O Capital é Masculino

Por Wilton Cardoso*

Com o desenvolvimento do capitalismo na segunda metade do século XX, os próprios trabalhadores devem se tornar também competitivos no mercado. A educação no mundo capitalista visa, em alguma medida, a cidadania, mas na maior parte se trata de uma preparação para o mundo impiedoso do mercado, para se tornar um profissional qualificado que consiga ser bem remunerado. Cada vez mais o trabalhador se torna um capital individual em concorrência com seus pares. As mudanças legislativas em favor da desregulamentação do trabalho, ao mesmo tempo reconhecem e reforçam tais tendências de hiper-individualização competitiva do trabalho.


O valor, a riqueza do capitalismo, é uma grandeza abstrata cuja substância é uma relação social, o trabalho. Este, por sua vez, se constitui, por um lado, como uma quantidade específica de tempo necessária para que a atividade humana produza uma mercadoria qualquer e, por outro, como uma relação social em que o trabalhador se torna mercadoria, trocando sua força de trabalho por dinheiro. A mercadoria é trabalho tornado morto e que se constitui como valor de uso e valor (de troca). O capital é o valor que se valoriza, por meio da acumulação do lucro (mais-valor).

Valor, trabalho, mercadoria e capital são categorias básicas do capitalismo, todas despidas de conteúdos (são formas sociais) e constituídas como quantidades abstratas. O capital é a síntese delas, uma espécie de Zeus no olimpo das categorias abstratas. A formalidade, quantidade, impessoalidade e inconsciência o capital não implicam que ele tenha uma sexualidade. Sob esta perspectiva, o capital é assexuado, indiferente a questões de gênero.

Por outro lado, se olharmos para o trabalho, a relação social básica que constitui o capital, ele tem sido, ao longo do tempo, uma atividade preponderantemente masculina, que apenas com muita luta pôde ser exercido pela mulher que, ainda hoje, se encontra em posição de inferioridade no mundo do trabalho. A primazia do homem pode ser explicada, até certo ponto, por uma espécie de inércia social do capitalismo, cujo nascimento se deu no bojo da sociedade medieval, fortemente patriarcal.

Esta inércia patriarcal do mundo do trabalho (e não só dele, mas de todas as esferas da vida moderna) só pôde ser quebrada, mesmo que lentamente, por conta do caráter abstrato, cego e impessoal do capital, indiferente ao agente que o mobiliza. O capital, em última instância, é amoral e despido de preconceitos humanos. A ele pouco importa o gênero, a cor ou a religião das pessoas que o mobilizam, contando que sua lógica possa se desenvolver livre de embaraços. Em essência, portanto, o capital não é masculino nem feminino, branco ou negro.

 

A masculinidade do capital

Há, no entanto, alguns comportamentos e características pessoais necessárias à reprodução do capital. Por se tratar, no fim das contas, de uma relação social, cuja substância é o trabalho abstrato,o capital necessita habitar o íntimo da subjetividade moderna. Mais ainda, ele a constitui como princípio fundador, a ponto de Marx dizer que o verdadeiro sujeito moderno é o capital, o sujeito automático que age por trás do suposto livre arbítrio.

E quais são as características e comportamentos exigidos do indivíduo quando ele se torna um trabalhador ou um homem de negócios, em suma, um sujeito automático do mercado? Os ditos populares podem ser reveladores de muitas disposições culturais fundamentais e aquele que diz “amigos, amigos, negócios à parte” nos informa que os sentimentos não devem se misturar à racionalidade da troca, quando os homens se encontram para negociar. A lógica capitalista do lucro e da acumulação deve sempre se impor quando se está numa situação de mercado.

Da mesma forma, a exigência de profissionalismo por parte do trabalhador vai na mesma direção de não haver interferência da passionalidade própria dos assuntos pessoais ou extra-mercado no ato do trabalho, que deve ser rigorosamente guiado pela racionalidade produtiva. O dever do trabalhador é ser o mais produtivo possível, não deixando que sua esfera pessoal (que pode ir de relações familiares a preconceitos) interfira negativamente em seu desempenho.

