Como o camarada Plekhanov argumenta sobre as táticas Sociais-Democratas – V. I. Lênin  

Vperiod, No. 1, 26 de maio de 1906. Assinado: N. L. Publicado de acordo com o texto do Vperiod. Traduzido por Guilherme Henrique

As duas últimas edições do Kuryer contêm a primeira carta do camarada Plekhanov “Sobre a tática e a falta de tato”. A imprensa liberal-burguesa já observou com razão que o camarada Plekhanov vai muito mais para a direita do que o Kuryer. Toda esta imprensa louva o camarada Plekhanov aos céus e o apresenta como modelo para todos os outros Sociais-Democratas.


Examinemos, então, os argumentos do camarada Plekhanov com a maior calma possível.

O camarada Plekhanov está discutindo com o jornal Social-Democrata de Poltava Kolokol,[3] e cita as seguintes passagens:

“A mera adoção de um programa Social-Democrata não faz por si só um único indivíduo, ou mesmo um grupo inteiro, Social-Democrata. Para se tornar um Social-Democrata, é preciso também adotar integralmente os princípios da tática Social-Democrata.

“A característica que distingue nitidamente o Partido Social-Democrata de todos os outros partidos é, além de seu programa, sua posição de classe implacável em relação a todos os outros partidos burgueses.”

O camarada Plekhanov é muito severo em suas “restrições” a esta passagem. Primeiro, ele exige que a palavra “oposição” seja substituída pela palavra “posição”. Em nossa opinião, essa mudança não melhoraria em nada a redação original: no mínimo, pioraria. Em segundo lugar, o camarada Plekhanov assume as funções de revisor. No original não havia vírgula após a palavra “outro”. Revisores despretensiosos geralmente corrigem esses erros sem fazer barulho. Revisores pretensiosos escrevem um folhetim de quase meia coluna sobre isso!

Mas vamos ao assunto. Qual é a objeção do camarada Plekhanov sobre o ponto em questão? Ele diz: “O autor retrata todos os outros [1] partidos burgueses como uma massa reacionária”.

Isso não é verdade. Não há uma sugestão de nada parecido na passagem que citamos. E nas linhas seguintes, que o próprio Plekhanov cita, o autor distingue claramente entre dois tipos de partido burguês: (1) partidos de “Cadetes de oposição” e (2) partidos de “Lutas”. A tentativa do camarada Plekhanov de atribuir ao autor a ideia de “uma massa reacionária” não é apenas injusta, mas positivamente indigna de um socialista que quer discutir um problema real.

“Diferentes partidos burgueses vestem cores diferentes”, diz o camarada Plekhanov. Já demonstramos que essa ideia correta não é de forma alguma estranha ao autor do artigo em Kolokol, pois ele faz distinção entre a “cor” do cadete de oposição e a “cor” da direita. Portanto, o autor não transgrediu os “princípios” da tática Social-Democrata, apesar da opinião dos críticos; mas foi desajeitado, critico. Mas para definir a tática Social-Democrata russa no período da revolução não é suficiente distinguir entre essas duas “cores” dos partidos burgueses. Aqui, de fato, há uma lacuna nas ideias, ou na forma como são apresentadas, em Kolokol, mas o camarada Plekhanov não percebeu isso. Ao inventar lacunas inexistentes, ele ignorou a lacuna real.

Se o camarada Plekhanov queria debater questões reais com os bolcheviques [2] e não argumentar pelo prazer e entretenimento dos jornais Cadetes, ele não poderia deixar de mencionar que são os bolcheviques que há muito insistem que é necessário distinguir pelo menos três “cores” principais entre os partidos burgueses. Aqui reside uma das principais diferenças entre as duas táticas; e as esperanças do camarada Plekhanov de poder obscurecer essa diferença de tática política suspirando como um pequeno burguês filisteu pela “falta de tato” são vãs.

Há um ano, o panfleto bolchevique Duas Táticas apareceu no exterior e foi posteriormente republicado na Rússia. Seu autor sustentava que a principal falácia do menchevismo como um todo era o fato de não compreender quais elementos da burguesia podem, junto com o proletariado, levar até o fim a revolução democrático-burguesa na Rússia. Os mencheviques ainda hoje se enganam ao pensar que a revolução burguesa deve ser feita pela “burguesia” (burguesia em geral, independentemente da “cor”!), enquanto é função do proletariado ajudá-la. Isso explica por que os mencheviques (incluindo Plekhanov) nunca foram capazes de definir, de maneira marxista, o que será a “vitória decisiva da presente revolução” à luz do reagrupamento político de classes, embora não se importassem de falar sobre a vitória decisiva, mesmo em resoluções. A afirmação dos bolcheviques de que a vitória decisiva pode significar apenas a ditadura do proletariado e do campesinato era repugnante para eles, mas eles foram incapazes de refutá-la, corrigi-la ou modificá-la.

Os bolcheviques afirmaram, e ainda o fazem, que o único aliado firme e confiável que o proletariado pode ter na época da revolução democrático-burguesa (até que essa revolução vença) é o campesinato. Os camponeses também são “democratas burgueses”, mas totalmente diferentes em “cor” dos Cadetes ou outubristas. Diante desses democratas burgueses, independentemente do que eles mesmos desejem, a história estabeleceu objetivos genuinamente revolucionários em relação à “velha ordem” na Rússia. Esses democratas burgueses são compelidos a lutar contra os próprios fundamentos do poder latifundiário e a velha autoridade estatal ligada a ele. Esses democratas burgueses não são “compelidos” por condições objetivas a fazer o máximo para preservar as velhas autoridades e completar a revolução fazendo uma barganha com as velhas autoridades. Portanto, em suas tendências – que são determinadas pelo que são compelidos a fazer – esses democratas burgueses são democratas revolucionários. E os bolcheviques definiram a tática do proletariado socialista durante a revolução democrático-burguesa da seguinte forma: o proletariado deve liderar o campesinato, sem se fundir com ele, contra as velhas autoridades e a velha ordem, paralisando a instabilidade e a inconsistência da burguesia liberal, que oscila entre a liberdade do povo e as velhas autoridades.

