadores de colossos de tubos de vácuo que preenchiam salas inteiras no começo dos 1950s aos pequenos chips que funcionam como computadores dentro dos celulares e tablets de hoje.

Além disso, há a tecnologia de satélites, que depende do foguete moderno, que também foi desenvolvido no século 20.

E finalmente há a tecnologia de rádio, uma invenção dos primeiros anos do século 20. Sem o rádio –a transmissão de informação usando ondas eletromagnéticas– e os satélites, nosso mundo cada vez mais conectado com seus laptops, celulares e tablets seria impensável.

A alta tecnologia penetra cada vez mais em mercadorias que não são consideradas de alta tecnologia, como automóveis, que hoje em dia possuem potentes computadores, e, talvez, o que talvez seja ainda mais importante, no modo como essas mercadorias são produzidas. Mesmo a produção de muitos insumos alimentares está sujeita ao controle feito por computadores.

Para os que vivem em países imperialistas, é fácil se esquecer que os aparelhos de alta tecnologia e os componentes tais quais chips que funcionam como computadores precisam ser produzidos em fábricas por operários industriais. Isto é especialmente verdadeiro porque, em muitos casos, os trabalhadores da indústria de alta tecnologia são engenheiros de software bem pagos, que trabalham em escritórios e frequentemente recebem opções de receberem ações, oportunidades de aplicações financeiras com o objetivo de ligar seus interesses aos de seus chefes.

A produção de aparelhos de alta tecnologia envolve a produção de chips – na verdade, os próprios computadores – e então a montagem destes chips em circuitos impressos e a montagem final do aparelho de alta tecnologia em si.

Por exemplo, a corporação taiwanesa Foxconn construiu um complexo industrial de proporções homéricas na República Popular da China, onde muitos dos aparelhos de alta tecnologia são montados. Ele forma uma concentração sem precedentes de centenas de milhares de operários industriais –muitas delas mulheres– com as quais nem se pode comparar as fábricas de aço da Rússia revolucionária e a River Rouge de Ford em seu ápice. Este empreendimento colossal contém as sementes não só da enorme luta de classes pelos operários industriais chineses que teremos pela frente, mas também de possíveis guerras.

Ao contrário da impressão às vezes criada pela mídia americana, a maior parte da população de Taiwan é etnicamente Han –apesar de haver uma minoria de pessoas aborígenes na ilha (6). Não há, portanto, justificativa para se tratar Taiwan como uma nação separada da China continental. Os Estados Unidos decidiram, entretanto, manter a “independência” de Taiwan –isto é, seu estado atual como de facto colônia americana.

Por sua vez, todos os governos da República Popular da China desde 1949 têm se mantido firmes em não reconhecer a “independência” de Taiwan –isto é, sua relação colonial com os Estados Unidos. Taiwan não é um quintal econômico, mas está desempenhando um papel importante como a central de manufatura de componentes de alta tecnologia como CPUs –os processadores centrais para computadores, de supercomputadores a smartphones.

Isso torna bem menos provável que os Estados Unidos concordem em devolver Taiwan pacificamente à China, já que, se isso ocorresse, uma grande quantia de conhecimento tecnológico avançado e de capacidade produtiva iriam junto.

Enquanto nenhum dos lados quer, no momento, uma guerra, o relógio está correndo. Nós vimos acima como a relação da Inglaterra como o centro mundial de produção têxtil com os Estados Unidos como os maiores produtores de matéria-prima da indústria têxtil quase levou à guerra entre os EUA e a Inglaterra nos anos 1860. Poderia algo similar ocorrer com a relação entre Taiwan, a China e os Estados Unidos mais tarde neste século?

Em segundo lugar, nós vemos a evolução da relação entre a Apple Inc., agora a maior empresa americana em termos de valor na bolsa –uma empresa que não existia 40 anos atrás – que desenha aparelhos de base computacional, mas delega para a Foxconn sua montagem a partir de componentes produzidos em diversos países –tanto imperialistas quanto oprimidos.

Se o comércio mundial fosse parado, a produção de virtualmente todos os produtos de alta tecnologia pararia imediatamente. Na alta tecnologia, especialmente, nós vemos que a socialização global do trabalho chegou a níveis sem precedentes.

A alta tecnologia e o capital

Na minha recente polêmica contra Michael Heinrich, eu apontei que há tendências tanto de descentralização quanto de centralização do capital, com a centralização sendo a tendência predominante. As duas são mais claramente ilustradas nas indústrias em que as forças produtivas estão se desenvolvendo mais rapidamente, que, atualmente, são as indústrias de alta tecnologia.

Na alta tecnologia, nós vemos a ascensão das assim chamadas “startups” – a maior parte das quais rapidamente desaparece, mas algumas tornam-se em poucos anos poderosos monopólios com a ajuda do capital de investimento, uma forma de capital financeiro.

