A risada do Coringa: cinismo e dissociação na cultura

Por Phillipe Augusto Carvalho Campos

A essa altura já devem ter saído um milhar de análises sobre o filme do Coringa. Me proponho aqui a oferecer mais uma. O Coringa, especificamente, sua risada, talvez seja o índice de um fenômeno recorrente nesse nosso tempo – o cinismo. E, podemos ver fenômenos análogos à risada do vilão operado desde o funk Open The Tcheca à derrota que sofremos de 7 a 1 para a Alemanha.


O cinismo como fenômeno dissociativo

Digamos que, comumente, existem reações “apropriadas” a vários acontecimentos; não se espera que o sujeito transborde de felicidade após a morte de um de seus pais, assim como não esperamos ver uma criança chorar ao ganhar um vídeo game de última geração. Acontece que para uma série de eventos as reações a eles não parecem ser “apropriadas”. Foi sobre um desses tipos de reações que o filósofo Peter Sloterdjik se debruçou, qual seja, o cinismo (Crítica da Razão Cínica). Para o alemão, o cinismo, como uma atitude descarada, atrevida ou mal caráter evidencia uma característica recorrente ou fundamental da sociedade contemporânea, ou ainda, “o mal-estar na cultura aparece como cinismo universal” (p.31). Um tal de Gottfried Benn resumiu a fórmula da felicidade em “ser tolo e ter trabalho”, Sloterdjik faz uma correção, para o neocínico, a epítome para a consciência infeliz modernizada seria: “ser inteligente e realizar trabalho” (p.35). Ora, saber ou sentir as emanações melancolizantes de um tempo cujo futuro é ruinoso e o presente é vivido como nonsense envolve uma estratégia de aceitação que não passa por uma “reação apropriada” ao desfalecimento do tempo – esta seria a bem conhecida depressão – mas por uma reação que defende o sujeito dessa reação apropriada, essa defesa, então, seria o cinismo. (Quando digo “desfalecimento do tempo” tenho em mente essa porção de diagnósticos pessimistas desde o fim da 2ª Guerra Mundial, notadamente, endosso aqui O Novo Tempo do Mundo, do Paulo Arantes.)

Por essa linha, o cinismo aparece como um fenômeno de dissociação, existe uma experiência e uma reação “não apropriada” a essa experiência. A reação apropriada é recalcada ou reprimida e a reação substitutiva emerge como algo para se evitar o abatimento. Digamos que alguém próximo perde o emprego, ou que vejo um mendigo sofrendo na rua, suponhamos que a “reação apropriada” seria sentir algum compadecimento pelas pessoas nessas situações, mas, em vez de me mostrar de algum modo abatido, me expresso com algo do tipo: “mereceu” ou “bem feito”. Notem aí que, num limite, se nos compadecermos das várias situações de sofrimento alheio com a qual nos deparamos, ao mesmo tempo em que somos impotentes para resolver esse problema e nem temos esperança de que essa degradação generalizada vá se resolver, nós acabamos deprimidos ou melancolizados, daí, a reação substitutiva que é o cinismo, seria como uma defesa contra a melancolia; nas palavras do autor: “O cínico do presente deixa-se compreender como um caso limite de melancolia, que mantém seus sintomas depressivos sob controle” (p. 33). Em suma, o cínico pode trabalhar ao mesmo tempo em que, em vez de tolo, é inteligente – inteligente porque sentiu o espírito do tempo ou sentimento do mundo batendo à porta, isto é, o futuro devastado e o presente sem sentido.

A Risada do Coringa e a Lógica do Cinismo

Sloterdjik identifica em Thomas Mann um primeiro articulador do neocinismo nascente na república de Weimar, parida pela derrota traumática e humilhante sofrida pela Alemanha na primeira guerra mundial. O riso que está em jogo em A Montanha Mágica é um que se autonomiza e não pertence àquele que ri, numa situação em que a reação ao horrível é o riso mecanizado, autônomo em relação ao sujeito. Vale a pena citar o trecho integral do livro:

Os olhos cinzas e benevolentes do senhor Ferge ampliaram-se e seu rosto ficou lívido. Isto acontecia todas as vezes que ele procurava falar sobre o que tinha ocorrido e que deve ter sido necessariamente horrível para ele. “Sem anestesia, meus senhores. Bem, alguém como nós não devia suportar algo assim. Não é apropriado nesse caso. A pessoa é capaz de conceber e de se encontrar como um ser racional em meio à questão. Mas o local não se estende a um ponto muito profundo, meus senhores, só a carne exterior o torna escuro. Quando se é aberto, só se sente uma pressão e um aperto. Encontrava-me com a face coberta, para que não visse nada, e o assistente estava me segurando pela direita, enquanto a enfermeira chefe fazia o mesmo pela esquerda. Tudo se deu como se eu estivesse sendo pressionado e apertado. A carne foi aberta e retida com pinças. Nesse momento, porém, escuto o senhor conselheiro dizer: ‘Assim!’; e, nesse instante, meus senhores, ele começa a tatear a pleura com um instrumento obtuso – precisava ser obtuso para que ele não furasse prematuramente: ele o tateou, para encontrar o lugar correto, no qual podia perfurar e deixar o gás entrar; e como ele o fez, como ele estava manuseando o instrumento em minha pleura – meus senhores, meus senhores! Isto estava acontecendo comigo, tudo estava no fim para mim… e tudo ocorreu para mim de um modo completamente indescritível. A pleura, meus senhores, não deve ser tocada, ela não pode e não quer ser tocada. Isto é tabu, ela está coberta com carne, isolada e inaproximável, de uma vez por todas. E, então, ele a descobre e a tateia. Meus senhores, neste momento, senti-me mal. Enjoado, meus senhores – nunca tinha pensado que pudesse ter lugar um sentimento tão sete vezes atroz e vulgar como uma cadela no cio sobre a terra, abstraindo-se apenas do inferno! Desfaleci – em três desfalecimentos de uma vez, um verde, um marrom e um violeta. Além disto, fedia nesta impotência. O choque de pleura jogou-me para o seio do sentido olfativo, meus senhores. Fedia de maneira absolutamente desmedida a ácido sulfúrico, tal como deve ser o cheiro do inferno. E em tudo isto eu me ouvia rir, enquanto eu sentia o cheiro. Eu não ria, porém, como um homem ri. Este foi o riso mais indecente e mais nojento que já ouvi em toda minha vida. Pois o ser tocado da pleura, meus senhores, fez com que eu sentisse cócegas da maneira mais infame, mais exagerada e mais desumana. É assim e não de outro modo que senti esta maldita vergonha e aflição, que é o choque de pleura. Que Deus amado vos poupe disto (Tomas Mann – A Montanha Mágica).

Não seria essa risada mecânica aquela sofrida por Arthur Fleck (o Coringa) no filme? Em alguns momentos de puro nervosismo (agressão, humilhação etc.), o personagem interpretado por Phoenix irrompe num riso como uma reação absolutamente “não apropriada” para a situação. Sob o disfarce de uma doença conhecida como Afeto Pseudobulbar (onde o sujeito, devido a um problema cerebral, é acometido por choro ou risos compulsivos) Fleck reage com a mesma lógica do neocinismo: uma resposta inapropriada como defesa contra uma situação incontornável, ou seja, o riso ali opera para reprimir o afeto devastador, aquele apropriado a advir de uma situação também devastadora.

O riso do Coringa, tomado nesses moldes, teria algo a dizer sobre todos nós. O mundo no qual as opções são a depressão ou o cinismo, a mecanização e dissociação da reações, o cinismo é, muito simplesmente, uma opção racional. O que decorre desse processo, enquanto sustentamos nossa máscara cínica (e por vezes, necessária), é uma espécie de apropriação do ator pelo personagem e essa apropriação geraria um efeito de destruição da sensibilidade, atrofiamento disso que outrora chamávamos humanidade.

Burroughs em seu livro O Almoço Nu narra uma história de um humorista que ensinou seu cu a falar. No início o ânus do sujeito peidava umas palavras ao longo do número, depois de um tempo, o cu começou a rebater as piadas sem ser convidado, com o tempo, seu cu desenvolveu pequenos dentes e começou a comer, em seguida gritou que queria direitos iguais, depois de uma noite sem parar de falar, o cu disse ao humorista: “no final é você quem vai calar a boca, não eu, não precisamos mais de você por aqui, posso falar, comer e cagar”. Daí em diante o humorista começou a atrofiar, o único problema com o cu que tomara conta do hospedeiro era que ele não podia ver, então, as terminações nervosas dos olhos foram preservadas. O sujeito, por fim, ficou aprisionado no crânio, selado.

Por um tempo, você pôde ver o sofrimento silencioso e indefeso do cérebro atrás dos olhos, e finalmente o cérebro deve ter morrido, porque os olhos se apagaram e não havia mais sentimento neles do que nos olhos de um caranguejo no fim da haste (William S. Burroughs – O Almoço Nu).