A razão, portanto deve se sobrepor à emoção no trabalho e nos negócios em geral. Esta regra vale tanto para o mais miserável trabalhador tanto quanto para o executivo ou capitalista no topo da cadeia. Estes últimos devem ser ainda mais frios e calculistas (mais racionais), sob pena de se verem derrotados pela concorrência. O capital premia quem se adapta melhor à lógica da produtividade e do lucro.

Trata-se, obviamente, de uma racionalidade instrumental, voltada para a reprodução do capital, e não da Razão como ficção ontológica do iluminismo. Esta racionalidade do capital nem mesmo é compatível com os interesses da sociedade, haja vista a destruição que o capitalismo causa no tecido social, ao promover uma brutal concentração de renda; e a degradação que provoca no meio ambiente, a ponto poder torná-lo inóspito para a humanidade. A lógica do capital, à qual a razão do homo ecomonicus serve, é a da acumulação infinita de si mesmo.

Ora, a sociedade patriarcal do medievo e da modernidade mercantilista, na qual o capitalismo se gestou, concebe a razão como característica intrínseca do homem, em oposição à mulher, dominada pelos sentimentos. À força muscular do homem se soma sua força racional, em contraste com a fraqueza emocional da mulher. O cristianismo concebe o homem como a cabeça (a mente, a razão)  do matrimônio, enquanto a mulher é o corpo (os instintos, a emoção). Enquanto o primeiro se encontra próximo de Deus Pai, a segunda se identifica com a mãe natureza. Como esta última, a mulher é erótica e passiva e, como Deus, o homem é viril e ativo.

Uma segunda característica necessária à subjetividade capitalista é o que se costuma chamar de competitividade. Inicialmente, apenas os capitalistas e gerentes pareciam necessitar de tal característica, uma vez que o mercado, quando observado em sua totalidade, se caracteriza como uma guerra impiedosa entre capitais concorrentes. Como representantes individuais destes capitais, os capitalistas devem necessariamente ser agressivos entre si, mas também com os trabalhadores, impedindo-os de se apropriarem de seu lucro.

Com o desenvolvimento do capitalismo na segunda metade do século XX, os próprios trabalhadores devem se tornar também competitivos no mercado. A educação no mundo capitalista visa, em alguma medida, a cidadania, mas na maior parte se trata de uma preparação para o mundo impiedoso do mercado, para se tornar um profissional qualificado que consiga ser bem remunerado. Cada vez mais o trabalhador se torna um capital individual em concorrência com seus pares. As mudanças legislativas em favor da desregulamentação do trabalho, ao mesmo tempo reconhecem e reforçam tais tendências de hiper-individualização competitiva do trabalho.

Os trabalhadores competem entre si dentro da empresa e do país; mas também com operários de outros países, cujas legislações trabalhistas e salários podem torná-los mais competitivos. No capitalismo tardio, o princípio da concorrência regula todas os níveis sociais e indivíduos, empresas, países e blocos competem ferozmente numa guerra de todos contra todos.

A competição se origina no esporte que, por sua vez, é uma metáfora da guerra, onde os guerreiros medem sua força. Os competidores no mercado (trabalhador ou capitalista) são guerreiros do capital, disputando sua sobrevivência, seja individual, no caso do trabalhador, seja empresarial, no caso do capitalista.

Desde a antiguidade, o ocidente concebe a competitividade como característica do homem, em contraste com as tendências solidárias da mulher. O pai é rígido e exigente consigo mesmo e com o aprendiz de guerreiro, enquanto a mãe é acolhedora e leniente. Para vencer, o guerreiro deve ser viril, agressivo e impiedoso, em oposição à mulher, por natureza erótica, conciliadora e compassiva.

O capital, como sujeito automático que age por trás do sujeito moderno, deve ser, então, racional e competitivo, duas características que na sociedade ocidental, desde a antiguidade, são tradicionalmente atribuídas à natureza do homem, em oposição à da mulher. Por isso, embora o capital seja, em essência, uma forma social, quantitativa, abstrata e impessoal, ao se configurar como o sujeito automático que se encarna nas pessoas e estrutura a subjetividade moderna, ele têm gênero, e é masculino.

