Vida Cotidiana e a cultura da Coisa (Rumo à formulação da Questão)

Por Boris Arvatov[1], traduzido por Christina Kiaer (russo-inglês) [N.T.I.] e Maria del Carmen Delgado Rodríguez (inglês-português) [N.T.P.]

“Se a fase final do capitalismo – com sua luta competitiva raivosamente se intensificando e constante pressa febril – é um estágio de alto dinamismo, então nós devemos ter em mente que nós estamos lidando primariamente com o dinamismo do movimento humano.  A economia do mercado força as pessoas a se tornarem dinamizadas, mas esse dinamismo é profundamente individualista, e portanto anárquico,  o dinamismo de personalidades separadas e em conflito.”


  1. A Coisa e a Cultura Proletária

A grande maioria dos Marxistas que abordam o problema da cultura proletária aproximam-se dele em um nível puramente ideológico, ou pelo menos tomam a ideologia como ponto de partida de suas investigações. Visões sobre a cultura dominante dentro da esfera Marxista são caracterizadas por um ideologismo peculiar. Sempre que camaradas são chamados a explicar processos sociais, inclusive os culturais, eles começam com a produção de valores materiais. Contudo, assim que eles tentam explicar a conexão organizacional entre diferentes formas de cultura, eles abandonam sua posição usual histórico-materialista.[2] Assim para eles, a consciência social como forma de cultura ocupa um lugar de destaque, enquanto a cultura material é marginalizada. No caso mais extremo, eles analisam o sistema técnico da sociedade apenas no sentido estreito de um sistema que forma relações econômicas, de um sistema de relações econômicas como força motriz da sociedade.

Nós vamos passar pelo fato óbvio de que a própria tecnologia não é apenas um propulsor [driving engine]  mas também  a forma sócio-material na qual esse motor [engine] existe. Nós devemos, entretanto, salientar que o conceito de “cultura material”, incluindo toda a produção tecnológica, sua distribuição e consumo, é significativamente mais amplo que o conceito de “tecnologia” especialmente como ele é convencionalmente interpretado. A cultura material de uma sociedade é o sistema universal de Coisas, i.e., as formas materiais socialmente convenientes [expedient] criadas pela humanidade através da transformação das assim chamadas formas naturais. Cultura material é tanto a produção como o consumo de valores materiais. Do ponto de vista da cultura material, qualquer máquina representa tanto uma forma técnica e produtiva como também uma forma cotidiana de consumo.

Porque estamos examinando o fenômeno da cultura, nós devemos analisar não apenas a tecnologia, mas toda a totalidade de formas que as coisas podem assumir.[3] Somente uma análise assim será completa. A Consciência social e a vida cotidiana na sociedade são formadas em ambos o processo de produção material como de consumo material. É óbvio que as formas de consumo social não são primárias –  e que elas são definidas pela produção – mas sem estudá-las diretamente é impossível compreender culturalmente o modelo [style] de uma sociedade como um todo. Elas imediatamente influenciam a visão de mundo da sociedade e, mais importante, seu sentimento de mundo [world-feeling]. O tipo cultural de uma pessoa é criado por todos seus arredores materiais, assim como o modelo cultural de uma sociedade é criado por toda a sua construção material.

A relação do individual e do coletivo com a Coisa é a mais fundamental e importante, a mais determinante das relações sociais. Essa tese flui diretamente da teoria do materialismo histórico. Se a significação da relação humana com a Coisa não foi entendida, ou só foi entendida parcialmente como uma relação com os meios de produção, isso foi porque até agora os Marxistas conhecem apenas o mundo burguês das coisas. Esse mundo é desorganizado e dividido em dois domínios, fortemente delimitados,  o técnico e  o de coisas cotidianas. O último ficou completamente fora da consideração científica, como formas estática e secundária. Portanto o mundo das Coisas, como um mundo não só de processos materiais como também de formas materiais, não foi levado em conta; nem, consequentemente, foi o caráter  formal-cotidiano da tecnologia. Na cabeça dos Marxistas, então, toda a esfera de consciência social e muitos aspectos da prática social (e.g., sócio-organizacional, artística e práticas cotidianas) foram cortadas do mundo das Coisas e suspensas no ar. A conexão entre coisas e produção foi considerada muito distante e superestrutural, enquanto a relação não mediada de fato entre as duas foi corporificada em formas materiais de consumo produtivo e o puro consumo era desconsiderado ou nunca notado.

