Informe sobre o fascismo

Por Amadeo Bordiga, via marxists.org, traduzido por Angelo Ardonde

[Foto: Amadeo Bordiga em 1929]

Quarto Congresso da Internacional Comunista. 16 de novembro de 1922.

Oradores: Bordiga, Šmeral, Pullman, Urbahns.

Reuniram-se às 12:20 da tarde.

Presidentes da Mesa: Kolarov, mais tarde Marchlewski.

Mesa: damos início a esta sessão do Congresso. Passo a palavra ao camarada Bordiga, para dar seu informe sobre o fascismo.

Bordiga: Prezados camaradas, lamento que as circunstâncias incomuns, que afetaram a comunicação entre nossa delegação e o partido, tenham-me impedido de ter acesso a todo o material de base sobre essa questão [1].

Há um informe escrito pelo camarada Togliatti, mas não o tenho aqui; na verdade, não tive a oportunidade de lê-lo.

Indico esse informe — que certamente chegará em breve, sendo traduzido e distribuído para vocês — aos camaradas que desejam informações pormenorizadas no que diz respeito aos dados estatísticos exatos.

Acabei de receber novas informações de um representante vindo da central do nosso partido, que acabou de voltar de Moscou na noite de ontem, informando-nos a respeito dos mais recentes ataques fascistas contra os camaradas italianos. Retomarei esse ponto na última parte do meu informe.

Dado o que o camarada Radek nos disse ontem em seu discurso sobre a reação do Partido Comunista ao fascismo, devo abordar também outro aspecto dessa questão.

Nosso camarada Radek criticou a postura do nosso partido frente aos fascistas, o que consiste hoje na questão política dominante na Itália. Ele criticou nossa posição — nossa suposta posição — a favor de um partido pequeno, como se nosso partido julgasse todas as questões unicamente pela perspectiva da sua organização e seu papel imediato, sem levar em conta as grandes questões políticas.

Como nosso tempo é curto, tentarei ser breve. No debate sobre a questão italiana e nossa relação com o Partido Socialista, devemos abordar também a situação inédita criada pelo fascismo na Itália. Permitam que eu passe diretamente ao meu informe, começando com as origens do movimento fascita.

O que se pode chamar de origem imediata e mais aparente do fascimo remonta aos anos 1914 e 1915, período que antecede a entrada da Itália na Guerra Mundial. Iniciou-se com grupos defensores dessa intervenção, incluindo representantes de diferentes correntes políticas.

Havia uma corrente de extrema direita que incluía Salandra, representando os donos da indústria pesada que tinham interesse na guerra. Na verdade, antes de entrarem na guerra ao lado da Entente, eles haviam favorecido a guerra contra a Entente.

Além disso, havia as correntes da burguesia de esquerda: radicais italianos, democratas da ala-esquerda e republicanos cuja tradição demandava a libertação de Trieste e Trento [2]. Ademais, o movimento intervencionista também envolvia alguns elementos do movimento proletário, como sindicalistas revolucionários e anarquistas. Este agrupamento também incluía um indivíduo de importância particular: Mussolini, líder da ala esquerda do Partido Socialista e diretor do Avanti.

De modo geral, a maioria dos grupos não participou do movimento fascista e foi reabsorvida pela política burguesa tradicional. Os que permaneceram no movimento fascista foram os grupos de extrema-direita, além de alguns esquerdistas: ex-anarquistas, ex-sindicalistas e ex-sindicalistas revolucionários. Em maio de 1915, o país foi arrastado à guerra contra a vontade da maioria da população, até mesmo a do parlamento, que não encontrou meios de resistir ao golpe político repentino. Foi uma grande vitória para esses grupos políticos. Porém, acabada a guerra, sua influência minguou; na verdade, eles já estavam cientes disso ainda no decorrer da guerra. Eles imaginavam que a guerra seria um simples empreendimento. Conforme as pessoas viam que a guerra se arrastava, esses grupos perderam toda sua popularidade, que francamente nunca foi muito expressiva.

Quando a guerra acabou, a influência desses grupos tornou-se mínima. Durante e após o período de desmobilização — em torno do final de 1918, em 1919 e na primeira metade de 1920, em meio ao descontentamento generalizado com os resultados da guerra — essa tendência política era completamente inexpressiva.

No entanto, há uma conexão política e organizativa entre esse movimento que parecia quase extinto e o movimento poderoso que se apresenta hoje diante de nossos olhos. O fasci di combattimento [feixe de combate] nunca deixou de existir. Mussolini continuava dirigindo o movimento fascista, cujo jornal era Il Popolo d’Italia [O Povo da Itália].

Nas eleições no final de outubro de 1919, os fascistas foram totalmente derrotados em Milão, onde se localizavam seu jornal diário e sua liderança. Sua votação total foi extremamente baixa, mesmo assim eles deram prosseguimento aos seus trabalhos.

Graças ao entusiasmo revolucionário que tomou conta das massas, a corrente socialista e revolucionária do proletariado se fortaleceu muito após a guerra; não há por que entrar agora nas causas desse fenômeno. Porém, essa corrente não soube aproveitar a situação favorável. Essa tendência definhou completamente, em última análise, por não ter conseguido corresponder aos objetivos favoráveis e às condições psicológicas para o fortalecimento de uma organização revolucionária, com a existência de um partido capaz de aproveitar essa situação construindo uma organização estável. Não quero dizer, como fez o camarada Zinoviev, que o Partido Socialista poderia ter conduzido a revolução naqueles dias. Mas ele poderia, ao menos, ter munido as forças revolucionárias das massas trabalhadoras com uma organização sólida. O partido não foi capaz de levar a cabo essa tarefa.

Dessa forma, tivemos que testemunhar o declínio da popularidade que a corrente socialista desfrutava anteriormente na Itália, com seu posicionamento consistente em repúdio à guerra. Em meio à crise da vida social italiana, na medida em que o movimento socialista cometia sucessivos erros, o movimento de oposição fascista começou a se fortalecer. Especialmente o fascismo soube muito bem como se aproveitar da crise que tomou conta da economia e cujos efeitos foram cada vez mais sentidos pelas organizações sindicais do proletariado.

No momento mais crítico, o movimento fascista se fortaleceu com a expedição de D’annunzio a Fiume, que lhe deu uma certa autoridade moral [3]. Mesmo que o movimento de D’Annunzio fosse distinto do fascismo, esse evento levou à ascensão de sua organização e sua força armada.