 

A potência feminista do capital: a abstração do masculino

Por ser uma uma forma social abstrata e inconsciente, que passa a governar a vida das pessoas a partir de suas próprias leis e categorias também abstratas (valor, trabalho, mercadoria), o capital exerce seu domínio indiferente às posições e relações sociais concretas. Não que os privilégios históricos de certos grupos (os brancos, os oligarcas, os homens etc) se tornem desimportantes nas relações de dominação e a história está aí para provar que a inércia social promove, em geral, os grupos dominantes das sociedade pré-capitalistas ao topo da cadeia de poder.

Mas não se pode negar que o capitalismo possibilita uma mobilidade social assombrosa, quando comparado com os regimes patriarcais anteriores. Particularmente no século XX e em relação à mulher, o capitalismo abriu possibilidades de igualdade de gênero até então inéditas no Ocidente.

Esta potência de igualdade do capitalismo decorre exatamente da natureza do domínio exercido pelo capital sobre as pessoas, que é abstrato, impessoal e inconsciente. As características subjetivas necessárias à reprodução do capital continuam sendo masculinas (racionalidade e competitividade), mas são também abstraídas da concretude social do homem, ou seja, as “virtudes” do racionalismo e da competitividade são desencarnadas do homem concreto e constituem para se tornarem características da abstração que é o sujeito automático. Esta abstração do masculino rompe com a oposição, tida como natural, entre o homem e a mulher e que foi, na verdade, culturalmente constituída pela sociedade patriarcal de forma binária e hierárquica, a partir dos corpos biológicos do macho e da fêmea.

O capital continua a exigir que as subjetividades envolvidas na produção capitalista sejam racionais e competitivas, mas sua característica abstrata e impessoal o torna cego em relação à concretude social do gênero. A título de exemplo, se uma mulher demonstrar possuir racionalidade e competitividade, ao capital não importa sua constituição social concreta como mulher, desde que ela seja eficiente o bastante para o trabalho ou a gerência. É claro que não se nega, aqui, que a tradição social de discriminação da mulher acabe por exercer um efeito contrário à indiferença do capital em relação ao gênero: ainda hoje cabe à mulher os cuidados da casa, não raro como dupla jornada que se soma ao trabalho remunerado pelo qual, em média, ela recebe menos que o homem, mesmo que seja tão qualificada quanto este.

O fato é que a abstração das características masculinas do homem (racionalidade, e competitividade, que se desdobram em disciplina, inteligência, criatividade, destemor, agressividade, capacidade de domínio sobre si e sobre o outro, individualismo etc), possibilitou à mulher uma progressiva entrada no mercado como subjetividade atuante, de forma tão eficiente quanto o homem.

A consequência lógica desta igualdade perante o capital, é que a racionalidade e a competitividade como características que perfazem o “masculino” não são mais percebidas como vinculadas ao homem (macho biológico) por natureza ou desígnio divino, mas se revelam como construções sociais das sociedades patriarcais pré-capitalistas, continuadas na modernidade. Ato contínuo, a própria dualidade ocidental homem-mulher, bem como a superioridade do primeiro sobre a segunda, se desvela também como construções sociais. O capital permite tais desconstruções porque ele desencarna o “masculino” do homem (como concretude social), permitindo reconhecer que a mulher também pode ser racional e competitiva, caracteres definidores do homem nas sociedades patriarcais.

O masculino perde, então, seu chão social, que é o homem, num processo semelhante ao que Deleuze e Guatari chamam de desterritorialização. Nos termos destes autores, o masculino se desterritorializa do corpo do homem para se reterritorializar no corpo do capital. Como este é uma forma social abstrata, esta reterritorialização do masculino implica em sua abstração (desencarnação) do homem concreto e, em consequência, sua perda de identidade como gênero privilegiado. Mas como o homem é constituído em relação (de oposição e superioridade) à mulher, é a própria dualidade patriarcal homem-mulher que é colocada em cheque. Por outro lado, o masculino se reterritorializa no corpo do capital, como sujeito automático que agencia, agora, tanto o corpo do macho quanto o da fêmea, como subjetividades igualmente racionais e competitivas.