Os capitalistas de investimento de risco procuram pretensos empreendedores –frequentemente inteligentes estudantes de ciências da computação– com ideias para criação de negócios em novos setores da produção e da comunicação. Eles fornecem o capital inicial, que às vezes permite que estes empreendimentos cresçam de empresas do tamanho de uma barraca de feira em grandes negócios em apenas alguns anos.

Se uma startup chega a este ponto, ela então se volta para os banqueiros investidores de Wall Street, que transformam a startup em uma empresa de capital aberto, cujas ações podem ser compradas na bolsa de valores. Isto é feito através de ofertas públicas iniciais, ou IPOs [Initial Public Offerings], de ações, que podem transformar os fundadores de startups em bilionários apenas alguns anos depois de terem aberto suas empresas. Além da criação de uma nova camada de bilionários, nós vemos o desenvolvimento de pequenas startups em monopólios em apenas um punhado de anos.

Exemplos recentes incluem o monopólio do serviço de buscas do Google e, mais recentemente, o monopólio de mídias sociais do Facebook. A empresa de mídia social Twitter deve ter uma IPO em breve [nota do tradutor: no momento desta tradução, esta oferta pública inicial já ocorreu. Em 7 de novembro de 2013, a companhia abriu para a venda suas ações, sendo avaliada em 31 bilhões de dólares]. Se estas startups tivessem que crescer investindo seu lucro em seus negócios, este processo levaria décadas, senão séculos.

O ramo do capital de investimento em si está se tornando cada vez mais centralizado em poucas mãos, como a manufatura de aparelhos de alta tecnologia e o ramo da publicação de softwares. Há especulação na imprensa de negócios de que a crescente monopolização do capital de investimento irá desacelerar a inovação no futuro. A evolução do ramo do capital de investimento deverá, portanto, ser levada em consideração em qualquer análise da evolução do capital financeiro atual.

Como o papel dos capitalistas é representado erroneamente e romantizado na mídia

Se você ler ou assistir à grande mídia, você pensaria que Steve Jobs e Bill Gates inventaram as novas tecnologias chamadas de alta tecnologia. A mídia glorifica estes capitalistas e os coloca como exemplos positivos para a geração ascendente. Por exemplo, é dito que Jobs “inventou o futuro” em sua garagem. Se Jobs pôde fazê-lo, então você também poderia.

Karl Marx notou que o sistema capitalista precisa de oficiais que são chamados capitalistas. Enquanto qualquer um com dinheiro pode ser um capitalista monetário ou dono passivo, nem todo mundo pode ser um capitalista ativo como Sr. John D. Rockefeller (1839 – 1937), Henry Ford ou Steve Jobs. É necessário um certo tipo de personalidade – uma determinação forte, uma habilidade de manipular as pessoas combinada com um total desprezo pelos interesses alheios – para se tornar um “grande” capitalista ativo.

Steve Jobs combinava todas essas características com maestria. Ele estava disposto a explorar ao máximo tanto os operários industriais –que produzem mais valia– e os operário intelectuais –engenheiros– que criam novas forças produtivas e produtos a partir da matéria-prima da ciência. Neste sentido, e apenas neste sentido, Jobs era um gênio. O próprio Jobs não inventou praticamente nada, à exceção de algumas fontes tipográficas. Jobs não era nenhum engenheiro, muito menos um cientista.

Se Jobs tivesse sido atropelado e morto num acidente de trânsito no Vale do Silício no começo dos anos 1970, o capital financeiro teria sem dúvidas encontrado algum outro gênio empreendedor para “inventar o futuro”, que na verdade foi criado pelo trabalho de cientistas e engenheiros, a maior parte dos quais o público nunca ouviu falar. Por sua vez, também não seria possível o trabalho dos cientistas e engenheiros sem a classe trabalhadora altamente produtiva dos dias de hoje.

Ao contrário dos “heróis” empreendedores Bill Gates (7) e Steve Jobs, a maior parte destes cientistas e engenheiros ganha no máximo um bom salário de classe média, sem se tornarem multibilionários como Jobs e Gates. Uma das características mais irritantes da sociedade capitalista é que ela glorifica alguns dos piores exemplos da raça humana, enquanto os verdadeiros heróis da ciência e da engenharia são negligenciados e esquecidos.

A rápida ascensão e queda de monopólios

Desde que o capitalismo monopolista começou em cerca de 1873, monopólios têm tendido a se formar em indústrias nascentes. Os “grandes” monopólios do final do século 19 não foram baseados na indústria têxtil, a antiga indústria de “alta tecnologia”, mas nas novas indústrias do século 19, como ferrovias, a indústria do petróleo e as indústrias do ferro e do aço.