Nos referimos à conduta do movimento socialista proletário, cujos erros foram repetidamente criticados pela Internacional. Esses erros levaram a uma completa inversão das atitudes da burguesia e de outras classes. O proletariado estava dividido e desmoralizado. Como a classe trabalhadora viu a vitória escapando de suas mãos, seu ânimo mudou radicalmente. Pode-se dizer que, em 1919 e 1920, a burguesia italiana havia de certa forma assumido o fato de que ela teria de testemunhar a vitória da revolução. A classe média e a pequena-burguesia estavam inclinadas a desempenhar um papel passivo, seguindo atrás não da grande burguesia, mas do proletariado, que estava a um passo da vitória.

Mas agora o clima é fundamentalmente diferente. Em vez de testemunhar a vitória do proletariado, vemos como a burguesia está reunindo forças para se defender. Como as classes médias viram que o Partido Socialista não era capaz de se organizar para ascender ao poder, elas deram expressão às suas insatisfações. Elas gradualmente perderam a confiança que haviam depositado na determinação do proletariado e voltaram-se para o lado oposto. Nesse momento a burguesia lançou a ofensiva capitalista, capitalizando sobretudo a disposição das classes médias. Graças à sua composição heterogênea, o fascismo foi capaz de resolver esse problema; de fato, ele conseguiu até mesmo controlar, de certa forma, a ofensiva da burguesia e do capitalismo.

A Itália é um exemplo clássico da ofensiva capitalista. Assim como o camarada Radek nos explicou ontem, essa ofensiva é um fenômeno complexo, que deve ser examinado não apenas em termos de redução salarial ou extensão das horas de trabalho, mas também na arena geral da campanha política e militar da burguesia contra a classe trabalhadora.

A fim de examinar a ofensiva capitalista como um todo, devemos analisar a situação em termos gerais, particularmente em relação à indústria e à agricultura.

Na indústria, a ofensiva capitalista se beneficiou sobretudo das condições econômicas. A crise estourou e fez o desemprego se alastrar. Uma parte dos trabalhadores teve que ser demitida, e foi fácil para os patrões expulsarem das fábricas justamente os dirigentes sindicais, os extremistas. A crise industrial permitiu que os patrões reduzissem os salários, pondo em dúvida as concessões disciplinares e morais que anteriormente eram forçados a conceder aos trabalhadores em suas fábricas.

No início dessa crise, os trabalhadores formaram uma aliança de classe, a Liga Geral da Indústria, que organizou essa luta e dirigiu a campanha em cada ramo separado da indústria.

Nas cidades maiores, a luta contra a classe trabalhadora não começou com o uso imediato da força. No geral, os trabalhadores urbanos se organizavam em grandes grupos; eles poderiam prontamente se juntar em grande número e proporcionar uma grande defesa. O proletariado foi levado sobretudo às lutas sindicais, mas sob as condições de grave crise econômica os resultados foram desfavoráveis. O desemprego não parava de crescer. O único meio de sustentar com sucesso as lutas econômicas que se desenrolaram na indústria seria transferindo a atividade do domínio sindical para a revolução, por meio da ditadura de um partido político genuinamente comunista. Mas o Partido Socialista Italiano não era essa organização.

Durante o confronto decisivo, ele não foi capaz de direcionar a atividade do proletariado italiano para um quadro revolucionário. O período em que os sindicatos italianos foram mais bem-sucedidos, melhorando as condições de trabalho, agora deu lugar a um período de greves defensivas da classe trabalhadora. Os sindicatos sofreram derrotas atrás de derrotas.

O movimento revolucionário das classes no campo tem grande importância na Itália, especialmente os trabalhadores rurais assalariados e as camadas não totalmente proletarizadas. As classes dominantes tiveram que se armar na luta para conter a influência que as organizações vermelhas haviam angariado no campo.

Em grande parte da Itália, principalmente na planície do Pó, que economicamente é a mais importante, a situação parecia surpreendentemente uma ditadura local do proletariado, ou ao menos dos trabalhadores rurais. O Partido Socialista havia conquistado o controle de muitos municípios e, ao final de 1920, instituiu neles uma política fiscal dirigida contra a burguesia rural e a média burguesia. Fizemos as organizações sindicais florescerem no campo, além de cooperativas importantes e muitos braços do Partido Socialista. Mesmo onde o movimento era dirigido por reformistas, a classe trabalhadora campesina assumiu uma posição revolucionária. Os patrões foram forçados a pagar impostos à organização, o que era uma certa garantia de que o patronato respeitaria o contrato que a luta sindical lhe impunha.

A situação era tamanha que a burguesia agrária não era mais capaz de viver no campo, sendo forçada a se retirar para as cidades.

Os Socialistas Italianos cometeram certos erros, especialmente em relação à aquisição de terras e à tendência, após a guerra, da compra de terras por rendeiros pobres, que assim se tornaram pequenos proprietários.

As organizações reformistas forçaram esses rendeiros a permanecerem, por assim dizer, como servos do movimento de trabalhadores rurais. Isso possibilitou que o movimento fascista angariasse um apoio sólido no campo.

Não houve uma crise de desemprego no campo, o que teria possibilitado aos proprietários de terras travar uma contraofensiva vitoriosa contra o nível das lutas sindicais.

Foi nesse cenário que o fascismo se expandiu, por meio do uso da violência física e das armas. A base do fascismo foi a classe de proprietários rurais. Utilizou-se da insatisfação incitada entre as camadas médias no campo com os erros organizacionais do Partido Socialista e das lideranças reformistas. O fascismo se baseou em toda esta situação: na grande insatisfação crescente entre os proprietários pequeno-burgueses, pequenos comerciantes, pequenos proprietários, soldados reformados e outros oficiais que, após seu papel desempenhado na guerra, estavam descontentes com sua situação atual.

Todos esses elementos foram utilizados, organizados e formados em contingentes. Então esse movimento assumiu a tarefa de destruir o poder das organizações vermelhas no interior rural da Itália.

O método empregado pelo fascismo é bastante diferenciado. O fascismo reuniu todos os soldados reformados que não conseguiam encontrar seu lugar na sociedade após a guerra, colocando suas experiências militares em ação.

O primeiro passo foi formar destacamentos militares não em grandes cidades industriais, mas em localidades que podem ser vistas como centros de distritos agrícolas italianos, como Bolonha e Florença, onde receberam apoio das autoridades municipais (do que falaremos mais adiante). Os fascistas tinham armas e meios de transporte, gozavam de imunidade diante das leis e fizeram uso dessas condições favoráveis mesmo nos distritos onde eles ainda eram numericamente inferiores aos seus oponentes. De início, eles organizaram “expedições punitivas” que consistiam no seguinte:

Eles invadiam um pequeno território específico, destruíam as sedes das organizações proletárias, obrigavam os conselhos municipais a renunciarem pelo uso da força, se necessário ferindo ou assassinando as lideranças da oposição, ou então forçando-as a sair da região. Os trabalhadores locais não tinham condições de fazer frente a esses contingentes armados, apoiados pela polícia e reunidos em todas as partes do país. Os grupos fascistas locais, que anteriormente não se atreviam a competir com a força do poder proletário nessas áreas, agora poderiam vencê-las com vantagem. Os camponeses e trabalhadores ficaram aterrorizados, sabendo que qualquer tentativa de campanha contra os grupos fascistas seria respondida com outra expedição ainda mais forte, contra a qual toda resistência seria vã.

