Catherine Malabou: A Filosofia encontra a Neurociência

Por Jean-Marie Durand, via Les in Rocks, traduzido por Daniel Alves Teixeira.

Filósofa ligada à corrente atual do “realismo especulativo”, Catherine Malabou se propõe em seu novo ensaio Avant Demain, Epigenèse et rationalité, (Antes do amanhã, Epigênese e racionalidade) a interrogar o processo de pensamento a partir de sua ancoragem biológica.  Nós estaríamos errados em se deixar intimidar pela opacidade de seu texto que discute “o abandono do transcendental” no pensamento filosófico, tal como proclamou o filósofo Quentin Meillassoux em seu livro chave Après la finitude (Depois da finitude).

Pois o pensamento de Catherine Malabou abre horizontes decisivos sobre a maneira de questionar o ato de pensar ele mesmo. Atenta aos progressos das neurociências, que ele integra ao quadro de sua reflexão metafísica alimentada aqui pelas teorias de Kant, a filósofa demonstra admiravelmente que numerosas categorias biológicas, como a plasticidade, a epigenética ou a regeneração, estão a passos de revolucionar a conceptualização filosófica clássica.

Hoje, com as descobertas sobre a plasticidade cerebral, nós percebemos por exemplo que o cérebro não é uma máquina, que ele está em perpétuo movimento. Avant Demain se impõe como um texto importante e original.


LesInrocks: Seu novo livro, Avant demain, Epigenèse et rationalité, se inscreve no cruzamento da filosofia e da biologia. Porque você reivindica essa posição híbrida? Um diálogo entre as duas é possível?

Catherine Malabou: Eu devo de fato precisar o tipo de “cruzamento” de que se trata no livro. A filosofia, nós o sabemos, é por essência diálogo com todas as outras disciplinas, as disciplinas científicas em particular. Entretanto, ele não empresta nada dessas disciplinas em sua maneira de conduzir tal diálogo. Os conceitos, o método, as ideias filosóficas não devem nada às outras disciplinas. Jamais um filósofo vai dizer que ele tomou o conceito de substância da química por exemplo. Certamente, a matemática tem um pouco mais de influência sobre o filosófico por causa de sua idealidade. Muitos filósofos afirmam que há um caráter matemático da ideia. Mas, fora das matemáticas às vezes, nenhuma ciência fornece a filosofia seu modelo.

Ora, ao contrário, isso que eu tento organizar em meu livro não é simplesmente um dialogo com a biologia. Eu me pergunto antes se a filosofia não depende, em sua abordagem ou conceitos, de processos biológicos, se o ato mesmo de pensar não é sempre sustentado pelas operações neurais. Então, você tem razão, mais uma hibridação que uma troca. Coisa escandalosa para muitos. Por quê? Certos filósofos dirão que é inadmissível, que eu defendo um empirismo, próximo do cognitivismo e das neurociências, que eu assimilo o espírito ao cérebro. Eu mantenho de fato que é muito difícil fazer uma distinção estrita entre o pensamento puro e os processos biológicos que trabalham em todo ato cognitivo.

No entanto, e esse problema está no coração de meu livro, nele eu não fico menos kantiana. Com efeito, a assimilação entre o espírito e o cérebro não significa absolutamente o fim da filosofia crítica, ela marca ao contrário uma nova virada. É tempo de propor uma nova analítica transcendental do pensamento filosófico levanto em conta os ensinamentos fundamentais e revolucionários das neurociências dos últimos cinquenta anos mais ou menos.

LesInrocks: As pessoas ligam você ao “realismo especulativo” em voga. Como definir essa corrente filosófica?

