7 anos após a crise de 2008

Por Slavoj Zizek.

O trecho abaixo foi extraído do livro “Primeiro como tragédia, depois como farsa”. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 21 à 27.


Socialismo Capitalista?

A única coisa realmente surpreendente na crise financeira de 2008 foi a facilidade com que se aceitou a ideia de ter sido um fato imprevisível que, do nada, atingiu os mercados. Recordemos as manifestações que, durante toda a primeira década do novo milênio, acompanharam regularmente as reuni.es do FMI e do Banco Mundial: as queixas dos manifestantes abrangiam não só os temas de sempre contra a globalização (a exploração crescente dos países do Terceiro Mundo etc.), mas também o modo como os bancos criavam a ilusão de crescimento brincando com dinheiro de ficção e como tudo isso acabaria em desastre.

Não foram só economistas como Paul Krugman e Joseph Stiglitz que alertaram para os perigos que nos esperavam e mostraram que os que prometiam crescimento contínuo na verdade não compreendiam o que acontecia bem debaixo de seu nariz. Em 2004, tantas pessoas fizeram manifestações em Washington contra o perigo de um colapso financeiro que a polícia teve de mobilizar mais 8 mil agentes locais e convocar outros 6 mil de Maryland e da Virgínia. O que se viu em seguida foi gás lacrimogêneo, cassetetes e prisões em massa, tantas que a polícia teve de usar ônibus para o transporte. A mensagem foi alta e clara, e a polícia foi usada literalmente para sufocar a verdade.

Depois desse esforço contínuo de ignorância obstinada, não admira que, quando a crise finalmente explodiu, “ninguém [soubesse] direito o que fazer”, como disse um dos participantes. E a razão disso é que as expectativas fazem parte do jogo: o modo como o mercado reage depende não só de quanta gente confia nessa ou naquela intervenção, mas sobretudo até que ponto essa gente acha que os outros confiarão; não se pode levar em conta o efeito da própria escolha. Muito tempo atrás, John Maynard Keynes explicou muito bem essa autor-referencialidade ao comparar o mercado de ações com uma competição tola em que os participantes têm de escolher várias garotas bonitas cm uma centena de fotografias, sendo que ganha quem escolher as moças mais próximas da média das opiniões:

Não é o caso de escolher aquelas que, na melhor avaliação de cada um, são realmente as mais bonitas ou aquelas que a média das opiniões acha legitimamente mais bonitas. Alcançamos um terceiro grau, em que dedicamos nossa inteligência a prever o que a média das opiniões espera que seja a média das opiniões.

Assim, somos forçados a escolher sem ter à disposição o conhecimento que permitiria uma escolha habilitada ou, como explica John Gray: “Somos forçados a viver como se fôssemos livres”.

No auge da crise, Joseph Stiglitz escreveu que, apesar do consenso cada vez maior entre os economistas de que nenhuma medida de salvamento baseada no plano de Henry Paulson, secretário do Tesouro americano, funcionaria,

é impraticável para os políticos não fazer nada numa crise dessas. Assim, talvez tenhamos de rezar para que um acordo elaborado com uma mistura tóxica de interesses especiais, medidas econômicas mal direcionadas e ideologias de direita que produziram a crise possa, sabe-se l. como, levar a um plano de salvamento que funcione ou cujo fracasso não provoque danos excessivos.

Ele está certo, pois os mercados se baseiam de fato em crenças (até mesmo crenças sobre as crenças dos outros); assim, quando os meios de comunicação se preocupam com o modo “como o mercado reagirá” às medidas de salvamento, trata-se não apenas das consequências reais, mas da crença dos mercados na eficácia do plano. E por isso que essas medidas podem funcionar mesmo se estiverem economicamente erradas.

Aqui, a pressão para “fazer alguma coisa” é como a compulsão supersticiosa a fazer um gesto qualquer quando estamos diante de um processo sobre o qual não temos influência real. Nossos atos não costumam ser assim? A velha frase “não fique aí falando, faça alguma coisa!” é uma das coisas mais estúpidas que se pode dizer, mesmo para o baixo padrão do senso comum. O problema talvez seja, então, que temos feito demais, intervindo na natureza, destruindo o meio ambiente etc… Talvez esteja na hora de dar um passo para atrás, pensar e dizer a coisa certa. É verdade que costumamos falar em vez de fazer, mas às vezes também fazemos coisas para não ter de falar e pensar sobre elas. Como despejar 700 bilhões de dólares num problema em vez de refletir no porquê de ele ter surgido.

