Atualidade da ideologia do embranquecimento no Brasil

Por Pedro Souza[1]

Nos últimos dias, seja no Brasil, seja ao redor do mundo, como nos EUA ou em Hong Kong, o que temos visto é o acirramento da luta de classes, com suas especificidades nacionais. O foco deste texto é uma abordagem sobre o contexto brasileiro, especialmente a temática racial.


Foi levantada a hipótese de que, em algumas transmissões online, tanto de Bolsonaro, quanto de seus apoiadores, há uma alusão a simbologismos vinculados à supremacistas brancos, ou, à neonazistas. Qual foi este gesto? Bolsonaro, e seus apoiadores, estavam bebendo um copo de leite.

A primeiro momento, parece um gesto um tanto quanto grotesco, mas “inofensivo”. Ele apenas teria bebido um copo de leite, e, segundo seus apoiadores, respondido um desafio feito pela internet. Entretanto, como aponta esta matéria [1], e, mais especificamente, o seguinte trecho “Nacionalistas brancos fazem manifestações bebendo leite para chamar a atenção para um traço genético conhecido por ser mais comum em pessoas brancas do que em outros – a capacidade de digerir lactose quando adultos. É uma tentativa racista para se embasar em “ciência” p/ diferenciar e justificar a “raça branca”. Mas como já provado e explicado por toda ciência: Não há evidência genética para apoiar qualquer ideologia racista. O que há, é na verdade, um governo tosco e motivado pelo ódio”, detalhou Nemer”, fica difícil crer na “inocência” do ato, ainda mais se retomarmos algumas polêmicas mais recentes envolvendo Bolsonaro e sua família.

Foto ao lado de alguém fazendo alusão à Hitler [2], reprodução de discurso nazista de um funcionário do alto escalão do governo [3]. Acredito que isso nem se enquadre como um contexto de “acende a luz vermelha”, os limites já foram ultrapassados há algum tempo, e, não há instituições que tenham freado, até agora, o ímpeto fascista de Bolsonaro.

Pois bem, a resposta de alguns setores das esquerdas brasileiras nas redes sociais (e deixo bem claro aqui que não levar em conta hoje as movimentações nestes espaços é perder de vista a disputa pela hegemonia) foi achincalhar aqueles que “beberam leite” nas lives. Alcunhas como “nazipardo”, ou apontando para o aparente fato da contrariedade em apoiar o nazismo e uma supremacia branca, sendo brasileiro (“uma raça miscigenada”), foram caminhos para uma crítica ao gesto feito pelos bolsonaristas.

Bem, não há dúvidas de que, em um nível internacional, de fato, há sim sonora contradição, em termos estritamente ideológicos, no fato de brasileiros, e latinos, no geral, serem apoiadores da ideologia supremacista branca. Ainda num nível internacional, e aqui apenas uma conjectura, talvez não haja apoio ou adesão do movimento supremacista brasileiro numa rede bem estruturada a nível internacional. Eles estariam, de certa maneira, marginalizados, e é possível até que sejam ridicularizados por lideranças supremacistas mundiais. Não deve-se desprezar que, a nível organizacional, não ter o apoio de uma rede racista mundial é prejudicial a um movimento. E aqui, ainda trabalho com uma conjectura, pois pode, e inclusive acredito, que, mesmo marginalizados, há um fluxo informacional, formacional e possivelmente, até financeiro entre aqueles partidários desta excludente ideologia no Brasil para com o mundo. Mas, nos atenhamos a nível nacional. Voltemos alguns capítulos de nossa história.

Seria redundância falar da importância de, ao buscarmos compreender a realidade atual e perspectivas futuras do Brasil é extremamente necessário voltarmos nossos olhos para formação histórica da nossa sociedade. Muitos foram os pesquisadores, que em diferentes momentos, já fizeram esse movimento. Cito aqui talvez os três mais clássicos: Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, autores esses que deram início a “escolas” historiográficas, antropológicas, sociológicas, e por aí vai. O que quero dizer com isso é que o caráter excludente de nossa formação escravista varou a colonização, o período do império e deixou profundas marcas em nossa sociedade.