São exatamente esses princípios da tática do proletariado Social-Democrata russo no presente período que os mencheviques não compreenderam. Nem o camarada Plekhanov os compreendeu. E é essa questão concreta de nossas táticas que ele está tentando evadir, obscurecer e encobrir por seus argumentos sobre lapsos e erros de impressão, por suas citações irrelevantes e assim por diante.

Julgue por si mesmo. No nº 5 do Kuryer, Plekhanov chega a atribuir aos bolcheviques a ideia de que “o proletariado não pode marchar ao lado da burguesia… isso seria oportunismo”.

Ainda não estamos mortos, camarada Plekhanov! Quem inventa lendas sobre nós como se estivéssemos mortos se faz ridículo. Mesmo aqueles que estão apenas ligeiramente familiarizados com o Vperyod, O Proletariado, Duas Táticas, A Vitória dos Cadetes, e outros panfletos bolcheviques, verão imediatamente que Plekhanov não está falando a verdade.

Há dezoito meses que os bolcheviques vêm afirmando que os erros dos mencheviques se devem à sua incapacidade de distinguir entre os democratas burgueses revolucionários e todos aqueles democratas burgueses que precisamente neste momento estão rapidamente abandonando seu revolucionarismo. Há dezoito meses que os bolcheviques vêm afirmando que, devido ao seu medo ridículo de “aproximar-se” dos socialistas-revolucionários, os mencheviques estão se aproximando demais dos Cadetes e subestimam a importância dos democratas burgueses de cor revolucionária. Os bolcheviques afirmam que o oportunismo dos mencheviques consiste em esquecer os interesses básicos da democracia e, consequentemente, do socialismo, porque ele não pode alcançar verdadeiros sucessos em uma era de revolução burguesa a menos que a democracia seja bem-sucedida – por causa dos sucessos temporários do liberalismo, e com admiração cega pelos triunfos espalhafatosos das pessoas do Zemstvo ou dos Cadetes.

Isto é o que constitui o seu oportunismo, camarada Plekhanov!

Marx nos ensinou, exclama Plekhanov, “a indagar o que a burguesia é obrigada a fazer, e não o que ela quer fazer”.

Exatamente, camarada Plekhanov. Mas é essa lição de Marx que você esquece quando toma o nome dele em vão, assim como Bernstein fez ao minar o marxismo. Você esquece que os Cadetes são “obrigados” a buscar uma barganha com as velhas autoridades, enquanto os camponeses ou democratas revolucionários são “obrigados” a travar uma luta resoluta contra ela; ou, pelo menos, que os Cadetes são apenas capazes de fazer uma barganha, enquanto os camponeses também são capazes de travar uma luta séria. Por meio de frases genéricas sobre o que a “burguesia” em geral é obrigada a fazer, o camarada Plekhanov obscurece a questão concreta, a saber, o que a “burguesia” da cor dos Cadetes e a burguesia da cor democrática-revolucionária são obrigadas a fazer.

Agora julgue quem é realmente incapaz de distinguir as diferentes cores entre a burguesia russa de nossos dias. Quem trata os trabalhadores com escolástica, pedantismo e “verdade mumificada”, em vez de apontar as diferenças dentro da democracia burguesa que são essenciais justamente hoje?

Os leitores que estão seriamente interessados ​​neste problema devem resolvê-lo não com base em impressões casuais, mas estudando seriamente a literatura Social-Democrata e as decisões do Congresso. Compare a resolução sobre a Duma do Estado adotada pelo Congresso com a resolução proposta pelos bolcheviques. Você descobrirá que é a resolução do Congresso (menchevique) que é incapaz de estabelecer uma distinção clara entre os democratas camponeses e os democratas Cadetes. Por outro lado, é apenas a resolução bolchevique que enfatiza essa distinção. A resolução do Congresso apenas nos aconselha a expor a inconsistência de todos os partidos burgueses, enquanto nossa resolução se refere à instabilidade dos Cadetes e afirma que devemos unir os democratas camponeses contra os Cadetes. A resolução do Congresso é completamente inútil a este respeito, pois expor todos os partidos burgueses é o dever dos socialistas em todos os países em todos os momentos. Quem se limita a isso apenas repete frases marxistas – como um colegial que aprende uma lição de cor – sem poder digeri-las e aplicá-las à Rússia. É no período de uma revolução burguesa que dizer “exponha todos os partidos burgueses” significa nada dizer, e sim dizer o que não é verdade; pois os partidos burgueses só podem ser expostos de forma séria e completa quando determinados partidos burgueses entram no primeiro plano da história. A nossa resolução, por outro lado, distingue aquelas “cores” particulares que têm hoje importância política. E é por isso que os primeiros passos dados pela Duma confirmaram o acerto de nossa resolução, pois revelaram claramente a todos a instabilidade dos Cadetes e a natureza mais revolucionária dos “Trudoviques”.

Outro exemplo: a atitude a ser tomada em relação aos partidos burgueses. Como os mencheviques decidiram esta questão antes do Congresso? Com frases gerais – veja o projeto de resolução. E os bolcheviques? Eles apontaram para três tipos de oposição burguesa: os Outubristas, os Cadetes e os democratas revolucionários (veja o projeto de resolução dos bolcheviques). Como o Congresso decidiu essa questão? Os mencheviques não ousaram apresentar sua resolução e endossaram a resolução de Amsterdã! Os Sociais-Democratas russos no período de uma revolução burguesa não têm nada a dizer sobre a burguesia russa de cores diferentes, exceto repetir o que está sendo dito em todos os países europeus cem anos depois de uma revolução burguesa!

Não é óbvio que nosso estimado Plekhanov está jogando a culpa na porta de outra pessoa?