Sem dúvida, há material suficiente na confusão atual para nos fazer pensar. Em 15 de julho de 2008, o senador republicano Jim Bunning atacou Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed), afirmando que sua proposta mostrava que “o socialismo está vivo e bem de saúde nos Estados Unidos”: “Agora o Fed quer ser o regulador do risco sistêmico. Mas o Fed é o risco sistêmico. Dar mais poder ao Fed é como dar um bastão maior ao garoto que quebrou a nossa janela jogando beisebol na rua, achando que isso vai resolver o problema”. Em 23 de setembro, ele atacou de novo, chamando de “não americano” o plano do Tesouro para o maior resgate financeiro desde a Grande Depressão:

Alguém precisa assumir esses prejuízos. Podemos deixar que quem tomou as decisões erradas sofra as consequências de seus atos ou podemos espalhar esse sofrimento entre todos. E é exatamente isso que o secretário propõe: pegar o sofrimento de Wall Street e espalhá-lo pelos contribuintes… Esse resgate maciço não é a solução; isso é socialismo financeiro, e é não americano.

Bunning foi o primeiro a traçar publicamente os contornos do raciocínio por trás da revolta do Partido Republicano contra o plano de salvamento — cujo clímax foi a rejeição da proposta do Fed em 29 de setembro. Esse argumento merece um olhar mais atento. Observemos que a resistência republicana ao plano de salvamento foi formulada em termos de “guerra de classes”: Wall Street contra o povo das ruas. Por que deveríamos ajudar os que estão em “Wall Street” e são responsáveis pela crise pedindo aos hipotecados, o povo das ruas, que paguem o pato? Esse não seria um caso óbvio do que a teoria econômica chama de “risco moral”, definido como “o risco de que alguém se comporte de maneira imoral porque a seguradora, a lei ou outra instância qualquer o protegerá dos prejuízos que seu comportamento possa causar” – se tenho seguro contra incêndio, tomo menos cuidado (ou, in extremis, ponho fogo nas instalações que cobri com o seguro, mas que me dão prejuízo)? O mesmo vale para os grandes bancos: não estariam protegidos contra grandes perdas e não seriam capazes de manter o lucro? Não admira que Michael Moore tenha escrito uma carta aberta acusando o plano de salvamento de ser o roubo do século.

É essa superposição inesperada da visão da esquerda com a dos republicanos conservadores que deveria nos fazer parar para pensar. O que os dois pontos de vista têm em comum é o desprezo pelos grandes especuladores e executivos de empresas que lucram com decisões arriscadas mas estão protegidos do fracasso por “paraquedas dourados”. Recordemos a piada cruel de Ser ou não ser, [filme] de [Ernst] Lubitsch: quando lhe perguntam sobre os campos de concentração alemães na Polônia ocupada, o oficial nazista responsável, “Campo de Concentração Ehrhardt”, responde: “Fazemos a concentração, e os poloneses, o campo”. O mesmo não se aplicaria ao escândalo da falência da Enron, em janeiro de 2002, que pode ser interpretada como uma espécie de comentário irônico à noção de sociedade de risco? Milhares de funcionários que perderam emprego e poupança estavam expostos a riscos, sem dúvida, mas nesse caso sem capacidade real de escolha; o risco surgiu como destino. Ao contrário, os que realmente tinham noção dos riscos envolvidos, além de poder para intervir (ou seja, os altos executivos), minimizaram seus riscos vendendo ações e opções antes da falência. É bem verdade que vivemos numa sociedade de escolhas arriscadas, mas apenas alguns têm a escolha, enquanto os outros ficam com o risco…

Então, o plano de salvamento seria mesmo uma medida “socialista”, o nascimento do socialismo de Estado nos Estados Unidos? Se for, é de um tipo muito peculiar; uma medida “socialista” cuja meta primária não é ajudar os pobres, mas os ricos, não os que pedem emprestado, mas os que emprestam. Numa suprema ironia, “socializar” o sistema bancário é aceitável quando serve para salvar o capitalismo. O socialismo é ruim, a não ser quando serve para estabilizar o capitalismo. (Observemos a simetria com a China de hoje: do mesmo modo, os comunistas chineses usam o capitalismo para impingir seu regime “socialista”.)

