Ação direta: agitação performática ou tática revolucionária?

Por Matheus Miranda

No último ato de rua pelo Fora Bolsonaro (3J), autonomistas quebraram vidraças de estabelecimentos privados, pontos de ônibus e tapumes de obra, inclusive assustando um trabalhador que estava em seu turno de segurança em um dos terrenos. Deixo claro aqui: não tenho pena de vidraça e de patrimônio privado. Querem quebrar coisas e chamar de ação direta? Quebrem. Não é esse o tema central da discussão, cada organização, grupo de pessoas, adota as táticas que acha mais coerente e depois lida com as consequências, colhe os frutos disso. Sejam bons ou ruins. Só vale lembrar aqui que as empresas têm seguro para essas coisas que foram quebradas e que o prejuízo para eles é de quase zero. Sigamos. 

O que quero tratar aqui é da conduta das pessoas que estavam ali naquelas ações. São em maioria jovens ativistas que rejeitam a organização coletiva, rejeitam os espaços de construção do Poder Popular, da democracia popular, deliberam por conta própria quais serão as táticas utilizadas nos atos e outros espaços, e depois querem ser reconhecidos como representantes legítimos do povo. Esse é o primeiro ponto. As ações desses grupos não ajudam em nada na construção da consciência coletiva, da consciência de classe contra os exploradores do povo. E ainda por cima dá munição às forças de repressão do Estado para atacar os manifestantes e à mídia para criminalizar as manifestações e tornar nosso trabalho muito mais difícil. 

Lenin, em sua obra “Que Fazer?” de 1902, comenta sobre as dificuldades do movimento revolucionário de realizar um trabalho constante na sociedade russa da época por causa da criminalização e das seguidas prisões dos militantes e do desmonte das estruturas de jornais populares e da organização dos trabalhadores, no geral. Esse texto segue atual, pois não é como se a polícia precisasse de motivos para reprimir e prender, mas com “ação direta” desordenada e sem propósito para além de si, eles passam a ter motivos concretos, e se aproveitam disso para criminalizar todos os manifestantes de esquerda presentes. Devemos nos lembrar que agora estamos tendo que lidar com a presença desse ou daquele grupo de direita nos atos, e que esse tipo de ação fortalece a despolitização dos atos e incentiva o bloco burguês a disputá-los conosco, pois agora tem a mídia com argumentos ao seu favor. No que nos toca, tivemos no ato de sábado a prisão de alguns integrantes do dito “bloco combativo”, entre eles, Matheus Machado, que segue preso por falsas alegações de violência contra um segurança da linha amarela do metrô e de furto de seu capacete. É inquestionável a urgência de exigirmos a soltura do companheiro preso injustamente, mas que sirva de lição para todos nós o que pode acontecer quando nos expomos demais em nossas redes sociais. Eu mesmo conversei algumas vezes com esse companheiro sobre o quão impróprio é o uso que faz de suas redes, e muitos outros camaradas fizeram o mesmo. Ficou claro em sua detenção que os policiais o conheciam, fizeram questão de prendê-lo e ainda disseram que sua prisão era “questão de honra”. Não somos Marighella, Fidel, Angela Davis. Não temos (ainda) milhões ao nosso lado e organizações com verba e estrutura para fazer nossa defesa em corte e agitar a opinião pública massivamente por nossa liberdade. Não lutamos para sermos mártires, lutamos para sermos LIVRES DE TODA EXPLORAÇÃO. Liberdade para Matheus JÁ! Mas sem heroísmo, saudosismo e fetiche derrotista por mártires.