Por exemplo, o desenvolvimento da indústria do petróleo foi a base para a ascensão da Rockefeller’s Standard Oil Company, amplamente considerada a primeira corporação monopolista. Os grandes avanços na produção de aço se tornaram a base para a ascensão da Krupp Steel Company na Alemanha e da U.S. Steel Corporation nos Estados Unidos, que desempenharam papéis importantes no capitalismo monopolista do início do século 20.

Os primeiros anos do século 20 viram a nascente indústria automotiva transicionar de uma com muitos pequenos capitalistas –um dos quais era um tal Henry Ford– para uma indústria que nos anos 1920 já era dominada por um punhado de monopólios, como a Ford Motor Company, a General Motors e a Chrysler.

Entretanto, uma vez que indústrias como as do petróleo, do aço e automotiva já estavam estabelecidas, a relativa estabilidade das forças produtivas que estas indústrias representavam permitiu que os monopólios que surgiram em suas bases, como a Standard Oil, a United States Steel e a Ford Motor Company, mantivessem seu domínio por décadas. De fato, muitas destas empresas, ou seus descendentes corporativos diretos como a ExxonMobil –descendente direta da Standard Oil Company de Rockefeller– permanecem entre os monopólios corporativos mais poderosos até hoje.

Como vimos acima, a indústria de alta tecnologia não é, na verdade, uma indústria só, mas um grupo de indústrias interconectadas cuja base tecnológica continua a evoluir em ritmo acelerado. O resultado tem sido não só a formação de monopólios em espaços curtos de tempo, mas também muitos casos de monopólios que colapsaram tão rápido quanto surgiram quando a continuidade do maior desenvolvimento das tecnologias em que se baseavam destruíram seus mercados. Vamos examinar um exemplo concreto deste processo – a Sun Microsystems.

A ascensão e a queda da Sun Microsystems

A Sun Microsystems foi o produto da ascensão do microcomputador –batizado de “computador pessoal” por Steve Jobs. No início dos anos 1950, computadores a tubo de vácuo, com uma pequena fração do poder de processamento dos pequenos chips encontrados nos celulares de hoje, ocupavam salas inteiras. Mas mesmo no final dos anos 1960, os chamados minicomputadores que usavam transistores ainda eram grandes e caros demais para serem utilizados fora de instituições como corporações, grandes universidades e o governo.

A primeira forma primitiva do sistema operacional UNIX, desenvolvido no final dos anos 1960 e no início dos 1970 pela dupla de programadores Ken Thompson (1943 – ) e Dennis Ritchie (1941 – 2011) no Bell Labs – gerenciado pelo monopólio da AT&T– rodava nestes minicomputadores.

Mas foi durante os anos 1970 que o sistema operacional UNIX realmente amadureceu. Ele foi desenvolvido na Universidade da Califórnia em Berkeley – a mesma escola que era famosa pelo seu radicalismo estudantil nos anos 1960. Ao contrário dos estudantes idealistas radicais dos anos 1960, muitos dos estudantes tecnicamente dispostos ou voltados para negócios de Berkeley estavam sedentos para ficarem ricos nas novas indústrias surgindo na base do microchip e do sistema UNIX.

Dentre eles estavam Andy Bechtolsheim, Bill Joy, Vinod Khosla e Scott McNealy, que fundaram juntos a Sun Microsystems em 1982. Enquanto Bechtolsheim e Joy eram “techies” –mais ou menos como Steve Wozniak, cofundador da Apple Computer e um gênio em colocar o menor número de chips possível numa placa de circuito –, Khosla e McNealy eram homens de negócios. Khosla era o financiador e McNealy o principal vendedor e CEO, exercendo um papel como o desempenhado por Steve Jobs na Apple. Talvez porque os computadores da Sun fossem voltados não para consumidores finais, mas para empresas e outras grandes organizações, McNealy nunca se tornou tão famoso quanto Jobs, ao menos para o público geral. Todos eles, entretanto, estavam prestes a se tornarem muito, muito ricos.

Nos anos 1970, microcomputadores, ou computadores pessoais, não eram potentes o suficiente para rodar o sistema operacional UNIX. Conforme computadores pessoais se tornaram mais potentes, a Microsoft, que publicou o sistema operacional patenteado MS-DOS, que rodava na maior parte dos computadores pessoais –à exceção daqueles feitos pela Apple, que vinham com seu próprio sistema operacional patenteado – foi capaz de, por uma série de passos transicionais, ir do sistema operacional de linhas de comando MS-DOS para o sistema operacional Microsoft Windows, batizado em homenagem à sua interface gráfica. A Microsoft conseguiu com sucesso estabelecer um domínio monopolista do software de sistemas operacionais para desktops e laptops que persiste até hoje.

