Konfortáveis com a Klan

Por Michael Parenti. Traduzido por Eros Viana via Michael Parenti political archive, via michaelparenti.org 

Michael Parenti é um ativista estadunidense da mais alta monta que se pode pensar e, infelizmente, pouco conhecido no Brasil. Como orador público é capaz de fazer discursos eloquentes com ampla utilização de dados estatísticos, conhecimento histórico, social e econômico e que ao mesmo tempo tocam profundamente aqueles que ouvem seus discursos de tal forma. É impossível esquecer, depois de ter ouvido seus discursos célebres, frases como “Meu apoio vai à revolução que alimenta crianças” e “O terceiro mundo não é pobre, ele é super-explorado”. Parenti mistura a capacidade de um orador de massas em melhor estilo de agitação com um sofisticado e acadêmico intelectual, mas sua maior ocupação é a análise de mídia e de ideologia.

A análise de mídia de Michael Parenti está presente em seus clássicos mais conhecidos como Blackshirts and Reds: Rational Fascism and the Overthrow of Communism (“Os Camisas-negras e os Vermelhos: Fascismo Racional e a Derrubada do Comunismo”), Superpatriotism (“Superpatriotismo”) e seu livro que debate análise de mídia como ponto focal em uma verdadeira aula metodológica sobre mídia e influência de massas, comparável às grandes obras sobre mídia como História da Imprensa no Brasil de Nelson Werneck Sodré e Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media de Herman e Chomsky, Inventing Reality: The Politics of News Media (“Inventando a Realidade: A política das Mídias de Notícia”). Neste breve escrito de Parenti ele demonstra exatamente toda a sua capacidade de, em palavras retas e claras sem rebuscadas academicistas mirabolantes, como a mídia estadunidense presta serviço essencial para supremacistas brancos. A análise de Parenti, infelizmente, a escória mencionada, David Duke, continua sendo uma personalidade comum de ser vista ou mencionada, inclusive ganhando atenção da mídia em 2016 novamente. 

Suas reflexões continuam atuais não só se pensarmos em matéria de exposição midiática gratuita, mas se analisarmos o fim de dois grupos opostos: a KKK e os Panteras Negras. A KKK nunca sofreu a repressão brutal que o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa sofreu. Fred Hampton foi assassinado após ser dopado em uma brutal execução a sangue frio. David Duke concorre (E, em 1989, foi eleito) sem grandes problemas. Como Parenti afirma no breve artigo: a KKK pode ser muita coisa, mas ela tem duas qualidades fundamentais que a fazem importantes aliadas dos governos dos EUA, seu anticomunismo virulento e sua defesa do status quo capitalista tão forte quanto.


Konfortáveis com a Klan

A mídia convencional minimiza ou ignora as muitas demonstrações que forças progressistas lançaram contra a guerra e a injustiça social. Mas nem toda demonstração é minimizada. Desde o começo da década de 1970, quando a imprensa começou a anunciar que o país estava com um “clima conservador”, a Ku Klux Klan tem sido recepcionada com generosa cobertura. Artigos longos e não totalmente sem compaixão têm aparecido no New York Times, Washington Post, Associated Press, Time, Newsweek e praticamente em todas outras publicações. Líderes da Klan, skinheads, e outros disseminadores de discurso de ódio têm aparecido em quase todo talk show de televisão nacional e local. De fato, a Klan e a mídia parecem entrelaçados em um aconchegante abraço. A mídia também exibe parcialidade com candidatos políticos de extrema direita. O nazista membro da Klan David Duke recebeu mais atenção da mídia nacional concorrendo por um assento na legislação do estado da Louisiana do que obteve o socialista Bernard Sanders concorrendo para o Congresso dos EUA em Vermont que venceu. Da mesma forma, os candidatos presidenciais de direita Pat Buchanan e Ross Perot receberam imediatamente uma generosa atenção midiática após anunciar suas intenções de concorrer, enquanto o senador progressista Tom Harkin permaneceu invisível e largamente não-mencionado desde o dia 1 de sua campanha. A mídia corporativa tem um ponto fraco por direitistas e por disseminadores de discurso de ódio como a KKK. 

Nós queremos que a mídia ignore ou acoberte a Klan? A pergunta é mal feita. Nós certamente queremos que as pessoas sejam informadas sobre a ameaça representadas por grupos de ódio como a KKK e o Partido Nazista Americano, mas nós também não queremos que a mídia se torne em uma arma de promoção para fascistas e racistas. Então a pergunta não é quanto tempo de cobertura, mas sim o tipo de cobertura. Aqui estão algumas críticas específicas:

1. A mídia regularmente falha em reportar as piores características da Klan, dizendo quase nada de profundidade sobre seu racismo, fascismo, anticomunismo e antissemitismo e quase nada sobre seu histórico de violência, incêndios, terrorismo, assassinatos e linchamentos. Algumas destas histórias não de um passado distante: nos últimos quinze anos pelo menos nove pessoas foram assassinadas nas mãos de membros da Klan, enquanto outras várias foram assediadas, intimidadas ou feridas.

