Morte e Sobrevida no Exército de Indivíduos

Por Victor Cavalcanti

“De saída, armas não são objetos comuns, não se deve comparar armas com liquidificadores e coisas do tipo. Mas qual é a dimensão de incomum das armas?”


I

Parte significativa da intelectualidade progressista gosta de dizer que o fascínio por armas é resultado de desdobramentos tortuosos de pulsões sexuais, insegurança, estetização da violência e coisas do tipo. São críticas rasas que bem poderiam ser feitas a quase qualquer comportamento humano, inclusive o intelectualismo que também tem muito a ver com esses mesmos aspectos pulsionais e fragilidades. Fato é que não existe registro histórico de uma única civilização sem armas. Armas são parte da nossa hominização. As armas exercem sim fascínio e vão continuar exercendo, não se vai mudar tal coisa com militância política. Não só pelo fato de que o poder político, como dizia Mao Tse Tung, tem origem na ponta do fuzil, mas principalmente pelos aspectos psicológicos e até ontológicos que estão envolvidos na experiência de se estar diante de uma arma.

Uma arma, toda arma, nos põe em contato ao mesmo tempo com o poder de decidir sobre a vida e a morte, e com a fragilidade e os limites da própria vida, com a certeza de que outros também detém esse poder sobre as nossas vidas. Na arma, diferente do carro ou do avião, a morte não é acidente, é essência, ela se atualiza a cada instante trazendo consigo o mais pesado dos pesos, a finitude. E a finitude é justamente o que nos transcende enquanto indivíduos, a possibilidade de matar é sempre já também a possibilidade de morrer e por isso matar é sempre também, em alguma medida, morrer. Onde uma vida humana está em jogo, toda vida humana está em jogo e a própria humanidade está em jogo. Por isso mesmo é um erro pensar em armas como direitos individuais. Aqui também a lógica liberal falha miseravelmente.

Diz muito do que é uma sociedade, e do que é a vida para uma sociedade, o modo como ela lida com suas armas e não existe possibilidade de uma não lida. Fazer de conta que armas não existem ou desejar que elas não existissem já é um modo de lidar com as armas, talvez o mais niilista. Talvez tão niilista quanto a banalização hollywoodiana ou a obsessão pela sobrevida atualmente em voga dos chamados “sobrevivencialistas” a expressão máxima do medo que faz da vida desejo de sobreviver. Vá no youtube e dê uma busca pelo termo. Você vai ver um monte de canais de pessoas querendo ensinar como agir se for assaltado, se for rendido, se for sequestrado, se for alvejado, se um estudante invadir o lugar em que você está e abrir fogo… são esses os sobrevivencialistas. E se nada disso te acontecer? Como se vive para além da sobrevivência? São perguntas que flutuam no plano de fundo desses sintomas contemporâneos.

No modelo de sociedade capitalista-liberal contemporâneo, o valor inestimável da sobrevivência, da autopreservação e da duração contrasta com a desvalorização da vida. O sentimento que move o mundo capitalista não é a vontade de vida, é o medo da morte. No caso brasileiro, é sintomático que os mesmos defensores das armas sejam também os negadores da filosofia. Sabe-se desde Sócrates que a mãe de toda filosofia é a morte. A morte que impõe sentido e não sentido à vida, é ela que determina o último dos porquês e toda filosofia começa pela coragem de olhá-la nos olhos. O desejo da arma como direito individual nada mais é do que medo da morte. Sua banalização é a banalização da vida. É também o medo da morte – não como acontecimento mas como imposição de uma pergunta pelo sentido da vida – que move o combate atual contra a filosofia. Medo da morte é nesse caso também medo da vida. São filhos legítimos do que Nietzsche chamou de fraqueza.