Mas e se o “risco moral” estiver embutido na própria estrutura do capitalismo? Ou seja, não há como separar os dois no sistema capitalista, o bem-estar social das ruas depende da prosperidade de Wall Street. Assim, enquanto os populistas republicanos que resistem ao salvamento fazem a coisa errada pelas razões certas, quem propõe o salvamento faz a coisa certa pelas razões erradas. Para usar termos mais sofisticados, a relação é intransitiva: embora o que é bom para Wall Street não seja necessariamente bom para o povo das ruas, o povo das ruas não pode prosperar quando Wall Street cai doente, e essa assimetria d. a Wall Street uma vantagem a priori.

Recordemos o conhecido argumento do “pinga-pinga” contra a redistribuição igualitária (por meio de altos níveis de tributação progressiva etc.): em vez de tornar os pobres mais ricos, a redistribuição torna os ricos mais pobres. Longe de ser simplesmente anti-intervencionista, essa atitude mostra na verdade uma percepção muito exata da intervenção econômica do Estado: embora todos queiramos que os pobres fiquem mais ricos, é contraproducente ajudá-los diretamente, porque eles não são o elemento dinâmico e produtivo da sociedade. O único tipo necessário de intervenção é o que ajuda os ricos a ficar mais ricos; desse modo, os lucros se espalharão automaticamente, por si sós, entre os pobres… Hoje, esse argumento virou a crença de que, se investirmos dinheiro suficiente em Wall Street, ele acabará pingando no povo das ruas e ajudará os trabalhadores comuns e os proprietários de imóveis. Assim, mais uma vez, se quisermos que todos tenham dinheiro para construir sua casa, não devemos dar dinheiro diretamente a eles, mas àqueles que, por sua vez, lhes emprestarão os recursos. Seguindo a lógica, essa é a única maneira de criar uma prosperidade genuína; do contrário, o Estado estaria apenas distribuindo fundos entre os necessitados à custa dos verdadeiros criadores de riqueza.

Em consequência, os que pregam a necessidade de abandonar a especulação financeira e voltar à “economia real”, produzindo bens para satisfazer as necessidades das pessoas reais, não percebem o verdadeiro propósito do capitalismo: impulsionar e aumentar a circulação financeira por ela mesma é sua única dimensão do Real, em contraste com a realidade da produção. Essa ambiguidade ficou visível na crise recente, quando fomos bombardeados por apelos ao retorno à “economia real” e lembrados ao mesmo tempo de que a circulação financeira, o sistema financeiro sólido, é o fluido vital de nossa economia. Que estranho fluido vital é esse que não faz parte da “economia real”? A ‘economia real” seria um cadáver sem sangue? O slogan populista “salvem o povo das ruas, não Wall Street!” é totalmente enganoso, uma forma de ideologia em seu grau mais puro, porque passa por cima do fato de que, no capitalismo, o que sustenta o povo das ruas é Wall Street! Sem ela, o povo das ruas se afogará no pânico e na inflação. Logo, Guy Sorman, ideólogo exemplar do capitalismo contemporâneo, está certo quando afirma: “Não há nenhuma razão econômica para distinguir ‘capitalismo virtual’ de ‘capitalismo real’: nunca se produziu nada real que não fosse financiado antes […] mesmo numa época de crise financeira, o benefício global do novo mercado financeiro superou seus custos”.

Embora as crises e os desastres financeiros sejam lembretes óbvios de que a circulação de capital não é um circuito fechado que pode se sustentar por conta própria — que pressupõe uma realidade ausente na qual os bens reais que satisfazem as necessidades das pessoas são produzidos e vendidos —, sua lição mais sutil é que não podemos retornar a essa realidade, apesar de toda a retórica do “vamos sair do espaço virtual da especulação financeira e voltar às pessoas de verdade, que produzem e consomem”. O paradoxo do capitalismo é que não se pode jogar fora a água suja da especulação financeira e preservar o bebê saudável da economia real.

É muito fácil desconsiderar essa linha de raciocínio como uma defesa hipócrita dos ricos. O problema é que, na medida em que permanecemos numa ordem capitalista, há verdade nela, isto é, dar um pontapé em Wall Street realmente vai atingir os trabalhadores comuns. É por essa razão que os democratas que apoiaram o plano de salvamento não foram incoerentes com sua orientação esquerdista. Só teriam sido incoerentes se aceitassem a premissa dos populistas republicanos de que o capitalismo (verdadeiro, autêntico) e a economia de livre mercado estão ligados à classe popular trabalhadora, enquanto a intervenção do Estado à uma estratégia da elite para explorar as pessoas comuns e trabalhadoras. Sendo assim, “capitalismo versus socialismo” torna–se “trabalhadores comuns versus camadas da classe alta”.

