Ngũgĩ wa Thiong’o: Cultura e Imperialismos

Por Bruno Ribeiro Oliveira*

Thiong’o sempre manterá uma versão da história onde a embates entre dois lados. Thiong’o é fruto de uma era da historiografia onde o embate entre colonizado e colonizador tutelava a maioria dos trabalhos históricos sobre a história de África e dos povos africanos. Essa historiografia da resistência, como também pode ser chamada, tratava de organizar a história sempre entre uma disputa entre lados antagônicos


Ngũgĩ wa Thiong’o é o nome de um escritor, professor acadêmico e militante nascido no Quênia em 1938. Seus romances já foram traduzidos em diversas línguas e seus livros são bastante estudados por academias de letras em diversas universidades do globo. Ocorre que, sua obra e pensamento, são ainda pouco conhecidos no Brasil. E, além dos seus romances, Thiong’o produziu uma extensa bibliografia sobre temas políticos, culturais e revolucionários. 

Nesse artigo eu gostaria de discutir como Thiong’o desenvolveu sua ideia de imperialismo não só sobre África, mas sobre todo o terceiro mundo, a partir de suas experiências em África e a partir de leituras de obras de intelectuais revolucionários do continente africano. 

Thiong’o é o que nós costumamos chamar de um escritor de fronteira. Como os nigerianos Chinua Achebe e Wole Soyinka, Thiong’o nasceu e cresceu no período colonial africano e chegou na vida adulta em um país independente. O Quênia nasceu em 1963, mas não foi através de um percurso fácil. Entre 1952 e 1960 a guerra chamada de Insurgência Mau Mau sacudiu a então Colônia do Quênia. Foram oito anos de guerra de guerrilhas onde militantes pró-independência lutaram contra forças britânicas e seus apoiadores nativos. Essa guerra foi o ápice de um longa luta por terras que se iniciou com a colonização britânica do leste africano em final do século XIX.

Em sua infância e adolescência, Thiong’o passou por todo o período Mau Mau e teve sua mãe e irmão presos devido aos seus apoios aos guerrilheiros que se escondiam nas florestas e montanhas da região central do Quênia. O período Mau Mau marcou a vida de Thiong’o devido a violência empregada, aos campos de concentração erguidos pelos britânicos e ao tratamento violento usado contra as populações quicuios, grupo cultural que formava a maioria dos guerrilheiros e seus apoiadores. 

É importante entendermos que a Insurgência Mau Mau também marcou toda a literatura desse autor e a concepção de história que ele iria desenvolver mais tarde em sua carreira como pensador e escritor. A primeira publicação de Thiong’o é com o livro Weep Not, Child (Menino, Não Chores) de 1964. Foi nesse ano que ele começou a sua longa carreira como escritor. Essa obra foi lançcada quando ele era ainda um estudante na universidade de Makerere, em Uganda, que era um centro universitário que atendia todo o leste africano. Makerere, até a ascensão de Idi Amin, que matou e expulsou diversos professores e alunos, foi um centro que gestou intelectuais como Julilus Nyerere, presidente da Tanzânia e praticante do socialismo africano. 

Foi em Makerere que Thiong’o descobriu seu interesse pela cultura, mais do que pela economia, política e outras ciências. Formado nessa universidade, Thiong’o partiu para um mestrado na Universidade de Leeds na Inglaterra, onde havia estudado o nigeriano Wole Soyinka, que ganharia o Nobel de literatura em 1986. Era um caminho comum aos intelectuais africanos do período colonial e pós-colonial. Estudar na antiga metrópole oferecia chances de estudos que não estavam disponíveis em África. 

O período de mestrado em Leeds na Inglaterra é muito importante na carreira de Thiong’o, pois é nessa universidade que ele conhecerá o trabalho de Frantz Fanon, Amílcar Cabral e Lênin. É em Leeds que Thiong’o se tornará um intelectual revolucionário, ou como ele mesmo diz em um título de um de seus livros, um rebelde da caneta. 

