Quem tem medo de James Bond?

Por Ignácio Martín Baró, via UCA, traduzido por Alexsander Grem

Medo, ao que se ter medo, não há nada o que ter medo de James Bond. A razão é sensibilíssima: James Bond está morto. Ao menos, li isso há uns dias, não recordo em que revista: Connery-Bond, no final do seu último filme, cai morto. E aqui está. Morreu Bond, como morreu há alguns anos Sherlock Holmes, e cremos que não ressuscitará, como no caso do famoso detetive britânico.

Sean Connery já pode respirar tranquilo “Bond me deteve, – declarou em certa ocasião – me parece antipático. Se fosse por mim, adoeceria por reumatismo.” Algo para além de reumatismo, parece ter afetado James Bond. Hoje, só nos resta enterrar com seus devidos respeitos. Haverá talvez, choro, frustrações, fãs desesperados… e isso será tudo, desde que surja algum outro LSD substitutivo.

O fenômeno do “bondismo” me parece sintomático. Pessoalmente, me interessei demais. Li todas as novelas de Ian Fleming, todos as reportagens e artigos escritos sobre o famoso
007 e suas sequências e, recentemente, vi um de seus filmes. Por ele me atrevo a falar com certo conhecimento de causa. O “bondismo” tem promovido alguns traços específicos do fenômeno de massas; os livros de Fleming são lidos por mais de cem milhões de pessoas e facilmente podemos calcular em outros cem milhões que assistem os filmes do 007.

Em Londres, Paris e outras cidades se abriram clubes “Bond”, onde os sócios recebiam seus cartões de “007”, usavam pistola “Beretta” e utilizavam o “radiotelefone” para se comunicar com os camareiros. Tudo que levava o nome de “Bond” era bem cogitado no mercado: “Macy’s” lançou a colônia 007 (Um perfume que mescla whisky e tabaco), “Dayarad” colocou em moda o traje de “Bond”, e muitas outras Marcas venderam quantidades imensas de todo tipo de roupa, artefato ou acessório que levava alguma marca “Bondista”.

Fenômeno massivo, “o bondismo” – como a “beatlemania”, ou o “yeyeísmo”- são sintomas, nos símbolos, consequências, não causas. Aí que me parece muito absurda a pretensão de alguns educadores ou moralistas que pretendem evitar o “bondismo” a base de um ataque direto e incomplacente. Não se cura um câncer com anestesia, nem uma apendicite com massagem. O “bondismo” é uma caracterização aflorada do estado sócio-espiritual do nosso mundo e a nada conduzem as ideias encobridoras ou os escândalos farisaicos [N.T hipócritas].

Como explicar o sucesso desproporcional do 007? Evidente que precisamos separar o gênero literário do cinematográfico, mas ambos confluem no fenômeno humano. Literariamente, Fleming não é nenhum gênio. Suas novelas se constroem em uma estrutura de estereótipos, que se repetem passo por passo. Fleming sabe jogar com elementos sempre ativos da nossa dinâmica emocional, nunca falta em suas obras a descrição detalhada de uma situação lúcida – partida de golf, jogos de roleta ou cartas-, de um refinado tormento, ou de uma pormenorizada cena erótica. Por outra parte, Fleming se move dentro de uma escala axiológica arquetípica.

Umberto Eco aponta quatorze binômios de caracteres e valores, que se repetem invariavelmente nas novelas de Fleming: Bond-M, Bond-Homem, Bond-Mulher, Mulher-Bond, Mundo livre-União Soviética, Amor-Morte, Ostentação-Incômodo, etc. Não se pode negar que Flaming tem uma técnica aguda e uma agilidade notável no manejo de recursos e valores tão sutis. Fora que Fleming nunca se situará em uma plano incompreensível para o leitor médio. Sua cultura é do tipo enciclopédico, mas nunca pedante, apenas ao alcance de todos os leitores. Em síntese, “Fleming”, como apresentam-o, resume as contradições vivas de uma cultura de consumo, organiza tramas elementais e violentas, jogas sobre oposições fabulosas, com uma técnica de novela de massas, descreve muitas vezes mulheres tomando Sol, fundos do mar e automóveis com uma técnica literária de reportagem, esbarrando muitas vezes em Kitsch e a vezes caindo de vez, dosifica a atenção narrativa com uma roupagem instável, alternando o “ grand guignol ” com o “noveau roman” , com uma desenvoltura técnica que se situa o “bem” ou o “mal”, se não está entre os inventores, está entre os mais hábeis utilizadores do instrumento experimental.” (Umberto Eco, “A estrutura narrativa em Fleming.”).

Bastante diferente é a abordagem de Bond cinematográfico. Pessoalmente, só tive a oportunidade ver “Dr. No” e, sinceramente, me desapontou. Talvez, essa decepção  deva a que, anteriormente, conhecia as aventuras do “Our Man Flynt” ou de Napoleão Solo, muito mais carregadas de ironia asséptica.

Nas telas do cinema, desaparece a maior parte da abordagem lúdica do personagem, carregam-se as doses de espetacularidade, surpresa e erotismo. Para explicar o triunfo cinematográfico que foi 007, a maioria dos críticos recorreram ao processo de identificação psicológica. Em tempo, 007 é, afinal de contas, mais um trabalhador da nossa civilização, mais um trabalhador que teme e reverência seu chefe, com quem mantém uma atitude totalmente ambivalente. Junto com sua mediocridade social, 007 junta as características de um “superman” oculto: a aventura, o luxo fastuoso ou o amor é fácil, são coisas que são que são devidas ao mero fato de viver, mais uma parte da sua existência.

Bond é um homem sem problemas: sabemos que vai triunfar, ainda assim, permanece a possibilidade da derrota -emoção junto a segurança-, pode amar todas as mulheres que atravessam sua vida, sem que isso implique complicações por nenhuma das partes. Bond é um homem sem passado. Vive no presente temporal e na superfície humana. Um típico homem de estímulo e resposta – um condutor vivo, um herói cibernético, como foi chamado por Fausto Antonini.

O indício moral que faz Bond no final de “Cassino Royale”(Capítulo XX), não voltam a fazer em nenhum novela e, muito menos, em algum filme. Bond segue o conselho do seu amigo Mathis: “Rodeia-te de sentimentos humanos, meu estimado Bond. É muito mais difícil lutar por eles, do que por princípios – fundo sonoplástico. Mas não me engana, tornando-se humano, perderíamos uma máquina tão maravilhosa!…” (O que sobressai é meu). Sim, fui psicanalista freudiano ortodoxo, diria que Bond satisfaz com graça os instintos fundamentais do espectador: a líbido e a pulsão de morte. Bond ama e mata de uma maneira terrivelmente fria, o que parece ingrediente fundamental para sua estabilidade psíquica. Bond está morto. Não importa tanto que estivesse morto nas telas, quanto que sua morte é uma realidade no ambiente das massas. Bond já não entusiasmava mais como antes, ainda pouco. Sua popularidade, talvez, porque carecia de uma base sólida, verdadeiramente humana, foi efêmera.

Podemos respirar tranquilos? Estamos a sorte de um perigo febril e desumanizante como “bondismo”? Desgraçadamente, creio que sim. Bond não foi nada mais que um sintoma, uma etapa. Está morto Bond, é certo, mas virá outro. Algo anda mal por dentro -e não só por fora, como pretendem certo sociólogos. Por isso, não me bota medo nenhum possível James Bond futuro. Tenho medo, muito mais, por quem necessita de qualquer James Bond para seguir vivendo.

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