Ocupar o imperativo clínico psicanalítico?

Por Alessandra Caneppele

Em um imóvel vazio não temos ausência de trabalho, mas sim o trabalho da especulação do mercado que aí produz a riqueza para poucos: a propriedade não está desocupada, mas sim ocupada pelo trabalho do capital. O ato político de ocupar uma propriedade, portanto, é também ato que desaloja o capital aí instalado, despejando seu trabalho e com ele o princípio do privativo do qual ele depende para funcionar – e, nesse sentido, é também instalação de uma ociosidade nesse trabalho. A partir desse duplo viés, como pensar o trabalho de um coletivo clínico psicanalítico na ocupação Maloca – Arte e Cultura na Vila União em Campinas, SP? Com quais ocupações e desocupações tal trabalho clínico se faz? [i]


Ocupação (Besetzung) e trabalho (Arbeit) são significantes importantes na história metapsicológica da psicanálise – lembramos dos neurônios freudianos ocupados e desocupados no trabalho da memória, dos sintomas e dos sonhos – e também no trabalho do tratamento analítico ocupando e desocupando representações para que, enfim, o neurótico possa viver amando e … trabalhando: a cura freudiana! Mas, afinal, qual trabalho nos ocupa e desocupa tanto dentro como fora da cena analítica?

Lembro-me do comentário de um cineasta sobre como era estranho que um homem sem trabalho fosse chamado de “desocupado” e não de “livre”, tal como encontramos nas trancas dos banheiros públicos em oposição à palavra “ocupado” – o que para ele revelaria como somos todos ocupados pelo trabalho. Na psicanálise, inventada pelo declarado workaholic que era Freud, qual peso para o trabalho?

Em “Caminhos da Psicoterapia Psicanalítica”, discurso lido por Freud em 1919 no Quinto Congresso Psicanalítico Internacional e considerado como texto seminal para a discussão das clínicas sociais de psicanálise propostas hoje[ii], lemos: “Teremos provavelmente a experiência de que o pobre está, todavia, menos disposto que o rico a renunciar a sua neurose; de fato, não o seduz a dura vida que o espera e a condição de doente significa mais uma reinvindicação de assistência social”. Se para Freud a capacidade para trabalhar fora um índice de saúde do sujeito, aqui ele parece reconhecer que há trabalhos e … trabalhos – trabalho bom de rico e trabalho duro de pobre! Ele desenvolve então sua ponderação: homens possivelmente alcoólatras, mulheres alquebradas ao peso das privações, crianças escolhendo entre a selvageria e a neurose: todos, diz Freud, pela psicanálise adquiririam a qualidade de resistência, eficiência, robustez e produtividade [widerstandsfähig, leistungsfähig]. Se a clínica social de psicanálise serviria para melhorar a performance do proletariado, Freud pode reconhecer como no mínimo duvidoso esperar que esse sujeito trabalhasse analiticamente para conquistar a saúde que o colocaria em condições de ser mais explorado.

Se Freud não reconhece a psicanálise totalmente ao lado dos anseios do servo e por isso duvida da possibilidade de vende-la a esse (o qual, ele constata, também não tem dinheiro mesmo para compra-la!), resta cogitar a venda dessa terapia do servo ao senhor/estado, o qual poderia com ela melhorar a performance de seus lucros. Porém, ainda nesse texto, Freud confessa que é muito difícil também vender a terapia do rico para o próprio rico: “as condições de nossa existência nos restringem aos estratos superiores e abastados de nossa sociedade, que cuidam de escolher seus próprios médicos e nessa eleição se afastam da psicanálise levados por todo tipo de prejuízo”. Nas linhas de Freud o mal-estar que habita o trabalho do psicanalista se escancara: a quem interessa uma cura analítica? E as reflexões sobre as clínicas sociais não apagam dessas linhas o mal-estar originário, pelo contrário: para quem o analista trabalharia ao ocupar-se agora do proletariado? Quem lucraria com esse trabalho analítico? E quem, em nome desse lucro, pagaria por ele? Enfim, se ao aristocrata entediado de Viena Freud pode prescrever sem receio a cura com um pouco de trabalho, já ao pobre o mesmo receituário parece questionável.