Nesse artigo nos interessa mais seu escritos teóricos sobre política, cultura, imperialismo e revolução, mas não podemos deixar de mencionar que sua literatura é uma fonte de conhecimentos sobre esses temas. No livro Matigari de 1987, Thiong’o recria as sociedades africanas pós-coloniais de modo a mostrar os podres dos países africanos que seguiram a via capitalista e em como o povo deve se organizar para organizar uma revolução. Thiong’o usa de exemplo a luta anti-imperialista dos Mau Mau contra os britânicos. Mas ele a tráz para os dias pós-coloniais e mostra como as independências foram, em realidade, transições conservadores que mantiveram no poder os apoiadores do regime colonial e os lacaios do capitalismo internacional. 

Thiong’o sempre manterá uma versão da história onde a embates entre dois lados. Thiong’o é fruto de uma era da historiografia onde o embate entre colonizado e colonizador tutelava a maioria dos trabalhos históricos sobre a história de África e dos povos africanos. Essa historiografia da resistência, como também pode ser chamada, tratava de organizar a história sempre entre uma disputa entre lados antagônicos. Nós verificamos isso na literatura de romances de Thiong’o tanto quanto em seus escritos militantes. Tal é a visão que vai pautar sua visão sobre a relação entre colonizados e colonizadores, entre trabalhadores e patrões, entre oprimidos e opressores. 

Pétalas de Sangue, de 1977, é outro exemplo de uma literatura engajada e embasada no socialismo realista. Esse livro explica como nenhum outro livro de literatura o que é e como age o neocolonialismo em África. Sua concepção do conceito de neocolonial vem das leituras de Lênin, Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo e de Kwame Nkrumah, Neocolonialismo, Estágio Superior do Imperialismo. Thiong’o consegue articular ambos autores para nos dizer que o Quênia, bem como a maioria dos países de África, continuam sobre o controle de poderes ocidentais devido a posição desses países na organização mundial do capitalismo. Ou seja, a relação de dependência dos países africanos não foi alterada com o fim do colonialismo, pois  os sóis das independências mantiveram uma elite alinhada com os interesses estrangeiros no poder dos novos estados-nações. E o culpado disso tudo? O sistema capitalista que levou ao colonialismo e ao neocolonialismo sobre África e que criou elites alinhadas com interesses estrangeiros do mundo euro-americano.

Aqui podemos abrir uma brecha para falarmos de como Thiong’o pensa as elites africanas. Durante a Insurgência Mau Mau houveram os quenianos que se juntaram a guerrilha e os que foram contrários à guerrilha. Esses últimos serviram junto das forças britânicas e eram chamados de lealistas. Durante e ao final da guerra, todos aqueles que apoiavam o colonialismo britânico foram recompensados com terras e dinheiro, enquanto os Mau Mau foram abandonados e esquecidos ao final do conflito, mesmo que tivessem sido eles que lutaram pela independência que veio em 1963. Para Thiong’o, ficou claro que a transição de colônia para país pós-independente não trouxe nenhuma mudança radical, pois aqueles que haviam servido ao colonialismo, agora estavam nas posições de poder no Quênia independente. 

Foi  em Frantz Fanon e em Amílcar Cabral que Thiong’o buscou desenvolver essa ideia. Tanto Fanon quanto Cabral trabalharam em seus escritos que as elites nativas que foram gestadas no seio do colonialismo serviriam apenas para permitir o estado de submissão dos estados-nações africanos frente aos poderes ocidentais. Fanon e Cabral falavam em uma classe burguesa africana que, com o raiar das independências, não levariam a fundo transformações nas sociedades africanas pois elas tinham mais a perder do que ganhar com uma transformação revolucionária dos países africanos. Devido a sua posição de classe e por terem sido formadas dentro do colonialismo, essas classes serviriam aos interesses estrangeiros e não acabariam com o lugar do colonizador, mas os ocupariam para se tornar os novos mestres do poder. Para Cabral isso era claro devido ao fato de que essas elites eram ocidentalizadas e estavam longe da cultura popular comum ao povo africano. Não era apenas uma questão de classe, mas uma questão de pertencimento cultural. 