Nos anos 1980, os microcomputadores que rodavam nos chips Intel X86 não eram potentes o suficiente para servirem como servidores ou como estações de trabalho científico. A Sun se especializou em fazer microcomputadores mais potentes e mais caros, que poderiam ser usados como tanto servidores quanto terminais para trabalho científico. Eles desenvolveram e manufaturaram seus próprios processadores, que eram muito mais potentes que os processadores de baixo nível produzidos pela Intel. Quanto a Intel estava produzindo processadores de 32-bits, a Sun produzia processadores SPARC de 64-bits.

Nos anos 1990, a Sun já havia evoluído tanto em um monopólio industrial quanto um monopólio de software. Ela desenvolveu seu próprio software patenteado para rodar em seu hardware patenteado, o que se tornou a base do seu super-lucro monopolista.

Os computadores da Sun vinham com uma versão patenteada do sistema operacional UNIX que foi batizada de Solaris – uma brincadeira com o nome da companhia – que rodava em seus potentes (para a época) servidores e estações de trabalho. Talvez o software mais famoso da Sun tenha sido a linguagem de programação Java, que permite escrever programas que rodam em diversos tipos de sistema operacional com mudanças bem pequenas no código-fonte. Como o sistema operacional Solaris, a Sun lançou o Java como software patenteado (8). No fim dos anos 1990 –o ápice do boom “dot-com” da era Clinton– a Sun parecia segura como um monopólio poderoso. Na verdade, ela só tinha mais uma década de vida.

A Sun foi fortemente afetada pela crise econômica dot-com da virada do século. Mas o que realmente afetou a Sun não foi a crise econômica cíclica, mas a continuidade do desenvolvimento da exata tecnologia que tornou sua ascensão possível para começo de conversa. Os chips Intel x86, agora saindo em versões de 64-bits, estavam se tornando tão potentes que poderiam facilmente substituir os muito mais caros chips SPARC da Sun em servidores e estações de trabalho científico.

No lado do software, o desenvolvimento do sistema operacional gratuito GNU/Linux estava rapidamente tornando o uso de sistemas operacionais proprietários UNIX como o Solarys completamente desnecessário. Em desespero, a Sun anunciou que estava tornando o Solaris –assim como sua mais conhecida linguagem de programação Java– “código-aberto”.

Mas nada poderia salvar a Sun, já que seus consumidores estavam transicionando seus servidores rodando Solaris para servidores Intel e estações de trabalho rodando o gratuito GNU/Linux, BSD Unix ou versões modernas do ainda patenteado sistema operacional Microsoft Windows.

Depois de três anos de perdas, a Sun reportou um lucro líquido de 19 milhões de dólares no segundo trimestre de 2005. Depois disso, foram perdas contínuas. Como os leitores regulares deste blog devem saber, uma empresa capitalista que não dá lucro está fadada à extinção. Este foi, de fato, o destino da Sun.

Entre novembro de 2007 e novembro de 2008, as ações da Sun perderam 80% do valor. Isso excedeu as perdas que as ações de empresas lucrativas estavam tendo como resultado da violenta, mas cíclica, “Grande Depressão”. Como resultado destas perdas, a Sun foi forçada a demitir milhares de trabalhadores, cerca de 18% do seu quadro de funcionários.

Mas isso não foi o suficiente para salvá-la. Em 27 de janeiro de 2010, o que sobrou da Sun foi vendido para o monopólio de software de base de dados Oracle, e a empresa deixou de existir como capital independente. A Sun foi, portanto, vítima dos exatos processos que a trouxeram à existência para começo de conversa, o continuado avanço veloz da tecnologia de computação.

Outras empresas de alta tecnologia em apuros

Poderia a muito mais rica e poderosa Microsoft ter o mesmo destino da Sun? A Microsoft foi durante algum tempo a maior empresa do mundo em termos do valor de suas ações. Sob a liderança de seu fundador multibilionário, Bill Gates, a companhia foi construída inteiramente em software proprietário monopolista, especialmente o MS-Dos e o sistema operacional Windows. Mas a Microsoft enfrenta agora crescentes problemas que podem levar à sua derrocada.

A ameaça à Microsoft está no desenvolvimento de computadores menores que os microcomputadores originais. Estes pequenos computadores estão na forma de celulares, tablets e aparelhos que combinam as características de laptops e tablets. Neste campo, a competição está à mil, não só entre a Microsoft e seus rivais –apesar da Microsoft estar tentando penetrar neste mercado com os tablets Surface e o sistema operacional Windows 8.1. – mas entre a Apple e sua versão patenteada do sistema operacional UNIX e os vários smartphones e tablets rodando o sistema operacional open-source Android. (9)

Talvez a Microsoft finalmente tenha um avanço no mercado rapidamente crescente de telefones, tablets e relacionados, mas no estado atual a empresa parece estar nos primeiros estágios de uma queda vertiginosa.