Dessa forma, o fascismo conquistou uma posição dominante na política italiana, cruzando o país em marcha, distrito atrás de distrito, de acordo com um plano que pode facilmente ser traçado no mapa.

O ponto de partida foi Bolonha, onde uma administração socialista foi instalada entre setembro e outubro de 1920, acompanhada de uma grande mobilização das forças vermelhas. Houve incidentes: as sessões do conselho municipal foram implodidas por provocações externas. Tiros foram disparados em direção às bancadas da minoria burguesa, provavelmente por agentes provocadores. Esse acontecimento levou ao primeiro grande ataque fascista. Assim a reação foi desencadeada, culminando em destruição, incêndios criminosos e atos de violência contra as lideranças proletárias. Apoiados pelo governo, os fascistas tomaram controle da cidade. Esses eventos no histórico 21 de novembro de 1920 inauguraram o terror, e o conselho municipal de Bologna nunca mais pode retornar ao serviço.

Expandindo-se a partir de Bolonha, o fascismo trilhou um caminho que não podemos descrever aqui em todos os seus detalhes.

Diremos apenas que ele se expandiu em duas direções geográficas: primeiramente em direção ao triângulo industrial do noroeste, em Milão, Turim e Gênova; em segundo lugar, rumo à Toscânia e ao centro da Itália, a fim de cercar e ameaçar a capital. Era claro desde o princípio que os mesmos fatores que bloquearam a emergência de um grande movimento socialista ao sul da Itália também preveniram o crescimento de um movimento fascista nessa região. O movimento fascista não é uma expressão dos setores mais atrasados da burguesia, tanto que inicialmente ele surge não ao sul da Itália, mas precisamente na área onde o movimento proletário estava mais desenvolvido e a luta de classes era mais evidente.

Diante desses fatos, como devemos compreender o movimento fascista? Como um movimento puramente agrário? Não foi o que quisemos dizer ao expomos que o movimento surgiu inicialmente nas áreas rurais. O fascismo não pode ser descrito como um movimento independente de qualquer setor específico da burguesia. Não se trata de uma organização de interesses agrários, opostos aos do capitalismo industrial. Notemos que, mesmo nos distritos onde as ações fascistas ocorreram apenas no campo, suas organizações político-militares foram forjadas nas grandes cidades.

Ao participarem das eleições de 1921, os fascistas obtiveram uma bancada no parlamento. Mas ao mesmo tempo, independente do fascismo, um partido agrário foi formado. No decorrer dos acontecimentos ulteriores, vimos que o patronato industrial apoiou o fascismo. Um passo decisivo nesse novo cenário foi a recente declaração da Liga Geral das Indústrias, propondo que Mussolini fosse convidado a formar um novo gabinete.

Porém, ainda mais significativo nesse aspecto é o fenômeno do movimento sindical fascista.

Como já foi dito, os fascistas souberam se aproveitar do fato de que os socialistas nunca tiveram uma política agrária. Certas forças no campo, que claramente não faziam parte do proletariado, tinham interesses opostos aos dos socialistas.

O movimento fascista teve que fazer uso de todos os instrumentos brutais e selvagens de violência. Mesmo assim, ele foi capaz de combinar isso com o emprego da mais cínica demagogia. O fascismo procurou criar organizações de classe camponesas, bem como de trabalhadores rurais assalariados. Em certo sentido, ele se opôs até mesmo aos proprietários de terras. Houve exemplos de lutas sindicais que, sob a direção fascista, eram bastante similares em seus métodos àqueles das organizações vermelhas anteriores.

Mas esse movimento, que faz uso da coerção e do terror para criar sindicatos fascistas, não é de modo algum uma forma de luta contra os patrões. Ainda assim, seria um erro concluir que o fascismo seria um movimento apenas do patronato agrícola. Na verdade, o fascismo é um movimento grande e unificado da classe dominante, capaz de tirar proveito e fazer uso de todos os meios e de todos os interesses particulares e locais dos diferentes grupos do patronato agrícolas e industriais.

O proletariado não conseguiu se unificar em torno de uma organização de luta em comum pela tomada do poder, subordinando esse objetivo aos interesses imediatos de pequenos grupos. Ele não foi capaz de resolver esse problema no momento oportuno. A burguesia italiana aproveitou esse fato e se propôs a fazer isso à sua maneira. Esse é um problema gigantesco. A classe dominante criou uma organização para defender seu próprio poder, buscando um plano unificado para a ofensiva anti-proletária e capitalista.

O fascismo criou um movimento sindical. Com qual objetivo? Conduzir a luta de classes? Jamais! O movimento sindical fascista foi forjado em torno do lema de que todos os interesses econômicos têm direito à associação, sejam aqueles trabalhadores, camponeses, comerciantes, capitalistas, grandes proprietários de terras etc. Todos podem se organizar em torno do mesmo princípio. As ações de todas as organizações profissionais devem se subordinar aos interesses nacionais, à produção nacional, ao prestígio nacional etc.

Isso é conciliação de classes, não luta de classes. Todos os interesses são forjados em comunhão com o assim chamado interesse nacional. Sabemos bem o que essa unidade nacional significa: a preservação absoluta e contrarrevolucionária do Estado burguês e de suas instituições. Em nossa opinião, a gênese do fascismo pode ser atribuída a três fatores principais: o Estado, a grande burguesia e as classes médias.

O primeiro desses fatores é o Estado, que desempenha um papel importante na criação do fascismo italiano. Relatórios sobre a crise do governo burguês italiano, que se desenrola rapidamente, fizeram surgir a crença de que a burguesia italiana possui um aparato estatal tão precário que apenas um sopro seria o suficiente para derrubá-lo. Isso está completamente errado. A burguesia foi capaz de formar a organização fascista precisamente na medida em que o aparato estatal se estabilizou.

Durante o período imediatamente após a guerra, o aparato estatal experienciou uma crise, cuja causa óbvia foi a desmobilização: todas as tropas que lutaram na guerra foram repentinamente atiradas ao mercado de trabalho. Nesse momento crítico, a máquina estatal, que até então dedicava-se a direcionar todos os meios de luta contra o inimigo externo, teve que se transformar em um aparato para a defesa do seu poder contra a revolução interna. Para a burguesia, colocava-se um problema imenso, que não poderia ser resolvido nem tecnicamente nem militarmente por meio de uma luta aberta contra o proletariado. Isso deveria ser tratado politicamente.