A construção da cultura proletária, isto é, de uma cultura conscientemente organizada pela classe trabalhadora, exige a eliminação da ruptura entre Coisas e pessoas que caracterizou a sociedade burguesa. Essa construção pressupõe, ademais, o estabelecimento de um único ponto de vista metodológico que compreende todo o mundo das coisas como base material da cultura para criação de formas. A sociedade proletária não vai conhecer este dualismo de coisas nem na prática ou na consciência. Ao contrário, essa sociedade será ideologicamente imbuída com o mais profundo sentido [sense] das Coisas. Entretanto, na medida em que essas teses gerais permanecem em silêncio quanto à sua realização concreta, elas devem ser comparadas criticamente com as formas de cultura material já trabalhadas pela humanidade. Conhecendo os tipos já existentes de relação entre pessoas e coisas, conhecendo o substrato sócio-histórico dessas relações, nós seremos capazes de antever [foresee], ainda que apenas em seus elementos essenciais, as tendências em desenvolvimento da cultura material proletária.

O significado de tal previsão [foresight]  é enorme. As formas materiais de cultura, precisamente enquanto formas, isto é,  formações esqueléticas desanexadas, representa uma extraordinária força conservadora conhecida como o cotidiano [byt]. Compreender as tendências em desenvolvimento da byt material significa ser capaz de direcioná-las, de transformá-las sistemáticamente, i.e, de transformar byt de uma força conservadora em uma [força] progressista. E isso por sua vez garante a reformulação de duas outras áreas da byt: a social e a ideológica.

A vida cotidiana consiste nas formas fixas, esqueléticas, da existência [bytie][4]. A transformação da criação-na-vida-cotidiana [everyday-life-creation [bytotvorchestvo]], na qual mudanças na byt se moverão a passo orgânico, constante e flexível junto às mudanças na bytie, e levarão, em efeito, na liquidação do cotidiano como uma esfera específica da vida social – contanto que o processo de dissolver as barreiras de classe continue. Isto faz completo sentido: o conceito do cotidiano foi formado em oposição ao conceito de trabalho [labor], assim como o conceito de atividade consumidora foi formado em oposição ao de atividade produtiva, e o conceito de equilíbrio social foi formado em oposição ao conceito de dinamismo social. Tais divisões foram possíveis apenas sobre a base da diferenciação técnica e de classe que caracterizou o sistema capitalista, com seu alto nível administrativo acima da produção. Na sociedade proletária, e ainda mais na sociedade socialista, onde a produção vai diretamente formar todos os aspectos da atividade humana, a vida cotidiana estática do consumo se tornará impossível. Promover essa evolução é a verdadeira tarefa dos edificadores da cultura proletária. A resolução deste problema histórico pode apenas prosseguir [proceed] a partir das formas materiais da byt.

As presentes notas tentam lançar luz sobre diversas questões da vida cotidiana em relação a questões da cultura da Coisa, da perspectiva de precisamente estas necessidades urgentes da construção cultural proletária.

  1. A Coisa nas Mãos da Burguesia

Nesta seção nós iremos tentar prover uma análise superficial da cultura burguesa das coisas de acordo como foi formada no meio do século passado e ainda continua em grande medida existindo nestes dias, quando coexiste com novas formações culturais.

Propriedade privada dos instrumentos e meios de produção deu origem à byt privada e doméstica. Levou, no entanto, não apenas ao estabelecimento da diferenciação de classe, mas também ao máximo isolamento do sistema de produção, como um sistema coletivo-máquina, do sistema de consumo, como um sistema de apropriação individual. Entre eles estava a área de distribuição – noventa por cento da qual funcionava como o mercado espontaneamente organizado. Consequentemente, ambos o mundo das coisas e o mundo das pessoas foram isolados e diferenciados.

A burguesia, especialmente no último período do capitalismo financeiro, teve nenhum contato físico direto com aquelas formas que as coisas assumem quando elas compõem a esfera de consumo – primariamente do puro consumo e parcialmente do assim chamado consumo-produtivo. O caráter cultural da burguesia foi a respeito disso completamente definido pelo papel e a função assumidas em sua vida por: (1) a coisa no mercado, e (2) a coisa na vida cotidiana privada. Ademais, é fácil demonstrar que a primeira foi de significado dominante, somente porque sob o capitalismo a vida cotidiana privada da cidade, a vida cotidiana do consumo puro, é minuciosamente permeada pela vida cotidiana do mercado e é inteiramente dependente dele.

