Hic Rhodus, hic saltus! Ou: desfazendo algumas confusões.

Por Marxists.org, traduzido por Nara Castro 

“Hic Rhodus, hic saltus”: Do latim, comumente traduzido como: “Rhodes é aqui, é aqui que você salta!” 

A máxima bem conhecida, mas pouco compreendida, origina-se da tradução latina tradicional da moral da fábula de Esopo, O Fanfarrão, que tem sido objeto de traduções incorretas.

No original, em grego, lê-se:

“Ιδού η ρόδος,

ιδού και το πήδημα”

Na fábula um atleta se gaba de que, em Rodes, realizara um salto estupendo e que havia testemunhas que poderiam comprovar sua história. Um espectador então comenta: “Tudo bem! Digamos que aqui seja Rodes, demonstre o salto aqui e agora”. A fábula ensina que as pessoas devem ser reconhecidas por seus atos, não por suas próprias reivindicações. No contexto em que Hegel a utiliza, poderia significar que a filosofia do direito deve tratar da realidade da sociedade moderna (“O que é racional é real; o que é real é racional“), não das teorias e ideais que as sociedades criam para si mesmas, ou algum ideal contraposto às condições existentes: “A tarefa da filosofia é apreender o que é”, como acrescenta Hegel, e não “ensinar ao mundo o que ele deve ser”.

O epigrama é citado por Hegel no Prefácio à Filosofia do Direito primeiramente em grego, depois em latim (na forma “Hic Rhodus, hic saltus”), ao que ele acrescenta: “Com poucas mudanças, o ditado acima seria lido (em alemão) como: “Hier ist die Rose, hier tanze”:

“Aqui é a Rosa, dance aqui”

Essa é considerada uma alusão à “rosa na cruz” dos Rosacruzes (que afirmavam possuir conhecimento esotérico com o qual poderiam transformar a vida social), sugerindo que o material para compreender e mudar a sociedade está na própria sociedade, não em alguma teoria de outro mundo. Em tal alusão, Hegel estaria fazendo trocadilhos primeiro com o grego (Rhodos = Rhodes, rhodon = rosa), depois com o latim (saltus = salto [substantivo], salta = dance [imperativo]).

Em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx cita a máxima, primeiramente em latim, na forma:

“Hic Rhodus, hic salta!”,

– numa mistura distorcida das duas versões de Hegel (salta = dance! em vez de saltus = salto). Em seguida, acrescenta: “Hier ist die Rose, hier tanze!”, como se fosse uma tradução, o que não pode ser, uma vez que nem a forma grega Rhodos, e muito menos a latina Rhodus, significam “rosa”. Marx, porém, parece ter mantido o significado dado por Hegel, conforme utilizado na observação de que, intimidadas pela enormidade de sua tarefa, as pessoas não agem até que:

“se crie uma situação que torne impossível qualquer retorno,

e as próprias condições clamem: Aqui é a rosa, dance aqui!”

que nos remete a máxima de Marx no Prefácio à Crítica da Economia Política:

“A humanidade, portanto, inevitavelmente impõe a si mesma apenas as tarefas que é capaz de realizar, pois um exame mais atento sempre mostrará que o próprio problema surge somente quando as condições materiais para sua solução já existem ou estão, pelo menos, em processo de formação!”

Portanto, Marx evidentemente endossa o conselho de Hegel de que não devemos “ensinar ao mundo o que ele deve ser”, mas, ao concluir o Prefácio, oferece uma interpretação mais ativa do que a de Hegel quando observa que:

“Para tal propósito, a filosofia sempre chega tarde demais […]

A coruja de Minerva só alça voo com a chegada do crepúsculo”

No capítulo 5 de O Capital Marx também utiliza a frase – com salta em vez de saltus, mas com um significado mais próximo daquele pretendido por Esopo. 

Agradecimentos a Isaiah Berlin Virtual Library

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no pocket

Deixe um comentário