Era o período do primeiro governo de esquerda após a guerra, quando a corrente política liderada por Nitti e Giolitti chegou ao poder. Foi precisamente essa política que possibilitou ao fascismo garantir sua vitória subsequente. Inicialmente o governo teve que dar concessões ao proletariado, até que, no momento em que o aparato estatal precisou se consolidar, o fascismo entrou em cena. Quando os fascistas criticaram esses governos por sua covardia face aos revolucionários, foi por pura demagogia. Na verdade, os fascistas venceram graças às concessões e à política democrática dos primeiros governos pós-guerra.

Nitti e Giolitti fizeram concessões à classe trabalhadora. Algumas demandas do Partido Socialista foram cumpridas: a retirada das tropas, um regime interno liberal e a anistia dos desertores. Tais concessões foram feitas de modo a ganhar tempo para a restauração do Estado sobre uma base sólida. Nitti foi o criador da Guardia Regia, isto é, da Guarda Real, que não era exatamente uma força policial, mas tinha um caráter militar totalmente novo. Um dos maiores erros dos socialistas reformistas foi não ter compreendido a natureza fundamental dessa provocação, que poderia ter sido combatida até mesmo com fundamentos constitucionais, protestando-se contra a criação de um segundo exército pelo Estado. Os socialistas não captaram a importância dessa questão, vendo Nitti como alguém com que se poderia trabalhar em um governo de esquerda. Essa é mais uma evidência de quão incompetente esse partido é no desenvolvimento de qualquer compreensão dos rumos da política italiana.

Giolitti completou o trabalho de Nitti. Seu ministro da guerra, Bonomi, apoiou as primeiras agitações fascistas. Ele colocou-se à disposição do movimento que se formava, bem como dos oficiais que retornaram da guerra e, mesmo após o retorno à vida civil, continuaram recebendo grande parte dos seus salários. Ele colocou todo o aparato estatal à disposição dos fascistas, provendo-os com todos os meios necessários para a criação de um exército.

Quando as fábricas foram ocupadas, esse governo compreendeu muito bem que, com o proletariado armado tomando conta das fábricas e o levante do proletariado rural rumo à tomada das terras, seria um erro enorme lançar-se na batalha antes das forças contrarrevolucionárias terem se organizado.

O governo preparou a organização das forças reacionárias que um dia esmagariam o movimento proletário. Dessa forma, ele se apoiou nas manobras das lideranças traidoras da Confederação Geral do Trabalho, então formada por membros do Partido Socialista. Ao conceder a lei sobre o controle dos trabalhadores [4], que nunca foi implementada ou sequer votada, o governo conseguiu resgatar o Estado burguês desse momento crítico.

O proletariado tomou o controle das fábricas e das terras. Mas o Partido Socialista mostrou mais uma vez que era incapaz de resolver o problema da unidade de ação da classe trabalhadora industrial e rural. Em pouco tempo, esse erro possibilitou à burguesia angariar a unidade de uma base contrarrevolucionária, o que a colocou em uma posição de triunfo sobre os trabalhadores das fábricas e do campo.

Como se vê, o Estado desempenhou um papel de suma importância na ascensão do movimento fascista. Após os governos de Nitti, Giolitti e Bonoti, houve o governo de Facta. Esse governo deu cobertura à plena liberdade de ação do fascismo em sua ofensiva territorial. Durante a greve de agosto de 1922, travaram-se as maiores batalhas entre trabalhadores e fascistas, que apoiavam abertamente o governo [5]. Pegue o exemplo de Bari. Apesar da união das forças fascistas, durante uma semana inteira de lutas, eles foram incapazes de derrotar os trabalhadores de Bari, que voltaram para suas casas nessa velha cidade e se defenderam com armas em mãos. Os fascistas tiveram que se retirar, abandonando muitas de suas forças no campo de batalha. Qual foi a resposta do governo de Facta? No decorrer da noite, a velha cidade foi ocupada por milhares de soldados, centenas de policiais do Estado e soldados da Guarda Real, que avançaram no ataque. Um barco torpedeiro parado no porto abriu fogo contra as casas. Metralhadoras, carros blindados e artilharias foram posicionadas. Enquanto dormiam, os trabalhadores foram surpreendidos, derrotados e seu quartel foi invadido [6]. Isso ocorreu por todo o país.

Em todo lugar onde era evidente que os trabalhadores haviam imposto a debandada dos fascistas, o governo interveio, atirando contra aqueles que resistiram, prendendo e condenando os trabalhadores cujo único crime foi sua legítima defesa, enquanto os crimes desprezíveis comprovadamente cometidos pelos fascistas ocorriam livremente aos olhos das autoridades.

Tudo isso diz respeito ao primeiro fator, o Estado.

O segundo fator do fascismo, como disse anteriormente, é a grande burguesia. Os grandes capitalistas das indústrias, bancos, comércio e grandes proprietários de terras têm um interesse natural em formar uma organização de luta em defesa da sua ofensiva contra o povo trabalhador.

Mas o terceiro fator também desempenha um papel muito importante na constituição do poder fascista.

A fim de criar uma organização reacionária ilegal e paralela ao Estado, deve-se recrutar forças diferentes daquelas que a classe dominante podem encontram em seu meio social. Isso pode ser realizado voltando-se para as já mencionadas camadas da classe média, defendendo seus interesses a fim de enganá-las. É o que o fascismo se propôs a fazer, e devemos admitir que foram bem sucedidos. Eles recrutaram forças das camaradas mais próximas do proletariado, entre os descontentes com a guerra, os pequeno-burgueses, a média burguesia, comerciantes e vendedores, mas acima de tudo entre a juventude intelectual burguesa. Aliando-se ao fascismo, eles reencontraram energia para se elevar moralmente e vestiram as togas do combate ao movimento proletário, dando vida a um patriotismo exaltado pelos interesses do imperialismo italiano. Essas camadas promoveram o fascismo com um número grande de apoiadores e possibilitaram sua organização militar.

Esses são os três fatores que possibilitaram que nossos oponentes nos confrontassem com um movimento sem precedentes em sua brutalidade e selvageria; um movimento que ainda é sólido e conta com um líder de grande destreza política. O Partido Socialista nunca foi capaz de captar o significado do surgimento da organização inimiga na forma do fascismo. O Avanti não compreendeu nada do que a burguesia preparava quando ela se aproveitou dos erros desastrosos das lideranças proletárias, e não quis mencionar Mussolini, temendo que enfatizar seu papel servir-lhe-ia como propaganda.