A burguesia lida com a Coisa em primeiro lugar sob seu disfarce de mercadoria, como um objeto comprado e vendido. A relação da mercadoria com ela é promovida entre a burguesia não apenas em suas práticas domésticas, mas em todo seu entorno sócio-material. A rua da cidade capitalista é aquela onde as coisas são compradas e vendidas; é uma rua de lojas e vitrines de exposição de mercadorias, e de preços,  cujas origens secretas estão escondidas da consciência do consumidor. Aqui a Coisa se torna uma categoria abstrata, aparece na potencialidade de um valor de troca imaterial – e é onde comerciantes e senhores da indústria estão preocupados, enquanto um meio de acumulaçao nu e portanto abstrato.

A natureza de mercadoria da byt material burguesa constitui a base fundamental de sua relação com a coisa. A Coisa enquanto uma categoria imaterial, enquanto uma categoria de puro consumo, a Coisa fora de sua gênese criativa, fora de sua dinâmica material, fora de seu processo de produção, a Coisa como algo completamente fixo, estático e, consequentemente, morto – isto é o que caracteriza a cultura material burguesa.

O burguês adquire a Coisa de fora, do não familiar e portanto, para ele, indiferente mundo da realidade produtiva. Para o burguês a Coisa existe apenas na medida em que ele pode extrair lucro dela e para organizar sua vida cotidiana. Isso determina seus métodos de formar sua byt material. “Um apartamento ricamente decorado”; “atmosfera [surroundings] humilde”; “esparsamente decorado”; “dispendiosamente mobiliado”- estas são concepções típicas do cotidiano, formuladas no discurso casual, que se desenvolveu entre a burguesia.  Mas há uma característica mais importante, até mesmo fundamental, da byt burguesa das coisas: a propriedade privada, a relação de propriedade-privada com o mundo das Coisas. Para o burguês existe “minhas” coisas e coisas “de outra pessoa”. “Minhas” coisas aparecem primariamente não apenas como bênçãos materiais, mas também como categorias sócio-ideológicas.

Em uma sociedade de constante luta competitiva e individualismo, cada membro individual dessa sociedade utiliza todos os seus recursos para assegurar sua posição na sociedade, e esses recursos são primariamente materiais. A Coisa agora se torna os meios de afetação tanto puramente pessoais como de distinção de classe. Ela entra na estrutura da cerimônia cotidiana como sua base principal, como seu cerne. “Um visual [outfit] chique”; “uma sala de estar luxuosa”; “uma carruagem magnífica”; etc etc – estas são as fraseologias da liturgia burguesa das coisas. Ela é moldada por um culto do valor, raridade e antiguidade das formas materiais e objetivas, pelo efeito de uma concha material externa, ou seja, através de tudo que é capaz de claramente demonstrar o poder socio-economico do indivíduo burguês ou da do todo social burguês (a cidade, o governo, a empresa capitalista, e assim por diante).

Em tudo isso, o significado social objetivo da Coisa, seu propósito utilitário-técnico e sua qualificação produtiva, são definitivamente perdidos. A Coisa assume um duplo significado – como uma forma material e  também como uma forma ideológica. O idealismo das Coisas como uma relação privada, mas  social e psicologicamente dominante, com o mundo é uma marca característica do idealismo burguês em geral.

Tal relação com a Coisa seria impossível se a burguesia entrasse em um contato ativo e criativo com o mundo das Coisas. Mas para que isso aconteça, a burguesia teria que deixar de existir enquanto uma classe exploradora e parasitária. Para a classe para qual a vida cotidiana toma forma em apartamentos privados, escritórios privados, ou os assim chamados espaços “burocráticos”, não existe espaço para a coisa-criação [veshchelvorchestov]. Lá Coisas são percebidas, e só podem ser percebidas, como objetos clichê, independentes e finalizados, definidos e fixos, de uma vez por todas. Porque a vida cotidiana privada é formada individualmente, suas formas são tanto inevitavelmente aleatórias e anárquicas, e, ao mesmo tempo, terminadas e imutáveis.

De fato.

Adquirindo coisas prontas, adquirindo-as na medida em que ele é capaz de comandá-las economicamente, o burguês então organiza-as em sua vida cotidiana de acordo com tradições de gosto estabelecidas, variando tudo isso no grau de suas capacidades individuais. Para ele, uma coisa é nada além de um material necessário para mobiliar ou decorar. Ele não sabe como agir com o mundo das Coisas. Nosso burguês é ou um trabalhador mental [mental], ou um organizador de pessoas – e mais frequentemente, um organizador da Bolsa de Valores, não da produção. Tendo uma vez montado, digamos, um apartamento, ele então não entra mais em contato ativo com as coisas dentro dele. Isso completa a encenação de sua byt material. Isto é particularmente notável na vida cotidiana da intelligentsia[5]. Se o burguês médio maneja ser apenas mal e praticamente organizado, o membro da intelligentsia é em grande parte uma criatura desamparada e desajustada no que se trata das coisas. Ele aceita suas mobílias assim como elas são oferecidas a ele, ou ele simplesmente as ignora.

