A necessidade de atravessar a fantasia

Por Slavoj Žižek, via In These Times, traduzido por Daniel Alves Teixeira.

“O mínimo que se pode dizer é que a teoria de Lacan abre um outro caminho, o que se pode chamar de uma política de travessia da fantasia: uma política que não ofusca os antagonismos sociais, mas confronta-os, uma política que não visa apenas “realizar um sonho impossível” mas a prática de um “discurso (laço social) que não seria o de um semblante” (Lacan), um discurso que toca/perturba o Real”.


Adam Kotsko, um professor de humanas no Shimer College em Chicago, em um e-mail para mim, forneceu a melhor caracterização das reações ao meu último texto sobre os refugiados e os ataques em Paris:

“Eu notei que as respostas parecem ser sempre um referendo sobre você, quase um teste de Rorschach sobre o que as pessoas pensam de você. Se eles acham que você é um terrível quase-fascista, ideólogo pró-ocidental, eles encontram material para suportar isso. Se eles assumem que você está de boa-fé, eles podem encontrar uma leitura mais positiva. Mas a discussão não chega ao ponto de realmente abordar a questão – é quase como se “o que devemos fazer sobre o assunto” fosse tratado como auto-evidente para todos os envolvidos, e a questão é como você é medido a partir desta norma implícita (que, naturalmente, não pode ser declarada explicitamente por ninguém).”

Quanto aos numerosos ataques contra os quais tenho escrito, a maioria deles não merecem uma resposta uma vez que eles simplesmente repetem a posição que eu critico. O que devo dizer à alegação de que eu quero usar os militares para a colocar em quarentena e expulsar os refugiados, além do fato de que é uma simples mentira? Algumas das críticas, no entanto, são dignas de resposta.

Eu ouço muitas vezes a censura de que eu falo como europeu, parte da elite europeia com quem estou em solidariedade, e como tal estou tratando refugiados como uma ameaça externa a ser contida. Ao que eu só posso dizer: Claro que eu falo a partir de uma posição europeia. Negar isso seria uma mentira absurda, um sinal inequívoco da falsa solidariedade paternalista.

Mas de qual posição europeia? Da mesma forma que não existe um Islã, que o Islã também pode abrigar potenciais emancipatórios (e eu escrevi sobre isso extensivamente), a tradição europeia também é marcada por uma série de antagonismos profundos. A única maneira de combater com eficácia o “eurocentrismo” é a partir de dentro, mobilizando a tradição radical-emancipatório da Europa. Em suma, a nossa solidariedade para com os não-europeus deve ser uma solidariedade de lutas, e não um “diálogo de culturas”, mas uma unificação de lutas dentro de cada cultura.

O convite de Merkel para aceitar os refugiados – mais refugiados do que qualquer outro Estado-europeu – foi um verdadeiro milagre ético, que não pode ser reduzido à estratégia capitalista de importação de mão de obra barata. O que eu acho mais do que um pouco estranho é a ânsia de criticar a Alemanha por não ter demonstrado abertura suficiente para os refugiados, em vez de se concentrar sobre aqueles estados que adotam a atitude anti-imigrante paranóica: Polónia, Hungria, etc. É a mesma velha lógica do superego; quanto mais obedecemos ao comando da lei, mais nós somos culpados. Quanto mais a Alemanha age de uma maneira (relativamente) decente, mais ela vai ser criticada. Acima disso, é profundamente sintomático da nossa hipocrisia como raramente a Esquerda Europeia insiste que a maneira de neutralizar o medo racista dos refugiados é incluir os refugiados no debate público. Nossas estações de TV e outras mídias públicas deveriam estar cheias de refugiados descrevendo seu apelo, falando sobre suas expectativas, etc. Devemos lhes dar espaço para falar em público, e não apenas falar em seu nome.

Outra censura muitas vezes repetida visa minha menção dos “valores” e “modo de vida” ocidentais: Como ouso ignorar o fato evidente de que os “valores ocidentais” são para os povos do Terceiro Mundo a própria ideologia que justifica a sua colonização e exploração, a destruição implacável de seus modos de vida? Minha resposta é que estou longe de ignorar isso – eu escrevi páginas e páginas sobre isso. O que eu insisto é que, da mesma forma que o Islã não designa uma grande entidade homogênea, a tradição européia também fornece os recursos para a emancipação radical, ou seja, para a auto-crítica radical do “Eurocentrismo”, enquanto as chamadas para um retorno à algumas raiz indígena pré-colonial se encaixa perfeitamente com o capitalismo global.