Intimamente relacionados com os problemas que a Microsoft enfrenta estão os problemas enfrentados pelo monopólio do chip Intel –que nos anos 1990 estava intimamente ligado ao monopólio de software da Microsoft e que foi batizado de monopólio Wintel. A Intel, cujos potentes chips x86 enterraram a Sun, é agora, por sua vez, ameaçada pelos chips cada vez mais potentes do cartel britânico ARM, como vimos no mês passado. Os processadores ARM foram criados para rodar nos menores aparelhos de computação, como celulares, onde a conservação da bateria é crucial. Até o momento, os chips ARM têm faltado com o poder necessário para rodar nos desktops e laptops modernos. Mas os chips ARM estão ganhando cada vez mais potência, e num futuro não tão distante podem se tornar potentes o suficiente para rodar em desktops ou laptops.

A Intel está tentando desenvolver seus próprios chips de baixo consumo para rodarem em smartphones e tablets. Mas, até o momento, a Intel tem tido pouco sucesso nestes mercados, apesar de estar se esforçando. Se a Intel não conseguir alguma vitória logo, e se os chips da ARM começarem a substituir os processadores da Intel em laptops e desktops, o ainda muito poderoso e rico monopólio da Intel pode se ver lutando pela própria vida.

A Hewlett-Packard, que começou como um monopólio de impressoras, é frequentemente vista como a primeira empresa do Vale do Silício que começou em uma garagem (em 1939). Nos últimos anos, a Hewlett-Packard ascendeu como a maior fabricante de laptops e desktops. Isso pode, entretanto, se provar sua ruína, já que celulares e tablets estão rapidamente encolhendo o mercado para desktops e celulares.

A Hewlett-Packard também está tentando adentrar o rapidamente crescente mercado para aparelhos computacionais menores, mas está tendo grandes problemas em penetrá-lo. Assim como a Microsoft e a Intel, seu futuro é considerado problemático.

O conjunto de indústrias conhecido como de alta tecnologia está não só ajudando a produzir um salto na produtividade do trabalho, que pode ser a base para o novo modo de produção que Marx e Engels previram, mas está também providenciando o melhor laboratório para as leis econômicas que os economistas clássicos e Marx descobriram.

Enquanto eles lutam uns contra os outros pelas suas vidas, as empresas de alta tecnologia são obrigadas a desenvolver as forças produtivas que estão empurrando a sociedade para cada vez mais perto de um ponto onde a transformação do capitalismo em um modo mais elevado de produção será não só possível, mas necessário.

As novas questões políticas e sociais levantadas pelo desenvolvimento de alta tecnologia

O desenvolvimento da alta tecnologia tem levantado perguntas que seriam inimagináveis durante os anos 1960. Um exemplo disso é a questão da tentativa das corporações de manter em segredo os funcionamentos das instruções de software que os computadores –os processadores– dentro dos aparelhos de alta tecnologia –e também de aparelhos que não são de alta tecnologia– executam. Para combater isso, o movimento do software livre nasceu exatamente 30 anos atrás com o anúncio do programador Richard Stallman de que ele estava lançando um projeto para substituir o software proprietário UNIX com uma versão gratuita que ele batizou de GNU.

Nos anos 1990, o movimento do software livre se dividiu, com a ala mais conservadora, amigável às corporações fundando o movimento “open-source”. Por muitos anos, os movimentos de software livre e open-source foram de interesse apenas para os geeks ou “techies” – pessoas que praticavam programação mais pelo amor à arte de programar do que pelas grandes quantidades de dinheiro que poderiam ser ganhas nesta nova profissão.

Apesar do seu tamanho limitado em termos de números, estes novos movimentos conseguiram levantar questões importantes pra além do negócio de softwares propriamente dito. Estas questões envolvem as indústrias de literária e de entretenimento numa era onde livros, filmes e músicas consistem em sequências de zeros e uns que podem ser baixados e copiados com o clique de um mouse, ou agora um deslizar de dedos.

Por exemplo, se eu te emprestar um livro convencional, eu não posso ler o livro enquanto ele estiver com você. Se você o tem, eu não. Mas se for um e-book, que consiste numa sequência de zeros e uns, eu posso te enviar uma cópia pela internet. O mesmo é verdadeiro com música digital e filmes. De qualquer maneira, essas questões parecem ter-se limitado ao potencial político um tanto quanto limitado, sendo mais do interesse da relativamente afluente classe média dos países imperialistas do que dos trabalhadores do sul global que se preocupam mais com de onde virá sua próxima refeição do que se eles podem baixar, legalmente ou não, o próximo blockbuster de Hollywood.