2. A mídia dá generosa atenção para a Klan e Nazistas, deste modo acabando por magnificar sua visibilidade e exagerando sua força e importância. Dez manifestantes marchando por alguma causa progressista não ganharia a atenção da mídia nacional, mas agrupamentos da Klan e de Nazistas deste tamanho têm sido tratados como grandes notícias. Quando a Klan realizou um muito publicado comício logo perto de Washington, D.C. em Montgomery County, Maryland, numerando em vinte e quatro indivíduos em mantos, 140 pessoas da mídia estavam lá para transmitir o evento para audiências nacionais. O Nashville Tennessean uma vez lançou uma série de nove partes sobre a Klan. A série mencionava que a KKK tinha “um potencial perigoso para violência e terror”, mas nunca elucidava a natureza deste potencial nem mencionava nenhum ato específico. Contudo, de fato ofereceu uma amostra generosa das opiniões racistas da Klan. O serviço de notícias da Gannett Company rapidamente lançou a história nos fios e todas as três grandes redes a reportaram. Como resultado, o “Imperial Wizard” da Klan, que gostou dos artigos, começou a receber cartas perguntando a ele como poderiam se juntar a ele. (O Tennessean tinha convenientemente publicado seu endereço).

3. A mídia minimiza os manifestantes anti-Klan cujos números são em muitas vezes maiores do que os participantes da KKK. A afirmação política que os manifestantes anti-Klan fazem em nome da justiça social e contra o racismo é usualmente ignorada pela mídia. O público é deixado a concluir que eles são apenas hecklers procurando uma briga. Andy Stapp, um ativista que é parte do Workers World Party, oferece algumas instâncias de dois pesos e duas medidas nas reportagens:

  • Manifestantes anti-Klan tinham números superiores de dez manifestantes para cada fascistas no comício da KKK em Connecticut, mas a CBS, ABC e a NBC todas focaram suas câmeras na Klan.
  • Cinquenta membros da Klan fazendo uma parada de Selma a Montgomeryganharam atenção nacional enquanto 500 [lutadores de direitos civis] marchando contra o racismo (67 dos quais foram presos) de Savannah à prisão em Reidsville na mesma semana foram virtualmente censuradas para fora das notícias.
  • Dez terroristas da KKK armados ganham um artigo de seis colunas e uma grande imagem no New York Times, o mesmo jornal que não imprimiu uma palavra das 350.000 pessoas negras e brancas que se manifestaram juntos [por direitos civis e ações afirmativas] em Washington, DC, a capital dos EUA.
  1. A mídia não tem palavras rudes sobre como a polícia e os agentes do governo colaboram com a Klan e com os Nazistas, assim como quando a polícia ataca manifestantes anti-Klans, e agentes disfarçados — que supostamente infiltram-se na KKK para manter um olho nela — acabam fazendo um papel organizativo importante. Uma investigação revelou que a maioria das seções locais da Klan em certas partes do Sul estavam sendo organizados e financiados pelo FBI. De volta a novembro de 1979, um grupo de membros da Klan e Nazistas assassinaram cinco líderes do Communist Workers Party e feririam outros nove em um comício anti-Klan em Greensboro, Carolina do Norte. O papel feito pelos agentes disfarçados em organizar e armar os terroristas de Greensboro permanece uma história muito negligenciada pelas grandes mídias de notícias.

A mídia geralmente rotula comunistas e socialistas como a “extrema esquerda” e iguala eles aos Nazistas e membros da Klan de extrema direita — que é equivalente a comparar aqueles que se opõe ao racismo, antissemitismo e aos ataques aos sindicatos com aqueles que apoiam tais coisas. Os “extremistas” de esquerda, porém, não recebem a generosa exposição da mídia que eles têm com a Klan. Então, por anos, Charlene Mitchell e Angela Davis lideraram uma organização multirracial conhecida como a National Alliance Against Racism and Political Repression (Aliança Nacional Contra o Racismo e Repressão Política). Mas a maior parte das pessoas, incluindo muitos na esquerda, nunca ouviram de tal organização mesmo que uma de suas lideranças fosse uma figura conhecida nacionalmente. Assim como outros grupos antirracistas o NAARPR sofreu de um caso severo de blackout da mídia. Lutar contra o racismo simplesmente não é notícia. Advogar por e praticar racismo é notícia.

Nazistas e membros da Klan são racistas e violentos, mas eles não são anticapitalistas — o que talvez explica o motivo que faz a imprensa corporativa tratá-los tão bem. De fato, através de grande parte de sua história a Klan funcionava como uma organização de quebra de sindicato [union-busting] — assim como o faziam os Nazistas na Alemanha no começo dos anos de 1930. Ambos o partido Nazista e a Klan são explicitamente anticomunistas e antissocialistas. Em uma manifestação em Springfield, Massachusetts a Klan distribuiu um panfleto denunciando o “Governo Negro Socialista Democrático do Povo” que afirmava estar conspirando para derrubar a “América Branca”. A Klan conjura ameaças imaginárias para explicar verdadeiros problemas sociais, tentando dividir pessoas sob linhas raciais ao transformar aflições econômicas legítimas em ódio por negros, judeus, sindicalistas [trade unionistas], comunistas, recebedores de programas de ações afirmativas, e defensores de ações afirmativas. David Duke está correto: sua agenda política não é tão diferente da de George Bush. 

A cobertura da mídia da Klan e da extrema direita em geral nos últimos vinte anos fez sua parte em manter as forças conservadores em um modo ascendente. A mídia dá máxima exposição para membros a Klan, Nazistas, skinheads, disseminadores de ódio, David Dukes, Pat Buchanans — todos que alargam a margem para a direita do discurso visível para os Georges Bushes. É claro, a mídia não vê desta forma. Eles acreditam que eles vão lá e conseguem a notícia. Se eles se juntassem na batalha contra o racismo, eles iriam, sob suas próprias visões, serem culpados de “jornalismo de advocacia”. Então, ao invés de expor grupos de ódio a mídia dá exposição à grupos de ódio. Isto é chamado de “objetividade”.

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