Uma mágica para superar a crise

Por Gabriel Landi Fazzio

Os efeitos da crise no Brasil

Quando somos chamados a participar de um truque de mágica, nos esforçamos para permanecer atentos às mãos do mágico, para não sermos enganados. Talvez essa nossa atenção seja imprescindível para que a mágica funcione.

No dia 15 de setembro de 2008, os mercados e estados capitalistas autodiagnosticaram sua maior crise desde 1929. Primeiro, um grande banco modestamente anunciou sua falência. Depois, os monopólios da comunicação anunciaram a brusca queda das bolsas de valores em todo o planeta. Por fim, os governos dos EUA e da Europa se comprometeram a estancar a crise.

A fala de Lula, em outubro daquele ano, refletia a calmaria da economia brasileira: o tsunami da crise chegaria ao Brasil como marola. Alguns comentadores já anunciaram, naquele momento, a queda do muro de Wall Street – ou seja, o fim da pax americana pós-desmantelamento do bloco socialista. Por alguns anos, parecia se confirmar no Brasil o discurso otimista de que a crise se resolveria em um harmonioso mundo multi-polar – de um lado, EUA e Europa, do outro lado os emergentes BRICS. Em junho de 2015, Dilma afirmaria que “marola se acumula e vira uma onda”. Já a essa altura do ano, as tensões entre o imperialismo ocidental e a Rússia, cada vez mais próxima da China, já punham abaixo tais fantasias, ao menos em sua versão pacifista. A crise, sem solução global, chegava ao Brasil.

Exatamente esse desenvolvimento desigual da crise pelo mundo, e a ausência de um marco crítico no caso brasileiro, permitiu à imprensa comercial ser, sem que qualquer banco a precedesse, o arauto da crise. Assim, pôde responsabilizar o governo ao qual se opõe pela crise – mesmo que este, diante dos interesses reacionários da burguesia financeira e industrial no Brasil, possa ser o único ao qual se credita o adiamento da crise. Assim, as forças reacionárias manipulam a insatisfação das massas ante os efeitos da crise em favor de um projeto que aprofunde a exploração – e, quem sabe assim, encerre a crise.

Ao denunciar tal movimento, muitos e muitas camaradas incorrem no equívoco de, ao mesmo tempo, negar a crise. Ou, mesmo entendendo que a recessão brasileira (termo mais preciso do que “crise brasileira”) é um reflexo da crise global, acreditar que será possível retornar ao estado anterior, de distanciamento da crise. Ou seja: que a crise poderá ser superada a curto prazo, pelas medidas convencionas da política econômica burguesa. Os desdobramentos recentes da conjuntura econômica em 2015 (a quebra da bolsa chinesa, a brusca depreciação do Real frente ao Dólar, etc) não permitem que tal prognóstico se sustente, a menos que não nos importemos em repetir nosso otimismo cegamente, esperando a crise passar como o relógio parado que, duas vezes ao dia, acerta a hora.

Em cada país do mundo, e em cada fração de classe de cada país, os efeitos da crise não superada se fazem sentir de modo diferente. As classes dominantes, por sua vez, esperam algum passe de mágica que supere a crise.

Qual feitiço terminou a crise de 1929?

O pensamento dominante considera os tempos de crescimento econômico como momentos fantásticos de desenvolvimento cultural (Bela Época, como a neoliberal). Os tempos de crise, por sua vez, são da “maior e mais infernal inquietação social”. Com os crescentes anúncios de uma crise nacional nas imprensas, e as consequentes concessões ao capital nas políticas governamentais, a fim de protegê-lo, impossível escapar à inquietação, que vai ao encontro da própria pobreza crescente – ou, no mínimo, faz aguçar o incômodo das massas com sua pobreza de sempre. Seja pela queda ou estagnação dos padrões de consumo, os efeitos da crise se sentem na contração do consumo. Desesperadamente, cada grupo anseia retornar ao momento anterior, dado como encerrado, onde o crescimento parecia beneficiar a todos – ainda que desigualmente.

Por mais esforço que possam ter empenhado, os economistas não puderam, com nenhum feitiço matemático, evitar a crise – nem aqueles que apostaram em tal ou qual política de desenvolvimento econômico (investimentos, desonerações, estímulos, ou qual nome queiram dar para a proteção seletiva de tais ou quais capitalistas), seja os cínicos que apenas seguiram aprofundando a liberalização – em favor dos monopólios. E agora, enquanto tentam desesperadamente entender e reverter a crise que mal viram que preparavam, advertem a população sobre como esse tema não é assunto para leigos. Mas para compreender diversos aspectos das crises no capitalismo, não é preciso longos estudos das teorias econômicas: basta conhecer a história de seu começo e suas consequências. Não se tenta, assim, de entender como estourou essa ou aquela crise, e quais os possíveis remédios imediatos. A causa das crises é tema tão extenso quanto o assombro com o qual elas são recebidas pelos seus próprios genitores. Menos surpresos, talvez fosse o caso de entender, então, como começa e como termina uma crise econômica, observando os dois casos mais emblemáticos que temos à disposição pela sua data de origem.

O primeiro caso, já dissemos, começa em 15 de setembro de 2008. Um dia antes, fora anunciada a quebra e a venda, respectivamente, de duas gigantescas instituições financeiras. Faltando pouco mais de duas horas para Wall Street abrir, todas as bolsas de valores do mundo já caiam vertiginosamente, e o “Banco Central dos EUA” (The Fed) já preparava benevolentes resgates, negados dias antes. Até o fim do dia, a mídia brasileira já havia constatado a crise como global. Por semanas, meses, anos, seus efeitos se aprofundariam.

