Arábia Saudita: A crise por trás da execução de Al-Nimr

Por JB, via In Defence of Marxism, traduzido por Gabriel Landi Fazzio

A recente execução de Al-Nimr, um líder religioso xiita que foi detido em 8 de julho de 2012 durante protestos, ao lado de outros 46 homens, sunitas na maioria, põe em evidência a crise que o regime encara. Repressão aumentada indica o medo dos governantes frente ao iminente movimento dos de baixo.


As acusações oficiais apontam “intervenção estrangeira” no reino, “desobediência” aos governantes e pegar em armas contra as forças de segurança. As autoridades sauditas, no entanto, falharam em apresentar qualquer evidência concreta de qualquer uma das acusações.

A execução de Nimr provocou uma onda de revolta em diversas comunidades xiitas em todo o mundo muçulmano, mas principalmente no Irã e dentro da própria Arábia Saudita. No Irã, os sauditas acabaram por provocar o ataque da embaixada saudita, o que lhes deu desculpas para cortar relações com o Irã e arrastar com eles os Estados do Golfo e o Sudão.

No interior da Arábia Saudita também ocorreram protestos das minorias xiitas oprimidas e marginalizadas, que viam Nimr como um ponto de referência. Seria ingênuo pensar que os governantes sauditas não tinham antevistos a onda de revoltas que se sucederia. Como um artigo no The Independent mostra, eles tinham até se preparado antecipadamente para protestos. Por conseguinte, a situação parece mais com um ato deliberado de provocação.

Dados todos esses fatores, somos levados a algumas questões sobre as reais intenções por trás da – desce necessária e evitável – execução de Al-Nimr. Para nos orientar, precisamos observar a situação regional e interna da Arábia Saudita.Nimr 1

Situação interna

Em 2015 o regime saudita aprovou seu orçamento com um déficit de $98 bilhões, como resultado da acentuada queda no preço do petróleo. Ironicamente, a recursa da Arábia Saudita a chegar a um acordo com os demais países produtores de petróleo para a redução da produção global em face da queda na demanda exacerbou o problema.

Em uma tentativa de reduzir o déficit orçamentário, surgem planos para a liquidação de alguns de seus patrimônios no estrangeiro, bem como recorrer aos fundos de reservas e venda de títulos. Essas medidas, no entanto, puseram em risco a nota de crédito (que já havia sido rebaixada pela S&P em outubro de 2015).

A Arábia Saudita necessita desesperadamente manter a confiança dos mercados financeiros devido à altamente subdesenvolvida natureza de sua economia. Para entender a importância dessa “manutenção da confiança dos mercados”, precisamos levar em conta o alto preço político que os governos ocidentais estão pagando por sua amizade com a Arábia Saudita. Eles estão dispostos a pagar tal preço, conquanto seja contrabalanceado pelos grandes benefícios econômicos que essa amizade lhes traz, mas se os “mercados financeiros perderem confiança” na Arábia Saudita, o isolamento internacional do regime pode escalar com grande velocidade.

Assim, a fim de equilibrar suas contas internamente, a Casa de Saud precisa cortar os gastos públicos. Mas esse tem sido o pilar econômico sobre o qual seu poder tem repousado por décadas. Eles têm tentado evitar distúrbios sociais tanto domesticamente como entre seus vizinhos do Golfo através de concessões suntuosas para certas parcelas da população, de modo a salvaguardar-se contra as partes da sociedade “menos afortunadas”.

Durante os levantes árabes de 2011/12, o Rei Abdullah gastou $130 bilhõespara apaziguar certas partes da população, de modo a comprar paz. Uma parte deste dinheiro foi usado no pagamento de dois meses de salário extra para trabalhadores do governo. Em um movimento similar, o Rei Salman gastou cerca de $32 bilhões nadistribuição de bens após sua coroação, dando um salário extra de dois meses para todos empregados do governo, soldados, pensionistas e estudantes bolsistas no país e no exterior.

É preciso notar, contudo, que a maioria dos trabalhadores do governo (cerca de 3 milhões)  é composta por sauditas sunitas, que recebem quase o dobro dos trabalhadores do setor privado – composto por ¾ de trabalhadores estrangeiros, que por sua vez constituem algo em torno de um quarto da população do país. Para a manutenção do poder da família Al-Saud, a política de literalmente comprar esse setor da população é essencial. O dilema que encaram agora é que o recente déficit orçamentário pôs em risco essa mesma política.

Portanto, aprofundar as divisões sectárias, atiçando sentimentos anti-xiitas e anti-iranianos entre as frações mais privilegiadas da população, a fim de afastar a atenção dos cortes nos gastos públicos, aparece à família governante como um caminho para escapar deste dilema. Mas essa política terá vida curta e perigos.