A alienação do consumo da produção afeta radicalmente a relação-Coisa no sentido de que essa relação se torna profundamente subjetiva, ideológica, e determinada pelo gosto. Isto leva a dois fenômenos interligados: estilismo e moda. Ambos os fenômenos são enraizados na ausência de uma aproximação produtiva e coletiva do mundo das coisas, e a necessidade de proceder a partir de um critério puramente formal e individual de avaliação ou de escolher coisas. A anarquia estética e  o conservadorismo imitativo estético dominam a sociedade burguesa e em grande medida determinam sua estrutura material cotidiana.  É lógico que a causa principal disso é a tecnologia da produção da propriedade-privada.  Essa tecnologia é limitada pela estrutura do capital individual ou do capital acionista de médio porte (o modo de produção na maioria dos países ainda hoje em dia), e fabrica as coisas para o consumo individual, ou seja, coisas não conectadas umas às outras, separadas, Coisas-mercadorias. A produção trabalha para o mercado e portanto não consegue levar em conta as particularidades concretas do consumo e proceder a partir delas; é forçada, na construção das coisas, a proceder de padrões já existentes de uma ordem puramente formal, para imitá-los. O resultado é o completo e total conservadorismo e a uniformidade das formas.

A organização das Coisas na vida cotidiana da burguesia não vai além da reorganização das coisas, além da distribuição de objetos prontos no espaço (mobília é o modelo mais característico). Portanto a forma da Coisa não muda, mas permanece uma vez e para sempre a mesma. Sua função também permanece exatamente a mesma. A imobilidade da Coisa, sua inatividade, a ausência nela de qualquer elemento de instrumentalidade – tudo isso cria uma relação com ela na qual seu lado produtivo qualificado é percebido ou do ponto de vista da forma nua (o critério da estética ou gosto: coisas “bonitas” ou “feias”), ou do ponto de vista de sua resistência à influência do que lhe circunda (a chamada durabilidade da coisa). A Coisa portanto assume caráter de algo que é passivo por sua própria natureza. A Coisa enquanto o cumprimento da capacidade física do organismo para o trabalho [labor], como uma força para o trabalho social, como um instrumento  e como um colega de trabalho [co-worker], não existe na vida cotidiana da burguesia.  Não à toa essa é a vida cotidiana do puro consumo, ou a vida cotidiana que apenas circunda o trabalho, formativa de sua condição mas sem nenhuma conexão prática com ele (o quarto de estudo, o escritório de administração, e assim por diante).

  1. A Coisa na Cidade Industrial

O último estágio do capitalismo, em sua forma mais desenvolvida, pode ser encontrado nos Estados Unidos da América. Geralmente descritos, portanto, com referência ao jargão popular “americanismo”, essa forma do capitalismo é caracterizada acima de tudo pela grandiosa socialização[6] produtiva da sociedade. Ela engloba uma seção significativa da burguesia e criou um subgrupo extraordinariamente numeroso conhecido como a intelligentsia técnica[7].

Seguindo-se a socialização da produção industrial, a próxima área submetida à socialização foi a do consumo produtivo (todas as formas de comunicação, distribuição et cetera). A área de atividade organizativa (mecanismos [apparatuses] administrativos, instituições científico-experimentais, e assim por diante) foi socializada no mesmo período, e apenas depois disso – alguns poucos elementos da byt privada.

A nova cidade capitalista apresenta-se como uma série de coisa-sistemas interconectados que são centralmente administrados em maior ou menor grau. Contanto que a burguesia financeira continue mandando na cidade, ela preserva  todas as características urbanas delineadas no capítulo anterior de sua história, apesar da revolução material-cultural já se desenrolando. Mas essa revolução já afetou completamente a intelligentsia técnica. Graças à socialização de seu trabalho [labor], a intelligentsia técnica agora substituiu sua antiga vida cotidiana por um novo tipo, a vida cotidiana dos escritórios enormes, lojas de departamento, laboratórios de fábrica, institutos de pesquisa, e assim por diante.  Sua relação com o mundo é agora formada não em um apartamento privado, mas numa esfera socializada, a esfera conectada com a produção material. Além disso, a socialização do transporte e de muitas das funções materiais da cidade (calefação, iluminação, encanamento de esgoto, construção arquitetônica) levou à esfera da vida privada cotidiana ser reduzida ao mínimo e reformada sob a influência da tecnologia moderna.