Veja os argumentos do camarada Plekhanov sobre o “verdadeiro socialismo” na Alemanha na década de 1840. Qual era a essência desse “verdadeiro socialismo”? Primeiro, a incompreensão da luta de classes e do significado da liberdade política. Em segundo lugar, a incapacidade de ver a importância relativa dos diferentes estratos da burguesia na luta política então travada. Não é ridículo que o camarada Plekhanov nos acuse disso, quando é ele, à frente dos mencheviques, que obscurece a diferença fundamental – por causa das condições atuais – entre a burguesia oposicionista Cadete e a burguesia democrática revolucionária?

Essa acusação de que há uma afinidade entre os bolcheviques e o “verdadeiro socialismo” merece, em todo caso, uma boa risada. Basta pensar nisso. Sempre ouvimos um coro de acusações de que éramos inflexíveis e ossificados demais, inflexíveis demais. E, no entanto, nossos oponentes nos chamam de “Blanquistas”, “anarquistas” e “verdadeiros socialistas”. Os blanquistas são conspiradores (nunca foram a favor da greve geral), exageram a importância do governo revolucionário. Os anarquistas repudiam completamente todo governo, revolucionário ou não, e contra a organização estrita dos blanquistas, eles defendem a total licença para desorganizar. Os “verdadeiros socialistas” são algo como lavrovistas pacíficos,[4] semi-reguladores, não-revolucionários, heróis do pensamento abstrato e do sermão abstrato. Os mencheviques não poderiam ter encontrado uma vara melhor para se bater do que essas acusações mutuamente exclusivas contra os bolcheviques. Nossa melhor resposta às suas acusações é apontar para essa confusão nas mentes dos mencheviques.

Nós, por outro lado, sempre dissemos, e dizemos, que os mencheviques constituem a ala Social-Democrata de direita, inclinada ao oportunismo, isto é, ao esquecimento dos interesses permanentes, importantes e fundamentais do proletariado por interesses momentâneos, por causa de aparentes possibilidades de “ajustar-se” a humores, situações e relações momentâneas.

A que se resumem as táticas atuais do camarada Plekhanov? Ajoelhar-se diante dos sucessos dos Cadetes, esquecendo os lados muito obscuros de sua conduta atual, disfarçando seu caráter reacionário em comparação com os democratas burgueses revolucionários e embaçando as mentes daqueles operários e camponeses que são propensos a acreditar em “petições” e em um parlamento de brinquedo.

Os Cadetes estão fazendo o possível para parecer democratas burgueses comuns, para esconder seu desacordo com o Grupo Trudovique, para encobrir seus desacordos com os democratas camponeses e obter apoio precisamente para a ala direita e não confiável dos democratas burgueses. Quaisquer que sejam as intenções do camarada Plekhanov, tudo o que ele consegue é que na prática está apoiando esses esforços reacionários dos cadetes. E é por isso que eles são tão pródigos em seu louvor a ele.

O camarada Plekhanov diz que já em 1903 (Segundo Congresso do R.S.D.L.P.) ele, em controvérsia com a então direita do Partido (Akimov, Martynov e outros), insistiu que era necessário apoiar todos os movimentos de oposição contra a autocracia. Marx tinha a mesma opinião em 1847. E Plekhanov quer assegurar a seus leitores que os bolcheviques esqueceram esse axioma.

O camarada Plekhanov está enganado. A tese geral de que as oposições devem ser apoiadas não é rejeitada por aqueles que respondem à questão concreta de saber se um determinado setor da oposição e da burguesia revolucionária deve ser apoiado em um determinado momento. O erro do camarada Plekhanov é, em primeiro lugar, substituir uma questão histórica concreta por uma consideração abstrata. E em segundo lugar, suas opiniões sobre a democracia burguesa na Rússia são totalmente anti-históricas. Ele esquece que a posição das diferentes camadas desses democratas burgueses muda à medida que a revolução avança. Quanto mais a revolução avança, mais rapidamente as camadas menos revolucionárias da burguesia a abandonam. Aqueles que não entendem isso não podem explicar absolutamente nada no curso da revolução burguesa.

Tomaremos dois exemplos para ilustrar o que precede.

Em 1847 Marx apoiou a mais tímida oposição da burguesia alemã ao governo alemão.[5] Em 1848, ele denunciou e açoitou impiedosamente, furiosamente, os Cadetes alemães extremamente radicais – muito mais à esquerda do que nossos Cadetes – que estavam realizando “trabalho construtivo” no Parlamento de Frankfurt, assegurando ao mundo que esse trabalho construtivo era da maior importância agitativa, e seria incapaz de entender que a luta pelo poder real era inevitável.[6] Marx tinha sido falso consigo mesmo? Será que ele mudou de ideia? Será que ele caiu no blanquismo (como pensam os bernsteinianos e os professores liberais alemães)? Nem um pouco. A revolução havia avançado. Não apenas os “Shipovitas” alemães de 1847, mas também os “Cadetes” alemães de 1848 ficaram para trás. Como verdadeiro guardião dos interesses da classe mais avançada, Marx esfolou impiedosamente os retardatários, particularmente os mais influentes entre eles.

Ao citar Marx, Plekhanov o deturpa.

Segundo exemplo.

Em 1903, e ainda antes, em 1901-02, o velho Iskra apoiou os “Shipovitas”, isto é, o tímido povo liberal do Zemstvo da época que, juntamente com o Sr. Struve, emitiu o slogan “Luta, e um Zemstvo Autêntico”. A revolução avançou, e os Social-Democratas desceram, como ii; foram, das fileiras superiores da oposição da burguesia para suas fileiras inferiores revolucionárias. Eles “maltrataram” os Shipovites por suas vagas demandas por uma constituição; os constitucionalistas, por ignorarem o sufrágio universal, etc.; aqueles que aceitaram este último, por não aceitarem a revolução, etc., sempre em proporção ao desenvolvimento, expansão e aprofundamento de todo o movimento democrático. Será que os Social-Democratas revolucionários se contradiziam, se a partir do apoio aos “náufragos” oposicionistas em 1901-02 eles passaram a apoiar os camponeses revolucionários em 1905-06? Nem por sombras. Eles foram bastante consistentes.