Guerra no Iêmen [leia mais sobre o tema]

O déficit orçamentário da Arábia Saudita, no entanto, não se deve apenas à queda nas receitas do petróleo. Suas caras aventuras regionais também são um dos fatores. Em seu orçamento para 2016, a Arábia Saudita alocou cerca de $57 bilhõesem defensa e segurança.

A Arábia Saudita, liderando uma coalização de nove estados árabes, começou a realizar ataques aéreos ao Iêmen em março de 2015. Desde o começo, a empreitada foi justificada pintando os Houthis como meros agentes iranianos. Essa foi a única forma para que os sauditas apresentassem como legitima sua própria intervenção. Arrastaram atrás de si os países do CCG (à exceção do Omã), além do Egito, Marrocos, Jordânia e Sudão, com apoio logístico e de inteligência dos EUA.

O problema é que a intervenção não ocorreu como esperado. Não resultou em uma rápida vitória. Após mais de nove meses, falharam em atingir seus objetivos. A guerra provou ser bastante cara e também resultou em grande custo humanitário, estimulando crescentes críticas internacionais à Arábia Saudita.

Os Houthis, embora tenham perdido alguns territórios, ainda controlam grande parte do Iêmen, incluindo a capital Sanaa. Após alguns avanços da coalizão liderada pelos sauditas no sul, no outono, a guerra parece ter atingido um impasse e ingressou em uma fase de atritou, na qual a única chance de sucesso dos sauditas dependeria de uma ocupação a longo termo do Iêmen, com enormes custos financeiros e políticos.

A primeira rodada das negociações de paz entre os Houthis e os apoiadores de Hadi ocorreu em dezembro de 2015. A próxima rodada estava agendada para o meio de janeiro de 2016. Tivessem sido mais astutos, os sauditas teriam aproveitado a oportunidade oferecida pelo Omã em seus planos de paz para promover as negociações de paz e deixar o atoleiro do Iêmen, se resguardando do embaraço (e dinheiro).

Ao invés disso, um dia após a execução de Al-Nimr, o rei Salman tambémencerrou formalmente o já frágil cessar-fogo que tinha sido acordado no meio de dezembro como sinal de boa-fé durante as negociações de paz. Executando Al-Nimr e rompendo o cessar-fogo, o Rei Salman, maior apoiador de Hadi, demonstrou sua falta de interesse na continuação das negociações de paz. Em verdade, bloqueou assim as negociações de paz no Iêmen e, ao fazê-lo, afundou mais ainda no pântano que preparou para si próprio no Iêmen. Salman age como o jogador de quer recuperar o que perdeu aumentando sua aposta.

Guerras na Síria e no Iraque e o isolamento dos sauditas

A guerra no Iêmen não é, porém, o único conflito regional no qual os sauditas estão envolvidos. O mais importante conflito regional se desenrola no Iraque e na Síria. A política externa de Riade [capital da Arábia Saudita] no Iraque e na Síria tem sido, de todo modo, consistente com sua política no Iêmen: tenta-se deliberadamente adiar as negociações de paz. A razão para isso é, inclusive, bastante similar. Após anos apoiando o Estado Islâmico e outros grupos rebeldes contra o regime Assad, agora eles se vêm no lado em desvantagem na negociação, então tentam virar a mesa.

O EI e os grupos rebeldes apoiados pelos sauditas e pela Turquia estão em retirada, tanto na Síria quanto no Iraque. De fato, nesse tocante, as intenções por trás da execução provocativa de Al-Nimr pelos sauditas se assemelha ao abatimento do jato russo pelo Turquia, que analisamos em outras ocasiões.

Os sauditas anseiam por cavar um fosse entre os interesses convergentes dos iranianos e estadunidenses na região. No entanto, em uma coletiva de imprensa, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, John Korby, destacou as intenções do país em seguir adiante com as negociações de paz na Síria, Iraque e Iêmen.

“É importante lidar com essa tensão, lidar com esses desacordos, de modo que possamos todos trabalhar juntos com mais afinco em outras questões que afetam amplamente o Oriente Médio: a luta contra o EI no Iraque e na Síria, sobre a qual Brett informou vocês; no conflito contínuo no Iêmen; e, é claro, a necessidade de seguir adiante no processo político na Síria. Há uma série de agendas no Oriente Médio, e o Secretário quer se assegurar de que nós todos estamos remando rumo a esses objetivos.”

Isso revela o fracasso dos sauditas. Na mesma coletiva de imprensa, Kirby também enfatiza que os EUA não têm qualquer intenção em mediar entre o Irã e a Arábia Saudita. Isso significa, na realidade, deixar os sauditas por conta própria. Suas manobras produziram o efeito oposto do pretendido.