 

Os limites do feminismo no capitalismo

Em termos abstratos, portanto, o capital iguala o homem e a mulher concretos. Na prática histórica, porém, esta igualdade nunca poderá ser atingida de fato. A abstração do masculino efetivada pelo capital libera a  potência emancipatória da mulher, ao mesmo tempo que a frustra; da mesma forma que o desenvolvimento técnico libera a potência do ócio que nunca se realizará no capitalismo.

Para que a igualdade de gêneros se efetivasse de fato, mesmo nos termos capitalistas, seria necessário que não houvesse resistências concretas das forças conservadoras à desencarnação do masculino do homem concreto. E a história recente tem mostrado que esta resistência persiste inclusive nas sociedades ditas desenvolvidas, supostamente liberais em termos de gênero. A emergência, a nível mundial, do neofascismo e do fundamentalismo religioso, nos quais a virilidade e a superioridade do homem são aspectos fundamentais, mostra a resiliência da mentalidade patriarcal em pleno século XXI, seja no ocidente, no sul global ou nos vários orientes.

Mas o fato é que esta resistência patriarcal foi parcialmente vencida pelo feminismo, principalmente no chamado primeiro mundo, no período que vai de 1945 a 2008, e que abrange os 30 anos dourados (1945-1975) do keynesianismo e a lenta decadência neoliberal que durou até a crise de 2008. A partir daí, o longo ciclo capitalista do pós-guerra entra em colapso, abrindo espaço para a reemergência, nos países centrais, dos neofascismos e fundamentalismos de várias espécies.

Se este processo de emancipação feminista pudesse ser continuado, vencendo finalmente a resistência conservadora, o que parece longe de se realizar, teríamos uma sociedade em que as mulheres (e também os LGBTs, cuja luta se vincula e se beneficia diretamente do feminismo) efetivamente se tornariam iguais aos homens, em virtude da indiferença do capital em relação ao gênero concreto da pessoa. Mas tal mundo hipotético seria desejável?

Vimos que o capital, embora ignore o gênero concreto do indivíduo, exige que nas relações sociais ditas profissionais, as pessoas tenham as características historicamente construídas como masculinas, que são a racionalidade instrumental e a competitividade. Os seja, em termos abstratos, o capital exige que seu agente humano seja masculino, pois só assim ele pode agir de acordo com a lógica impessoal da mercadoria, de multiplicação infinita do valor. Como o homem, a mulher (ou o transgênero, o homossexual, o bissexual etc) deve ser profissional quando se trata de atuar no mercado, seja como trabalhadora, gerente ou proprietária. Ser profissional significa agir de forma racional e competitiva, não deixando que as “fraquezas” femininas (agora também abstraídas do corpo da mulher), como o sentimentalismo, a pessoalidade, a ausência de autocontrole, a sensibilidade e a compaixão interfiram no trabalho ou nos negócios.

O mercado é uma guerra e é para fortes, para másculos, mesmo que a subjetividade masculina esteja agora desencarnada do macho biológico e possa ser assumida também pela mulher. Nestes termos, de aderência à lógica da mercadoria, a entrada da mulher nos mercados (de trabalho, de poder, de negócios), reivindicação fundamental da luta feminista do século XX, em nada muda o aspecto brutal do capitalismo, principalmente no que diz respeito à marginalização social dos perdedores da competição mercantil.

Ao ingressar no mundo masculino dos mercados, a mulher dá efetivamente um passo essencial para sua emancipação, mas não traz os caracteres tidos como femininos (afetividade, solidariedade, recusa à violência) para refundar o sujeito automático do capital no ato da produção de valor, que continua essencialmente masculino (racional e competitivo). De resto, esta refundação do capital em termos “femininos” seria impossível, pois implicaria em mudar sua essência, que se manifesta necessariamente como sujeito automático fundado na razão instrumental e na competição, características básicas do masculino desencarnado e das quais derivam todas as outras “virtudes másculas”, necessárias ao mundo do trabalho e dos negócios: impessoalidade, virilidade, agressividade, disciplina para o trabalho, cálculo frio, insensibilidade ao outro, obsessão pelo autocontrole de si e domínio do outro etc.

