Por um incendiar como o incêndio florestal

Por Bue Rübner Hansen, via roarmag.org traduzido por Rodrigo Gonsalves

Na sociologia, um ponto de inflexão é passado quando um grupo ou sociedade muda rapidamente e dramaticamente seu comportamento adotando uma prática anteriormente rara. Geralmente, segue-se uma crise que torna o antigo modo de fazer as coisas impossível ou intolerável. O desmatamento rápido está em andamento há muito tempo na Indonésia, na África Central, na Amazônia e em outros lugares. Mas o enorme significado simbólico e material da Amazônia significa que os incêndios são um alerta para milhões de pessoas no Brasil e no mundo. 


Como muitos outros, eu sinto desespero vendo os incêndios na Amazônia. Então, escrevi este texto nos lembrarmos de que transformações sociais podem incendiar tão rapidamente quanto o fogo que incendeia as florestas.

O clima e os ecossistemas têm pontos de inflexão. Por exemplo, estima-se que 20% da perda de árvores na Amazônia mudará as condições das chuvas e levará a floresta à um declínio irreversível.

Mas também há pontos de inflexão sociais, e o #AmazonFires pode nos empurrar para um destes.

Na sociologia, um ponto de inflexão é passado quando um grupo ou sociedade muda rapidamente e dramaticamente seu comportamento adotando uma prática anteriormente rara.

Geralmente, segue-se uma crise que torna o antigo modo de fazer as coisas impossível ou intolerável.

O desmatamento rápido está em andamento há muito tempo na Indonésia, na África Central, na Amazônia e em outros lugares. Mas o enorme significado simbólico e material da Amazônia significa que os incêndios são um alerta para milhões de pessoas no Brasil e no mundo.

No entanto, sair da cama depois de um despertar exige que você tenha algo para te levantar. Você precisa saber que fará algo com o seu dia. E por isso que é tão importante combater o cinismo e por que é tão importante informar a si mesmo e aos outros sobre o que pode ser feito.

Então, o que pode ser feito? No geral, precisamos de uma rápida transformação da economia global de combustíveis fósseis, agricultura predatória e extrativismo. O que você pode fazer depende do seu lugar dentro desta economia, de onde você mora, suas habilidades e com quem você pode atuar.

Não pergunte como o Grande Problema pode ser resolvido, mas como você pode fazer parte do movimento que muda o estado atual das coisas e o que você pode contribuir para isso. Na melhor das hipóteses, haverá uma ecologia de práticas, de táticas e estratégias, e você terá que procurar seu nicho, suas simbioses, seu papel na circulação de idéias e energias.

Começar é o que importa, não importa o quão pequeno seja. Porque a melhor cura para o sentimento de desespero e preocupação é o agir em conjunto. E quando você se reúne, surgem possibilidades e idéias imprevistas. Você aprende e encontra pessoas para aprender junto.

Uma boa maneira de começar é reunir alguns amigos e criar um mapa: um mapa das iniciativas que estão acontecendo perto de você e dos movimentos ativos. Você pode querer se juntar a eles – aprender algo, ajudar um pouco, talvez se envolver. Mesmo se você quiser começar sua própria coisa, eles serão bons contatos, e você também pode aprender com seus erros.

Nessa conversa inicial com seus amigos, você perceberá que juntos conhecem muitas coisas. Você ficará mais empolgado com a possibilidade de ficar ativo do que se pensar sozinho, e provavelmente, terá uma conversa rara e profunda sobre o estado do mundo. Pode não deixá-lo animado, mas certamente você se sentirá menos solitário com suas preocupações.

Se você já estiver ativo, faça o mesmo: reúna-se às pessoas que confia e ama. Inspire-os, mas não diga a eles o que fazer. Ajude-os a entender o que podem e o que querem fazer e ajude-os a começar.

Não importa quão pequenos começamos, é um evento, um ponto de inflexão pessoal que é passado, a tristeza do agora temperada por uma alegre realização: temos a capacidade de agir.

Que o problema é global não significa que somos pequenos para fazer algo, significa que todos nós – exceto aqueles que lucram com desastres – têm um papel a desempenhar, com locais e trajetórias distintas para se agir.

Como consumidor, você pode organizar e participar de boicotes à soja, carne bovina, óleo de palma e outros produtos que geram desmatamento. Você pode lutar por transportes públicos e ciclovias, e pelo co-comutar com os outros. Você pode requerer à sua companhia de energia local que mude para fontes renováveis ​​e a lista ficará muito mais longa se você começar a pensar sobre as formas como sua vida afeta a destruição ecológica. Se você é cúmplice, não se sinta culpado, descubra como aproveitar ou recusar sua cumplicidade contra aqueles que dependem da nossa permanência enquanto cúmplices.

Como trabalhador, você pode se recusar a fazer certos tipos de trabalho, pode entrar em greve ou trabalhar devagar, ou pode fazer seu trabalho de maneira diferente: por exemplo, os professores podem ensinar o currículo radicalmente, e alguns podem mudá-lo. Alguns trabalhadores podem transformar o processo de trabalho para que se polua menos, desperdice menos, ou informar as comunidades e aos ambientalistas, mas também à imprensa sobre os danos que os patrões nos pedem para cometer.