Mas não há nada de novo na forte intervenção do Estado no sistema bancário ou na economia em geral. A própria crise recente é resultado dessa intervenção: em 2001, quando estourou a bolha das [empresas] “.com” (que exprimia a própria essência do problema da “propriedade intelectual”), decidiu-se facilitar o crédito a fim de redirecionar o crescimento para os imóveis. (Desse ponto de vista, portanto, a principal causa da crise de 2008 foi o impasse em torno da propriedade intelectual.) Se ampliarmos nosso horizonte para abranger a realidade global, notaremos que as decisões políticas estão entremeadas no próprio tecido das relações econômicas internacionais. Há cerca de dois anos, uma reportagem da CNN sobre o Mali descreveu a realidade do “livre mercado” internacional. Os dois pilares da economia malinesa são o algodão, no Sul, e a criação de gado, no Norte, e ambos enfrentam problemas devidos ao modo como as potências ocidentais violam as próprias regras que tentam impor aos países pobres do Terceiro Mundo. O Mali produz algodão de excelente qualidade, mas o problema é que o subsídio que o governo norte-americano dá a seus próprios produtores de algodão equivale a mais do que todo o orçamento do Estado malinês, portanto não surpreende que não seja competitivo. No norte, a culpada é a União Europeia: a carne malinesa não consegue concorrer com a carne e o leite altamente subsidiados da Europa. A União Europeia subsidia cada vaca com cerca de 500 euros por ano, mais do que o PIB per capita do Mali. Como explicou o ministro da Economia; nós não precisamos de ajuda, conselhos ou palestras sobre os efeitos benéficos do fim da regulamentação excessiva do Estado; basta que vocês cumpram suas próprias regras de livre mercado e nossos problemas acabarão… Onde estão os defensores republicanos do livre mercado? O colapso do Mali mostra a realidade do que significa, para os Estados Unidos, pôr o “país em primeiro lugar”.

Tudo isso indica claramente que não há mercado neutro: em cada situação específica, as configurações do mercado são sempre reguladas pelas decisões políticas. O verdadeiro dilema, portanto, não é “o Estado deveria intervir?”, mas “que tipo de intervenção estatal é necessário?”. Essa é uma questão de política real, ou seja, uma luta para definir as coordenadas “apolíticas” básicas de nossa vida. De certo modo, todas as questões políticas são apartidárias; têm a ver com a pergunta: “O que é nosso país?”.

Assim, o debate sobre o plano de salvamento é verdadeira política, na medida em que diz respeito às decisões sobre as características fundamentais de nossa vida social e econômica e, nesse processo, mobiliza os fantasmas da luta de classes. Não há posição “objetiva’’ especializada à espera simplesmente de ser aplicada; é preciso apenas tomar posição de um lado ou de outro, politicamente.

Existe a possibilidade real de que a principal vítima da crise em andamento não seja o capitalismo, mas a própria esquerda, na medida em que sua incapacidade de apresentar uma alternativa global viável tornou-se novamente visível a todos. Foi a esquerda que de fato se enredou. Foi como se os acontecimentos recentes tivessem sido encenados com risco calculado para demonstrar que, mesmo numa época de crise destrutiva, não há alternativa viável ao capitalismo. “Thamzing” é uma palavra tibetana da época da Revolução Cultural com reverberações agourentas para os liberais: significa “sessão de luta”, uma audiência pública coletiva e crítica de um indivíduo que é interrogado de modo agressivo para provocar, por meio da confissão de seus erros e de uma autocrítica constante, sua reeducação política. Quem sabe a esquerda de hoje esteja precisando de uma longa sessão de thamzing?

Immanuel Kant não contrapôs a injunção “não obedeça, pense!” ao lema conservador ‘não pense, obedeça!”, mas sim a “obedeça, mas pense!”. Quando ficamos paralisados diante de fatos como o plano de salvamento, devemos ter em mente que, já que se trata de uma forma de chantagem, não devemos ceder à tentação populista de pôr nossa raiva para fora e, assim, nos ferir. No lugar desse gesto impotente, devemos controlar a fúria e transformá-la em fria determinação de pensar — pensar sobre a situação de maneira realmente radical e nos perguntar que tipo de sociedade é essa que possibilita tal chantagem.

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