“SURVIVAL PENDING REVOLUTION”: Crise Brasileira e a Questão da Organização

Por Felix Maximiliano da Silva.

A organização ideal para os tempos que virão funcionaria meio como uma sanfona: abre e fecha, distende e comprime conforme a conjuntura. Tal organização tem militantes versáteis e disciplinados(as) o bastante para operarem sob fogo em qualquer uma das duas formações organizativas, passando de uma para a outra com tranquilidade e adaptando a realização de tarefas já iniciadas para cada momento organizativo.


Quaisquer dos cenários que pudermos desenhar sobre o desenrolar da crise política no país, uma coisa é certa: as condições de ação para o-que-se-chama-esquerda-hoje serão bem mais pegadas, difíceis, perigosas mesmo.

As coisas tendem a ficar ainda piores do que já estão. Tá certo: se piorar, vai descer a ladeira de boa, nada de novo pra nós, da trocação. Faz parte de ser esquerda segurar esses trancos.

O que me preocupa é a organização política que será capaz de fazer frente a esses desafios que virão.

Confesso que, meio como Frantz Fanon, quando ouço a expressão “pós-modernismo”, já levo a mão à faca de mato, ou pelo menos me certifico de que ela está aqui. Para além do lero-lero ultrateórico, essa imensa fragmentação e pulverização teórico-prática (“multitudinária”? “Ultra-horizontalista”?) que a esquerda hypada, preocupada principalmente com a vermelhidão do próprio umbigo, usa como base para a sua (in)ação política gera efeitos concretos e catastróficos.

Sim, quando leio as sorridentes e esperançosas palavras dos ultralibertários cirandeiros fofíssimos de plantão, vejo, pelo canto do olho, corpos batidos por foice e facão ou rasgados de bala, de militantes pela reforma agrária ou pela defesa do meio ambiente ou das populações originárias, na zona rural brasileira; vejo algumas balas na cabeça de uma militante socialista na noite do Rio de Janeiro sob intervenção militar; vejo Berta Cáceres executada dentro de sua própria casa, em Honduras. Vejo a montanha de corpos pretos e pobres que nossas polícias e o caos civilizatório burguês produzem.

Com a direita e, em especial, a extrema-direita reforçadas política, cultural e midiaticamente, uma esquerda frouxa estratégica, operacional e taticamente, zanzando no meio da rua em um ou outro protesto ou lançada meio que barata voa pela cidade tentando fazer trabalho de base, é comida pra fascista no almoço.

Penso que uma organização ideal para os nossos tempos teria que abraçar o melhor de todos os mundos: centralismo democrático (buscando com afinco o consenso entre uma militância amplamente bem formada e que se posiciona abertamente na disputa) para tempos de paz e para momentos onde alguma segurança mais estrita, alguma contrainteligência mais apurada é bacana (como hoje, onde a polarização política, ainda que episodicamente violenta, ainda não descambou em batalha campal e onde as forças de segurança, ainda que infiltrando geral, ainda não estão lançando geral na tranca); e verticalização/militarização temporária, com hierarquia e disciplina rígidas, em tempos de cerco e de repressão claras (assim reconhecido e declarado pela ampla maioria da militância de uma dada organização).

A organização ideal para os tempos que virão funcionaria meio como uma sanfona: abre e fecha, distende e comprime conforme a conjuntura. Tal organização tem militantes versáteis e disciplinados(as) o bastante para operarem sob fogo em qualquer uma das duas formações organizativas, passando de uma para a outra com tranquilidade e adaptando a realização de tarefas já iniciadas para cada momento organizativo. A organização deve ter pessoal destacado não só para fazer o trabalho com mulheres, negros(as), LGBTQI+, trabalhadores(as) precarizados(as), sem tetos, sem terras; deve ter pessoal destacado também para, em caso de cerco, comandar pequenas unidades preparadas tecnicamente para a realização de tarefas específicas: operações psicológicas (com direito a uso de mídia “armatizada” (“weaponized media”), ações ditas “de comandos” e/ou de enfrentamento irregular e/ou de “swarming” (“modo de enxame”, como proposto por John Arquilla e David Ronfeldt) adaptado a enfrentamento assimétrico, planejamento e execução de “operações de guerra não-militares” (como proposto por Qiao Liang e Wang Xiangsui em “Unrestricted Warfare”) – com a transformação da totalidade do terrritório nacional em retaguarda do inimigo a ser enfrentado, com o avanço da bandeira de uma luta de libertação nacional contra os inimigos do povo brasileiro etc. Se é que me entendem, nestas meias palavras possíveis para um texto de circulação aberta.

Mas isso são só pensamentos altos iniciais, na esperança de ajudar a abrir um campo de debate importante. Precisamos pensar juntos e juntas o que deve ser feito operativamente, hoje, amanhã e depois de amanhã.

De textos-de-luta, cheio que exortações grandiosas e inspiradas, de análises de fôlego, estamos bem servidos(as).
Precisamos pensar seriamente o mais baixo e tedioso, o dia a dia, a dimensão operativa da luta. Precisamos, como os Panteras Negras pregavam, estar vivos e vivas até que chegue a Revolução.


PS: um ponto cego terrível hoje nas organizações de esquerda é o domínio dos saberes militares, em especial da estratégia militar e dos preceitos da guerra irregular/assimétrica, a serem utilizados tanto em enfrentamentos quanto no jogo político cotidiano. Precisamos ainda estudar contrainsurgência e fazermos a “engenharia reversa” desses
saberes (para nos capacitarmos a uma “contra-contrainsurgência”). Precisamos voltar a estes estudos, que hoje nos são mais importantes do que muita coisa que gente boa vem estudando por aí. Alguns nomes para o pessoal correr atrás: Mao Zedong (certamente o maior estrategista militar da história da esquerda revolucionária, algo reconhecido inclusive pelo militarismo imperialista, que o estuda avidamente em suas academias castrenses até hoje), Che Guevara, Jorge Verstrynge Rojas, Alessandro Visacro, Friedrich August von der Heydte, Bevin Alexander, André Beaufre, David Galula, Roger Trinquier, Basil Henry Liddell Hart, Qiao Liang e Wang Xiangsui. Confiram também os manuais das forças armadas estrangeiras e brasileiras sobre unconventional warfare/guerra não convencional, counterinsurgency/contrainsurgência, psychological operations-warfare/ operações-guerra psicológica(s) – uma pesquisa na internet (feita por VPN, é claro!) faz estes materiais surgirem facilmente. Sun Tzu e Clausewitz, por mais importantes que sejam, não nos são suficientes mais. As condições para a luta militar (cada vez mais indistinta da luta política) se transformaram radicalmente ao longo do século XX – é o que especialistas na área chamam de “Revolução em Assuntos Militares”. A gente se apropriar desses saberes é de uma urgência extrema.

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no pocket

Deixe um comentário