Portanto, vemos que o fascismo não representa nenhuma doutrina política nova. Mas ele apresenta uma organização política e militar poderosa, e uma imprensa influente, gerida com muita habilidade jornalística e ecletismo, mas é vazio em ideias ou programas. Agora, ao assumir o comando do Estado, o fascismo encara problemas concretos e deve enfrentar a organização da economia italiana. Quando passar dos esforços negativos para os positivos, apesar de seus talentos organizativos, ele mostrará sinais de fraqueza.

Examinamos os fatores históricos e a realidade social na qual formou-se o fascismo. Agora temos que abordar a ideologia fascista, com a qual se adotou o programa que conquistou as diversas forças que o seguem.

Nossa análise leva à conclusão de que o fascismo não acrescenta nada à ideologia tradicional e ao programa da política burguesa. Considerando todos esses aspectos, sua superioridade e especificidade consiste em sua organização, disciplina e hierarquia. Aliado à sua aparência excepcional e militarista, o fascismo não possui nada mais que uma realidade cheia de dificuldades que ele é incapaz de superar. A crise econômica renovará constantemente as causas da revolução, ao passo que o fascismo será incapaz de reorganizar o aparato estatal da burguesia. O fascismo desconhece como superar a anarquia econômica do sistema capitalista. Ele assume outra tarefa histórica, que consiste no combate à anarquia política e à anarquia organizacional dos grupos políticos da classe burguesa.

Diferentes camadas da classe dominante italiana tradicionalmente formaram agrupamentos políticos e parlamentares que, mesmo não baseados em organizações partidárias firmes, lutavam uns contra os outros e competiam para avançar com seus interesses particulares e locais. Isso leva a manobras de todo tipo nos corredores do parlamento. A ofensiva contrarrevolucionária da burguesia requer que as forças da classe dominante se unam em políticas sociais e governamentais. O fascismo atende a esses requisitos. Ao se colocar acima dos partidos burgueses tradicionais, ele conseguiu tirar proveito do poder político e do material humano das classes médias para seus próprios fins. Mas ele é incapaz de desenvolver uma ideologia e um programa específico de reforma administrativa da sociedade e do Estado melhor que a política burguesa tradicional, pois sua proposta é mil vezes mais falida.

O fascismo não é uma corrente do direito burguês, baseado na aristocracia, no clero e no topo do funcionalismo público e dos oficialato militar. Ele busca substituir a democracia de um governo burguês e uma monarquia constitucional por um despotismo monárquico. O fascismo incorpora a luta contrarrevolucionária de todas as forças aliadas à burguesia, e por esta razão ele não é de forma alguma obrigado a destruir as instituições democráticas. Do nosso ponto de vista marxista, essa situação não é de forma alguma paradoxal, pois sabemos que o sistema democrático é apenas um conjunto de garantias enganosas, sob o qual a classe dominante conduz a batalha contra o proletariado.

O fascismo é a expressão simultânea da violência reacionária e da habilidade demagógica que a esquerda burguesa sempre soube usar para enganar o proletariado e garantir a supremacia dos interesses dos grandes capitalistas sobre as necessidades políticas das classes médias. Quando o fascismo ultrapassa sua assim chamada crítica à democracia liberal e revela suas noções categóricas e ideológicas, pregando um patriotismo excessivo e bobagens sobre a missão histórica do povo, eles estão moldando uma mitologia cuja falta de seriedade em sua fundamentação será evidente tão logo a submetam a uma verdadeira crítica social, expondo o país de vitórias ilusórias que carrega o nome de Itália.

No que diz respeito à influência das massas, vemos uma imitação da postura clássica da democracia burguesa. Quando se afirma que todos os interesses devem se subordinar aos interesses superiores da nação, isso significa que a conciliação de classes é mantida em princípio, quando na prática as instituições conservadoras são defendidas contra os esforços do proletariado para se libertar. Esse é o papel que a democracia burguesa sempre desempenhou.

A novidade do fascismo é a organização de um partido dominante da burguesia. Os acontecimentos políticos no solo do parlamento italiano despertaram a crença na entrada do aparato de Estado burguês em uma crise tão profunda que um simples sopro seria o suficiente para destruí-lo. Na verdade, sendo apenas um dos métodos de governo da burguesia, a crise surgiu em decorrência da impotência dos agrupamentos tradicionais e das lideranças da política italiana, que não foram capazes de conduzir a luta contra as forças revolucionárias no momento de agudização da crise.

O fascismo criou um organismo capaz de assumir o papel de liderança da maquinaria estatal.

Quando os fascistas passam do engajamento na luta contra o proletariado para a elaboração de um programa específico e propositivo para a organização da sociedade e a administração do Estado, basicamente eles apenas repetem a temática banal da democracia e da social-democracia. Eles não criaram seu próprio sistema consistente de propostas e projetos.

Dessa forma, por exemplo, eles sempre sustentaram que o programa fascista levaria a uma redução do aparato burocrático do Estado, iniciando pelo topo com a redução no número de ministros e assim sucessivamente em todos os domínios da administração. É verdade que Mussolini cortou o automóvel pessoal do primeiro-ministro. Mas ele também aumentou o número de ministros e subsecretários do governo, a fim de obter postos para sua guarda pretoriana.

Quanto à questão colocada entre a monarquia e a república, o fascismo realizou diversos gestos republicanos ou enigmáticos apenas para optar pela pura lealdade à monarquia. De modo similar, após um grande alarde sobre a corrupção parlamentar, o fascismo assumiu inteiramente as práticas do parlamento.

O fascismo mostrou uma tendência tão pequena a adotar os recursos da reação bruta que permitiu uma ampla margem para o sindicalismo [tradeunismo]. No seu congresso em Roma, onde o esforço dos fascistas em especificar sua doutrina foi quase cômico, tentou-se retratar o sindicalismo fascista como a primazia das categorias intelectuais do trabalho. Mas essa suposta concepção teórica foi há muito refutada pela dura realidade. As organizações sindicais fascistas baseiam-se na força bruta e no monopólio sobre as oportunidades de trabalho que os patrões oferecem a fim de destruir as organizações vermelhas. Mas o fascismo não conseguiu alcançar as categorias de trabalhadores com maior especialização técnica, o que dá a estes uma vantagem. O fascismo obteve sucesso apenas entre os trabalhadores rurais e algumas categorias menos qualificadas de trabalhadores urbanos, como os estivadores, por exemplo. Ele não prosperou entre os setores mais avançados e inteligentes do proletariado, nem mesmo impulsionou o movimento sindical entre os trabalhadores de escritório e os comerciantes. O sindicalismo fascista não apresenta nenhuma fundamentação teórica séria. A ideologia fascista e seu programa consistem em um emaranhado confuso de ideias e demandas burguesas e pequeno-burguesas. O emprego sistemático da violência contra o proletariado certamente não o impede de beber na fonte do oportunismo social-democrata.