Catherine Malabou: O realismo é um caminho para sair do dilema entre materialismo e idealismo. Sartre já o dizia: “Eu não sou nem idealista nem materialista, eu sou realista.” O realismo especulativo afirma a necessidade de apreender as coisas não mais de um tal ou qual ponto de vista ou estratégia pré-decidida, mas a partir delas mesmas, de sua neutralidade, de seu anonimato, de sua indiferença ao fato de serem pensadas. É preciso sair da relação sujeito-objeto. Ora o idealismo e o materialismo, mesmo ele, são ainda dependentes dessa relação: essas não são mais que duas maneiras diferentes de abordá-lo. No realismo, nós não nos perguntamos mais o que, do objeto ou do sujeito, é primeiro. Nós nos depreendemos dessa relação que Quentin Meillassoux chama de “correlacionismo”. Nesse sentido, é bem verdade que minha ideia de interrogar os processos do pensamento a partir de sua ancoragem biológica se situa na linha de um tal realismo.

É mais sobre o sentido da palavra “especulativo” que sobre aquele de “realismo” que tenho reservas. Uma vez mais, mas nós vamos voltar a isso, nós não podemos não submeter à prova crítica, de tipo kantiana, o ato mesmo de especular. De Kant a Marx, o especulativo tem toda uma história que não se aboli como por mágica no real bruto!

LesInrocks: Como os autores se encontram ao redor deste gesto do pensamento ao longo dos últimos dez anos? Quentin Meillassoux, François Laruelle, Bernard Stiegler, Mehdi Belhaj Kacem, Tristan Garcia, Markus Gabriel… ?

Catherine Malabou: Talvez de início muito simplesmente por uma comunidade de cansaço. Cansaço de ser proibido da metafísica; cansaço de não poder mais afirmar nada sem imediatamente submeter a afirmação a seu contrário e suspender seu julgamento; cansaço do divórcio entre filosofia e ciência; cansaço do refazimento ético. A filosofia continental do fim do século XX se deixou inteiramente ou quase dominar pela questão do “todo outro”; ele se interrogou muito sobre a ideia de uma alteridade irredutível e progressivamente se tornou uma espécie de messianismo. O todo outro é aquele que vem.

Lévinas, Derrida, Ricoeur, uma certa fenomenologia acabou por inscrever a filosofia no horizonte da culpabilidade. Disso, muitos, entre ele eu, não queremos mais absolutamente. Da filosofia como “pode ser”, como ser em falta, como lógica do improvável, desolidarizada da ciência, como espera eternamente petrificada, arrependida, não queremos mais. Foram os estudantes de Badiou que primeiro reagiram a isso e que disseram: é tempo de recuperar o racional. Eu também, aluna de Derrida, eu tive a necessidade de me afastar da cultura da aporia; é de fato um impasse, como seu nome o indica, ainda mais que durante esse tempo, a ciência avança e que nós a negligenciamos totalmente. Nós não podemos fazer por exemplo como se as descobertas recentes sobre o cérebro não existissem. Existe um tipo de inércia em filosofia, que repousa sobre a ideia que nós não podemos nada prever, nada determinar. Ora, o real, é sempre, o que quer que digamos dele, uma questão de determinação.

LesInrocks: Sua reflexão parte da proposição de Quentin Meillassoux em seu livro Après la finitude: “Abandonar o transcendental”. Porque você partiu daqui?   

Catherine Malabou: Quando eu li o livro de Meillassoux, a fórmula “Abandono do transcendental” me atingiu muito fortemente, ao ponto de me fazer trabalhar três anos sem descansar. Nós nos lembramos dessas palavras de Kant na Crítica da Razão Pura: minha filosofia, diz ele, é um idealismo transcendental, isso quer dizer um realismo empírico. O realismo não é possível sem as categorias do pensamento, aqui incluindo e talvez de início o real ele mesmo. Ora essas categorias, que servem no entanto para apreender a realidade empírica, sem a qual elas permaneceriam vazias, não são nem real nem empíricas. Mas também sem elas o real seria inacessível.