O segundo ponto é: são pessoas que não entendem o critério para o sacrifício. Estamos em luta contra a exploração capitalista, contra toda forma de opressão, contra o imperialismo e o massacre do nosso povo, e devemos lutar sem medo de sacrifício. Mas sacrifício é quando você se entrega, se prejudica individualmente, põe a cara a tapa, por uma conquista coletiva infinitamente maior do que você ou sua dor ou o perigo que correu. Sacrifício é se colocar à serviço do coletivo por um objetivo CONCRETO. Quebrar coisas e sair correndo NÃO É SACRIFÍCIO, é molecagem pseudo-revolucionária, é manifestação da cultura pequeno-burguesa do individualismo e do heroísmo estético que se inculca nas mentes da nossa juventude a partir dos aparelhos de hegemonia cultural (cinema, televisão, etc.). É sintoma do isolamento ao qual estamos submetidos desde muito antes da pandemia, que nos sequestra pelas telas dos celulares, computadores e videogames, que inunda nossas mentes a partir de programas policialescos de TV e da disseminação do medo entre nós. O medo é um afeto isolante, nos faz esquecer que não estamos sozinhos. 

Mas nossos amigos autonomistas, bem no fundo, sabem que não estão sozinhos. Pois no sábado (03/07), quando começou a reação policial às ações do bloco combativo, os indivíduos que estavam participando da “ação direta” se abrigaram justamente no bloco do PCB – diga-se de passagem, o bloco com a melhor organização e esquema de segurança de todos os atos, até agora – para se misturarem às mais de 900 pessoas que se encontravam ali, blocadas, em fileiras e protegidas pelo cordão humano dos camaradas da comissão de segurança (esses, sim, prontos para se sacrificarem em nome da segurança coletiva do bloco e de todos que nele estavam). Me recuso a entrar nas falsas polêmicas daqueles que gritaram contra o PCB momentos antes da repressão. Esse grupo não é digno de atenção, estava desde o princípio das ações diretas buscando criar animosidade entre seu bloco e o bloco do PCB, inclusive tendo um integrante seu entrando em nosso bloco para nos provocar. Portanto, não discutirei aqui motivos de entrarem no bloco do PCB durante a repressão, senão o instinto de autoproteção e de buscarem segurança dentro da coletividade, assim mantemos o debate dentro das linhas da honestidade e fora da especulação e polemização sectária. 

A contradição do autonomismo é colocada em exposição justamente em momentos como esse, em que essas pessoas estão no auge da realização de seus fetiches pequeno-burgueses e se deparam com a realidade concreta, com a repressão estatal e com o risco de vida, e de imediato buscam segurança no coletivo, abandonando seus princípios autonomistas sem pensar duas vezes. Aí não tem autoritarismo, horizontalismo, nada disso. É a bala ou o bloco. É gritante a vacilação desses indivíduos diante do poder concreto, da repressão policial, do poder organizativo de um bloco bem construído. Se colocam contra a repressão estatal, se dizendo heróis, marginais, pessoas “terrivelmente revolucionárias”, como diria Lenin. Ao mesmo tempo que se colocam contra o PCB e outros partidos, se prostrando como os únicos revolucionários de fato, as pessoas que têm coragem, que não se entregam nem se vendem à ninguém. Mas na primeira bomba da polícia, foram se esconder no bloco dos “eleitoreiros”, “revisionistas” e “pacifistas”. Destruíram um tapume de obras e atearam fogo no entulho dentro do terreno. Se são revolucionários e estavam fazendo “ação direta”, por que não tomaram o terreno para si, não fizeram uma formação de defesa nos limites do terreno e o defenderam da reação estatal? O objetivo não é a tomada do poder? Pois então que fizessem como foi feito em Seattle ano passado, que cercassem o perímetro com seus mais bravos companheiros e proclamassem a “Zona Livre da Rua Consolação”. Mas não foi o que ocorreu, buscaram proteção no PCBloco, para depois se

aproximarem do metrô e se engajarem em um conflito sem sentido com os seguranças da linha amarela, gerando uma situação de caos em que alguns integrantes do bloco foram furtados e muitos outros quase foram atropelados por um carro de som que trocou rispidamente de faixa após ser atacado pelos mesmos autonomistas. Não entrarei na polêmica desse carro de som, que também errou do começo ao fim. 

