“Eu prefiro não fazê-lo” (a resposta a Peterson)

Por Eliran Bar-El e Stefanos Roimpas, via The Philosophical Salon, traduzido por traduzido por Oleg Savitskii e Anna Savitskaia.

Depois do “debate intelectual do século”, muitos têm censurado Zizek pelo fato mesmo de ter participado, bem como por não ter criticado o suficiente ou rebatido, um a um, os argumentos de Peterson. Nós sustentamos que a narrativa associativa e histérica de Zizek, que aparentemente carecia de uma refutação, era na verdade a própria refutação. Zizek estava bem ciente de que o debate era um espetáculo dirigido ao público geral e não um assunto acadêmico. E foi exatamente para o público geral que queria mostrar as limitações de Peterson, e foi o que fez por meio da demonstração.    


Alain Badiou diferencia entre mostração e de-monstração no que concerne ao tratamento psicanalítico lacaniano, onde a demonstração do real está em jogo. Como ele próprio explica: “ ‘Demonstração’ significa que o real não é o que se revela ou se mostra [ce qui se montre], mas o que se de-monstra [ce qui se dé-montre], portanto, é o desfazer do que se mostra” (2018:169).  Aquilo de que muitos consideram que o debate carecia, isto é, uma refutação estrutural das afirmações de Peterson, foi a demonstração da limitação real do debate através da posição de Zizek enquanto tal.

Imagine que você está com um amigo, e uma (terceira) pessoa louca se dirige a você em uma linguagem inarticulada, proferindo afirmações completamente absurdas. Uma mostração da sua parte seria explicar a seu amigo porque os sons emitidos pelo insano não correspondem a nenhuma unidade linguística e, portanto, não fazem sentido. O amigo já sabe disso, por isso não precisa de uma análise linguística tão rigorosa; ele já compartilha do suposto conhecimento do mesmo espaço ou ordem simbólica (nesse caso, a linguagem). Assim sendo, ao analisar os sons e expor sua não equivalência às palavras, a mostração em si mesma não faz sentido.

No debate, Peterson apresentou um modelo de 10 problemas que ele encontra no marxismo, exemplificados no Manifesto Comunista. As pessoas, inclusive o próprio Peterson, esperavam que Zizek aproveitasse essa oportunidade para mostrar seus conhecimentos do assunto e refutar todos os 10 argumentos. Afirmamos, no entanto, que Zizek não precisava explicar o Marxismo e, desse modo, combinar em uma só totalidade a sala de aula e o auditório. Relembre o que Hegel disse em relação a brigas com sua esposa: quando se chega ao ponto de ter que explicar, já é tarde demais.

Zizek antes tencionava demonstrar que o modelo factual de seu oponente era de fato inconsistente sem apresentar o seu próprio modelo. A confrontação dos modelos colocaria o debate inteiramente no domínio simbólico, visto que o ponto real dele, que ‘resiste à simbolização’, continua recalcado por tal confrontação. Assim, Zizek respondeu com seu repertório habitual de perguntas retóricas, piadas e exemplos. Essa resposta afastou-se o máximo possível da apresentação acadêmica tradicional – daquilo que Lacan chamava de Discurso Universitário que expõe fatos supostamente objetivos sem a intervenção subjetiva.

Para os não-enganados que erram ao entender que deveria ter havido uma refutação mais estruturada, lembramos que ela já existe, inclusive livre das idiossincrasias de Zizek. O livro de Terry Eagleton “Porque Marx estava certo” (2011) é exatamente o modelo que muitos fantasiavam que colocaria lenha na fogueira do debate, tornando-o ‘academicamente sério’ e desmascararia a posição antimarxista de Peterson. A leitura desse livro lhe fornecerá o que você deseja de uma maneira mais analítica do que sintética: 10 respostas concisas aos 10 ‘problemas’.

Por que Zizek não se serviu de seu modelo, que pode ser seguidamente encontrado em suas obras? Seguindo sua política de Bartleby, preferiu não defender a comum e condescendente posição acadêmica exclusiva, ocupada na verdade por Jordan Peterson. Essa posição, que Lacan chamou de sujeito-suposto-saber, presume que o público não sabe, isto é, carece do conhecimento suposto, necessário para refutar o modelo factual de Peterson e requer que Zizek preencha essa lacuna.

A falta de um modelo coerente na resposta de Zizek é um gesto dirigido ao público, afirmando que seu conhecimento é suficiente para acompanhar as incongruências de Peterson, demonstradas por meio de piadas vulgares, experiências subjetivas e coisas semelhantes. Assim sendo, Zizek resistiu à tentação de mostrar seu modelo e de-monstrou os limites de Peterson ao fazê-lo. Portanto, criticá-lo por não ter participado do debate ou entrar nele de acordo com as condições de Peterson passa ao largo do problema.

Para além de bancar o purista, para quem não vale a pena entrar em debate com Peterson, ou o crítico empírico experiente que dispõe de fatos melhores, Zizek encenou uma paralaxe psicanalítica: uma mudança na perspectiva da platéia, a qual altera também o objeto. O público não precisou de nenhum conhecimento novo para adquirir uma nova compreensão do modelo de Peterson. Essa mudança epistemológica (do Discurso Universitário para o Discurso Histérico) revelou que ele era inconsistente e às vezes superficial, em vez de completo e auto-evidente como pode ter sido inicialmente percebido.

Sempre que recorremos à explicação da estrutura que torna uma piada engraçada, ela imediatamente cessa de funcionar como tal. De igual modo, se a narrativa fatual de Peterson é uma ‘piada’ por não levar em consideração a própria fábrica de fatos, então Zizek NÃO precisa explicá-la. Esperar tal resposta é a mesma coisa que projetar sua fantasia de um ‘debate perfeito’ e criticá-lo sintomaticamente por não corresponder a ela. Em vez disso, sugerimos que você atravesse a fantasia e faça você mesmo!


Notas:

[1] Alain Badiou. 2018. Lacan: Anti-Philosophy 3 (New York: Columbia University Press).

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