Como se vê, o problema passa longe das armas. O pavor de armas e o desejo de negação que habita os corações progressistas têm origem semelhante ao desejo de banalização das armas que move a extrema direita obcecada pelo tema. Se um lado quer que armas não existam, o outro quer que sejam objetos banais como um liquidificador. Em comum os dois guardam a negação do peso ontológico dessa parte da hominização que expressa a morte. Não é coincidência que uma divisão semelhante se dê em relação ao sexo e aos comportamentos sexuais. O conflito contemporâneo sobre o tema é marcado pelo moralismo que quer reprimir e o desejo de banalização que quer desvalorizar. Os dois lados negam o sexo, um pelo desejo de sua supressão e outro pelo desejo de transformá-lo em uma ação banal. Os dois lados estão definitivamente fadados ao fracasso rotundo. Sexo e armas nunca serão suprimidos e nunca serão banalizados porque nos dois casos o que está em jogo é a origem da vida e sua contraparte, a origem da morte.

II

O tema das armas é um tema importante, mais que isso, fundamental. O problema da lógica liberal que avança nesse momento é que ela aliena a arma de suas expressões históricas, culturais e sociais. Torna a arma um assunto do indivíduo (essa abstração do mundo burguês), arma fundamentalmente aqueles que podem pagar e politiza esse grupo segundo os ditames ideológicos de quem lhes conferiu esse “direito individual”. Naturalmente essa ideologia se opõe àqueles que negam ao exército de indivíduos seus “direitos”. A classe dominante galvaniza e organiza assim a classe média como base de apoio na manutenção da dominação sobre a classe dominada.

Em o Estado e a Revolução, Lênin destaca que o Estado (órgão de dominação de uma classe sobre outra) precisa necessariamente de “destacamentos de homens armados” para a manutenção das condições de dominação de classe. Aqui é preciso enfatizar o termo “destacamentos”, esses homens (e hoje também mulheres) precisam ser tanto quanto possível destacados, separados da sociedade. Precisam que sua fonte de renda seja o próprio exercício da manutenção da ordem de dominação. O Estado dividido em classes antagônicas não pode permitir que sua segurança esteja dispersa e organizada espontaneamente entre seus cidadãos como se dá em todas as sociedades que não possuem polícia e, pasmem, os indivíduos não matam uns aos outros até que reste apenas um, muito pelo contrário, em geral se matam menos do que nas sociedades policiadas.

Ao se posicionar “contra as armas” a esquerda atual se posiciona, quer queira quer não, em favor da lógica do destacamento e com isso tem grandes motivos para ter seu discurso rejeitado tanto pela classe média quanto pela própria classe trabalhadora que vivencia de perto o resultado dessa lógica. O discurso de emancipação em relação ao Estado passa às mãos da extrema direita por meio de uma mitologia tosca, banal, quase infantil de que comprar uma arma é de alguma forma a possibilidade de se defender não só de um agressor mas do próprio Estado. Circula entre os discursos da extrema direita sobre o tema a lenda de que todo regime “autoritário” (ou assim classificado pela aliança de ocasião entre liberais e fascistas)  teria desarmado sua população.

Embora esse texto não seja o espaço para entrar nesses detalhes, é preciso falar um pouco sobre o uso que se faz dessa classificação. O termo autoritarismo, não no vocabulário técnico das ciências sociais, mas no discurso da extrema direita que está se tornando senso comum, não cumpre outra função que não a de reunir sob um mesmo conceito o nazi-fascismo e experiências políticas revolucionárias de esquerda. O primeiro passo é aproximar e o passo seguinte é dizer que “o comunismo é pior do que o nazismo” o que no limite prático justifica a tentativa de Hitler de exterminar o comunismo. Em essência, esse discurso é propaganda nazista pura e simples embora seus reprodutores frequentemente não façam a menor idéia disso. A divulgação de atrocidades atribuídas ao comunismo era o coração da propaganda nazista em aliança com a imprensa conservadora dos Estados Unidos nos anos 30 (notoriamente a figura de William Randolph Hearst, maior empresário de imprensa dos Estados Unidos no período), com a morte do Estado nazista, esse coração foi transplantado para a propaganda anti-comunista dos Estado Unidos no pós-guerra recebendo inclusive o apoio técnico de ex-agentes de inteligência da Alemanha Nazista devidamente anistiados pelo governo americano em troca de sua colaboração nessa tarefa que conheciam tão bem.