É o camarada Plekhanov que é incoerente, ao permitir que os sucessos momentâneos dos Cadetes obscureçam as tarefas democráticas mais elevadas que a experiência já está trazendo para a frente.

Para prosseguir. Aqui está um exemplo particularmente notável da atitude extremamente acrítica de Plekhanov em relação aos Cadetes da Duma.

O camarada Plekhanov cita a seguinte passagem do Kolokol:

“Aplicando essas proposições gerais ao grupo operário parlamentar, podemos dizer que esse grupo expressará as reais aspirações da seção mais militante e consciente do proletariado russo, ou seja, merecerá ser chamado de grupo Social-Democrata na medida em que baseia a sua atividade na Duma nos princípios táticos fundamentais da Social-Democracia.

“Não para afundar no pântano da oposição geral dos Cadetes na Duma, não para seguir a maioria dos Cadetes nele, mas para se opor a essa maioria e expor a estreiteza de suas aspirações, suas inclinações para o compromisso com os partidos da ‘direita’ e com o governo, estas são as únicas táticas dignas dos representantes do proletariado, as táticas verdadeiramente Social-Democratas que devemos recomendar fortemente aos representantes dos trabalhadores na Duma. Se eles seguirem outras táticas, táticas que obscurecem a consciência de classe do proletariado cujos representantes os membros desse grupo se consideram na Duma, eles se tornarão parasitas dos partidos burgueses, ferramentas com as quais impedirão o proletariado no cumprimento de suas tarefas independentes no curso geral da revolução Russa”.

Plekhanov comenta sobre isso, como segue:

“Se nosso camarada Poltava tivesse que aplicar suas proposições gerais ao Partido Socialista na França, ele não teria que fazer nenhuma mudança séria nas últimas linhas de seu artigo. Ele poderia simplesmente substituir a palavra ‘radical’ pela palavra ‘Cadete’, ‘Câmara dos Deputados’ por ‘Duma’ e, finalmente, a frase ‘movimento histórico-social’ por ‘revolução Russa’. Isso é incrivelmente conveniente.”

Convidamos nosso leitor a rever mais uma vez esta passagem do comentário do Kolokol e Plekhanov. Este último nos revela com rara clareza uma das causas da virada de Plekhanov para Bernstein.

Pense. “Kolokol” poderia apenas substituir, nas últimas linhas de seu artigo, a palavra “radical” por “Cadete” e a frase “Câmara dos Deputados” por “Duma”.

Este argumento prega as falácias do camarada Plekhanov ao balcão. Mostra quão longe ele está de entender o que são ilusões constitucionais e, portanto, de entender a situação atual da revolução burguesa Russa.

Plekhanov perdeu de vista a diferença fundamental entre os Cadetes russos e a Duma russa, e os radicais franceses e a Câmara dos Deputados francesa, entre as relações dos primeiros e as da segunda. Ele ignorou uma frase muito curta no artigo do Kolokol, uma frase muito curta, mas muito característica e notável. Essa frase é: “compromisso com o governo”.

Pense nisso, camarada Plekhanov. Pode-se falar na França de um “compromisso” entre a Câmara dos Deputados e o governo? Não. Por que? Porque na França, em tudo o que importa, o governo está subordinado à Câmara. A maioria na Câmara é o próprio governo, pois nomeia para o Ministério os homens que deseja. Ao garantir a maioria na Câmara, os radicais se tornam o governo. Hoje o alinhamento das forças parlamentares corresponde, mais ou menos, ao alinhamento das forças reais entre o povo e à atitude do Estado em relação ao povo. Hoje a Constituição escrita não diverge em nada da Constituição atual, do alinhamento de forças.

Na Rússia pode-se e deve-se falar de um acordo entre a maioria na Duma e o governo. Por quê? Porque em nosso país o poder real pertence, de direito e de fato, não à Duma, mas ao antigo governo autocrático. Diferentemente da Câmara dos Deputados, a Duma não é um órgão do poder estatal, mas apenas um instrumento para a apresentação de petições, solicitações e demandas de uma parcela do povo às antigas autoridades. Portanto, a maioria na Duma pode “entrar em acordo” com o governo; para a França isso seria um absurdo. O alinhamento das forças parlamentares não corresponde em nada ao alinhamento das forças reais no país nem às relações entre o Estado e o povo.

 Na França, a verdadeira luta de classes está sendo travada entre as forças que estão representadas na Câmara, e mesmo a proporção em que essas forças estão representadas corresponde, mais ou menos, à sua atual “força de combate” relativa.

Na Rússia, a luta real não está sendo travada de forma alguma entre as forças representadas na Duma, e sua representação na Duma está agora muito distinta e fundamentalmente desproporcional à sua atual “força de luta” relativa. O verdadeiro governo da Rússia dificilmente está representado na Duma: tem outras “instituições”. O proletariado também está mal representado, enquanto o campesinato está muito mal representado em proporção ao seu número.

A tentativa do camarada Plekhanov de traçar um paralelo entre a Rússia e a França mostra que ele está totalmente imerso em ilusões constitucionais. Ele toma o nome (parlamento, câmara) para o objeto; o rótulo para o conteúdo. É por isso que ele perde completamente de vista todas as características especiais mais importantes da presente situação na Rússia, quando amadurece uma luta entre o “povo” – menos representado na Duma –. particularmente perigoso.

Assim como Bernstein em 1899 causou um enorme dano ao proletariado alemão ao tomar os “comprometidos” intelectuais pequeno-burgueses (os social-liberais que tentavam reconciliar o proletariado com a burguesia) pela burguesia real que detinha o poder real, então Plekhanov em 1906 está causando um enorme dano ao proletariado russo ao tomar os “comprometidos” burgueses semi-reacionários (os Cadetes, que estão tentando conciliar a liberdade do povo com as antigas autoridades) por uma força política independente no estado, por um autoridade que é possível e que vale a pena apoiar.