As categorias são transcendentais, inscritas a priori no espírito. Isso quer dizer que elas não derivam da experiência, não adquiridas nem ensinadas pelos objetos. Os elementos transcendentais constituem a forma de nosso pensamento. Esses elementos transcendentais conferem ao nosso conhecimento sua necessidade e sua universalidade. As categorias, quantidades, qualidade, relações, modalidades, que estão presentes em todo sujeito, permitem apreender a mesma natureza, o mesmo real, e da mesma maneira. A ausência de estruturas transcendentais não poderiam levar a outra coisa a não ser a uma desordem e uma contingência absoluta, a uma impossibilidade de assegurar a necessidade e a regularidade do mundo.

Contra Hume, Kant coloca que é impossível duvidar um instante do fato de que o sol se levantará amanhã. O problema, diz Meillassoux, é que essas estruturas transcendentais, encarregadas de estabelecer a necessidade das leis da natureza, são elas mesmas sem necessidade. Kant pretende deduzi-las, isso quer dizer legitimá-las ou demonstrá-las, mas ele não pode em realidade mais do que colocá-las, como fatos, que é preciso simplesmente admitir. Ora, se nós não podemos o demonstrar, o transcendental é contingente. Kant não vai então além de Hume que através por um golpe de força.  Ao invés de se esforçar para demonstrar a indemonstrável necessidade do transcendental, porque não abandoná-lo? Se abrir a ideia que tudo é contingente de fato. Que não há razão atrás das coisas. Isso é o real, é preciso tomá-lo como ele é, absolutamente como ele é. Meu problema começa aqui.

LesInrocks: Mas qual é precisamente esse problema?

Catherine Malabou: Porque eu acredito que é precisamente impossível abandonar o transcendental, é a conclusão a qual eu chego. Nós entendamos bem. Eu não me dei por missão salvar Kant. Ao contrário, eu decidi de ínicio seguir Meillassoux até o fim. Interrogar verdadeiramente a possibilidade de uma contingência radical. Ora, me pareceu que Meillassoux não podia fornecer a definição de uma tal contingência sem opô-la a outros termos: a contingência, ele diz, não é o caos, não é o acaso, não é a probabilidade, não é não importa o quê. Como se chama uma tal empreitada de diferenciação senão uma analítica? Uma procura das condições de possibilidade da contingência? Dito de outra forma uma demarca transcendental que isola a contingência “pura” de seus sucedâneos? Visivelmente, nós não deixamos Kant pelo caminho facilmente.

LesInrocks: Em que a revolução neurobiológica, que interessa a você nesse livro, lhe parece crucial na reflexão sobre o que é pensar? Em que ela perturba o pensamento do transcendental?   

Catherine Malabou: Eu fiz a lista de todos os grandes ataques levados contra o transcendental no fim do século XX e começo do século XXI, pois ele é um tema obscessante: Heidegger, Foucault, o neodarwinismo, as neurocências, Meillassoux…. Para Foucault, o a priori é histórico, o que significa que o transcendental não é formalmente imutável. Segundo Heidegger, conviria ao contrário assimilar transcendental e temporalidade. O neurobiologista Jean-Pierre Changeux afirma quanto a ele que não nenhum instância a priori  no espírito, que tudo deriva da experiência. Aqui compreendida as idealidades matemáticas elas mesmas! É um ataque biológico contra o transcendental. Tudo é adquirido, não há nada de puro que seria dado previamente…..

Eu discuto todos esses casos. A cada vez, eu chego, de forma diferente, à mesma conclusão. Para ir rápido, Kant espera ao virar a esquina cada vez. A crítica do transcendental sempre toma do transcendental sua forma, e nós chegamos a contradições muito sérias.

LesInrocks: Em que as recentes descobertas sobre o cérebro alimentaram seu próprio trabalho de reflexão sobre a resistência do transcendental?