A transformação de Fleck em Coringa parece ser o caso no qual o próprio personagem é uma manifestação do sujeito em forma mais genuína, ao passo que, enquanto Arthur Fleck, o que se evidencia é um sujeito desesperado e oprimido, ansioso por ser ouvido (lembremos do que ele diz à assistente social) – talvez daí venha o fator cativante desse vilão, ele expressa algo como a redenção pelo terror, um terror justo ou, ao menos, justificado. O cinismo opera aí como coragem resignada de assumir e viver na desesperança. Por outro lado, a história do ânus falante seria aquele processo de enclausuramento do sujeito, de morte por definhamento da sensibilidade genuína, esta que responderia apropriadamente a uma situação ou estímulo.

A Lógica do Cinismo como Operador Cultural

A diferença entre o Coringa e o cu falante é que o primeiro mantém o caráter libertador, uma espécie de liberdade negativa, ou a superação plena, e o segundo evidencia um processo que deixou alguma coisa para trás, um resquício, uma perda, da subjetividade. Arthur Fleck estaria com um pé em cada campo, nem a subjetividade negada (superada), nem a subjetividade atrofiada, mas aquela agonizante, sofrente, em processo de atrofiamento e negação. Assim, é como se essa subjetividade atrofiada e evidenciada por processos depressivos fosse o ruído de fundo, esse mal-estar do nosso tempo.

Esse ruído de fundo nós podemos escutá-lo num funk do Mc Lan chamado Open the Tcheca. Basicamente esse funk tem uma letra de putaria, mas o fundo musical é composto por um grave tambor abafado, uma pontuação no agogô e um som tenebroso e grave de um naipe de cordas. A dissociação nessa música se dá entre um fundo sonoro funéreo e a letra que, por seu teor sexual, não parecem estar bem associados; como se a letra fosse uma reposta “não apropriada” à música.

Na famigerada derrota do Brasil por 7 a 1 para a Alemanha (cosia que se tornou até expressão idiomática), me lembro que até mais ou menos o terceiro gol, as expressões eram de desalento, daí em diante os torcedores começaram a esboçar um sorriso, a dizer “bem feito”, a rir da desgraça na medida em que se desapropriavam dessa desgraça; a derrota da nossa seleção já não dizia mais respeito a nós, daquele momento em diante, os jogadores estavam jogados à própria sorte. E, nos momentos subsequentes à derrota, pude observar toda sorte de chacotas na internet devido ao ocorrido. Acaso não se pode observar aí o mesmo fenômeno e a mesma lógica da dissociação cínica? Na medida em que não podemos controlar um processo que caminha para a tragédia, o que nos resta é nos expressarmos de maneira a não sentirmos o trágico, ou ainda, de maneira a recalcarmos o elemento trágico colocando em seu lugar um afeto “não apropriado”, cínico.

Contudo, se nesses dois exemplos há o recalcamento de um afeto negativo, decorrente do clima fúnebre do funk e da derrota na Copa, a dissociação na cultura não se dá somente devido a um afeto negativo, mas a algo que merece ser recalcado. O último exemplo que darei aqui é aquele do electro gospel. Esse gênero musical é composto por um fundo musical tecno ou eletrônico (músicas de boate ou Ibiza, música que se toca em iates de herdeiros de burgueses) e letras gospel, de louvor a Jesus. Acontece que o cristianismo não parece combinar com o hedonismo niilista das músicas eletrônicas. Porém, se não combina, tudo bem, é só combinar, de um modo dissociado. Se o evangélico quer fruir de um modo de vida niilista e hedonista, basta que se associe a música referente a esse modo de vida ao nome de Jesus. Novamente, temos uma reação “não apropriada”, Jesus, associada a um evento específico, a música eletrônica.

Teve um pensador que captou bem essa dinâmica dissociada da sociedade contemporânea, uma sociedade encapsulada por um modo de expressão deslocado da sensibilidade de seus agentes, bem como de seu processo produtivo, foi o Guy Debord. A sociedade do espetáculo seria a autonomização da esfera representativa, a qual submete seus agentes e nada diz ou nada interfere sobre o núcleo econômico como verdadeira fonte dessas representações. As imagens em Debord seriam, nesse sentido, o próprio fenômeno do neocinismo, a expressão autônoma e deslocada da “reação apropriada”.

As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não vivo (Guy Debord – A Sociedade do Espetáculo).


* Phillipe Augusto Carvalho Campos é psicanalista, mestre em teoria psicanalítica (philippe.a.c.campos@gmail.com)


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