Terceiro ponto: precisamos demarcar bem a diferença entre ação direta como recurso estético e ação direta como tática revolucionária. A primeira forma elencada é a que se enquadra na atuação de nossos amigos do bloco combativo. Como já disse, por se tratarem de integrantes de uma pequena-burguesia culta, letrada e por vezes bem versada em teoria, mas muito distante (na sua grande maioria, salvo exceções) da prática cotidiana e do trabalho de base, se utiliza da chamada ação direta como recurso estético, como agitação e propaganda. Fazem isso por rechaçarem a organização, por não aceitarem o verdadeiro sacrifício do militante de aprender errando, dentro do centralismo democrático, em oposição à uma militância que é mais ativismo do que militância, orientada pelo calor das vontades e sonhos dos indivíduos. Nesses espaços se ganha no grito, se organiza no susto e não existe uma coletividade de fato, apenas na aparência, o que inclusive justifica a busca por um ente coletivo que lhes dê segurança quando o bicho pega com a polícia. Seu bloco não está preparado para o confronto, não compreende o que é recuo tático, formação, movimentação coordenada, em bloco. Sequer possui uma comissão de segurança própria. Todos “fazem” a segurança, todos “agitam”, todos “propagandeiam”. Mas sabemos desde os primórdios da organização da luta proletária que cachorro com muito dono acaba por morrer de fome. 

Não poderia ser diferente com a organização da ação direta. Essas pessoas compreendem que ação direta é qualquer ato de violência contra o patrimônio público ou privado em qualquer ato de rua, a qualquer momento. Muito diferente da ação direta como tática revolucionária, essa do ato de sábado serviu para atrair a atenção da polícia para nós, e não como tática diversionista, de distrair as forças de repressão para a execução de um recuo tático por parte dos trabalhadores diante de um avanço da repressão. Até porque, até então, não havia repressão! Fica muito clara a desorientação de nossos amigos quanto ao propósito da ação direta, pois uma tática que deveria servir à nós vem servindo ao inimigo. Seja à mídia burguesa oportunista em sua campanha pela infiltração direitista nos atos, seja aos cães raivosos da tropa de choque, que se não fosse por outro oportunista, o governador João Dória, estariam todo ato na rua nos violentando,e que amam de paixão quando nos colocamos a praticar “ação direta”, pois assim eles podem dizer que têm motivo para avançar contra nós, seja aos verdadeiros oportunistas eleitoreiros da esquerda autorizada, limpinha, que sempre que vêem a ação dos autonomistas, se prontificam a soar o apito da matilha de choque do alto de seus carros som (e que os autonomistas em questão raramente denunciam, pois costumam estar ocupados denunciando o PCB por seja lá qual for o pseudo-fato da vez). A tática não deve nos servir para extravasar sentimentos vazios de revolta e apenas quebrar algumas coisas e atear fogo em outras. A tática é o movimento que fazemos para pegar o inimigo de calça curta, e não para que nós sejamos pegos assim. Barricada se faz diante de um inimigo que está na sua frente, e não quando se está cercado. E é sempre bom lembrar que panfletagem no transporte público também é ação direta, que entrega de cestas básicas também é ação direta, que fazer ocupação e lutar por ela também é ação direta, e todas essas, infinitamente mais radicais do que pôr fogo em entulho e chamar isso de barricada, ainda facilitando para a polícia na prisão de um companheiro de luta.

Sejamos heróis, mas, acima de tudo, sejamos inteligentes e dedicados em nossa construção, sejamos abnegados de todo e qualquer princípio individualista que nos jogue para o heroísmo vazio dos filmes de ação hollywoodianos, sejamos impecáveis na assimilação da teoria revolucionária para que nossa prática nas ruas seja ainda mais impecável, para que quando for o momento da verdadeira ação direta, – das verdadeiras barricadas e bloqueios – o povo olhe para nós e veja em nós não a expressão de uma sociedade adoecida por fetiches com violência, derrota e heroísmo, mas verdadeiros defensores da causa proletária, os mais fiéis soldados do povo, que não pensam duas vezes na hora de fazer sacrifícios necessários, mas que também possuem o discernimento para reconhecê-los e diferenciá-los de sacrifícios que na primeira curva da estrada se provam em vão. Ser herói só pode significar uma coisa para nós: não tolerar o heroísmo individualista, se opondo a ele por meio da organização e do trabalho coletivo, fazendo do povo o seu próprio herói.