Voltando à questão das armas, faça o teste e pergunte a um Bolsonarista sobre o tema, em pouco tempo ele te dirá que “regimes autoritários desarmaram sua população” para dominá-la e provavelmente virá uma lista que une a Alemanha Nazista com Cuba, Rússia soviética etc. É simplesmente uma lenda sem qualquer contato com a realidade. Primeiro que todos esses exemplos históricos, apesar de suas gigantescas diferenças compartilhavam de um atributo comum, o amplo e massivo apoio popular. Nenhum desses casos  conheceu nem remotamente a possibilidade de uma revolta popular massiva contra o Estado ou o governo ali estabelecidos. Segundo que o acesso da população às armas não era nada extremamente limitado em nenhum dos três casos.

 Na Alemanha a legislação nazista sobre armas era mais permissiva do que a anterior da República de Weimar. Hitler assumiu o poder com grande popularidade em 1933, só em 1938 com o regime nazista já consolidado é que surgem as primeiras restrições exclusivamente sobre revólveres. A proibição total de armas é imposta apenas aos judeus (cerca de 1% da população) e apenas na medida em que todos os outros direito foram também retirados dos judeus. Não há qualquer relação significativa entre a ascensão do nazismo e políticas de desarmamento. Na URSS isso é ainda menos verdade, o comunismo foi defendido após a revolução em uma guerra civil, de onde se tira a idéia de que os Bolcheviques eram desarmamentistas?  Mais tarde há uma massiva campanha de engajamento de civis e formação de milícias na luta contra a Alemanha Nazista durante a segunda guerra, isso sem falar no fato de que o Exército Vermelho foi simplesmente o maior exército do mundo em quantitativo de pessoas. No caso cubano, paióis de armas públicos foram espalhados por Havana ao alcance da população para o caso de uma tentativa de invasão estrangeira. Não há registros de que os revolucionários tenham temido em algum momento o povo em armas.

De modo geral, civis legalmente armados, não organizados em guerrilhas, não são ameaça a nenhum governo com polícia e exército profissionais que se mantenham fiéis. Só na mitologia da extrema direita estadunidense (e agora brasileira) é que um monte de tio de churrasco e adolescentes tardios vestidos com roupa camuflada de loja de camping podem impor algum limite a um governo que decida esmagar sua população. A mitologia da extrema direita sobre armas não faz sentido de um ponto de vista prático, mas funciona muito bem no campo psicológico. A idéia de uma arma para defender os seus valores, a sua família, a sua vida e tudo que é importante para você é capaz de mobilizar afetos construindo e reforçando a noção de indivíduo. Ela faz imaginar que sua segurança depende exclusivamente de você. Ela cria a fantasia de que o que pode te afligir é um episódio de violência isolado para o qual basta estar preparado e não um ambiente socialmente tóxico e degradado que te aflige todos os dias. O fantasma do assaltante que nunca vai entrar na casa da imensa maioria dos brasileiros ocupa o lugar do fantasma do desemprego que já atinge 14% e ronda toda semana as vidas de milhões. A violência física agressiva e episódica substitui, ainda que imaginariamente, a violência psíquica sutil e contínua que mergulha na depressão e na síndrome do pânico milhões de homens e mulheres. Não raro a arma do indivíduo vai parar na sua própria cabeça num momento de desespero antes de ser apontada para o agressor imaginário que frequentemente nunca chega a aparecer.

Esse processo é o resultado da inserção da potência existencial que toda arma é e traz consigo num meio social enfraquecido, esterilizado, medroso e ansioso por segurança. A tensão agonística entre vida e morte se reduz ao pacto de mediocridade entre sobrevida e medo.

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