Bernstein, ao apelar por “tato” para com os social-liberais, ao apelar por apoio para eles e alegando que eles não deveriam ser empurrados para o campo da reação, apelou para o apoio de uma ficção. Ele perseguia a sombra da paz social e ignorava as tarefas fundamentais da luta pelo poder.

Plekhanov, ao apelar por “tato” para com os cadetes, ao apelar ao apoio a eles e ao pleitear que eles não deveriam ser empurrados para o campo da reação, está apelando para o apoio de uma ficção. Persegue a sombra do parlamentarismo (no período de uma revolução burguesa, não socialista) e ignora as tarefas fundamentais da luta pelo poder.

A burguesia social-liberal, Cadete, carrega Bernstein e Plekhanov nos ombros, louvando-os aos céus, anunciando-os, reimprimindo seus escritos pelos serviços que prestam em sua luta contra o proletariado.

Não se enganem sobre isso, trabalhadores. Essas frases sobre os Sociais-Democratas terem que ser “discretos” e sobre “apoiar” os Cadetes têm um significado específico na política real, um significado determinado pelo real alinhamento de forças e não pelas boas intenções de Plekhanov. Pode não ter sido a intenção de Plekhanov acalmar ou atenuar os antagonismos políticos e sociais entre as classes e entre o povo e as antigas autoridades; ele pode assegurar a outras pessoas que não teve tal intenção; mas na atual situação política este é precisamente o efeito de seus argumentos, querendo ou não.

Bernstein não estava lutando pela paz social (ou assim ele disse); mas a burguesia entendeu corretamente que era isso que seus argumentos implicavam. E veja a imprensa Cadete aqui na Rússia. Está elogiando Plekhanov e, independentemente de seus desejos, está tirando suas próprias deduções do que ele diz. Na Duma de ontem (nº 22), o Sr. Kotlyarevsky argumentou que toda “luta de classes e ódio de classe” eram um obstáculo à causa da libertação nacional. Ele traçou um paralelo entre a luta que Volna está conduzindo e a luta dos Guesdistas contra os Jaurésistas, de Fern contra Turati e de Kautsky contra Bernstein. Ele expressou medo de que “esta pregação do ódio de classe que agora está se fazendo ouvir na Rússia, ao minar a solidariedade dos vários grupos sociais que é tão essencial para a ação política conjunta, possa fazer cortes [marque isso! Eu sou a base para as atividades de qualquer tipo de corpo representativo popular devidamente constituído”. “Isso [ódio de classe] não está minando o próprio espírito do constitucionalismo?”

No Svoboda i Kultura (nº 7) de hoje, o Sr. Struve lamenta o fato de que os Sociais-Democratas “estão jogando a liberdade para ser dilacerada pelas fúrias da luta de classes”, que eles têm “uma tendência preconceituosa e mórbida mania pelas ideias da luta de classes” (p. 458), que “a paz política [recorde as palavras “paz social” proferidas pela burguesia europeia!] está fazendo reivindicações inteiramente novas sobre nós” (p. 514). A burguesia compreende perfeitamente que as ideias de Plekhanov alimentam falsas esperanças de “paz política” e, na prática, servem para neutralizar todo confronto de classes e toda luta de classes. Como o pássaro da fábula, o camarada Plekhanov foi apanhado na armadilha por apenas uma pequena garra, mas todo o “pássaro” agora se encontra inteiramente na gaiola do Sr. Struve, no que diz respeito à política atual.

“Abuso não é crítica”, escreve o camarada Plekhanov. “A crítica realmente desenvolve a mente, enquanto o abuso a obscurece. Pegue o termo abusivo ‘traição’. Gritamos tantas vezes sobre a traição da burguesia que quando ela ‘trai’, isto é, quando faz as pazes com a burocracia, e se torna realmente necessário que gritemos sobre isso dos telhados, nossos gritos não mais tenha o efeito desejado, e teremos o mesmo destino do menino que gritou: ‘Lobo! Lobo!’, quando não havia lobo.”

Que belo exemplar do bernsteinianismo russo é este pequeno fragmento do raciocínio de Plekhanov!

Primeiro, veja como é claro que o camarada Plekhanov não tem uma perna para se apoiar. Em novembro de 1905, ele escreveu no nº 3 do Dnevnik: “…nós temos tido muitos gritos ultimamente sobre a burguesia ter traído uma coisa ou outra [!]. Mas o que a burguesia pode ter traído? Em todo caso, não a revolução, pois nunca serviu à ideia de revolução”.

Como podem ver, em novembro de 1905 o camarada Plekhanov nem sequer compreendia o que a burguesia podia trair. Agora ele compreende. Ele não apenas acredita que a burguesia pode trair alguma coisa, mas sustenta que ela realmente trairá. Dentro de seis meses o camarada Plekhanov mudou de ideia. Primeiro ele disse que a burguesia não podia trair nada. Agora ele diz que na verdade vai trair, ou seja, vai fazer as pazes com a burocracia.

Deveríamos ter ficado muito satisfeitos com o progresso do camarada Plekhanov, se suas opiniões em outros aspectos não permanecessem tão mutáveis. Traição é um termo abusivo, diz ele. Esta opinião não é nova. É a opinião de todos os burgueses liberais. Os Cadetes estão jantando aos ouvidos do público russo em milhares de artigos de jornal que essa conversa sobre a “traição” da burguesia é apenas a linguagem abusiva dos bolcheviques “selvagens”. Agora a burguesia encontrou um novo aliado nesta questão. O camarada Plekhanov também se convenceu de que “traição” é um “termo abusivo”.