Estamos tão acostumados a falar sobre consumo, mas é mais fácil para os trabalhadores agirem coletivamente, e eles têm muito poder quando o fazem.  https://www.opendemocracy.net/…/batshit-jobs-no-one-should…/

Algumas pessoas fetichizam escolhas éticas, individuais, e outras interpretam erroneamente isso como uma razão para rejeitar todas as ações individuais. A verdade é que ações individuais podem inspirar outras pessoas a mudar hábitos e valores, ou acostumá-las à ideia de fazê-lo, e torná-las abertas à ideia de que as coisas podem (e devem) ser feitas de maneira diferente.

E, desde que você não caia na ilusão de que ações individuais são suficientes (o que é cada dia mais difícil), então as ações individuais podem incentivá-lo a participar da ação coletiva, que é infinitamente mais poderosa que a ação individual.

Imagine os muitos dentre os milhões que receberam o chamado de despertar da Amazônia, atendendo-o, informando a si mesmos e aos outros sobre o que pode ser feito e se envolvendo, por menor que seja. Imagine uma multidão iniciando um processo de aprendizado, inspirando raiva e alegria uns aos outros.

Todas essas pessoas teriam, de fato, passado por um ponto de inflexão social. Elas teriam experimentado um evento e suas vidas, provavelmente, mudaram para sempre. Elas mudam o que fazem, fazem diferentemente ou se sentem muito diferentes a respeito deste fazer. E elas estariam prontos para mais.

Então, quantos seriam necessários para que esse ponto de inflexão realmente incline a balança?

É menos do que você imagina. Uma dica vem da pesquisa (Chenoweth) que mostra que não é preciso mais de 15% por cento da população engajada em desobediência civil para fazer um governo cair.

É apenas uma dica, porque quando se trata de clima e avarias ecológicas, estamos lidando com pontos de inflexão em várias escalas e tipos, bairros, escolas e locais de trabalho, municípios, governos regionais, governos nacionais e governança internacional, negociando localmente, nacionalmente e globalmente. Mas o ponto é claro: podemos parar de acreditar que nada vai mudar até conseguirmos 50% da população a bordo.

Certamente, 50% importa muito quando se trata de eleições, mas governos democráticos radicais são quase sempre o produto da mudança social, antes que se tornem seus modeladores. Uma minoria ativa e organizada pode mudar o senso comum e quebrar o status quo. Isso moldará as eleições, mas, o mais importante, mudará as relações e práticas de poder social, tornando os governos progressistas mais duráveis ​​e responsáveis.

As mudanças nas relações de poder social são mais poderosas e duráveis ​​quando respondem aos principais problemas de seu tempo e quando os poderes existentes não têm muita idéia do que fazer. Sendo esse o caso, é útil lembrar que não estamos apenas enfrentando destruição irreversível, mas a chance de mudanças duráveis ​​para melhor.

Não importa que você não possa imaginar concretamente como tudo isso se dará. Grandes transformações e revoluções sociais são processos nas quais novas e, até então, inimagináveis ​​possibilidades são desenvolvidas ou descobertas. E há pessoas, planos e práticas do nosso lado que você ainda não ouviu falar e muito mais por vir.

Para ser preciso, não devemos imaginar transformações sociais em larga escala como resultado de pontos de inflexão sociais únicos, mas mais como um processo em cascata no qual um ponto de inflexão cria as condições para o próximo.

No ano passado, já experimentamos um ponto de inflexão na luta contra a destruição planetária. A experiência de crise de 2018 – a seca de verão no Hemisfério Norte, o relatório do IPCC, os incêndios na Califórnia etc. – criou as condições para que dezenas de milhares de pessoas se tornassem engajadas pela primeira vez: crianças e estudantes em todo o mundo foram #climatestrike e milhares de pessoas aderiram à #ExtinctionRebellion.

Aqueles que ativamente se engajaram após aos chamados para despertar de 2018 foram os que encontraram maneiras de agir coletivamente: as greves nas escolas, os bloqueios nas estradas que iniciaram tudo. O que determina o próximo ponto de inflexão não é tanto a consciência das pessoas, mas a descoberta, o compartilhamento e a circulação de táticas e formas de organização.

Os incêndios da Amazônia podem nos levar a um ponto de inflexão social se encontrarmos maneiras de transformar raiva e desespero em ação, se encontrarmos maneiras de agir onde estamos. Esteja aberto ao que os outros estão fazendo, seja inventivo, seja criativo, seja inspirador. Às vezes, as transformações sociais podem incendiar tão rápido quanto um incêndio florestal.


* Bue Rübner Hansen é PhD pela Universidade de Queen Mary, de Londres. Ele é editor da Viewpoint Magazine, ativista e pesquisador na Grã-Bretanha, Barcelona e solidário ao movimentos dos refugiados e imigrantes. Sua pesquisa foca na reprodução social, classes, na formação de interesse ecológico e a vida em comum.

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