Thiong’o vai tomar dessas ideias para produzir seus próprios escritos sobre cultura, imperialismo e libertação. É amparado em Fanon e Cabral que ele vai escrever e trabalhar no centro comunitário de Kamirithu para produzir peças de teatro em contato com os trabalhadores da região. Thiong’o escreve as peças num trabalho de colaboração com a comunidade de Kamirithu e nessa experiência ele descobre e desenvolve a questão sobre a submissão das mulheres africanos frente aos homens africanos. Longe de um discurso de homogeinização da classe trabalhadora, Thiong’o e os habitantes de Kamirithu vão discutir e produzir cultura sobre a condição feminina na sociedade queniano e em como as classes subalternas podem manter preconceitos entre si. 

Nesse período Thiong’o era um intelectual em plena atividade revolucionário no interior do Quênia. Seu alvo era o neocolonialismo, a dependência do Quênia, o machismo dos trabalhadores quenianos e o empoderamento das mulheres quenianas. 

A experiência de Kamirithu junto dos escritos de Fanon e Cabral vão levar a contribuição de Thiong’o no pensamento africano que é sobre a questão do uso das línguas. Os estados-nações africanos que surgiram no pós-colonial tomaram como oficiais as línguas dos colonizadores, mas na lide diária e no trabalho em Kamirithu, a maioria das pessoas não dominava o inglês. Thiong’o vai propor que peças de teatro sejam feitas na língua da classe trabalhadora, ou seja, no seu caso, na língua quicuio. Thiong’o notou que havia uma grande distância entre autoridades políticas, intelectuais e governo com as pessoas que não dominavam a língua do colonizador. 

Como o centro vinha dando resultado e contestava o governo autocrata do Quênia, o centro foi atacado e destruído. Thiong’o foi preso por um ano sem acusação formal. Nesse tempo que esteve preso produziu sua primeira obra literária inteiramenta escrita em quicuio, Devil on the Cross (O Diabo na Cruz, ainda sem tradução para o português), de 1980. Essa obra trata da opressão feminina na sociedade pós-colonial e é uma narrativa sobre como uma personagem vai desde uma posição submissa, passa pelo aprendizado sobre a realidade do capitalismo e dos capitalistas em África, que Thiong’o denomina de ladrões, até se tornar uma revolucionária em nome do proletariado e da mudança social. 

Depois de preso, Thiong’o se vê exilado e é nesse período que vai produzir uma importante obra chamada de Decolonizing the Mind (Descolonizando a Mente), de 1986, ainda sem tradução para o português. Nessa obra Thiong’o argumenta que para quebrar com o imperialismo e o neocolonialismo que atuam sobre a África, é necessário que escritores e demais intelectuais do continente africano se encontram com suas culturas autóctones e que passem a produzir seus textos em línguas africanas. Em Decolonizing the Mind, Thiong’o segue a receita de Amílcar Cabral, onde esse último diz que é necessário se reencontrar com a cultura nativa. Isso seria uma forma do intelectual se encontrar com uma cultura pré-colonial que foi alterada, destruída ou desprezada pelos colonialistas e as classes médias e burgueses que se desenvolveram nos países africanos pós-coloniais.  

Com essas leituras em mente e com a experiência do teatro coletivo em Kamirithu, Thiong’o procura escrever para os intelectuais de diferentes locais de África onde as línguas imperialistas se tornaram as línguas nacionais em detrimento das línguas locais. Thiong’o quer produzir uma mudança no seio da literatura africana, onde essa não será mais produzida em numa língua europeia, ou no que Thiong’o chama de literaturas afro-europerias, mas sim em línguas africanas, que Thiong’o denomina de verdadeira literatura africana. O propósito de Thiong’o é fazer com que escritos de intelectuais formados dentro de uma tradição fanonista, cabralina e revolucionária, encontrem-se com a classe oprimida que ainda fala em línguas nativas. Por isso, segundo Thiong’o, é um ato revolucionário produzir escritos em línguas africanas, pois esses escritos encontram seu meio entre a classe operária de África. Ao contrário, como argumenta o autor, se manter a escrita em língua europeia, o único público será a elite e a as classes médias ocidentalizadas onde ele não vê nenhum potencial revolucionário devido a colonização de suas mentes.