Nota do editor: Nunca é demais lembrar que essa teoria do “terrorismo excitativo” é tão velha quanto a crise do velho terrorismo revolucionário, cujas ações visavam não agitar as massas, mas efetivamente debilitar os poderes estabelecidos. Com a palavra, Lênin:  

“Todas as discussões e divergências ulteriores entre os sociais-democratas russos estão contidas, como a planta na semente, nessas duas perspectivas. A partir daí concebe-se que o Rabótcheie Dielo não tenha resistido à espontaneidade do “economicismo”, nem tenha podido resistir à espontaneidade do terrorismo. É interessante notar a argumentação original com que a Svoboda apoia o terrorismo. Nega completamente o papel de intimidação do terror (Renascimento do Revolucionismo, p. 64); mas por outro lado valoriza seu “caráter excitativo”. Isto é característico, em primeiro lugar, como uma das fases da desagregação e da decadência desse círculo tradicional de ideias (pré-social-democrata) que fazia com que se mantivesse a ligação com o terrorismo. Admitir que agora é impossível “intimidar” e, por conseguinte, desorganizar o governo através do terrorismo, significa, no fundo, condenar completamente o terrorismo como método de luta, como esfera de atividade consagrada por um programa.

Em segundo lugar, o que ainda é mais característico, como exemplo de incompreensão de nossas tarefas prementes no que diz respeito a “educação da atividade revolucionária das massas”. A Svoboda prega o terrorismo como meio de “excitar” o movimento operário, de imprimir-lhe impulso vigoroso. Seria difícil imaginar uma argumentação que se refutasse a si própria com mais evidência! Pergunta-se: haveria, portanto, tão poucos fatos escandalosos na vida russa para ser preciso inventar meios especiais de “excitação”? Por outro lado, é evidente que aqueles que não se excitam, nem são excitáveis mesmo pela arbitrariedade russa, observarão da mesma forma, “cruzando os braços”, o duelo do governo com um punhado de terroristas. Ora, exatamente as massas operárias estão bastante excitadas pelas infâmias da vida russa, mas não sabemos recolher, se é possível falar assim, e concentrar todas as gotas e os pequenos córregos da efervescência popular, que a vida russa verte em quantidade infinitamente maior do que imaginamos ou acreditamos, e que é preciso reunir em uma única torrente gigantesca. Que isso é realizável, prova-o incontestavelmente o impulso prodigioso do movimento operário e a sede, já assinalada anteriormente, que os operários manifestam pela literatura política. Por isso, os apelos ao terrorismo, bem como, os apelos para conferir à própria luta econômica um caráter político, são apenas pretextos diferentes para se fugir ao dever mais imperioso dos revolucionários russos: organizar a agitação política sob todas as suas formas. A Svoboda quer substituir a agitação pelo terrorismo, reconhecendo abertamente que “desde que uma agitação enérgica e intensa atraia as massas, o papel excitativo do terror terá fim” (p. 68 do Renascimento do Revolucionismo). Isto mostra precisamente que terroristas e “economicistas” subestimam a atividade revolucionária das massas, a despeito do testemunho evidente dos acontecimentos da primavera(. Uns lançam-se à procura de “excitantes” artificiais, outros falam de “reivindicações concretas”. Tanto uns como outros não prestam atenção suficiente ao desenvolvimento de sua própria atividade em matéria de agitação política e de organização de revelações políticas. E não há nada que possa substituir isso, nem agora, nem em qualquer outro momento.”

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