Assim como foi necessário repetir e reiterar o ABC do marxismo para combater Bernstein, é necessário fazê-lo agora para combater Plekhanov. Ele está muito enganado. “Traição” não é “um termo abusivo”; é o único termo cientificamente e politicamente correto para expressar os fatos reais e as aspirações reais da burguesia. A palavra “traição” expressa a mesma ideia que a frase “fazer uma barganha”. O próprio Plekhanov não pode deixar de admitir isso, pois identifica traição com reconciliação com a burocracia. E agora veja o que a “selvagem” Volna disse sobre a frase “fazer uma barganha”.

“Mas quais são, em essência, as barganhas feitas pelos Cadetes?” lemos no nº 13 da Volna. “Não são atos pessoais de traição, é claro. Uma opinião tão grosseira é totalmente estranha ao marxismo. A substância das barganhas é (e é apenas) que os Cadetes não abandonam, e não querem abandonar, sua posição de preservar o antigo regime e de obedecer aos comandos deste regime.”

Assim, a essência da traição, ou das barganhas, não são atos pessoais de traição. Traição, ou barganhas, significa apenas que o partido da liberdade do “povo” (leia-se “burguês”) está se esforçando para manter a velha autocracia no poder, para induzi-la a compartilhar o poder com a burguesia.

O partido da “liberdade do povo” está traindo a liberdade do povo apenas porque está entregando uma grande parte dos direitos do povo e do poder do povo aos representantes das velhas autoridades. A falta de vontade do camarada Plekhanov em compreender esta verdade simples é bastante monstruosa. Ele está querendo dizer que a burguesia na Rússia ainda não traiu nada, que só o fará no futuro.

Isso é total incompreensão da própria essência da traição e das barganhas.

A burguesia e os cadetes traíram a liberdade e fizeram as pazes com a burocracia um milhão de vezes. Qual é o programa do Partido Constitucional-Democrata? Representa um certo passo político dado pela burguesia? Sem dúvida, sim. Mas este programa é precisamente um programa de traição, de barganhas! E cada passo político que os Cadetes dão é, de uma forma ou de outra, um passo no cumprimento deste programa. O discurso de Trubetskoi [7] no verão de 1905, a proteção dos cadetes sobre a questão do sistema de quatro pontos e a lei draconiana de liberdade de imprensa são todos passos dados pela burguesia liberal no cumprimento desse programa de traição.

Na opinião do camarada Plekhanov, a burguesia não pode ser acusada de traição a menos que dê um novo passo especial. Isso não é verdade. Se a burguesia, e os Cadetes em particular, continuarem fazendo o que têm feito até agora, a soma total de todas as suas ações produzirá o quadro mais completo de traição. A essência do oportunismo Social-Democrata atual é precisamente a incapacidade de compreender isso.

Se os sonhos filisteus dos Cadetes se realizarem, se a “pressão pacífica” da Duma e da “opinião pública” obrigar o governo a fazer pequenas concessões, se o Conselho de Estado estiver disposto a ceder um pouco – como aconselha fazer pelo Sr. Khomyakov, um membro do Conselho, cujos planos o jornal Cadete Duma noticiou ontem – se o antigo governo reorganizar o Ministério e dar vários assentos confortáveis ​​para os Cadetes de direita, e assim por diante, o resultado, no longo executado, será justamente a “reconciliação” entre os Cadetes e a burocracia. A soma e a substância do erro de Plekhanov é que ele pensa que o caminho da “traição” é, ou será, um “novo” caminho para nossa burguesia, quando na verdade é uma continuação de seu antigo caminho que constitui o “corpus delicti”. de sua traição, para usar um termo legal.

Quando a burguesia “realmente” trair, diz Plekhanov, ninguém acreditará em nós quando levantarmos um grito sobre isso, porque todos estarão muito acostumados com a palavra “traição”.

Que infinita ingenuidade política! Toda a política da Social-Democracia é iluminar o caminho que está à frente das massas populares. Levantamos a tocha do marxismo e mostramos, a cada passo que as várias classes dão, a cada evento político e econômico, que a vida confirma nossas doutrinas. À medida que o capitalismo se desenvolve, e à medida que a luta política se torna mais aguda, setores cada vez maiores do povo se convencem pelo que dizemos e por essa confirmação factual (ou histórica) do que dizemos. Atualmente, digamos, centenas de milhares de homens e mulheres na Rússia estão convencidos de que nossa avaliação dos Cadetes está correta. Se a revolução se desenvolver rapidamente, ou der uma guinada acentuada em direção a um importante acordo entre os Cadetes e a autocracia, milhões e até dezenas de milhões estarão convencidos de que estamos certos.

Portanto, é o maior absurdo dizer que mais tarde as pessoas não acreditarão em nós quando levantarmos um grito de traição, porque estamos gritando sobre isso com muita frequência agora. O camarada Plekhanov está tentando em vão encobrir esse absurdo com argumentos que as solteironas idosas, dames de classe e afins costumam produzir em benefício das meninas do ensino médio. “A crítica deve ser bem fundamentada”, ele nos diz para nossa edificação.

Ambos novos e inteligentes. A sua crítica também, camarada Plekhanov, deve ser bem fundamentada. Acontece que você não cita um único fato, ou um único exemplo importante, para provar que nossa crítica aos Cadetes é infundada; por seus argumentos gerais, no entanto, você semeou várias opiniões infundadas nas mentes de seus leitores! Imagine, você está reduzindo o conceito de “traição” ao de um termo de abuso!

Então tem essa frase. “Em nossas fileiras, a realização dessa antítese [a antítese dos interesses da burguesia e do proletariado] adquiriu, pode-se dizer, a rigidez de um preconceito”. O que você quer dizer com “nossas fileiras”, camarada Plekhanov? As fileiras dos filisteus russos em Genebra? Ou dos membros do nosso Partido, em geral? Mas não se deve ter em conta também as amplas fileiras das massas populares?