Vivendo em um mundo de coisas que ela organiza mas não possui, coisas que condicionam seu trabalho [labor], a intelligentsia técnica gradualmente perdeu sua antiga relação de propriedade-privada com elas. Aqui, valorizar a coisa como uma categoria de troca ou exibição simplesmente não é mais possível. Valorizando uma coisa da perspectiva de sua capacidade passiva de resistência (durabilidade, operação, utilização) também se tornou menos predominante. Isso ocorreu porque a intelligentsia técnica, um grupo de organizadores contratados, não teve contato constante com as coisas concretas com as quais e em torno das quais ele trabalhou. Isso foi ainda mais verdadeiro com as coisas na vida cotidiana da rua e da esfera de comunicação (o bonde, telefone, ferrovia, e assim por diante).

Outro critério de valor agora tomou o lugar de destaque: conveniência, portabilidade, conforto, flexibilidade, higiene e assim por diante – em uma palavra, tudo que eles chamam a adaptabilidade da coisa, sua adequação em termos de posicionamento e montagem [ustanovochno-montazhnaia prisposoblennost’] para as necessidades da prática social.

A base desta evolução foi, é claro, a evolução da tecnologia com seu princípio de padronização e normalização. A intelligentsia técnica foi o próprio motor social desta evolução, guiando-a para a vida cotidiana. Pouco a pouco, essa intelligentsia técnica foi tornando-se uma organizadora de ideias, pessoas e coisas, transferindo as habilidades que havia adquirido da esfera da produção para a esfera do consumo, da byt coletiva para byt privada. O conhecimento da Coisa e a habilidade de comandá-la agora tornou-se ativo, cultivado no transporte público, na fábrica, no laboratório tecnológico, na instituição administrativa em larga escala. Esse conhecimento se estende aos mínimos elementos da cultura material.

A habilidade de pegar uma cigarreira, de fumar um cigarro, de colocar um sobretudo, de usar uma capa, de abrir uma porta, todas essas “trivialidades” adquirem suas qualificações, sua “cultura” não sem importância, que encontra seu significado na maximização da economia e precisão, em máxima coesão com a coisa e seu propósito.

Na cidade de arranha-céus, de trânsito metropolitano subsolo e sobre o solo, de conexões  mecanizadas e materiais entre coisas, onde mil dispositivos de transmissão substituem o trabalho [labor] – em tal cidade a inabilidade de manejar a coisa significaria a total impossibilidade de existência. O novo mundo das Coisas, que deu origem a uma nova imagem de uma pessoa como indivíduo psicótico [psycho – psychological], ditou formas de gesticulação, movimento, e atividade. Ele criou um regime particular de cultura física. A psique também evoluiu, se tornando mais e mais como-coisa [thinglike] em sua estrutura associativa. A percepção puramente formal, imaterial, estilizada da Coisa desapareceu quando a mais recente indústria revolucionou as formas que objetos podiam assumir, expondo sua raiz construtiva.

Vidro, aço, concreto, materiais artificiais, e assim por diante não eram mais cobertos com um invólucro “decorativo”, mas falavam por si mesmos. O mecanismo de uma coisa, a conexão entre os elementos de uma coisa e seu propósito, eram agora transparentes, obrigando as pessoas praticamente, e portanto também psicologicamente, a contar com elas, e somente com elas. A forma enquanto um padrão pronto não podia mais ser considerada aqui. A coordenação com a forma cedeu seu lugar para a coordenação com a função e os métodos de construção de uma coisa. A coisa foi dinamizada. Mobília dobrável, calçadas rolantes, portas giratórias, elevadores, restaurantes automáticos, e assim por diante constituíram uma nova etapa na evolução da cultura material. A Coisa tornou-se algo funcional e ativo, conectada como um colega de trabalho à prática humana. Mecanização + dinamização levaram à maquinização da coisa, para sua transformação em um instrumento de trabalho. A Coisa do byt consumidor, uma vez fundamentalmente distinta da coisa em produção, da máquina de fábrica, outrora morta e estática, agora, através dos métodos de sua construção e através de seu funcionamento, subordinou-se à coisa produtiva.