Na passagem da clínica privada para a social Freud percebe o deslocamento do significante trabalho – que no pobre é exploração e, no abastado, poderia ser sublimação. Duas concepções diferentes de trabalho – ou dois trabalhos diferentes – que perpassam a história da humanidade e suas línguas e desembocam, por exemplo, na crítica de Hanna Arendt a Marx, a qual postula a diferença entre Arbeit e Werk (o primeiro sendo o trabalho degradado dos corpos; o segundo, aquele sublime das mãos). O trabalho humano no mundo pode ir do céu ao inferno: da criação artística à tortura do tripalium. Assim também o ócio, seu contrário, poderá ser pecado do preguiçoso desocupado ou pureza da contemplação estética, tal como postula hoje, por exemplo, Domenico de Masi.[iii]A psicanálise tropeça aqui com Freud na questão incontornável da relação contemporânea entre trabalho e capital –  e esse tropeço reverbera como questão interna à própria psicanálise: qual relação entre o trabalho analítico e o trabalho do capital? Um espaço de desocupação do trabalho do capital, tal como o da Maloca, poderia nos ajudar no reconhecimento dessa pedra colocada fora e dentro do trabalho analítico?

Se mais provável encontrarmos um homem feliz ocupado em lavrar a sua terra do que em operar suas ações na bolsa de valores, não seria a natureza do trabalho, se ele é feito com as mãos ou com a mente, que definiria se esse trabalho é índice de saúde ou não. Dividir o trabalho entre braçal e intelectual reproduz a oposição clássica de nossa cultura ocidental entre corpo e alma, natureza e cultura, escravo e senhor e apenas deifica moralmente em entidades excludentes o que justamente deveria ser colocado em questão – portanto, essa divisão não nos serve e passemos a outra.  Supondo que necessidade e demanda movimentam trabalhos, se o pobre trabalha movido pelas necessidades suas e de seu senhor, já o senhor parece votado a trabalhar movido pela demanda de seu reconhecimento no outro. Necessidade e demanda impõem um imediato de trabalho – e a demanda talvez seja mais voraz que a fome, seu estômago imagético confundindo-se ao infinito voraz do capital. Entre ambas uma terceira ordem, simbólica, constituída fundamentalmente por uma ausência, embaralharia os dois esforços de trabalho em um ponto no qual ambos, esvaziados, cessam – de produzir, no escravo; de consumir, no senhor. Entre real e imaginário um simbólico cessa o trabalho preso à urgência imediata da necessidade imposta ao escravo pelo senhor e o trabalho votado ao infinitamente intangível da imagem reproduzida pelo senhor no escravo. Nessa nova ordem tais identidades privadas mantidas por um trabalho sem parada, premente, se misturam – e nesse encontro, no cada qual para de trabalhar para o outro, vemos surgir como possível o repouso, o ócio.

Sentada na horta, aguardo pacientes que não vem: um preso no ponto de ônibus; outro na fila do hospital. A concretude do que deles antes ouvira: não conseguir estar ao lado do filho; temer descobrir que um outro filho também seja “doente”. Longe, escuto. Ausentes, falam – ociosamente ocupada por esse trabalho que não tem hora para começar ou terminar, não é nem meu nem do outro, não é privado nem tem preço, mas que se faz nos que com ele se comprometem na produção apenas de sujeitos. Faltaram por que a falta fala e faz falta, desocupa e descansa do trabalho quando podem não ser cobrados ou descontados por ela. Para eles, ARBEIT não MACHT FREI (trabalho não liberta) – e a revisão de suas mágoas, então, vem pela partilha de um momento no qual o trabalho cessa e os senhores se desmancham no ar por um instante. A psicanálise aí antes de ser lugar de cobrança por trabalho, será então lugar de folga, desocupação de uma lógica de produção – para que uma lógica do ócio ocupe. E começo, então, a compreender como a Maloca, enquanto espaço político de desocupação do trabalho do capital, é paradigma da reocupação da cena analítica pela clínica social. Com essa ideia, continuemos a ler o texto de 1919 de Freud.