Mas isso tem mudado rapidamente nos últimos meses. As revelações de Edward Snowden de que a Agência de Segurança Nacional [NSA] americana, um ramo do exército dos Estados Unidos, está envolvida em espionagem em massa em virtualmente toda comunicação computadorizada e de seus usuários emergiu como uma questão central da política mundial.

A vigilância da NSA envolve tanto indivíduos quanto governos. Dentre os espionados estão os governos dos ditos aliados dos EUA (o que eu chamo neste blog de países imperialistas satélites), os ditos amigos dos Estados Unidos entre os países oprimidos, além de países que os EUA consideram abertamente como inimigos. Também inclui, entretanto, virtualmente todos os países que usam computadores de alguma maneira –o que inclui os usuários de celulares.

Não só a maioria das pessoas, incluindo os trabalhadores dos países imperialistas, possui aparelhos operados por computadores, mas alguns anos atrás foi anunciado que cerca de 50% das pessoas na República Popular da China –um país em desenvolvimento, e não imperialista– possuem telefones celulares e, portanto, são alvos em potencial da NSA.

As revelações de Snowden e os movimentos dos trabalhadores

Tanto a história quanto a teoria mostram que os principais alvos das atividades repressivas dos governos capitalistas são a classe trabalhadora e suas organizações –sejam sindicatos ou partidos. Isso é especialmente verdadeiro para o império capitalista global centrado nos Estados Unidos. Não devemos nem por um momento ser enganados pelas afirmações de que os alvos são “terroristas islâmicos” como a Al-Qaeda.

Na verdade, a Al-Qaeda, com sua ênfase na ação de pequenos grupos de mártires religiosos que frequentemente ameaçam civis, não é uma grande ameaça ao imperialismo. De fato, a Al-Qaeda é, de diversas maneiras, um espantalho útil para o imperialismo. Mas os capitalistas sabem que os movimentos dos trabalhadores são, ao menos potencialmente, uma ameaça maior ao imperialismo e ao capitalismo que gera o imperialismo do que a Al-Qaeda ou outros grupos pequenos similares jamais poderiam ser.

Os movimentos dos trabalhadores deveriam estar na vanguarda da luta contra esta nova, universal e crescente vigilância governamental, incomparável até com as vigilâncias mais profundas das polícias secretas de tempos passados. Nós também deveríamos nos opor do mesmo modo à vigilância por empresas individuais.

É difícil ver como podemos lutar contra a vigilância governamental quando seu código-fonte –as instruções computacionais em formas legíveis para humanos de todos os programas computacionais que rodam em aparelhos operados por computadores – não é tornado público. Portanto, a exigência para que o código-fonte de todos os programas de computador sejam tornados públicos não é mais uma questão somente para os poucos geeks que gostam de mexer nos programas que rodam em seus computadores pessoais –ela é, ou ao menos deveria ser, uma questão central na política mundial e, portanto, uma questão central para os movimentos dos trabalhadores.

Muitos “techies” têm crenças libertárias que desaprovam ação política coletiva, ou tentam derrotar a vigilância com soluções técnicas que, por mais inteligentes que sejam, são apenas distrações da tarefa que deve ser cumprida –apenas a construção de um movimento político em massa pode derrotar as afirmações do governo e das corporações de que eles têm o direito de realizar espionagem e vigilância virtualmente ilimitada. A exigência de que se revele as instruções computacionais que rodam nos aparelhos que cada vez mais dominam – e enriquecem – nossas vidas é na verdade uma extensão da tradicional exigência dos movimentos dos trabalhadores por transparência.

Mas estas exigências podem não ser o suficiente. Uma parte das instruções dos computadores podem ser integradas na fabricação dos chips, os verdadeiros computadores dentro de aparelhos que são cada vez mais importantes em nossas vidas. Não deveriam as fábricas que produzem estes chips serem sujeitas a algum tipo de controle para se ter certeza que estas “back-doors” [portas dos fundos] que permitem a vigilância governamental e corporativa não sejam integradas na fabricação dos chips?

Certamente este controle não deve ser deixado para os governos envolvidos em espionagem pra começo de conversa. Apenas movimentos dos trabalhadores atuando em escala global e trabalhando com “techies” progressistas podem estabelecer o controle necessário sobre as fábricas que de fato produzem os chips.

Nenhuma destas questões teriam surgido, entretanto, sem as mudanças revolucionárias na produção [daquelas mercadorias] que chamamos de alta tecnologia – isto é, o desenvolvimento do rádio, do computador, do transistor e da tecnologia de satélite. Nós poderíamos viver em um mundo muito diferente se o automóvel ainda fosse considerado a principal maravilha tecnológica dos nossos tempos.