Portanto, as formas materiais de produção, tanto quanto a socialização da sociedade, criaram um monismo de Coisas que organizaram as formas materiais de consumo à sua própria imagem, monisticamente. Inversamente, a centralização eletro-técnica da produção levou à eliminação nas oficinas não apenas de motores, mas de um conjunto significativo de marchas; isso é dizer que a progressiva complicação da coisa na vida cotidiana  desenrolou sua simplificação paralela na indústria. Ambas as instâncias resultaram da socialização dos instrumentos materiais da sociedade, sua reaproximação mútua, sua unificação real e metodológica. Não apenas os métodos de produção começaram a penetrar a vida cotidiana, mas a produção em si foi evoluindo no sentido de tornar o processo produtivo mais confortável do ponto de vista das condições de trabalho [labor], i.e., no sentido de infundi-lo com vida cotidiana [obytit’ ego]. A aparição e cristalização dessas duas tendências estão longe de estarem completas; por hora podemos apenas observar esse desenvolvimento somente embrionário. Sua  realização completa é concebível apenas no socialismo.

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Embora fosse a portadora da alta cultura da Coisa, a intelligentsia técnica foi impedida por suas origens de classe de tornar-se uma organizadora integral do mundo das coisas. Limitada por seu individualismo, a intelligentsia técnica foi conectada com a produção apenas através de alguns aspectos de sua atividade. Ela não foi, portanto, capaz nem de valorizar a essência objetiva da produção, nem, acima de tudo, de similarmente valorizar as formas materiais da vida cotidiana. A produção como um gigante sistema de colaboração entre humanidade e forças espontâneas da natureza; a produção como a definição, o comando da organização da atividade social, direcionada à conquista vitoriosa e ao domínio das energias poderosas e indefinidamente em expansão da esfera material – a produção neste seu papel real não existiu para a intelligentsia técnica como um todo (com exceção de alguns de seus melhores representantes). Deste modo, a produção estava se tornando algo isolado da natureza; além disso, todo o sistema da byt material e consumidor produção estava se tornando ainda mais isolado.

O conceito de “americanismo” inclui tanto um lado positivo – “Coisicidade” – e um negativo – alienação da natureza. A cidade industrial contemporânea, com seu isolamento cotidiano da natureza do local de produção, e do local de produção do local de atividade organizativa – essa cidade que é completamente, até o último centímetro, restringida pela matéria que foi transformada pela humanidade até a última ínfima semelhança com sua fonte espontânea desaparecer – cria uma relação com a Coisa como se com uma forma auto-suficiente que se retirou para dentro de si. Sua estrutura dinâmica-laboral [dynamic-laboring] e sua força viva nunca estão simultaneamente presentes; portanto ambas se tornam “desalmadas”. Isto leva à sede característica do capitalismo pela natureza como se por algo que, ao contrário da coisa, parece estar vivo, ou, inversamente, à sua aversão à natureza e ao fetichismo das coisas supostamente fora de qualquer relação com ela, são valorosos em si mesmos (o chamado tecnicismo do qual muitos adoradores excessivamente zelosos do americanismo sofrem).

Já é possível, entretanto, apontar para um punhado de novas formulações na tecnologia e na vida cotidiana que estão levando em direção à liquidação da cisão entre as energias materiais da sociedade e da natureza. Essas são antes e principalmente a eletricidade e o rádio, sistemas técnicos nos quais o processo produtivo é realizado no trabalho de atividades espontâneas, diretamente conectadas, organizadas pelo trabalho [labor] humano. Aqui, pela primeira vez, produzir e consumir formas de energia são aplicadas da mesma maneira; a natureza em sua forma pura penetra a sociedade e se torna byt. Um processo similar pode ser visto nos lugares de materiais brutos que estão gradualmente adquirindo novos ambientes cotidianos na medida em que suas localidades são decididas [settled] e transformadas com base nas formas elevadamente cultas. Finalmente, a penetração firme de vegetação sistematicamente conduzida por mãos humanas para dentro da cidade testemunha para exatamente o mesmo, ainda que embrionário, progresso.

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Se a fase final do capitalismo – com sua luta competitiva raivosamente se intensificando e constante pressa febril – é um estágio de alto dinamismo, então nós devemos ter em mente que nós estamos lidando primariamente com o dinamismo do movimento humano.  A economia do mercado força as pessoas a se tornarem dinamizadas, mas esse dinamismo é profundamente individualista, e portanto anárquico,  o dinamismo de personalidades separadas e em conflito.