Na segunda metade do século XIX, o recrudescimento da luta abolicionista, seja em ações rebeldes, nas lutas cotidianas ou através de instrumentos jurisdicionais, àqueles sujeitos submetidos à escravidão buscaram a todo custo sua liberdade, dentro de suas próprias concepções. E ela finalmente chegou em 1888. No ano seguinte, ainda sob o impacto do fim do escravismo e com a necessidade de readequar o arranjo do Estado as novas demandas econômicas (as relações de trabalho e as formas de inserção na economia mundo), cai a monarquia e chega a República.

Esse movimento é talvez a chave interpretativa mais valiosa para o que aqui quer se expor: as perspectivas raciais trazidas com o advento da República. Este período inicial da República brasileira é marcado pelo debate racial: o que fazer com a população negra brasileira? Aqui vários foram os projetos, citarei alguns: o baiano Nina Rodrigues parece ter mais afeição ao modo estadunidense, descrente de uma possível integração entre negros e brancos, defende a figura jurídica da responsabilidade penal atenuada. Ávido leitor das teorias eugenistas, Rodrigues acreditava piamente que o cruzamento genético entre as raças era degradante, acreditando ser o miscigenado uma figura inóspita, a ser combatida no horizonte futuro da nação.

Silvio Romero, contemporâneo de Nina Rodrigues, tem a pena mais leve, mas não menos racista. Ele aceita o problema da miscigenação, mas acredita que é um fato dado. A partir dessa conclusão propõe a longo termo o embranquecimento da sociedade brasileira como ponto futuro a ser alcançado. Euclides da Cunha é outro que adentra tal debate, e se aproxima das conjecturas de Silvio Romero: dessa miscigenação nasceria a figura do sertanejo. Mas essa figura se aproximaria mais da mistura entre o indígena brasileiro e o colonizador português, a figura do negro africano não deveria entrar nesse ideal de miscigenação.

Alberto Torres e Manoel Bonfim, definitivamente, pesam muito menos a pena: o problema para eles está muito mais no âmbito educacional. Para o primeiro faltava forjar um patriotismo, nas elites e na população em geral. Não havia espaço para importação de modelos estrangeiros, tínhamos a necessidade de nós mesmos construirmos nossa sociedade. E quando fala “nós”, falo das elites brasileiras, o povo, com p minúsculo, ficaria de fora dessa equação. Manoel Bonfim acreditava que a educação, o ensino mais universal e gratuito, seria a chave para a resolução dos problemas brasileiros.

Mas há um ponto que une a todos, dos mais radicais aos mais brancos: eles tem como mote principal a rejeição da figura do negro, tanto física como ideologicamente. Há aqueles que rejeitam a presença por completo da figura negra, e há aqueles que rejeitam as culturas negras no geral. Não haveria espaço para isso dentro do bojo civilizador da cultura nacional brasileira.

Um pouco mais afrente no tempo está ele: Gilberto Freyre. Na maior parte das vezes rechaçado, mas para alguns possui lugar de destaque, de maneira positiva. Fora os que bebem de sua teoria, mesmo sem perceber ou ter a consciência disso. Arrisco dizer que a grossa maioria da intelectualidade brasileira. Freyre é o principal ideólogo da “democracia racial”: no Brasil, diferentemente dos EUA, há a harmonia entre as três raças. Aqui não há apartheid, não há segregação na letra fria da lei.

E é isso que reina até hoje. E é isso que aqueles que erroneamente debocham do simples gesto do beber leite parecem não compreender. Freyre, ao defender a tese da democracia racial nada mais fez do que florear o embranquecimento brasileiro. Aqui rejeitou-se a segregação, isto é um fato. Mas não rejeitou-se o racismo. Pelo refinamento da estrutura brasileira, e fazendo uma leitura interseccional, percebemos que os caminhos aqui são mais nebulosos. A possibilidade de aceitação de figuras que se sujeitassem, conscientemente ou não, a um tipo de “domesticação racial” tornou a situação brasileira mais complexa de se compreender.

Existe uma aceitação implícita ao negro, ou ao miscigenado (principalmente aqueles que visivelmente possuem uma passabilidade maior conforme seu fenótipo vai se aproximando do branco) que de alguma maneira se submete a ordem branca. Isso, como aponta o professor Kabengele Munanga [4], dificultou a construção de uma identidade racial mais coletiva no Brasil. Em contraste com os EUA, onde a segregação, obrigatoriamente forjou uma unicidade maior, fruto da experiência coletiva da rejeição de si próprio como sujeito e como cidadão.