Amparado em Cabral e Fanon, Thiong’o dá um passo adiante no pensamento africano. Cabral lhe ensinou sobre o reencontro que deve ser operado para se reencontrar com a cultura que foi perdida com a entrada do colonialismo e imperialismo em África. Fanon e Cabral lhe ensinaram sobre as classes dominantes e os pequenos burgueses ocidentalizados que servem de mantenedores da situação de dependência. Lênin lhe ensinou sobre a ordem capitalista global e a divisão do trabalho. Thiong’o, interessado na cultura e numa visão social baseada na luta de classes, vai reunir esses escritos para dar sua própria contribuição que é a ideia de descolonização mental através do uso de línguas. 

De acordo com suas leituras marxistas, Thiong’o diz que a cultura deriva do modo de produção de determinado povo e a língua é a ferramenta que carrega dados essenciais da cultura de determinado povo. Com a intromissão colonial e imperialista, alterou-se o paradigma de existência dos povos africanos uma vez que a língua do colonizador se introduziu em suas vidas, alterando conceitos e destruindo conceitos que só podiam ser partilhados nas línguas nativas. O colonizador não coloniza apenas a terra, os recursos e mão-de-obra, mas coloniza as mentes. E o ensino da língua europeia, para Thiong’o, é a forma de colonização das mentes africanas. Separados de sua língua, os povos africanos estarão separados de sua cultura, e assim, segundo o autor, serão corpos sem mentes, uma vez que vão estar alienados de sua cultura e de sua realidade material ao estarem imbuídos de uma língua que não condiz com sua realidade e nem pode expresar conceitos comuns às culturas africanas. 

Dentro dessa ideia de colonização mental através das línguas europeias, Thiong’o vai repensar a questão do imperialismo sobre a África. Para ele, existem três imperialismo que agem sobre o continente: o imperialismo econômico, o imperialismo político e o imperialismo cultural. Segundo o autor, o imperialismo econômico atinge as esferas da produção e do controle dos recursos, mas para esse imperialismo econômico funcionar é necessário que ele seja apoiado pelo imperialismo político. Esse último imperialismo funciona por meio das instituições de controle da sociedade como justiça, instituições políticas, polícia e prisão. Por fim, o imperialismo cultural que atua sobre a mente dos colonizados através da educação, dos jornais, dos intelectuais e dos missionários. Thiong’o divide o imperialismo em três faces distintas para melhor conhecê-lo e combatê-lo. 

O que difere Thiong’o de outros pensadores de África que tem relação com um pensamento revolucionário é a ênfase que ele coloca na questão cultural. Thiong’o acredita que não pode haver descolonização completa enquanto as mentes ainda forem dominadas por uma cultura e uma língua que são estrangeiras aos países africanos. Por isso ele acredita que os intelectuais podem fazer o povo africano se reencontrar um uma cultura que foi perdida, alterada ou até mesmo exterminada no contexto da dominação colonialista.  

Ao identificar os três imperialismo, Thiong’o busca atuar ao nível do imperialismo cultural para alterar as mentes e, como efeito dessa postura, alterar o imperialismo político e econômico. Importante ressaltar que Thiong’o não busca escrever para uma classe médio e classe alta, mas sim busca dirigir sua literatura a classe trabalhadora onde ele vê um potencial revolucionário e um ligação mais direta com uma cultura autóctone. 

Thiong’o é um importante pensador que ainda é ignorado no contexto brasileiro. Thiong’o é parte da história do pensamento africano e das epistemologias do sul. No contexto da América Latina o pensamento africano de autores do leste africano ainda é pouco trabalhado. Esse texto busca ser uma pequena contribuição a todo um mundo intelectual de África que é quase inexistente no Brasil. 


* Bruno Ribeiro Oliveira é formado em História pela UFRGS e possui mestrado em história pela Universidade de Lisboa. Fez seu mestrado sobre o pensamento do escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o, ainda pouco conhecido e discutido no Brasil

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