Uma versão mais refinada desta censura pontua que o igualitarismo, o feminismo, etc., não são simplesmente parte dos valores centrais ocidentais mas o resultado de uma longa luta contra a ideologia hegemônica e a política do capitalismo. Ela sustenta que a liberdade de imprensa, de expressão pública, etc., não são ingredientes das sociedades capitalistas liberais que surgiram espontaneamente: eles foram duramente conquistados através de lutas populares ao longo do século 19. Quando o Ocidente se orgulha de seus valores emancipatórios, deve-se sempre ter em mente que estamos em grande parte lidando com a lógica do “se você não pode vencê-los, junte-se a eles.” Eu não posso senão concordar com este ponto, acrescentando que a mesma luta prossegue hoje (Wikileaks, etc.).

O último ponto. Em debates públicos em muitos campus de Londres a Berlim, eu ouço repetidamente que agora não é o momento de levantar a questão da incompatibilidade dos modos de vida, da situação das mulheres em certas comunidades de imigrantes, etc., que agora estamos lidando com uma grande crise humanitária, centenas de milhares estão lutando por sua vida, e trazer questões culturais, em última análise, apenas diminui a questão-chave. Eu discordo totalmente dessa lógica: é justamente agora, quando centenas de milhares estão chegando na Europa, que nós devemos falar sobre tudo isso e elaborar uma fórmula de como lidar com isso.

A razão não é meramente que só uma abordagem direta pode ajudar a aliviar a paranóia anti-imigrante, mas um fato muito mais sinistro: A sexualidade tem emergido como um dos ingredientes centrais da luta ideológico-política de hoje.

Vamos pegar o movimento nigeriano Boko Haram, cujo nome pode ser mais ou menos descrito e traduzido como “educação ocidental é proibida” – significando, em particular, qualquer educação das mulheres. Como, então, explicar o fato estranho de um movimento sociopolítico maciço cujo item programático principal é a regulamentação da relação hierárquica entre os dois sexos?

Ayatollah Ruhollah Khomeini deixou claro décadas atrás porque um ataque como os atentados de Paris que incidisse sobre as diversões “libertinas” diárias poderia ser considerado adequado. Em fevereiro de 1979, no seu regresso à República Islâmica do Irã, ele disse, “Nós não temos medo de sanções. Nós não temos medo de invasão militar. O que nos assusta é a invasão da imoralidade ocidental ” O fato de que Khomeini fala sobre o medo, sobre o que um muçulmano deve temer mais no Ocidente, deve ser tomado literalmente: os fundamentalistas muçulmanos, sejam eles xiitas ou sunitas, não tem quaisquer problemas com a brutalidade das lutas econômicas e militares, seu verdadeiro inimigo não é o neocolonialismo econômico ocidental e agressividade militar, mas sua cultura “imoral”.

O mesmo vale para a Rússia de Putin, onde os nacionalistas conservadores definem seu conflito com o Ocidente como cultural, em última instância focado na diferença sexual: a propósito da vitória da drag queen austríaca Conchita Wurst (Tom Neuwirth) no concurso de 2014 da Eurovision, o próprio Putin disse em um jantar em St. Petersburg: “a Bíblia fala sobre a dois gêneros, homem e mulher, e o principal propósito da união entre eles é produzir filhos”. Como de costume, o raivoso nacionalista Vladimir Zhirinovsky um membro do parlamento, foi mais franco. Ele chamou sua vitória de “o fim da Europa”, dizendo: “Não há limite para a nossa indignação. … Não há mais homens ou mulheres na Europa, só isto.” O vice-primeiro-ministro Dmitry Rogozin twittou que o resultado da Eurovision “mostrou aos partidários da integração europeia seu futuro – uma menina barbada.”

Há uma certa beleza inquietante quase-poética nesta imagem da mulher barbada (por um longo tempo a principal atração dos circos freakshows) como o símbolo da Europa unida – não admira que a Rússia se recusou a transmitir o concurso Eurovision através de sua televisão pública, com apelos a uma renovada Guerra Fria cultural. Note a mesma lógica que no Khomeini: não o exército ou a economia, o objeto realmente temido é a depravação imoral, a ameaça à diferença sexual. O Boko Haram só trouxe traz essa lógica ao seu ponto final.