O que perde-se de vista na tentativa de compreender os supremacistas brancos é que, em solo brasileiro, a defesa de suas ideias é mais nebulosa e complexa, tal qual as situações descritas acima. Pouco importa se tais supremacistas são ou não “branco puro”. O mote principal é que eles defendem a exclusão do outro por completo: o indígena, o negro, o miscigenado, e outras minorias do ponto de vista sociológico.

O ideal do qual eles dividem é o mesmo daqueles do final do século XIX e início do XX: a um médio/longo prazo está a necessidade do apagamento completo das minorias no país. Isso parece ficar claro na fala do Ministro da Educação Abraham Weintraub, na reunião investigada pelo Supremo Tribunal Federal, que divulgou parte do conteúdo desta [5]. Weintraub afirma, categoricamente: “odeio o termo povos indígenas, odeio esse termo, odeio, povos ciganos, só tem um povo desse país. Quer quer, num quer segue reto: é povo brasileiro! Só tem um povo, pode ser preto, pode ser branco, pode ser japonês, pode ser descendente de índio, mas tem que ser brasileiro. (…) só pode ter um povo”. Há a necessidade uma pretensa união, em torno de um povo mítico brasileiro, que necessita aceitar dentro dessa terminologia a submissão ao ideal de uma elite política embranquecida. Quer? Quer, num quer, segue reto. Talvez seja redundante, mas sempre bom apontar para o caráter fascista dessa frase.

E tem também a fala, na mesma reunião, da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves: “a questão dos nossos quilombos está crescendo e os meninos estão nascendo nos quilombos e seus valores estão lá”, dizia ela ao falar da necessidade de permear o governo Bolsonaro de valores. Dessa fala impõe-se que não há nenhum tipo de valor dentro de uma comunidade quilombola, o que existe é a necessidade de inculcar valores nesses nascidos. Inclusive é possível inferir quais são esses valores: aqueles que neguem a sua pretitude. Quer? Quer, num quer, infelizmente para uma criança, não existe outra possibilidade a não ser a de se submeter. Não é possível “seguir reto”.

Esse é o projeto de embranquecimento. Ele pode ser visto como uma eliminação física? Sim. Há no Brasil um secular problema do genocídio negro e indígena. Mas esse projeto de embranquecimento passa, também, pela inserção, do ponto de vista branco, dessas minorias na sociedade.

Para não deixarmos de fora o próprio presidente e suas falas abertamente excludentes, quando não fascistas, trago algumas: “As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”, ou “Fui num quilombola [sic] em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais”, ou ainda sobre os indígenas: “Ele devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens” [6]. Todas essas falas de Bolsonaro são perpassadas pela ideia de que ou há a necessidade de adequação dessas minorias ao seu projeto, ou que “sigam reto”, sem sabermos para onde.

Buscar achincalhar os supremacistas brancos afirmando que eles são “nazipardos” ou apontando para o caráter contraditório da defesa de seus valores sendo eles que eles não possuem um “sangue puro” (se é que seja possível falar disso) é perder de vista a totalidade dos fatos e a concretude do passado, não tão longínquo, do presente escabroso e do futuro, onde só há talvez uma certeza, a necessidade atroz de combater a disseminação desses valores e a concretização dessa visão de mundo.


[1]https://revistaforum.com.br/politica/copo-de-leite-bolsonaro-usa-simbolo-nazista-de-supremacia-racial-em-live/

[2]https://www.esquerdadiario.com.br/Internautas-revivem-foto-de-Bolsonaro-com-sosia-de-Hitler-defensor-do-Escola-sem-Partido

[3]https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-demite-alvim-por-frase-nazista-e-diz-repudiar-ideologias-totalitarias/

[4] MUNANGA, Kabenguele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Rio de Janeiro: Vozes, 1999.

[5] http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=443959

[6] https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-em-25-frases-polemicas/


* Educador popular na Rede Emancipa. Licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense e mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

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