 

A feminilização dos perdedores

A cultura do capital é a do mercado, local, nacional e mundial. O mercado é um campo de batalha em que se digladiam indivíduos, empresas e estados. Todos estes agentes devem se caracterizar como masculinidades racionais e competitivas na guerra capitalista, caso queiram obter algum êxito. O resultado progressivo desta luta sem fim é, como previra Marx, a contínua centralização e concentração dos capitais que, para as pessoas, significa a progressiva marginalização de massas imensas de trabalhadores em favor de uma pequena elite proprietária e gerencial, que hoje se convencionou chamar de “os 1%” do topo da cadeia de exploração.

Os 99% restantes seriam os perdedores do capitalismo. A estes resta a angústia de jornadas de trabalho cada vez mais intensas, longas e mal pagas. Isto quando há trabalho, pois a maldição do desemprego pode se abater a qualquer momento sobre os indivíduos trabalhadores.

A feminilização, desde a aurora da modernidade, quando o ocidente entrou em contato com outras culturas, não é um exclusividade da mulher. Esta, como observam Deleuze e Guatari é uma espécie de primeiro outro do homem. Dela derivam os vários outros que o ocidente moderno construiu, à medida de contactava outros povos “inferiores”. Estes outros, dependendo do momento histórico e da sociedade, podem ser o negro, o árabe, o latino, o judeu, o índio, o oriental, o nordestino, o homossexual etc. Tal como a mulher, estes outros estariam mais próximos da natureza e, portanto, da condição instintiva do animal do que o homem branco ocidental, “naturalmente” racional e civilizado: imagem e semelhança de Deus.

Toda a construção de inferioridade de grupos sociais empreendidas pelo ocidente tem, como modelo, a mulher e suas supostas imperfeições e fraquezas, próprias de quem pouco se afastou da irracionalidade passiva da natureza. Ao homem moderno foi dada a força moral e intelectual para dominar a natureza, inclusive a mulher e os outros povos inferiores semelhantes a ela.

Já aí, na aurora do capitalismo, se podia verificar um processo rudimentar de abstração, não do masculino, mas do feminino, que desencarnava o irracionalismo e a passividade da mulher para poder reencarná-los nos “povos inferiores” que o ocidente conquistava com sua superioridade militar. A abstração era rudimentar porque o feminino não se completava como impessoalidade abstrata, a espera de um outro inferior qualquer, pois ele logo se reencarnava num grupo social específico a ser considerado naturalmente inferior, tal como era tida a mulher nas sociedades patriarcais da antiguidade e do medievo. Nem se pode dizer que o processo de feminilização tenha sido uma originalidade moderna do século XVI, pois já na antiguidade o Império Romano caracterizava a irracionalidade dos bárbaros quase da mesma forma que a da mulher. Por outro lado, a abstração não se completava porque o feminino, embora fosse projetado nos outros povos, não deixaria de caracterizar a essência da mulher concreta, que permanecia, no ocidente, como ser inferior.

Com o desenvolvimento do capitalismo e do sujeito abstrato, ao lado da progressiva abstração do masculino, se desenvolve também a abstração do feminino. A passionalidade e a passividade,  consideradas fraquezas típicas da mulher, são antípodas da racionalidade e competitividade masculinas. À medida que o masculino é desencarnado do homem e reencarnado no corpo abstrato do capital, o feminino é progressivamente reencarnado negativamente, como não capital, ou melhor, em tudo aquilo ou aquele que se torna improdutivo (inútil) para o capital. Em termos pessoais, o feminino se reencarna nos perdedores da guerra do mercado.

As massas perdedoras são então feminilizadas no desenvolvimento do capitalismo. Quanto mais baixo o indivíduo (ou grupo social) se situa na escala social, mais feminino ele se torna, ou seja, mais frágil e passivo (e passível de exploração) e menos dotado de racionalidade (instrumental). O pobre é irracional e preguiçoso. Ou melhor, é pobre por falha individual, por lhe faltar a disciplina férrea do masculino. Esta incapacidade de se comportar masculamente como sujeito automático no mercado sela seu destino como perdedor-fêmea e pode ser interpretada como inata, adquirida socialmente ou deliberada. Em todo caso, o perdedor (o temporário, o terceirizado, o supbempregado, o desempregado, o informal) objetivamente se feminiliza e se vê na condição de objeto a ser explorado e dominado pelos extratos sociais em melhor posição na escala social, como a elite e as classes médias tradicionais.