O que a psicanálise nos diz

Não se deve subestimar a complexidade e persistência dos diferentes “modos de vida”, e aqui a psicanálise pode ser de alguma ajuda. Qual é o fator que torna diferentes culturas (ou, antes, as formas de vida na rica textura de suas práticas diárias) incompatíveis? Qual é o obstáculo que impede a sua fusão ou, pelo menos, a sua coexistência harmoniosa indiferente?

A resposta psicanalítica é: jouissance. Não é somente que os diferentes modos de jouissance são incongruentes entre si, sem uma medida comum; a jouissancedo Outro é insuportável para nós porque (e na medida em que) não podemos encontrar uma forma adequada de se relacionar com a nossa própria jouissance.

A incompatibilidade final não é entre a minha jouissance e a do outro, mas entre eu mesmo e minha própria jouissance, que permanece para sempre um intruso ex-timo. É para resolver este impasse que o sujeito projeta o núcleo da sua jouissance em um Outro, atribuindo a este Outro pleno acesso a uma jouissance consistente. Tal constelação não pode senão dar lugar à inveja: Na inveja, o sujeito cria/imagina um paraíso (a utopia da jouissance completa) da qual ele é excluído.

A mesma definição aplica-se ao que se pode chamar de inveja político, das fantasias anti-semitas sobre as práticas e habilidades misteriosas dos judeus (que por vezes atingem o nível da loucura, como a alegação de que os homens judeus também menstruam) até as fantasias dos fundamentalistas cristãos sobre as estranhas práticas sexuais dos gays e lésbicas. Como Klaus Theweleit, um estudioso da sociologia fascista, assinalou, é muito fácil ler tais fenômenos como meras “projeções”: A inveja pode ser bastante real e bem fundada; outras pessoas podem e têm uma vida sexual muito mais intensa do que o sujeito invejoso – um fato que, como Lacan observou, não faz qualquer ciúme menos patológico. Eis a descrição sucinta de Lacan da dimensão política desta situação:

“Com a nossa jouissance saindo fora da pista, somente o Outro é capaz de marcar a sua posição, mas apenas na medida em que estamos separados deste Outro. Donde certas fantasias – desconhecidas antes do caldeirão cultural. Deixando o Outro ao seu próprio modo de jouissance, isso só seria possível não impondo nossa própria sobre ele, ao não pensar nele como subdesenvolvido.”

Para recapitular o argumento: Devido ao nosso impasse com a nossa própria jouissance, a única maneira para nós imaginarmos uma jouissance consistente é concebê-la como jouissance do Outro; no entanto, a jouissance do Outro é, por definição, vivida como uma ameaça à nossa identidade, como algo a ser rejeitado, mesmo destruído.

No que diz respeito à identidade de um grupo étnico, isso significa que “há sempre, em qualquer comunidade humana, a rejeição de um gozo inassimilável, que constitui a fonte principal de uma possível barbárie”. Aqui, Lacan subjaz Freud, para quem o laço social (identificação de grupo) é mediada pela identificação de cada um dos seus membros com a figura de um líder compartilhada por todos: Lacan concebeu essa identificação simbólica com um significante-mestre como secundária a alguma rejeição precedente da jouissance, razão, motivo pelo qual, para ele “o crime fundador não é o assassinato do pai, mas a vontade de matar aquele que encarna o gozo que eu rejeito.” (E, pode-se acrescentar, até mesmo o assassinato do pai primordial é fundamentada no ódio de sua excessiva jouissance, a posse de todas as mulheres.)

O ponto de partida, o que eu “vejo imediatamente,” é que eu não sei quem ou o que sou uma vez que o meu núcleo mais íntimo de jouissance me escapa. Eu então me identifico com outros que estão presos no mesmo impasse, e nós assentamos nossa identidade coletiva não diretamente em algum significante-mestre, mas, mais fundamentalmente, em nossa rejeição compartilhada da jouissance do Outro.

O estatuto da jouissance do Outro é portanto profundamente ambíguo: É uma ameaça à minha identidade, mas ao mesmo tempo a minha referência a ela funda a minha identidade – em suma, a minha identidade surge como uma reação defensiva ao que a ameaça, ou, como nós pode-se dizer a propósito anti-semitismo, o que é um nazista sem um judeu?

Hitler alegadamente disse: “Nós temos que matar o judeu dentro de nós.” AB Yehoshua forneceu o comentário adequado a esta declaração:

“Este retrato devastador do judeu como uma espécie de entidade amorfa que pode invadir a identidade de um não-judeu sem este ser capaz de detectar ou controlar isso decorre do sentimento de que a identidade judaica é extremamente flexível, precisamente porque é estruturada como uma espécie de átomo cujo núcleo é rodeado por elétrons virtuais numa órbita em constante mudança.”