Catherine Malabou: Para Changeux, o a priori kantiano, apesar do que disse Kant, não pode ser que inato. Existe um ponto comum entre esse ponto de vista e aquele de Meillassoux: o transcendental é um golpe de força. Kant o inscreve no espírito sem o demonstrar. Ele é inato, factual, ou mesmo divino, jamais produzido, jamais constituído, sempre misterioso quanto a sua origem. Contingente ainda uma vez. O que me interessa em Changeux e outros, é precisamente a tentativa de mostrar precisamente, cientificamente, como se forma o pensamento, o raciocínio, as categorias sem nunca supor uma origem irredutível, que se chamaria justamente o transcendental. Esse ponto de vista é sem dúvidas criticável, mas ele é fascinante. Eu também o tenho seguido o quão longe possível.

Hoje, com as descobertas sobre a plasticidade cerebral, nós percebemos que o cérebro não é uma máquina, ao contrário do que pensamos durante muito tempo. Ele está em movimento perpétuo, sem cessar a caminho de se construir. E isso me permitiu encontrar o liame fundamental entre Kant e essa posteridade aparentemente não kantiana: a epigênese.       

LesInrocks: O que nós chamamos exatamente de epigênese?

Catherine Malabou:  A epigênese é um teoria do desenvolvimento embrionário que, no século XVIII, se opôs a da pré-formação. O embrião se forma por autodiferenciação e adição gradual de partes e não é um adulto em miniatura, isso o que defendem ao contrário os pré-formarcionistas. Kant adota a tese epigenetista, com certeza. Mas o que é interessante, é que ele faz uso do termo epigênese para explicar também que o transcendental não é inato (§27 da Crítica da Razão Pura). Isso quer dizer então que há qualquer coisa como uma formação do transcendental, que ele não vem do nada! É evidentemente interessante relacionar essa perspectiva epigenitista a isso que nós chamamos hoje de epigenética, e que é tão importante para compreender o desenvolvimento do cérebro em particular.

A epigenética é a ciência das modificações não genéticas: em particular as mudanças devidas à educação, ao meio ambiente, a experiência. Os mecanismos epigenéticos designam tudo isso faz com que um indivíduo não seja simplesmente um programa genético: existem as coisas que se diferenciam nele durante a transcrição do código, mas também muito tempo depois do nascimento, como o desenvolvimento cerebral. O indivíduo não está portanto totalmente formado no nascimento. E se foi isso que também disse Kant? E se o transcendental, longe de ser pré-formado, fosse suscetível de uma evolução e de uma diferenciação?

LesInrocks: O que é esse “conceito não existencial de finitude” ao qual você chega? Como é que ele desenha isso que você chama um “novo momento do pensamento”?

Catherine Malabou: Um ponto comum a todos os membros do que chamamos talvez erroneamente de realismo especulativo é seu silêncio acerca da biologia, e em consequência e sobretudo sobre a questão da vida. Ora eu acho que essa última deve reencontrar um lugar de primeiro plano na interrogação contemporânea sobre as relações entre real e racional. Durante muito tempo, a vida foi distanciada do questionamento filosófico, desde Heidegger notadamente. O dasein existe, diz ele, antes de viver. Heidegger colocou uma diferença ontológica radical entre a vida e a existência. A existência é o saber da finitude. A desconstrução da metafísica é isso: a afirmação de que não há mais que a finitude.

Isso levou Heidegger a fazer uma distinção entre o que aquilo que é finito e aquilo que é simplesmente vivente, o animal por exemplo. A finitude é reservada ao existente. Se nós escutamos o “depois da finitude” de Meillassoux como uma maneira de ultrapassar a dualidade existente/vivo, que encerra o pensamento filosófico em uma busca da autenticidade do Dasein, em desprezo de todas as características específicas, empíricas do indivíduo vivente, então eu estou de acordo. Mas Meillassoux não se interessa um segundo pela biologia. Ora meu projeto consiste justamente em fazer da vida uma dimensão essencial do real, para ver como certas categorias biológicas de hoje (epigenética, plasticidade, células-tronco, regeneração) estão prestes a modificar a conceitualidade filosófica clássica.