Por conta da inércia histórica, a grande maioria das mulheres, LGBTs e dos não brancos se enquadram, desde sempre, no grupo dos perdedores sociais. Mas como a massa de excluídos se torna crescente no capitalismo, a maioria dos homens brancos também tendem a se tornar perdedores, o que implica em sua feminilização.

Por outro lado, como o masculino no capitalismo se desencarnou do homem branco, pode acontecer de algumas mulheres, LGBTs e não brancos se tornarem vencedores (parte do “1%” ou das classes médias altas) no capitalismo. É quando acontece o que, pela normalidade desejada pelos conservadores, não deveria acontecer. Nem sempre, mas às vezes um homem é obrigado a suportar ser chefiado por uma mulher ou um gay; um branco deve se obedecer a um negro; um médico caro precisa atender um novo rico tosco e pardo, oriundo das classes populares etc.

O homem branco, perdedor feminilizado em decorrência da concentração e centralização do capital, se torna um homem frustrado que, muitas vezes, não consegue prover o próprio lar. Esta frustração se volta então, contra a mulher independente, o negro ou o gay que ocupa agora o lugar do vencedor (masculino) que deveria ser seu. É a mesma revolta que o alemão médio sentia em relação ao judeu bem sucedido que, por ser judeu, não deveria jamais ser vencedor (masculino) em detrimento do alemão feminilizado.

Portanto, apesar da abstração do masculino possibilitar à mulheres (e outras minorias) uma efetiva emancipação ela têm dois óbices. O primeiro é que uma sociedade liberal, construída sobre os valores tidos como masculinos, racionalidade instrumental e competição, aos quais a mulher deve aderir para se igualar ao homem, será uma sociedade cruel, profundamente injusta e excludente.

O segundo é que a assunção da mulher (e de outras minorias) ao grupo vencedor, mesmo que de forma minoritária neste grupo, provocará inevitavelmente o ressentimento da massa crescente de homens brancos perdedores e, em consequência, feminilizados. Boa parte desses perdedores, senão a maioria, se agarrarão a valores conservadores que persistem na sociedade principalmente através da religião. Esta resiliência conservadora que insiste em reencarnar o masculino no homem e o feminino na mulher, restaurando a dualidade heterossexual e a superioridade “natural” do homem vai de encontro com a frustração da massa de homens brancos perdedores-feminilizados, que veem no conservadorismo a oportunidade de compensarem sua feminilização com a afirmação, não raro violenta e patológica, de sua masculinidade.

Dessa forma, a exclusão feminilizadora de massas imensas de homens brancos reforça os preconceitos de gênero, já existentes na sociedade capitalista, assim como reforça também a xenofobia e o racismo, ou seja, os demais preconceitos contra os outros “naturalmente” inferiores. E, completando o círculo vicioso, este reforço do conservadorismo entre as massas frustradas, constitui um efetivo obstáculo social, um verdadeiro muro de preconceito, não raro introjetado no próprio indivíduo discriminado, para que a mulher e as outras minorias sociais se emancipem, mesmo nos termos limitados de aderência ao sujeito automático do capital.

 

A revolta conservadora e a reencarnação do masculino no homem

O princípio básico do conservadorismo na sociedade capitalista é a afirmação da concretude contra as abstrações do capital. E a primeira concretude a ser resgatada é exatamente a reencarnação do masculino no corpo do homem e, em consequência, do feminino no corpo da mulher, restabelecendo a “ordem natural” do mundo, fundada na superioridade do homem. Em decorrência desta reencarnação fundamental, se darão os outros resgates das dicotomias tradicionais (branco-não branco, nacional-estrangeiro, hetero-homo etc) que vão reorganizar o mundo em dualidades concretas e hierárquicas, a fim de colocar ordem no caos identitário promovido pelas abstrações do capital.