Aqui nós vemos as forças do materialismo histórico agindo. Marx e Engels explicaram que a ideologia e a política de uma época são determinadas pelo desenvolvimento das forças produtivas. Conforme o capitalismo desenvolve as forças produtivas a níveis cada vez mais elevados, são levantadas questões que seriam inimagináveis alguns anos antes.

Como nós vimos, o desenvolvimento da indústria têxtil do século 19 impulsionou a luta contra a escravidão africana, que no final do século 18 parecia estar definhando, de volta para o centro da política mundial. Quem, entretanto, poderia ter exercido o papel de Edward Snowden nos anos 1860 ou 1960?

Conforme a revolução da alta tecnologia continua criando novas forças produtivas que aumentam dramaticamente a produtividade do trabalho, não só novas questões como a espionagem da NSA vêm à tona, mas são criadas as condições que tornarão não só possível, mas necessária, a sociedade que chamamos de socialista ou comunista.

Por estas razões, marxistas devem prestar atenção aos desenvolvimentos científicos, especialmente nos novos ramos da indústria que evoluem rapidamente –do mesmo modo que Marx e Engels o fizeram em seus tempos.


(1) “Manufatura” significa, literalmente, produção feita à mão. Até o final do século 18, muito poucas máquinas eram usadas em fábricas. Naquela época, ganhos na produtividade do trabalho eram obtidos através do aprofundamento das divisões de trabalho. A introdução de máquinas a vapor no começo do século 18 marcou a transição para a indústria moderna, ou “maquinofatura”, onde vapor e eletricidade substituíram o músculo humano e animal como a principal fonte de poder motivo.

(2) No mês passado, eu datei a revolução democrático-burguesa americana de 1775 a 1865. Pensando mais aprofundadamente sobre a questão, eu acredito que deveria tê-la datado de 1775 até 1876 –isto é, até o fim da Reconstrução.

]Em 1876, a classe dominante dos Estados Unidos já tinha atingido todas as suas metas na revolução democrático-burguesa. Primeiramente, a independência do país da Inglaterra agora estava consolidada. Um grande mercado nacional, livre de tarifas e outras barreiras ao comércio, estava definitivamente estabelecido. Se o Sul tivesse ganho sua “independência”, o mercado nacional americano poderia ter sido quebrado pelas tarifas alfandegárias ou outras barreiras impostas pelo governo ao comércio.

Em 1876, no que dizia respeito ao mercado nacional americano, estes perigos haviam sido eliminados. Também estava estabelecido que o poder estatal estava centralizado em Washington, D.C., e não descentralizado nas capitais dos estados. Um sistema moderno de moeda corrente formado pelo sistema bancário nacional e suas notas monetárias nacionais era agora vigente. Antes da Guerra Civil, os políticos sulistas pró-escravidão haviam impedido o desenvolvido de uma moeda corrente nacional moderna.

Com o poder dos donos de escravos destituído, o governo dos Estados Unidos era agora livre para levar a cabo imensas melhorias internas –providenciando subsídios para acelerar a construção de rodovias, canais, etc. necessários para um avanço mais veloz do capitalismo industrial –algo que representantes dos donos de escravos conseguiram amplamente obstruir antes da Guerra Civil.

Sob a Reconstrução Radical, um começo havia sido feito para emancipar a antes escravizada população negra do Sul. Entretanto, não era do interesse da classe capitalista cumprir estes objetivos quando se tornou claro que uma reviravolta dos donos de escravos sulistas era impossível. Uma reforma agrária séria para dar aos ex-escravos uma chance de desenvolver fazendas independentes –40 acres e uma mula– nunca foi implementada. Uma redistribuição de terras tão difundida também teria beneficiado os sulistas brancos e unido seus interesses à revolucionária reconstrução democrática da sociedade sulista e os libertado de qualquer apego romântico à “causa perdida”.

Mas tal evolução, apesar de importante para a classe trabalhadora, não era do interesse da classe capitalista dominante. No lugar, uma campanha reacionária foi lançada que amplamente desprivilegiou os antigos escravos e seus descendentes no Sul por um século. Novas formas de semiescravidão, como as ditas “chain gangs” foram implementadas, onde afro-americanos eram presos baseado em alegações falsas, condenados por um júri composto apenas por brancos, e forçados a realizar trabalho forçado para donos de terras e capitalistas.

As “tradições” do Sul e dos rebeldes pró-escravidão foram glorificadas como parte de uma campanha para reforçar o racismo dentre os sulistas brancos. Antigos líderes dos donos de escravos, como o “presidente” rebelde Jefferson Davis e o general Robert E. Lee foram pintados como grandes patriotas americanos, apesar de na verdade terem sido os maiores traidores da história dos Estados Unidos, que quase destruíram o país em sua tentativa infrutífera de salvar a escravidão.