Como bem observou um operário em Prizyv,[8] Plekhanov julga “de longe”. As massas de proletários e semiproletários ainda não têm ideia nem dessa antítese geral nem do caráter burguês dos Cadetes. A imprensa Cadete agora é provavelmente dez vezes maior que a imprensa Social-Democrata. Os Cadetes também estão corrompendo constantemente as mentes das pessoas através da Duma dos Cadetes e de todos os tipos de instituições liberais. Deve-se de fato ter perdido todo o senso de realidade para imaginar que estamos correndo à frente dos acontecimentos e das necessidades das massas, expondo a instabilidade e a traição dos Cadetes. Pelo contrário, nesta matéria estamos atrasados ​​em relação aos acontecimentos e às necessidades das massas! Seria muito melhor, camarada Plekhanov, se você escrevesse uma crítica popular e “fundada” aos Cadetes: isso seria mais útil.

Examinemos agora as deduções de Plekhanov sobre a Duma.

“Nosso governo já cometeu muitos erros imperdoáveis”, escreve ele. “Esses erros a levaram à beira de um abismo, mas ainda não a empurraram para o abismo. Cairá no abismo quando a Duma se dispersar… A Duma está despertando até os mais sonolentos; está empurrando para frente até o mais para trás; está dissipando das mentes das massas as últimas ilusões políticas legadas pela história… O trabalho orgânico da Duma terá o efeito mais agitador”.

Examine esses argumentos de perto. O governo cairá quando a Duma for dispersada. Vamos admitir isso por causa do argumento. Mas por que supor que a Duma será dispersa se ela se dedicar exclusivamente ao trabalho orgânico? O que é trabalho orgânico? O trabalho que a Duma faz dentro da lei. A Duma submete Projetos de Lei ao Conselho de Estado e interpela os Ministros. O Conselho de Estado e os Ministros procrastinam e, na medida do possível, amenizam todos os conflitos que surgem. Russkoye Gosudarstvo, porta-voz do governo russo, disse há muito tempo: que a Duma seja uma Duma de oposição, mas não revolucionária. Em outras palavras: você pode se engajar no trabalho orgânico, mas nem um passo além disso!

Que sentido haveria em dissolver a Duma para fazer trabalho orgânico? E ela nunca será dissolvida se nunca der um passo revolucionário, totalmente não orgânico, ou se nenhum movimento irromper fora da Duma que transforme até mesmo um Cadete da Duma em um obstáculo ao governo. Pensamos que há muito mais razões para tal suposição do que para a simples afirmação de que “a Duma será dispersa”.

A dissolução da Duma não é a única causa suscetível de provocar a queda do governo. O governo pode cair por outras razões; pois a Duma não é de modo algum o fator principal, nem o índice mais seguro do movimento. Não cairá por si mesma, mas como resultado da ação vigorosa — de uma terceira força (nem o governo, nem a Duma). É dever dos Sociais-Democratas explicar que esta ação é inevitável; explicar as formas que provavelmente assumirá, o caráter e a composição de classe das forças capazes de realizar tal “ação”; para explicar as condições sob as quais ela pode ser bem sucedida, e assim por diante. Mas são os Cadetes que lutam incansavelmente contra os Sociais-Democratas por isso. Portanto, uma das condições para o sucesso deste trabalho, e uma garantia de que as massas simpatizarão com ele, é que os Cadetes sejam desacreditados.

Quem fala que o governo “cai” no abismo e ainda diz que é inoportuno criticar os cadetes e acusá-los de traição, é totalmente incoerente. Se eu quisesse copiar o estilo de Plekhanov, diria: cair “no abismo” é apenas uma figura de linguagem, é uma frase revolucionária. Nas mãos de quem passará o poder? Podem os operários e camponeses permitir que o poder passe para os Cadetes, que imediatamente o compartilhariam com a velha autocracia? Não é, portanto, particularmente necessário alertar o povo contra os Cadetes?

Achamos que sim. Pensamos que o oportunismo de Plekhanov, sua oposição absolutamente infundada às táticas que expõem a verdadeira natureza do Partido Constitucional-Democrata, está dificultando e prejudicando este trabalho necessário de esclarecimento das massas sobre os cadetes.

Ao dizer que o trabalho construtivo na Duma terá o efeito de agitação necessário, Plekhanov mostra que tem uma visão extremamente unilateral das coisas. Como já salientámos na Volna, os próprios mencheviques acertam neste ponto Plekhanov quando ridicularizam, com toda a razão, a perspectiva de a Duma “acumular um monte de leis”. Até agora, a Rússia tem sido o país com o maior número de leis policiais em papel. Se a Duma passar todo o seu tempo em trabalho “construtivo”, a Rússia logo se tornará o país com o maior número de leis radicais de papel. É o maior pedantismo imaginar que o efeito de agitação dessas leis ou projetos de lei será em proporção direta à sua extensão e número. Para pensar assim, deve-se ter esquecido o exemplo do Parlamento de Frankfurt, que muito zelosamente se engajou no “trabalho construtivo” e, como Plekhanov faz agora, imaginou que era o trabalho construtivo que tinha o efeito mais agitador. Para pensar assim, é preciso estar cego para o que já está acontecendo na Rússia: é preciso estar cego para os sinais de que o público está ficando cansado da interminável tagarelice dos discursos de Cadetes na Duma, cego para a impressão que está sendo criada pelos Projetos de Lei “Draconianos” dos Cadetes e suas desculpas esfarrapadas para se justificar por apresentá-los; é preciso estar cego para o medo infinitamente repugnante e filisteu dos Cadetes da nova onda que se aproxima, da inevitável nova luta, do que Plekhanov chamou de “cair no abismo”. Expor os Cadetes, camarada Plekhanov, significa preparar as mentes das massas populares para esta queda, prepará-las para participar ativamente na sua realização, para manter os Cadetes longe do “bolo” do governo quando vier a queda; significa fazer preparativos ousados ​​e vigorosos para isso.