Eu não acho que nós podemos visar um depois da finitude, ou do correlacionismo. Mais uma vez, eu não creio na possibilidade de abandonar o transcendental. Contudo, eu acho que é possível pensar a finitude de outra forma, não como um privilégio do dasein, mas como economia do vivente. É preciso hoje liberar a vida de todo discurso religioso, biopolítico e existencial.

LesInrocks: O conceito de plasticidade é central em seu trabalho. O que ele designa exatamente?

Catherine Malabou: É um conceito que vem de Hegel, e designa o modo de ser do sujeito, em tanto que ele não é nem poliforme, nem rígido e se coloca no entre-dois da moleza e da rigidez. A plasticidade designa a capacidade de receber como de dar a forma. Ela designa também a explosão (explosivo plástico) de toda forma. É de fato um conceito explosivo, difícil de determinar, que designa a vida das formas e das resistências a deformação. Ele tem um grande papel na neurobiologia contemporânea, mas também na biologia celular, na neuropsiquiatria, na antropologia, na ecologia. Ele é mesmo para, penso eu, como eu tentei demonstrar diversas vezes, substituir o conceiro derridadiano de escrita.

LesInrocks: Que distinção você faz entre a plasticidade e a flexibilidade, tão aventada hoje no mundo da empresa?

Catherine Malabou: A flexibilidade está no coração da literatura da administração, que confunde precisamente “flexibilidade” e “plasticidade”. Os dois termos veem da física dos materiais. Um material flexível é um material que pode ser dobrado em todos os sentido, sem resistência. Enquanto que plástico se diz de um material que se deixa formar mas que não encontra jamais sua forma inicial. Nós podemos dobrar, mas há sempre uma resistência à deformação. A forma resiste a sua eliminação. Essa ideia é muito importante politicamente. Ser flexível, moldável, adaptável, tudo bem: mas não explorado sem limites. Existem os limiares de resistência.

LesInrocks: Nós podemos ser de uma vez hegelianos e kantianos?

Catherine Malabou: Eu devo agora trabalhar em um diálogo entre um e outro. Do ponto de vista da epigênese, isso poderia ser interessante.

LesInrocks: Você se reivindica também heideggeriana em todo caso?

Catherine Malabou: Sim, também, com certeza. Existe qualquer coisa de exasperante no realismo especulativo. Esses filósofos parecem vir de nenhuma parte. Eles não têm dívidas. Eu reivindico de minha parte a herança dos pensadores. Eu guardo muitas das ideias de Kant, Hegel, Heidegger ou Derrida, e eu discuto sempre a partir deles. Eu estou em um diálogo, não está em discussão ultrapassar tal ou qual. Eu não estou em uma tábula rasa. Os conceitos precedem de toda uma história. Negá-los para parecer original e querer ser o primeiro (todos esses novos filósofos se batem para ser o mais famoso) é ridículo e vão.

LesInrocks: A querela entre determinismo e liberdade, que você explora através das questões das neurociências, remetem à problemática das ciência sociais sobre a maneira pela qual um individuo se constrói socialmente. As questões são comuns a seus olhos?

Catherine Malabou: Sim, salvo que o que complica as coisas, é o novo lugar da biologia, que havia sido deixada de lado pelo determinismo. A epigênese está entre a necessidade e a liberdade. Existe com certeza a determinação do genoma. Mas existe também, a partir dela, toda a improvisação epigenética, que os cientistas falam bastante em termos de interpretação. O programa genético é a partitura, e a tradução epigenética é sua intérprete. A oposição entre determinismo e liberdade se encontra hoje então em um domínio no qual nós a cremos totalmente excluída, a biológica. Mas a genética por muito tempo nutre os discursos que fecharam a possibilidade mesma de se inventar, de bloquear a evolução de um destino individual.