Uma evidência disso é a postura dos reformistas italianos. Durante um tempo, suas políticas foram guiadas por princípios anti-fascistas e pela ilusão de que seria possível formar um governo de coalizão burguês-proletário contra os fascistas. Agora que o fascismo venceu, os reformistas uniram-se com eles. Essa aproximação não é de todo paradoxal. Ela foi fomentada por diversas circunstâncias e, com base em muitos indícios, era previsível. Peguem como exemplo o movimento D’Annunzio, mesmo vinculado ao fascismo ele tentou angariar apoio das organizações proletárias com base em um programa derivado da constituição de Fiume, que supostamente se baseava em princípios proletários e até mesmo socialistas.

Eu poderia mencionar diversos outros pontos que considero muito importantes sobre o fenômeno do fascismo, mas não há tempo para tal. Os demais camaradas italianos poderão complementar as minhas observações em suas falas. Também deixei de abordar toda a questão dos sentimentos e sofrimentos experienciados pelos trabalhadores italianos e pelos comunistas, pois não me pareceu ser o essencial desta questão.

Agora tenho que abordar os acontecimentos mais recentes na Itália, sobre os quais o Congresso aguarda por um informe preciso.

Os acontecimentos mais recentes

Nossa delegação deixou a Itália antes dos acontecimentos mais recentes e foi inicialmente muito mal informada sobre eles. Ontem à noite, um delegado do nosso Comitê Central chegou e nos deu um informe. Posso garanti-los que esse é um informe preciso dos fatos que nos repassaram a respeito dos acontecimentos recentes na Itália, que irei apresentá-los agora.

Como disse anteriormente, o governo de Facta conferiu a mais ampla liberdade de ação para os fascistas levarem a cabo suas políticas. Segue um exemplo: o fato de cada governo ter sucessivamente incluído uma forte representação do católico e camponês Partido Popular Italiano não impediu os fascistas de darem continuidade a sua luta contra as organizações, líderes e instituições desse partido. O governo existente era uma completa farsa, suas únicas atividades consistiam em promover a condução territorial e geográfica dos fascistas ao poder.

Na verdade, o governo preparou o terreno para um golpe fascista. Enquanto isso, estourou uma nova crise governamental. Cresceram as demandas para a renúncia de Facta. As últimas eleições produziram um parlamento em que a representação partidária se configurava de forma a prevenir os partidos burgueses de constituírem uma maioria estável em seus moldes tradicionais. Costumava-se dizer que a Itália era governada por um “imenso partido liberal”. Mas de forma alguma havia um partido no sentido usual do termo. Tal partido nunca existiu e não tinha a forma de uma organização, era apenas uma mistura de grupelhos pessoais de um ou outro político do norte ou do sul, além de grupelhos da burguesia rural ou industrial, dirigidos por políticos profissionais. Esses políticos, tomados em conjunto, formavam de fato o núcleo de toda a coalizão parlamentar.

Então chegou o momento do fascismo mudar essa situação, caso precisassem evitar uma grave crise interna. Também se colocava uma questão organizacional. As demandas dos movimentos fascista deveriam ser atendidas, e os custos da organização, pagos. Esses recursos materiais foram fornecidos em escala massiva pelas classes dominantes e, pelo que parece, por governos no exterior. A França enviou dinheiro ao grupo de Mussolini. Uma sessão secreta do gabinete francês aprovou um orçamento que incluía fundos significativos que foram repassados a Mussolini em 1915. O Partido Socialista teve acesso a esses documentos, mas não deu prosseguimento ao assunto, imaginando que Mussolini já estava desgastado. Em contrapartida, o governo italiano sempre facilitou o caminho para os fascistas, por exemplo permitindo que grandes grupos fascistas fizessem uso das ferrovias sem precisar pagar. Ainda assim, as enormes despesas do movimento fascista teriam gerado grandes dificuldades, se eles não tivessem feito uma aposta direta no poder. Eles não poderiam esperar por novas eleições, mesmo tendo certeza do sucesso.

Os fascistas já tinham uma forte organização política com trezentos mil membros; que eles alegam ser ainda maior. Eles poderiam ter ganho por meios “democráticos”, mas eles tinham pressa em levar a situação até as últimas consequências.

Em 24 de outubro, houve um encontro do Conselho Nacional fascista em Nápoles. Esse evento, anunciado por toda a mídia burguesa, agora é considerado ter sido uma manobra para desviar a atenção de um golpe de Estado. Em um certo momento, foi dito para os participantes do congresso suspenderem as deliberações, pois havia algo mais importante a ser feito. Foi dito para que todos retornassem aos seus distritos, e assim teve início a mobilização fascista. Era 26 de outubro. Na capital ainda reinava uma calma absoluta.

Facta declarou que não renunciaria antes de convocar o parlamento mais uma vez, a fim de observar o procedimento usual. Mesmo assim, apesar dessa declaração, ele apresentou sua renúncia ao rei.

Iniciaram-se as negociações para a formação de um novo governo. Os fascistas marcharam sobre Roma, o foco de sua atividade. Eles eram especialmente ativos no centro da Itália e na Toscânia. Nada foi feito para impedi-los.

Salandra foi consultado para a formação do novo governo, mas ele recusou por causa da atitude dos fascistas. Era muito provável que os fascistas, caso não fossem apaziguados com a nomeação de Mussolini, teriam se levantado como bandidos, mesmo contra a vontade do seu líder, saqueando e destruindo tudo pela frente nas cidades e no campo.

A opinião pública foi despertada. O governo de Facta decretou Estado de sítio. Assim o fez, e um grande confronto foi esperado entre as forças do governo e as forças fascistas. A opinião pública esperou o dia todo por esse acontecimento; nossos camaradas eram bastante céticos quanto a isso.

Os fascistas não encontraram muita resistência em nenhum dos lugares por onde eles avançaram. Isso significou a aceitação das condições fascistas, que haviam sido impressas no jornal Popolo d’Italia [Povo da Itália], como se segue: “Mussolini deve ser consultado para a formação de um novo ministério, isso garantirá uma solução legal. De outro modo, marcharemos sobre Roma e tomaremos controle da situação”.

Horas após o Estado de sítio ter sido decretado, soube-se que Mussolini estava a caminho de Roma. Medidas foram tomadas para a defesa militar; reuniram-se as tropas; a cidade foi cercada pela cavalaria. Mas o acordo já havia sido firmado, e em 31 de outubro os fascistas entraram triunfantes em Roma.