A Duma está despertando as pessoas; a Duma está dissipando as últimas ilusões, nos dizem. Verdadeiro. Mas a “Duma” está fazendo isso apenas na medida em que estamos expondo a timidez e a instabilidade da Duma dos Cadetes, apenas na medida em que explicamos os fatos sobre a Duma que indicam a dissipação de ilusões. Os Cadetes não estão fazendo isso. Eles estão tentando contra-atacar. Eles estão espalhando ilusões constitucionais. O zubatovismo também despertou os trabalhadores, também expôs ilusões; mas fez isso apenas na medida em que combatemos a corrupção das mentes das pessoas pelo zubatovismo. E que ninguém tente refutar esse argumento afirmando que a Duma não é zubatovismo. Comparar as coisas não significa identificá-las. Mostre-me um jornal de Cadetes, ou uma declaração política importante dos Cadetes, que não contenha elementos da corrupção política das mentes das pessoas.

Isso é o que o camarada Plekhanov esquece quando declara majestosamente e portentosamente: “Este é o significado de toda filosofia: tudo o que contribui para a educação política do povo é bom; tudo o que o impede é ruim.” Todo o resto é preconceito, escolástica.

Sim, sim, uma certa ala da Social-Democracia está de fato caindo na escolástica sem esperança. Mas qual ala, a direita ou a esquerda? Pode-se imaginar algo mais pedante, sem vida e verdadeiramente escolástico do que reduzir a tática do proletariado em período de revolução à tarefa de educar politicamente o povo? Onde, então, está a linha de fronteira entre a luta de classes Social-Democrata e a luta de um “elevador” burguês comum ou jardim? A revolução está em pleno andamento, diferentes classes estão se destacando, as massas começaram a fazer história, partidos burgueses de diferentes matizes estão surgindo, a complicada crise política está se tornando mais aguda, a luta está entrando em uma nova etapa para a qual o terreno foi preparado pela safra extraordinariamente rica de eventos e experiências de 1905 – e tudo isso se reduz a uma coisa: a educação política do povo! Verdadeiramente, nossa dame de classe fez uma descoberta brilhante, verdadeiramente, uma maravilhosa “chave” para todos os problemas concretos da política e, além disso, uma chave que qualquer Cadete, e até mesmo o Partido das Reformas Democráticas, e até Heyden, aceitaria em cheio, agarrava-se com as duas mãos. Sim, este é exatamente o critério “amplo” que precisamos, é isso que vai reunir e unir as classes, e não semear ódio e contenda. Precisamente! Bravo, Plekhanov — digam todas essas boas pessoas. Esta é a “solução” que certamente irá obscurecer, ou colocar em segundo plano, esse novo “período de loucura”, o novo “turbilhão” que a burguesia tanto teme. Nada de redemoinhos, nada de cataclismos, camarada Plekhanov, seja coerente: nada de abismos! A educação política do povo – essa é a nossa bandeira, esse é o sentido de toda filosofia!

O camarada Plekhanov assumiu total e completamente a imagem daquele Cadete alemão médio no Parlamento de Frankfurt. Oh, quantos discursos incomparáveis ​​esses fanfarrões fizeram sobre a consciência política do povo! Quantas leis “construtivas” magníficas eles redigiram para esse fim! E com que nobreza protestaram quando foram dispersos depois de terem aborrecido o povo até a morte e perdido toda a importância revolucionária.

Dizem-nos que a revolução russa se aprofunda, sua maré está subindo, não será detida na barragem da Duma dos Cadetes, da fraseologia dos Cadetes, da timidez dos Cadetes e das contas draconianas dos Cadetes. Sim, senhores, isso é absolutamente verdade: a revolução russa é mais ampla, mais poderosa e mais profunda. Sua maré está subindo. Está varrendo os Cadetes. E nós, Social-Democratas revolucionários, expressamos esse movimento mais profundo, estamos nos esforçando para explicar essa tarefa mais elevada aos operários e camponeses, estamos ajudando-os, da melhor maneira possível, a superar a barragem dos Cadetes.


Notas:

[1] O camarada Plekhanov também se esquece de colocar uma vírgula aqui, ou de omitir a palavra de tempo “outro”, isto é, ele mesmo comete o mesmo deslize que ele tão severamente adverte nosso camarada! — Lênin

[2] Não conhecemos nem o autor do artigo do Kolokol, nem os editores, nem a tendência deste jornal social-democrata. Estamos aqui preocupados com as ideias gerais subjacentes à “crítica” de Plekhanov e não especificamente com suas polêmicas com Kolokol. – Lênin

[3] Kolokol (O Sino) — um diário Social-Democrata legal publicado em Poltava, Ucrânia, de 18 (31) de janeiro a 8 (21 de junho) de 1906. A maioria de seus colaboradores eram mencheviques.

[4] Lavrov, P. L. (1823-1900) — sociólogo e publicitário russo, notável ideólogo do populismo (narodism)

[5] Ver o artigo de Karl Marx “The Communism of the Paper Rheinischer Beobachter” (Marx e Engels, On Religion, Moscou, 1957, pp. 81-86).

[6] Ver Frederick Engels, “Marx and the Neue Rheinisehe Zeitung” (Marx e Engels, Selected Works, Vol. II, Moscow, 1958, pp. 328-37); Frederick Engels, “Revolution and Counter-Revolution in Germany”. VII. “The Frankfort National Assembly”. New York   Daily Tribune, 1852; Aartigos do Neue Rheinische Zeitung (Marx, Engels, Werke, Bd. 5, Berlin, 1959).

[7] Príncipe Trubetskoi, S. N. (1862-1905) – um liberal que defende uma constituição moderada. Em junho de 1905, será dirigido um discurso político a Nicolau II como membro de uma delegação Zemstvo enviada ao czar.

[8] Prizyv (O Chamado) — um jornal popular publicado em São Petersburgo de 15 (28) de janeiro a 15 (28 de junho) de 1906. A partir do final de março seus colaboradores incluíam bolcheviques.

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