Isso foi de fato há muito tempo, quando nós sequenciamos o genoma no começo dos anos 2000, notadamente.  Nós esperávamos poder provar o “todo genético”, como diz Henri Atlan, e nós descobrimos ao contrário que havia muito poucos genes codificadores, que existem os “desertos genéticos”, isso quer dizer regiões inteiras do genoma que não parecem corresponder a nenhuma função. Impossível então de demonstrar que cada condução está associada a um gene. Changeux propõe mesmo abandonar totalmente a ideia de “programa” genético.

LesInrocks: É difícil seguir os debates científicos?

Catherine Malabou: Sim. É preciso estar pronto a abandonar suas certezas, é preciso muita abnegação. Ler as neurociências, no começo, foi também muito técnico, ameaçador. Mas eu penso sempre naquilo que diz Deleuze: no fundo, nós chegamos há algo porque assim que qualquer coisa lhe dá energia, a porta se abre. De fato, a energia, é o desejo. Tudo é uma questão de desejo, sempre.

LesInrocks: Como você se aproxima dos textos sobre as neurociências?

Catherine Malabou: Eu me mantenho informada, de todos os lados. E os tomo e os deixo. Muita ideologia passa através das neurociências hoje. As mensagens são veiculadas: a flexibilidade, o vício, a crítica da psicanálise, a normalização das condutas…. É preciso praticar constantemente a dúvida metódica …. Mas a aventura das neurociências contemporâneas é uma das coisas mais emocionantes hoje. Você mesmo, você critica a psicanálise colando antes a “neuro-análise”, ainda insuficientemente explorada segundo você. O avanço das neurociências é uma verdadeira revolução. Jean-Pierre Changeux o diz em L’Homme Neuronal. Ele tem razão. É algo tão importante quanto a descoberta da genética em seu tempo. A nova visão do cérebro como órgão plástico é um avanço fundamental. Freud certamente não teria virado as costas a sua origem de neurologista se ele pudesse ter conhecido esse avanço, ele não teria inscrito a psicanálise no simbólico em detrimento do orgânico. Ora é preciso hoje se interrogar o que é um inconsciente cerebral em relação ao um inconsciente psíquico. Como eles podem se encontrar? Como pensar uma nova aventura do sentido?

LesInrocks: Então uma crítica da razão neurobiológica é desejável?

Catherine Malabou: É preciso uma reflexão crítica da razão neurobiológica sobre ela mesma; algo que ela não faz nunca. Para Changeux, não há nunca interrogações sobre a legitimidade do discurso biológico, não há que afirmações. O diálogo com ele é difícil; ele me reprova de fazer metafísica. Eu espero que um dia, o diálogo entre as neurociências e a filosofia continental terá lugar. Cientistas e filósofos não devem esperar que o outro dê o primeiro passo, é preciso começar juntos, o mais rápido possível.

LesInrocks: O que lhe parece bloquear o avanço da reflexão sobre essas questões?

Catherine MalabouHoje, a ética, a obsessão do ético (isso quer dizer normalmente a única “normalidade”) faz barreira ao avanço do pensamento. Mas também certa filosofia do biopolítico, para a qual a biologia serve somente para instrumentalizar o vivente. Ora, a biologia não é somente para o controle, a manipulação genética, o tráfico. Não é apenas isso: são também as promessas da medicina regenerativa, da clonagem terapêutica, os chips que tratam o mal de Parkinson. É um potencial emancipatório enorme. Frente ao novo, é preciso se interrogar, não fechar a porta. É preciso tentar compreender aquilo que é promissor, emancipatório, interessante.

Colocar a prova todas as formas de evidência, objeto da desconstrução, é o que desejo. Se abrir àquilo que vem sem estar no entanto frente a isto como vítima. Eu acredito ainda, ou mais do que nunca, apesar de todos os horrores que nós atravessamos, na coragem do pensamento.

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