Mussolini formou um novo governo, cuja composição já era bem conhecida. O partido fascista, que conta com apenas trinta e cinco assentos no parlamento, tem a maioria absoluta nesse governo. Mussolini não é apenas chefia o conselho de ministros, mas também controla as pastas de assuntos internos e externos. Membros do partido fascista dividiram outras pastas importantes e sentiram-se em casa na maioria dos outros ministérios.

Como não houve uma ruptura total com os partidos tradicionais, o governo incluiu dois representantes dos democratas socialmente inclinados – isto é, forças burguesas de esquerda – bem como liberais de extrema-direita e apoiadores de Giolitti. As forças monarquistas foram representadas pelo General Diaz no ministério da guerra e pelo almirante Thaon di Revel no ministério da marinha.

O Partido Popular, muito forte no parlamento, firmou com Mussolini um compromisso engenhoso. 

Sob o pretexto de que o órgão dirigente do partido não poderia se reunir em Roma, a responsabilidade por aceitar as propostas de Mussolini foi confiada a uma reunião semi-oficial de deputados parlamentares. Mesmo assim, conseguiram convencer Mussolini a garantir algumas concessões, e o jornal do Partido Popular pode afirmar que o novo governo não propôs nenhuma grande mudança no sistema eleitoral ou no parlamento.

O compromisso envolvia até mesmo os social-democratas. Por um momento, parecia que o reformista-socialista Baldesi faria parte do governo. Mussolini foi hábil o bastante para transmitir a oferta a Baldesi por meio de um dos seus tenentes. Quando Baldesi declarou que ficaria contente em aceitar o posto, Mussolini afirmou que a oferta havia sido uma iniciativa pessoal de um dos seus assistentes, pela qual ele mesmo não tinha responsabilidade alguma. Foi assim que Baldesi não chegou a se juntar ao gabinete.

Mussolini não aceitou a representação de um reformista da Confederação Geral do Trabalho devido à oposição de forças de extrema direita em seu gabinete. Mas Mussolini é da opinião de que essa organização deveria ser representada afinal em sua “ampla coalizão nacional”, agora que ela é independente de qualquer partido político revolucionário.

Vemos nesses eventos que há um compromisso entre os grupelhos da política tradicional e diferentes camadas da classe dominante — grandes proprietários de terras e capitalistas industriais e financeiros — inclinadas a apoiar o novo governo criado por um movimento que conquistou o apoio da pequena-burguesia.

Em nossa leitura, o fascismo é um método de garantia do poder das classes dominantes por todos os meios disponíveis, até mesmo as lições deixadas pela primeira revolução proletária, a revolução russa. Diante de uma crise econômica, não basta ao Estado apenas manter seu poder. Ele necessita de um partido unificado, uma organização contrarrevolucionária unificada. Através do seu contato com toda a burguesia, o partido fascista representa de certa forma o que o partido comunista russo é graças a sua relação com o proletariado, isto é, um órgão disciplinado e bem organizado que dirige e supervisiona o aparato estatal como um todo. Na Itália, o partido fascista nomeou seus comissários políticos em quase todos os postos importantes nos ramos do aparelho estatal. Ele é o órgão dirigente do Estado burguês no período de declínio imperialista. Em minha leitura, essa é uma explicação historicamente satisfatória do fascismo e seu desenvolvimento recente na Itália.

As primeiras ações do novo governo mostram que não se pretende alterar as instituições tradicionais da Itália.

Com a previsão de que o fascismo será liberal e democrático, certamente não quero dizer que as condições serão favoráveis ao movimento socialista e proletário. Os governos democráticos nunca deram ao proletariado nada além de declarações e promessas. Por exemplo, o governo de Mussolini garante que respeitará a liberdade de imprensa, mas não deixa de acrescentar que a imprensa deve ser digna dessa liberdade. O que isso nos diz? Que o governo vai fingir que respeita a liberdade de imprensa, ao mesmo tempo que permite os ataques das organizações militares fascistas contra os jornais comunistas, sempre que eles quiserem, como já ocorreu no passado. Também se deve notar que o governo fascista faz algumas concessões aos liberais burgueses. Deve-se dar pouca confiança às promessas do governo de Mussolini, quando este diz que planeja converter suas organizações militares em clubes esportivos, ou algo do tipo. Contudo, sabemos que dezenas de fascistas foram detidos pela polícia por terem desacatado a ordem de Mussolini para que eles se desmobilizassem.

Qual é o impacto desses acontecimentos para o proletariado? Este viu-se em uma situação na qual não se podia desempenhar nenhum papel significativo na luta, tendo que se comportar de modo quase que passivo.

Quanto ao Partido Comunista, sempre se compreendeu que uma vitória do fascismo seria uma derrota do movimento revolucionário. Não tínhamos dúvida alguma quanto ao fato de que atualmente não nos encontramos em condições de tomar a ofensiva contra a reação fascista, então tivemos que assumir uma postura defensiva. Portanto, a principal questão que se coloca é se as políticas do Partido Comunista, dentro das possibilidades nesse quadro, conseguiram proteger ao máximo o proletariado italiano.

Em vez de um compromisso entre a burguesia e o fascismo, caso tivesse estourado um conflito militar, talvez o proletariado poderia ter desempenhado algum papel no estabelecimento de uma frente unida pela greve geral, obtendo certo sucesso. Mas na situação atual, o proletariado não tomou parte nas ações. Mesmo com a enorme importância desses eventos, devemos ter em mente que a mudança do estado político foi menos abrupta do que parecia, visto que as condições tornaram-se mais e mais graves antes do fascismo lançar seu ataque final. O único exemplo de uma luta entre o governo e o fascismo ocorreu em Cremona, onde seis pessoas foram mortas. O proletariado lutou uma vez em Roma. Os contingentes revolucionários de trabalhadores travaram uma batalha contra os bandos fascistas. Houve alguns feridos. No dia seguinte, a Guarda Real ocupou o distrito dos trabalhadores, privando-os de todos os meios de autodefesa, então os fascistas que se aproximavam abriram fogo e assassinaram os trabalhadores a sangue frio. Esse foi o episódio mais sangrento das lutas travadas recentemente na Itália.

Quando o Partido Comunista propôs uma greve geral, a Confederação Geral do Trabalho desarmou os comunistas, convocando o proletariado a ignorar as diretrizes perigosas dos grupos revolucionários. Uma reportagem divulgou que o Partido Comunista havia sido dissolvido, no momento em que já não era mais possível a publicação do nosso jornal.