Aí ele levanta a hipótese de mudanças técnicas necessárias ao desenvolvimento dessa outra clínica. Mas, como ele mesmo explica, se há diferenças técnicas entre a clínica da histeria e a da neurose obsessiva, isso não quer dizer que ambas não se submetem estritamente à técnica da interpretação do inconsciente. A mudança na técnica da clínica social, portanto, não significa tomar a realidade material do novo sujeito como causa em si: afinal, diríamos, coitado, o pai é mesmo um violento, o esposo um bruto e, ao invés de interpretar, basta consolá-lo de sua desgraça palpável! Se assim o fizéssemos, aprisionaríamos pela segunda vez o sujeito, reiterando seu apagamento opressivo: pobre no bolso, pobre também agora na alma que não poderia pagar subjetivamente por um lugar simbólico no mundo. Mas, então, qual nova cena analítica? E Freud apresenta sua suspeita de que talvez a clínica social levaria o analista a deixar de lado seu ouro psicanalítico e passar ao cobre da sugestão – ao seja, passar a usar mais os instrumentos técnicos menos nobres da psicanálise. Como interpretar essa suspeita freudiana?

Imagino uma esfinge reluzente de ouro em silêncio imóvel e enigmático pousando na horta da Maloca e … transformando-se em espantalho: a queda do Glanz auf der Nase, do véu/fetiche por trás do qual se desenhava a presença de um falo, aquele mesmo brilho de Agatão que convocava à transferência. A cena burguesa de “o meu analista” ou de “o corte lacaniano do meu analista”, desses objetos privados pagos para serem ditos “meu”, desmancha. Freud, quase como em um chiste, parece confessar aqui que o analista, passando à clínica social, perderia justamente seu reluzente valor de mercadoria, precisando então rever-se fora das regras áureas de mercado no qual antes respaldava a venda de seu árduo e não menos sedutor trabalho privado. Que sobre o perigo da perda desse brilho de produto preso à lógica ofuscante dos valores garantidos por instituições mercantis nos conte a redescoberta somente agora da história das clínicas sociais de psicanálise contemporâneas a Freud!

Enfim, na clínica social a psicanálise não poderia continuar a trabalhar como ouro comprado por quem o tem. Mas ela não poderia continuar a desempenhar aí um certo valor no mercado, agora como um cobre doado altruisticamente e filantropicamente aos pobres? Ora, se a Maloca é desocupação da lógica do capital em nome de uma outra lógica que não é mais determinada pelo vil metal do venal, aí também a cena analítica se comprometeria com a desocupação do que a constitui como trabalho de um analista identificado à propriedade privada e precificável de sua formação acumulada segundo as leis do mercado: não haveria, então, nessa nova cena clínica a propriedade nem de ouro, nem de cobre, pois aí trabalha-se para que justamente o trabalho do metal cesse de trabalhar em nós. Reencontrando em si a palha do ninho onde por ócio se canta, descansa o espantalho, já não mais ocupado em representar a cena do patrão no mercado.

A política desapropriadora da Maloca atua uma desocupação e uma reocupação que radicalizariam no trabalho analítico o desterramento, o não pertencimento e a ausência de posse solicitados pelo imperativo Wo Es war, soll Ich werden?[iv] Continuando a traficar esse imperativo como se fosse uma propriedade privada, a psicanálise não se realizaria apenas como simulacro triste e burguês de sua mais revolucionária verdade? Se sim, a clínica na Maloca seria não lugar onde a psicanálise se faz benevolente com o mundo, mas sim onde a prática de um mundo não mais privativamente precificado fará bem para o mal-estar da própria psicanálise.[v]


[i] https://artemalocacultura.wordpress.com/

[ii] A conferir a importância dada a esse texto no livro As clínicas públicas de Freud de Elizabeth Ann Danto publicado em 2019 pela editora Perspectiva.

[iii] Qualquer estudo sobre as origens da palavra trabalho aponta para o valor negativo desse – ao mesmo tempo em que “ócio” indicaria originalmente um estado de bem-estar negativado justamente em “negócio”. Portanto, a valoração do trabalho é tardia e associada ao momento no qual não apenas o escravo é convocado a fazê-lo, mas também o homem livre.

[iv] “Onde estava Isso, Eu deve advir”.

[v] Supondo que o mal-estar que a psicanálise compartilha com nosso sistema de produção capitalista poderia ser superado justamente por um trabalho que não será mais sinônimo de esforço para ganhar os ouros ou cobres da sobrevivência, mas sim afim ao cuidado sustentado pela partilha do comum.

*Psicanalista atuando na ocupação Maloca – Arte e Cultura com o Coletivo Clínica Social Pulso (https://www.facebook.com/pulsoclinicasocial).

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