Com o fim da Reconstrução, uma nova fase na luta pela democracia-burguesa começou, em que as lutas da pequena-burguesia e das massas proletárias contra a classe capitalista –agora cada vez mais marcada por monopólios e pelo capital financeiro– vieram ao primeiro plano. Esta fase, marcada pelas lutas da maioria oprimida contra a desigualdade social, por maiores liberdades civis, e pela organização e o poder político da classe trabalhadora, continua nos Estados Unidos, e de fato em todos os países capitalistas –e seguirá até que a batalha pela democracia seja finalmente vencida com a conquista do poder político pela classe trabalhadora.

(3) Esta terra livre foi, é claro, roubada dos nativos americanos, que foram sujeitos ao genocídio em larga escala. Mesmo em sua fase mais democrática, o capitalismo foi um desastre para os povos nativos da América do Norte, algo de que não devemos nos esquecer jamais.

(4) São Petersburgo, que também foi a capital política da Rússia czarista, foi mudada do alemão “Petersburgo” para o russo “Petrogrado” como partido do chauvinismo anti-alemão que acompanhou a Primeira Guerra Mundial. Seu nome foi mudado para Leningrado e 1924 em homenagem a Lenin, que havia morrido naquele ano. Em 1991, foi mudado de volta para São Petersburgo por contrarrevolucionário burgueses que haviam tomado o controle tanto da Rússia quanto da administração da cidade de Leningrado.

(5) Ao contrário de Jobs, Ford foi de fato um engenheiro, que odiava o capital financeiro e fez tudo o que pôde para manter a Ford Motor Company independente dos banqueiros de Wall Street

(6) Taiwan foi roubada da China pelo Japão em 1895 como resultado da derrota chinesa na guerra Sino-Japonesa de 1895. Foi formalmente devolvida à China após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial em 1945. Entretanto, em 1949, após da derrota de Chiang Kai-shek e o Kuomitang na China continental, Chiang, que agora estava sobre proteção do império americano, conseguiu ocupar Taiwan. A República Popular não conseguiu liberar a ilha devido à força esmagadora das forças navais e aéreas americanas.

Antes dos Estados Unidos começarem a normalizar as relações com a China em 1971, a mídia americana chamava Taiwan, sob a ditadura de Chiang, de “China Livre”, ou, ocasionalmente, a “China Nacionalista”, oposta à “China Vermelha”. As cadeiras da China na O.N.U. e no Conselho de Segurança eram ocupadas por um representante da “China Nacionalista” e não da “China Vermelha”. Naquela época, ninguém questionava o fato de que Taiwan era de fato uma parte da China. Entretanto, com o tardio reconhecimento da República Popular da China pelos EUA, os Estados Unidos “descobriram” que Taiwan é supostamente um país à parte cuja “independência” deve ser protegida da China.

Apesar das afirmações dos Estados Unidos de que Taiwan é uma nação independente, o nome oficial do governo de Taiwan continua sendo República da China. A República da China foi declarada em 1911 por Sun Yat-sen e foi substituída pela República Popular da China, declarada em 1949.

(7) Ao contrário de Jobs, Gates foi, na sua juventude, um talentoso programador de computadores. Gates ajudou a desenvolver um programa que interpretava a linguagem de programação BASIC que cabia na pouca memória do primeiro “computador pessoal”, o Altair, que lançado em 1975. Ao contrário da Apple, entretanto, a empresa que lançou o Altair rapidamente faliu, que é o destino comum de empresas que desbravam novas indústrias.

Conforme a Microsoft se tornou uma poderosa corporação, Gates deixou de escrever programas para se concentrar em seu principal interesse –se tornar o homem mais rico do mundo. Seu principal talento –escrever programas que usam pouca memória– também teve muito pouca influência na programação atual, que enfatiza a escrita de programas que possam ser entendidos por outros programadores.

(8) Esta réplica foi parcialmente escrita no LibreOffice, que originalmente era parte de um pacote de software proprietário desenvolvido pela Sun para rodar nos computadores SPARC-SOLARIS. Em seu declínio, a Sun tornou este pacote software livre.

(9) Eu chamo o sistema operacional Android de “open source”, ao invés de software livre, porque seu dono, o monopólio de motor de buscas Google, adere à filosofia open-source, não à filosofia open-source de Richard Stallman. A Google apoia o software livre até onde aumenta o lucro da Google, e nem um passo além. A Google nem sempre lançou prontamente o código-fonte de novas versões do Android, e, mesmo quando o fez, o publicou sob a licença não-copyleft preferida por muitos apoiadores pró-corporativos do movimento open-source. Entretanto, à medida que a Google solta o código-fonte do sistema operacional, o Android é, de acordo com a definição de Richard Stallman, software livre.

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