Em Roma, o episódio mais sangrento para nosso partido foi o ataque à redação do jornal Comunista. A gráfica foi invadida em 31 de outubro, bem no momento em que o jornal estava prestes a ser impresso, quando cem mil fascistas mantiveram a cidade sob ocupação. Todos os editores conseguiram escapar pelas portas laterais, menos o editor-chefe, o camarada Togliatti. Ele estava em seu escritório quando um fascista veio e o agarrou. A conduta do nosso camarada foi francamente heroica. Ele bravamente declarou que era o editor-chefe do Comunista

Ele foi posto logo contra a parede para ser fuzilado, enquanto os fascistas afastavam a multidão. Nosso camarada escapou apenas graças ao fato de terem informado aos fascistas que o outro editor havia fugido pelo telhado, então eles correram para capturá-lo. Tudo isso não impediu nosso camarada de discursar alguns dias depois no comício em Turim, por ocasião do aniversário da revolução russa.

(Aplausos)

Mas o que acabei de contar foi um episódio isolado. A organização do nosso partido está em boa forma. A falta de circulação do Comunista não resulta não de uma decisão governamental, mas do fato da gráfica não querer publicá-lo. As dificuldades em publicá-lo não são técnicas, mas econômicas.

Em Turim, a sede do Ordine nuovo foi ocupada e as armas ali guardadas foram apreendidas. Mas estamos imprimindo o jornal em outro local.

Em Trieste, a polícia também invadiu nossa gráfica, mas esse jornal também está sendo impresso na clandestinidade. Nosso partido ainda pode funcionar legalmente e nossa situação não é tão ruim. Mas não sabemos como será o desenrolar dos acontecimentos, então devo ser cauteloso ao falar da situação futura do nosso partido e da nossa atividade.

O camarada que acabou de chegar é um dos trabalhadores dirigentes de uma importante organização local do partido. Ele tem um ponto de vista interessante, também compartilhado por outros diversos militantes, a saber: que seremos capazes de trabalhar melhor que no caso anterior. Não digo que essa opinião já é um fato estabelecido. Mas o camarada com essa perspectiva é um militante que trabalha diretamente junto às massas e suas opiniões são de grande valia.

Como eu disse, a imprensa inimiga espalhou uma notícia falsa dizendo que nosso partido foi dissolvido. Publicamos um esclarecimento para desmenti-la e estabelecer a verdade. Nossas principais publicações políticas, nosso centro militar clandestino e nossa central sindical estão trabalhando ativamente e suas relações com outras regiões foram restauradas em quase todos os casos. Os camaradas que permaneceram na Itália nunca perderam a cabeça em momento algum, eles estão fazendo tudo o que lhes é orientado. O Avanti foi destruído pelos fascistas, mas apenas alguns dias foram necessários para que esse jornal pudesse circular novamente. A principal sede do Partido Socialista em Roma foi destruída e todos seus arquivos privados foram queimados até a última folha.

Sobre a posição do Partido Maximalista [Partito Socialista Italiano Massimalista] em relação à polêmica entre o Partido Comunista e a Confederação Geral do Trabalho, não vimos nenhuma declaração a esse respeito.

Quanto aos reformistas, está claro pelo tom dos seus jornais — eles ainda circulam — que eles vão se unir ao novo governo.

Com relação aos sindicatos, o camarada Repossi, do nosso comitê sindical, acredita que será possível prosseguir com nosso trabalho.

Isso completa a informação que recebemos, datada em 6 de novembro.

Minha fala foi extensa. Não vou abordar a questão da posição do nosso partido durante o desenvolvimento do fascismo, mas vou guardar esse ponto para as demais pautas do Congresso. Queremos falar aqui das perspectivas para o futuro. Dissemos que o fascismo terá que lidar com as insatisfações criadas pelas políticas do governo.

Sabemos muito bem que, quando uma organização militar existe paralelamente ao Estado, é mais fácil enfrentar as insatisfações e as condições econômicas desfavoráveis. 

Sob a ditadura do proletariado, isso seria verdade em um sentido muito mais profundo, pois o desenvolvimento histórico estaria ao nosso lado. Os fascistas são muito bem organizados e firmes em suas posições. Por isso, pode-se prever que o governo fascista estará longe de instabilidades. Vocês viram que não exagerei de forma alguma ao expor as condições em que nosso partido lutou. Não podemos fazer disso uma questão de simpatia.

Possivelmente o Partido Comunista da Itália cometeu erros e deve ser criticado por isso. Mas acredito que neste momento a conduta dos camaradas demonstra que realizamos uma grande tarefa: a construção de um partido revolucionário do proletariado, que erguerá as bases para uma insurreição da classe trabalhadora italiana.

Os comunistas italianos têm o direito de pedir por vosso respeito. Suas orientações nem sempre foram recebidas com aprovação. Mas eles acreditam que não podem ser censurados por nada no que se refere à revolução e à Internacional Comunista.

Segue-se uma discussão sobre os informes anteriores dos camaradas Radek e Bordiga, passando a palavra para o camarada Šmeral.

Notas.

[1] As “circunstâncias incomuns” referem-se à ascensão de Mussolini ao poder em 31 de outubro de 1922.

[2] Trieste e Trento eram territórios com uma grande população italiana, eles foram retomados pelo Império Austro-Hungaro após o processo de unificação italiana de 1859-1870; ambos foram concedidos à Itália em 1919.

[3] A posse sobre a cidade de Fiume, ao norte do mar Adriático, foi disputada entre a Itália e a recém-constituída Iugoslávia na Conferência de Paz em Paris, em 1919. No decorrer das negociações, em setembro de 1919, um destacamento da milícia nacionalista italiana liderada por D’Annunzio tomou a cidade. Fiume manteve-se independente de facto até 1924, quando o território foi dividido entre a Itália e a Iugoslávia. 

[4] A onda massiva de greves em 1920 na Itália foi contida por uma manobra de Giolitti, o primeiro ministro, que propôs um acordo supostamente para institucionalizar o controle proletário das fábricas. O acordo, aprovado por sindicatos e patrões, servia à desmobilização do movimento grevista, mas não foi implementado.

[5] Uma Aliança do Trabalho (Alleanza del Lavoro) ad hoc, composta por federações sindicais, convocou uma greve geral em primeiro de agosto de 1922 “em defesa das liberdades políticas e sindicais”. Apenas dois dias foram permitidos para as preparações, e a ação foi dificultada pelo sectarismo dos partidos de esquerda. A greve fracassou e abriu caminho para uma ofensiva abrangente dos fascistas, apoiada pelo exército e pela polícia, contra as organizações laborais. Porém, em Parma e Bari, onde frentes únicas foram localmente formadas, os trabalhadores conquistaram vitórias contra os ataques fascistas.

[6] A defesa vitoriosa dos trabalhadores na velha cidade de Bari, bem como a vitória simultânea e decisiva em Parma, derivou da conquista da unidade na luta das forças antifascistas, incluindo o Arditi del Popolo (Comando do Povo), uma unidade rara naquele momento.

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