No entanto, o conservadorismo capitalista se constrói de forma contraditória, pois ele não ataca as abstrações fundamentais do capitalismo, que são o valor e trabalho abstratos, bem como a mercadoria. Não se trata, portanto de um retorno a uma ordem passadista, como a Idade Média ou o tempo dos coronéis, na qual a relação de dominação era exercida diretamente por um grupo social sobre outro. O conservadorismo não contesta a estrutura profunda e as relações sociais básicas do capital (valor, trabalho e mercadoria), e sim suas manifestações fenomenológicas, como a abstração do masculino do corpo do homem, que se reterritorializa no sujeito automático, abstrato, racional e competitivo, o qual pode se reencarnar tanto no corpo do homem branco, quanto no de um indivíduo minoritário: mulher, não branco, LGBT, nordestino etc.

O objetivo do conservadorismo no capitalismo, portanto, não é uma mudança social regressiva, com a restauração da sociedade patriarcal pré-capitalista, mas a preservação de algumas de suas identidades e hierarquias em meio ao processo de abstração impessoal promovido pelo capital em todas as esferas da vida. Trata-se, portanto de uma tentativa de conservar “sentidos” e “conteúdos” tradicionais que a dinâmica do capitalismo dissolve implacavelmente, na medida em que o capital é um meio que se torna um fim em si mesmo. Por outras palavras, o conservadorismo constitui um contra-peso identitário que resgata algumas concretudes/territorialidades pré-capitalistas ou da aurora do capitalismo (de gênero, de raça, de nação) contra as abstrações/desterritorializações promovidas pelo capital, que é uma forma social abstrata, quantitativa e impessoal que desconhece todo e qualquer conteúdo e cujo único objetivo é a expansão ilimitada, indiferente à degradação das identidades individuais ou coletivas que esta expansão acarreta.

No processo de abstração do masculino, este pode se reencarnar na mulher (mas também no gay, no negro, etc), tornada agora sujeito automático, tão racional e competitiva quanto o homem. Quando este processo se avoluma, uma grande parte de homens brancos perdedores se veem na condição de feminilizados. De uma perspectiva puramente liberal (econômica e comportamental), esta condição é humilhante, mas merecida, pois denota um demérito pessoal do indivíduo que não tem as capacidades necessárias para a competição capitalista, seja por limitações intrínsecas ou porque não se esforçou o suficiente. Em todo caso, a derrota e a consequente feminilização deveriam ser aceitas com a resignação de quem perdeu uma disputa justa, segundo os critérios meritocráticos do capitalismo.

Mas é exatamente nessas hordas frustradas de perdedores do sistema que o conservadorismo avança e tenta restabelecer as dualidades concretas e hierárquicas dos regimes pré-capitalistas. A frustração massiva diante do sucesso, mesmo que relativo, de uma minoria que deveria ser “naturalmente inferior e submissa” provoca, como no complexo de inferioridade, uma superestimação do outro, que é visto, agora, como extremamente perigoso e dotado de poderes demoníacos. O ressentimento dos perdedores passa, então, a demonizar a minoria que supostamente venceu a disputa do mercado, mas que, pelas leis “naturais” ou “divinas”, não deveria ter vencido.

Um exemplo concreto desse processo é a demonização dos judeus à época do nazismo, como demonstra Moiche Postone em seu artigo “Antissemitismo e nacional-socialismo”. Um exemplo mais atual é a demonização, promovida pelos evangélicos neopentecostais, das feministas e LGBTs.

 

Emancipação feminista e luta anticapitalista

O capitalismo desencarna o masculino do homem e compromete a dualidade patriarcal homem-mulher. Mas reproduz esta dualidade num plano abstrato, ou seja, no sujeito automático que pode se reencarnar tanto no homem branco, tradicionalmente dominante, ou em outras minoria qualquer (mulher, LGBT, negro, judeu, latino etc). Os vencedores da “seleção natural” capitalista se tornam dominantes, ou seja, masculinidades que submetem os perdedores feminilizados. O desenvolvimento do capital, então, distribui a subjetividades masculinas no topo da cadeia de exploração, numa gradação proporcional à riqueza das pessoas, ou seja, quanto mais rico o indivíduo (ou o extrato social a que pertence) mais másculo-explorador ele é. E dada a natureza do capital, concentradora de riqueza, quanto mais másculos são os indivíduos (mais ricos e poderosos), menor é o seu número absoluto: os 30% remediados,  os 10% classe média, o 1% rico, o 0,01% muito ricos etc. Por outro lado, o capital distribui as subjetividades femininas na massa restante da população trabalhadora, também de forma gradativa: quanto mais pobre-perdedor, mais feminino-submetido.