Neste sentido, os judeus são efetivamente o objeto a dos gentios: o que é “nos gentios mais do que os próprios gentios”, não um outro sujeito que eu encontro na minha frente mas um alienígena, um intruso estrangeiro, dentro de mim, o que Lacan chamou de lamela, o intruso amorfo de plasticidade infinita, um monstro “Alien” morto-vivo que não pode jamais ser preso em uma forma determinada.

Neste sentido, a declaração de Hitler diz mais do que ela quer dizer: Contra a sua intenção, ela confirma que os gentios precisam da figura anti-semita do “judeu” a fim de manter a sua identidade. Assim, não é apenas que “o judeu está dentro de nós” – o que Hitler fatalmente se esqueceu de acrescentar é que ele, o anti-semita, a sua identidade, também está no judeu. (E o mesmo vale para um certo tipo de anti-racismo. O anti-racismo politicamente correto depende do que ele luta (ou finge lutar) – em um primeiro nível o racismo em si mesmo, depois parasitando seu adversário: O anti-racismo Politicamente Correto é sustentado pela mais-gozar que emerge quando o sujeito-Politicamente Correto triunfantemente revela o viés racista oculto de uma declaração ou gesto aparentemente neutro.)

Outra conclusão a ser tirada deste entrelaçamento das jouissances é que o racismo é sempre um fenômeno histórico: Mesmo que o anti-semitismo pareça permanecer o mesmo através de milênios, sua forma interior muda com cada ruptura histórica. O filósofo francês Étienne Balibar notou de forma perspicaz que no capitalismo global de hoje, em que todos nós somos vizinhos uns aos outros mesmo se moramos longe, a estrutura do anti-semitismo é de certa forma globalizada: Cada outro grupo étnico percebido como uma ameaça às nossas funções identitárias funciona da mesma forma que o “judeu” para o anti-semita. O paradoxo é que, em nossa situação histórica específica, o anti-semitismo está universalizado. Essa universalização atinge o seu apogeu no fato excepcional único de que até mesmo os próprios sionistas fervorosos constroem a figura do “meio-odiado judeu” entre as linhas do anti-semitismo.

Porque Sam Kriss está errado

Eu li com interesse a resposta de Sam Kriss à mim. Primeiro, foi desonestidade dele escrever:

“Como o próprio Zizek argumenta com freqüência, a patologia primária do racista é de se recusar a ver o judeu ou o muçulmano ou o romano como uma pessoa …

O que, portanto, devemos fazer de sua afirmação de que “os muçulmanos acham que é impossível suportar nossas imagens blasfemas e humor irresponsável, o que consideramos como uma parte de nossas liberdades”?”

Eu não disse isso. Isto é o que eu escrevi:

“Fundamentalistas muçulmanos acham que é impossível suportar nossas imagens blasfemas e humor irresponsável, o que consideramos como uma parte de nossas liberdades”

Você notou a palavra que ele omitiu?

Deixando tais artimanhas intelectuais de lado, Kriss parece também se engajar com os conceitos lacanianos que eu uso, me acusando de mal empregá-los. Mas então eu me deparei com sentenças como a seguinte: “A fantasia é o que estrutura a realidade, e mesmo que seja um sintoma, o sintoma é sempre um sinal a ser interpretado, em vez de uma nuvem que ofusca.”

Tais sentenças são nonsense em sentido estrito, implicando uma série de falsas identificações: o objeto a como causa do desejo é reduzido ao seu papel na fantasia (enquanto Lacan elaborou em detalhe o estatuto do objeto a fora da fantasia, assim como os modos de desejar que permanecem após nós “atravessarmos” a fantasia), a fantasia é equiparada com o sintoma (enquanto Lacan passou longos capítulos elaborando sua oposição), etc.

Como não há espaço aqui para se dedicar nessa explicação (toda boa introdução a Lacan vai fazer o trabalho), vou limitar-me a uma passagem da resposta de Kriss que condensa sua duplo confusão, teórica como também política, culminando em sua noção ridícula de fidelidade a uma fantasia:

“Na terminologia lacaniana, o que Zizek identifica como uma disparidade fundamental entre ‘nosso’ modo de vida civilizado europeu e a estranheza irredutível dos migrantes poderia ser chamada de uma assimetria na ordem simbólica. (Não é apenas o lacanianismo que ele abandona aqui – o que aconteceu com a identidade hegeliana da não-identidade e da identidade?) Se essa assimetria existe, então a fantasia é precisamente o meio pelo qual ela pode ser resolvida. Se nos falta os significantes apropriados para cada um, então o interdito não-verdadeiro da fantasia abre espaço para algum semblante de comunicação. Se os migrantes devem viver em paz e felizes na Europa, a demanda não deve ser que eles desistam de sua fantasia de uma vida melhor, mas que eles se agarrem a ela com todo seu valor.”