Inclusive quanto à pergunta “… poderia [a embaixada saudita] ter sido atacada, incendiada e sitiada por um período de tempo significativo sem qualquer medida de consentimento do governo iraniano?”.

A resposta de Kirby é bastante suave: “Não sei a resposta para essa pergunta. Conversamos um pouco sobre isso ontem. O Irã expressou seu pesar. Eles o fizeram em uma carta para as Nações Unidas. Eu penso que esse é um sinal encorajador. O pormenor do que aconteceu – quem fez o que quando, quem não fez as coisas que deveria ter feito – eu penso que isso é algo que o governo iraniano deve tratar e investigam e rever, não nós. Nós não estamos fazendo uma investigação independente aqui sobre o que aconteceu. Foi obviamente um ato de violência, ou múltiplos atos de violência, dependendo de como você olhar, que nós condenamos de forma bastante pública. Nós levamos bastante a sério a segurança e a proteção de propriedades diplomáticas, como seria de se esperar. E nós respeitamos tais propriedades de outras nações aqui nos EUA. Então, obviamente, isso foi bastante problemático e desconcertante, e nós não queríamos – nós nunca queremos ver esse tipo de coisa. Mas isso acaba de ocorrer. Eu acho que é muito cedo para qualquer um saber exatamente com isso transcorreu ou se houve alguma falta de esforçou ou disposição em interromper ou deter [o ataque] uma vez iniciado. Mas realmente, isso realmente é algo sobre o que as autoridades iranianas devem falar.”

Compare essa reação com aquela quando do ataque à embaixada britânica em 2011, que resultou em novas sanções contra o Irã não apenas oriundas do Reino Unido, mas também dos EUA e do Canadá. Obama disse, então, que todos estavam “profundamente perturbados” pelo ataque. “Esse tipo de comportamento não é aceitável, e eu incito fortemente o governo iraniano para que detenha os responsáveis. Eles têm a responsabilidade de proteger postos avançados diplomáticos. Essa é uma obrigação internacional básica que todos países precisam observar, e para que agitadores, essencialmente, sejam capazes de invadir a embaixada e incendiá-la é uma indicação de que o governo iraniano não está assumindo seriamente suas obrigações internacionais.”

A então Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse que o ataque à embaixada britânica e Teerã era “uma afronta, não apenas ao povo britânico mas à toda a comunidade internacional. E nós nos colocamos a postos para ajudar de qualquer modo que possamos a reafirmar, o mais fortemente possível, que governos têm um dever perante a comunidade diplomática de proteger a vida e a propriedade, e esperamos que o governo do Irã o faça.”

A Rússia, por outro lado, ofereceu-se para atuar como mediadora entre Teerã e Riade. Esse é outro sinal da influência em declínio dos EUA na região, em favor dos russos – um fato que igualmente não agrada os líderes sauditas.

Não é difícil ver aqui a divergência de interesses entre Riade e Washington. Os estadunidenses, após uma série de guerras malsucedidas e intervenções no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria e Iêmen – no qual foram arrastados pelos sauditas – não são mais capazes e desejosos de desempenhar o mesmo papel na região. Isso é o oposto do interesse da família Al-Saud, que deseja que os EUA intervenham para deter a ascensão do Irã.

Vendo seu apoio internacional corroído, odiado por grande parte de sua própria população, vendo seus agentes recuarem nos conflitos regionais e agora percebendo que os EUA não estão tão entusiasmados em apoiá-los, o Rei Salman e a família Al-Saud estão recorrendo a medidas bastante desesperadas e míopes.

Eles tentam aprofundar a divisão sectária na região de modo a figurar como os “salvadores dos sunitas”. Esse tipo de manobra é perigosa e míope. Nesse ponto em particular, nem a família real saudita, nem os grandes poderes mundiais ou o regime iraniano parecem satisfeitos. De qualquer modo, a médio e longo prazo, impulsionada pela crise do regime saudita, as tensões no interior do país e entre este o Irã irão apenas aumentar.

Portanto, embora essa provocação recente dos sauditas vá criar algum distúrbio no Oriente Médio, do mesmo modo que a derrubada do jato russo por Erdogan, não irá causar nenhuma grande mudança na correlação de forças ou no curso geral dos eventos.

O que isso revela, mais do que qualquer outra coisa, é a situação desesperada na qual o regime se encontra. Com as receitas em queda massiva, não é mais possível comprar a paz social como no passado. E, como se trata de um regime altamente repressivo, eles são incapazes de medir com precisão a que ponto o descontentamento popular pode estar preparando movimento de oposição e protestos. Trata-se de um regime desesperado, que sente sua própria derrocada a caminho.

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