Já a crise de 1929 foi declarada em 24 de outubro, quando a bolsa de valores de Nova York despencou (ainda que desde julho a economia dos EUA já entrasse em recessão). Ouvimos falar das origens, da profundidade e dos efeitos desta crise, mas poucas vezes nos perguntamos sobre seu desfecho: em que momento passou-se a dizer que a crise havia acabado?

A partir de 1933, com o chamado New Deal, os EUA conseguiram amenizar alguns efeitos da crise em sua economia nacional. Mas seria ingênuo acreditar que foram tais medidas que possibilitaram a retomada do crescimento econômico, já que em 1937 a recessão tornou a se impor. Talvez fosse mais honesto compreender que a Grande Depressão se encerrou, na verdade, em 1941, com a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial, da qual emergiria como superpotência mundial, em 1945. Aqui, talvez percebamos porque nunca se tenha celebrado: a crise passou! Ela foi superada silenciosamente no estado de espírito dos mercados, enquanto a morte, a miséria e a destruição podiam ser atribuídas à maldição da guerra. Apenas isso impede, talvez, os capitalistas que tanto lucraram com os efeitos da crise e da guerra de gritarem: “A crise acabou! Vida longa à crise!”.

É perceptível, portanto, que a opinião publicada dominante sempre proclama o início de uma crise – mas não é em seu discurso que vamos encontrar os sinais do fim de uma crise. Na verdade, como bem apontam diversas análises, passada a agitação inicial pela reanimação dos mercados, o discurso hegemônico passou para a aceitação da crise, na ausência de perspectivas concretas (dentro da ordem burguesa) para sua superação.

Isso porque a crise, diferente do que querem fazer crer os capitalistas, a fim de justificar a intensificação da exploração e das desigualdades, não é uma bruma enfeitiçada que paira sobre determinado período histórico, corroendo a economia e prejudicando a todos igualmente. É, na verdade uma relação social, inerente à dinâmica da acumulação capitalista – que, no fim das contas, nada mais é que “acumulação de riqueza, de um lado, e pobreza de outro.” A crise pode nem parecer tão radicalmente diferente da normalidade, na medida em que a própria miséria das massas pareça natural.

Sabemos, no entanto, que se iniciou uma crise econômica, mais ou menos quando: 1) os burgueses se desesperam diante da falência privada iminente, ainda que lucros incríveis aguardem os sobreviventes e 2) os governos e meios de comunicação assumem a existência de uma crise, tratada como preocupação pública. A um tempo menor ou maior, as demais classes da sociedade sentirão os efeitos da crise pela iniciativa da própria reação burguesa, mediante a depreciação crescente das suas condições de vida e pelo crescente desemprego.

Da mesma forma, sabemos que seu fim pode sequer ser digno de celebração. O FMI aposta que a desaceleração chinesa vai ao menos frear os BRICS, e busca explicar a crise brasileira dessa perspectiva. Ainda assim, as tensões em torno da Ucrânia e as incursões da Rússia no Oriente Médio bloqueiam um mero retorno pacífico à supremacia estadunidense. A pomba branca sumiu na cartola.

A mágica das mercadorias

O vulto da crise mundial iniciada há 7 anos não se mede apenas pelo pânico que causou em seu início, ou suas consequências: mas no simples fato de que, há 7 anos, nenhum país central ousa afirmar que a superou, ou que tem uma solução para a crise. Ao mesmo tempo, nada se vislumbra adiante que não seja a recessão, o aumento dos conflitos armados em torno do petróleo do Oriente Médio, da miséria e novas crises.

Aqueles que se opõe ao marxismo por princípio acreditam que as causas da crise de 2008 invalidariam todas as críticas dos comunistas: a crise foi financeiro-imobiliária, e não de superprodução! Assim creem pôr abaixo “O Capital”. Mas se fossem realmente honestos, aqui, partiriam então da própria mercadoria, como parte “O Capital”: é exatamente aqui que a crise se evidencia, quando as mercadorias se acumulam nas prateleiras dos mercados e a capacidade das massas para comprá-las cai progressivamente. Mas, para isso, bastaria que buscassem o sentido da tal superprodução no Manifesto Comunista, na única passagem que aborda as crises do capitalismo:

Nas crises comerciais é regularmente aniquilada uma grande parte não só dos produtos fabricados como das forças produtivas já criadas. Nas crises irrompe uma epidemia social que teria parecido um contrassenso a todas as épocas anteriores — a epidemia da superprodução. A sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de aniquilação universal lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria, o comércio, parecem aniquilados. E porquê? Porque ela possui demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio.”

A crise não se apresenta na falta de riquezas e bens – o que falta, progressivamente, são os investimentos, o poder de compra, os empregos. Em suma: a suposta correspondência da compra e da troca no mercado, do valor de uso e do valor de troca, se desmancha no ar ainda mais. Justamente por isso, não deveríamos surpreender-nos que sejam justamente os bancos os grandes vencedores da própria crise a qual denominamos financeira:

No decurso das crises, quando o momento de pânico passou e a indústria estagna, o dinheiro está fixo nas mãos dos banqueiros, dos agentes de troca, e tal como o cervo brame a sua sede por água fresca, o dinheiro grita o seu desejo de um domínio onde possa ser valorizado enquanto capital.”

Quando, mais uma vez surpresos, os ideólogos burgueses noticiam que em meio à crise aumenta a procura pelas obras de Karl Marx, podemos enxergar uma ironia – ou um sintoma. Enquanto a mão invisível faz a moeda sumir no ar, somos forçados a retornar à posição de quem não tem nada a perder, senão as próprias amarras.  A crise é a própria mágica.

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