Primeiro, a premissa básica da teoria de Lacan é que o que o meu crítico bastante desajeitadamente chama de “assimetria na ordem simbólica” não ocorre principalmente entre os diferentes modos de vida (culturas), mas dentro de cada cultura particular: cada cultura está estruturada em torno de seus particulares “pontos de impossibilidade” bloqueios imanentes, antagonismos, em torno do seu Real.

Em segundo lugar, longe de “resolver” isso, uma fantasia o ofusca, ela encobre o antagonismo – um caso clássico: a figura fantasmática do judeu no anti-semitismo ofusca os antagonismos de classe por meio de sua projeção sobre o “judeu”, a causa externa que perturba um edifício social que de outra forma seria harmonioso. A declaração “Se nos falta os significantes apropriados para cada, então a interdito não-verdadeiro da fantasia abre espaço para algum semblante de comunicação” é, portanto, totalmente equivocada: ela implica que cada cultura de alguma forma consegue estar em contato consigo mesma, ela somente carece dos significantes apropriados para outras culturas. A tese de Lacan é, pelo contrário, que cada cultura carece de “significantes adequados” para si mesma, para a sua própria representação, razão pela qual as fantasias são necessárias para preencher esta lacuna.

E é aqui que as coisas ficam realmente interessantes: essas fantasias geralmente dizem respeito a outras culturas. De volta para os nazistas: a fantasia do judeu é um ingrediente-chave da identidade nazista. O judeu como inimigo permite ao sujeito anti-semita evitar a escolha entre a classe operária e o capital: ao culpar o judeu cujas conspirações fomentam a luta de classes, ele pode defender a visão de uma sociedade harmoniosa na qual o trabalho e o capital colaboraram.

É também por isso que Julia Kristeva está correta em ligar o objeto fóbico (o judeu cujos enredos os anti-semitas temem) a evasão de uma escolha: “O objeto fóbico é precisamente a evasão da escolha, ele tenta o máximo de tempo possível manter o sujeito longe de uma decisão”.

Será que esta proposição não funciona especialmente para fobia política? Será que o objeto/abjeto fóbico, cujo medo a ideologia de direita populista usa para mobilizar seus partidários (o judeu, o imigrante, hoje na Europa o refugiado), não incorpora uma recusa a escolher? Escolher o que? Uma posição na luta de classes. O fetiche-figura anti-semita do judeu é a última coisa que um sujeito vê pouco antes de ele confrontar o antagonismo social como constitutivo do corpo social (eu parafraseio aqui a definição de fetiche de Freud como a última coisa que um sujeito vê antes de descobrir que uma mulher não tem pênis).

Assim, a primeira conclusão é que algumas fantasias ao menos são “ruins”: nós definitivamente não devemos aconselhar os nazistas a “não desistir de sua fantasia de uma vida melhor (sem judeus), mas se agarrar a ela com todo seu valor” … Devemos então distinguir entre “boas” e “más” fantasias – digamos, devemos substituir as fantasias racistas com fantasias humanistas todo-inclusivas de fraternidade e colaboração global?

Esta parece ser a direção do meu crítico quando ele escreve que “o interdito não-verídica da fantasia abre espaço para algum semblante de comunicação” – em suma, mesmo se uma fantasia não é verdade, ela é tudo o que temos para manter ao menos um semblante de comunicação.

Mas esta é realmente a lição (política) da psicanálise de Lacan? A fantasia é realmente o último recurso da política? O comunismo é em última análise apenas uma fantasia a que devemos nos agarrar a qualquer custo? O mínimo que se pode dizer é que a teoria de Lacan abre um outro caminho, o que se pode chamar de uma política de travessia da fantasia: uma política que não ofusca os antagonismos sociais, mas confronta-os, uma política que não visa apenas “realizar um sonho impossível” mas a prática de um “discurso (laço social) que não seria o de um semblante” (Lacan), um discurso que toca/perturba o Real. O que quer que Lacan seja, ele não é um pós-modernista que afirma que toda comunicação é, como Kriss coloca, um “semblante”.

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