A tarefa do proletariado é criar um dinamismo sistematicamente regulado das coisas. Transformar a coisa em um instrumento, universalizar o processo que já é emergente em nosso tempo (um exemplo curioso: instrumentos-domésticos)[8], significa prover à sociedade com a máxima autonomização de sua energia, e a máxima organização das possibilidades. Apenas quando as forças produtivas da humanidade começarem a operar por mecânicos, montadores elétricos, maquinistas, motoristas e condutores, é que o domínio das Coisas – como instrumentos diretamente conectados tanto com as pessoas como com as forças da natureza que os operam- começará.


[1] Eu gostaria de agradecer Eric Naiman, Annette Michelson e Evgenii Bernshtein por compartilharem suas visões nesta tradução.

“Byt i kul’tura veschi” foi publicado na revista Proletkult Almanac (Moscou, 1935), pp 75-82. O termo byt é usualmente traduzido para “vida cotidiana”, embora possa também significar simplesmente “modo de vida”. Pode transmitir um significado mais negativo que sua contrapartida em inglês: byt significa vida cotidiana em seus aspectos mais mundanos e materiais, como oposta a formas mais elevadas da existência filosófica e espiritual. Ao longo desta tradução, a frase “vida cotidiana” ou “o cotidiano” traduzem o substantivo russo byt, e o adjetivo “cotidiano” traduz a forma adjetiva russa bytovoi. Nos lugares onde “vida cotidiana” não transmite exatamente o sentido russo de byt, o original russo foi deixado no lugar. [N.T.I]

1b Na tradução em português optou-se por traduzir “everyday life” e o substantivo “everyday” por “vida cotidiana” e “o cotidiano” e o adjetivo “everyday” pelo também adjetivo “cotidiano/a”, mantendo todas as partes que a tradutora do inglês manteve em russo, pelos mesmos motivos. Em momentos que julgou-se necessário, manteve-se também em seguida da palavra traduzida a palavra usada na tradução em inglês, para auxiliar na compreensão dos sentidos mais sutis da língua que não possuem uma correspondência plena no português e que portanto se perderiam na tradução. [N.T.P]

[2]  Arvatov está especificamente referindo-se ao “camarada Marxista” Leon Trotsky. Arvatov publicou este artigo na revista Proletkult Almanac, na qual artigos de diversos autores explicitamente refutaram o ensaio de Trotsky “Cultura Proletária e Arte Proletária.” Publicado em 1923 como parte de seu livro “Literatura e Revolução”, o ensaio de Trotsky argumentava que a própria noção e cultura proletária é sem sentido porque a atual “ditadura do proletariado” é apenas uma curta e temporária fase no caminho em direção a uma eventual sociedade comunista sem classes, na qual uma específica cultura “proletária” será obsoleta. Arvatov responde que é dualista conceber a cultura como uma entidade separada (ideal) que só pode ser construída quando as lutas materiais forem resolvidas; o monismo determina que a cultura é apenas aquela cultura material, que já pode começar a ser reorganizada através da ação da “coisa” socialista.

[3]  “Formas que as coisas podem assumir” traduz “veshchnyie formy”. O adjetivo veshchnye é a forma adjetiva fora do padrão e pouco utilizada para o substantivo veshch, que significa “coisa”, e pode ser traduzido precisamente como “tipo coisa” “como-coisa” ou de forma mais livre “material” [físico, materialista, corpóreo etc]. Mas Arvatov usa este adjetivo ao longo do ensaio para enfatizar a concretude de coisas particulares sobre a noção mais abstrata de material; além disso, veshchnyi possui uma sonoridade caseira, insistentemente russo, que o diferencia do som mais elevado [high-blown] da palavra material’nyi, importada da filosofia estrangeira. A palavra “coisa” possui as mesmas conotações filosóficas expansivas que na teoria Marxista na língua inglesa [e portuguesa] são concedidas à palavra “objeto”

Como “coisa” neste texto designa tanto  a categoria para a qual Arvatov elevou a noção de objeto como também  suas instâncias particulares, o uso do C maiúsculo e c minúsculo foi adotado quando necessário para indicar tal diferenciação. Ed.  [N.T.I]

[4] Bytie significa “existência”  no sentido de existência filosófica ou espiritualmente significativa, e é diametralmente oposta, na cultura Russa, à vida material cotidiana exprimida por byt. [Nota da tradução em inglês]