Numa sociedade emancipada, a dualidade de gênero deveria ser abolida por completo e não apenas reproduzida no plano abstrato do sujeito automático. E esta dualidade deve ser abolida não apenas na distribuição do capital, como desejam os progressistas, que não questionam a produção capitalista de valor e que continuaria firmemente ancorada nas relações sociais básicas do capitalismo (valor, trabalho, mercadoria), as quais exigem a mobilização de um sujeito automático racional e competitivo, masculino portanto. Para os progressistas (as esquerdas em geral) o questionamento do masculino viria no momento posterior da distribuição do capital, realizado pela intervenção estatal, que resgataria a afetividade e solidariedade feminina ao acolher os perdedores nas suas redes de proteção social.

A abolição da dualidade masculino-feminino, tanto no plano concreto quanto no abstrato (do sujeito automático) exigiria, na verdade, a abolição das categorias básicas do capital a nível produtivo (trabalho, valor e mercadoria) o que acarretaria, portanto, o fim do próprio capitalismo como sistema produtivo, mas também como formação cultural e disposição psíquica. Portanto, a emancipação plena da mulher implica necessariamente na superação do capitalismo.

A superação da dualidade masculino-feminino no plano abstrato do sujeito automático resultaria também na abolição do processo de feminilização dos perdedores e na emancipação de todas as minorias e massas excluídas. É claro que para a emancipação se efetivar, seria necessário uma sociedade pós-capitalista sem exclusão social, autogerida coletivamente e que atendesse às necessidades materiais e simbólicas das pessoas de forma equânime e de acordo com os limites ecológicos do planeta. Seria necessário, em suma, a assunção de uma sociedade verdadeiramente comunista, cuja riqueza seria expressa em bens materiais e desenvolvimento técnico e não em quantidades abstratas (valor) como no capitalismo; e compartilhada igualmente entre os indivíduos.

A sociedade comunista não mais se estruturaria a partir das categorias e relações capitalistas, como trabalho, valor, mercadoria, estado, sujeito automático etc. A emancipação resultaria portanto, numa outra cultura, no sentido antropológico do termo, fundada em categorias e formas sociais radicalmente distintas do capitalismo. Em tal cultura, muito provavelmente, a economia não teria a centralidade que possui no capitalismo, pois a produção de riqueza (material) estaria a serviço da necessidades humanas e não o contrário. Esta inversão das necessidades implica na abolição da racionalidade instrumental capitalista (de caráter masculino), cuja lógica, na prática, promove a submissão da vida humana e da natureza à finalidade última do capitalismo, que é a acumulação infinita da riqueza abstrata, capital. Em contrapartida, emergiria uma nova racionalidade, cooperativa, voltada para a concretude da vida e fundada nos princípios do atendimento equânime das necessidades humanas e no respeito aos limites ecológicos da natureza.

Esta nova cultura, comunista, seria constituída por uma lógica, visão de mundo e valores radicalmente distintos da cultura capitalista atual. Nela, os caracteres hoje imputados negativamente à mulher (concreta) ou ao feminino (abstrato), como afetividade, solidariedade e ausência da obsessão pelo autocontrole de si e domínio do outro, seriam valores positivos, essenciais na estruturação da nova subjetividade comunista, independente de seu gênero.


* Wilton Cardoso é poeta e ensaísta. Mantém o blog O engenheiro onírico, onde disponibiliza toda sua obra para download. Mora em Goiânia e é funcionário público estadual. Formou-se em Jornalismo e é pós-graduado em Estudos Literários pela UFG.

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