[5] Aqui, optou-se por manter o termo no original russo em função do contexto no qual Arvatov escreve, ou seja, nos primeiros anos de existência da URSS. Na Rússia anterior à Revolução Bolchevique, o termo intelligentsia descreveu o setor letrado, educado e culto da burguesia Russa, cuja dominação cultural e seus decorrentes privilégios o permitiu assumir posições de influência na vida política russa. Essa “classe” intelectual (ainda que não seja uma classe e sim um grupo), fortemente influenciada pelo Ocidente, surge no século XIX, sendo majoritariamente burgueses intelectualizados que opunham-se fortemente ao regime czarista; pela época da Revolução de Outubro, a intelligentsia se configurava como uma elite intelectual; era  composta por pessoas que se engajaram no trabalho intelectual, sendo feita de artistas, professores e acadêmicos, escritores e críticos literários. Os indivíduos da intelligentsia, da mesma forma que o indivíduo da burguesia é o burguês ou do proletariado é o proletário, são os intelectuais. [N.T.P]

[6] Ainda que a tradução em inglês tenha optado pelo termo collectivization [traduzido por coletivização no português], aqui optou-se pelo termo socialização, uma vez que o termo coletivização carrega uma conotação política-ideológica necessariamente contrária à propriedade privada, oposição esta que não é  necessariamente vinculada ao termo “socialização”. A socialização (como explica Rosa Luxemburgo sobre a socialização da produção capitalista na Alemanha em seu Reforma ou Revolução?) ocorre necessariamente nos estágios mais desenvolvidos da sociedade capitalista, ou seja, um maior desenvolvimento da produção que exige um número cada vez maior de trabalhadores ativamente participando dela (e, na sociedade industrial, como expõe Marx n’O Capital, isso vai significar a incorporação das mulheres e das crianças no mercado de trabalho como força de trabalho) e que portanto torna a produção cada vez mais socializada, no sentido de que cada vez mais setores da sociedade participam dela. Já a coletivização  implica na destruição da propriedade privada e na criação de uma propriedade coletiva, gerida por todos os trabalhadores (ex: coletivização das terras, antes nas mãos dos latifundiários, realizada após a reforma agrária dos países recém tornados socialistas) [N.T.P.]

[7]a  Na Rússia, o termo “intelligentsia” originalmente descreveu a elite educada e Ocidentalizada que surgiu no século dezenove. Era menos uma classe e mais uma identidade política auto-denominada de resistência crítica ao regime autocrático. Já no século vinte, entretanto, “intelligentsia” usualmente refereria-se simplesmente ao setor instruído da burguesia. Os Bolcheviques eram ideologicamente anti-burgueses, mas eles reconheciam a necessidade de preservar as habilidades técnicas dos engenheiros burgueses, cientistas, e administradores os quais eram requeridos para as tarefas práticas da construção do socialismo. Por se referir ao mesmo grupo de pessoas nos EUA como “intelligentsia técnica”, Arvatov lhes concede a validação social nos termos Soviéticos: suas habilidades técnicas os exoneram parcialmente de seu status de classe burguês. O termo contemporâneo mais próximo no Inglês [e no Português] para este grupo teria sido “technocrats” [tecnocratas] – um termo que nos anos 1920 não tinha o mesmo sentido pejorativo nos EUA que tem hoje. O termo mais literal “intelligentsia técnica” é mantido nesta tradução, entretanto, para evitar as conotações presentes, e porque no inglês, “technocrat” soa muito próximo da desprezada palavra “bureaucrat” (biurokrat), um termo muito censurado na jovem cultura Bolchevique nascente. [N.T.I.]

7b Foi mantido o termo no literal na tradução para o português pelos mesmos motivos apresentados na tradução em inglês , ainda que julguemos que o último motivo apresentado por esta não tenha outra razão de ser senão uma disputa ideológica anticomunista, uma vez que a semelhança entre a sonoridade das palavras é insignificante para o leitor contemporâneo (que fala ou russo, ou inglês ou português) – configurando-se, portanto, como uma “desculpa” para descontextualizar o uso da censura por parte do governo revolucionário e insinuar ao leitor conclusões superficiais quanto ao recém criado regime político soviético. [N.T.P.]

[8] Instrumentos-domésticos traduz doma-orudiia. O termo parece se referir à noção funcionalista  da casa enquanto uma extensão do corpo, como uma ferramenta ou implemento de produção, sendo desenvolvida da arquitetura Construtivista dos anos 1920: “condensadores sociais” e “dom-kommuna” (casa-comuna) são discutidos  nos escritos de Moisei Ginzburg. O termo poderia também ser uma referência para a “casa como uma máquina para viver” ou “casas de produção em massa” de Le Corbusier; isso estaria de acordo com o foco do artigo na modernidade no Ocidente.

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