Velhices

Por Antonio Gramsci*.

Em 1915, em Turim, Gramsci adere ao socialismo e passa a escrever em jornais como o Avanti!, órgão oficial do Partido Socialista. Seus escritos em tal veículo e em outros, como o L’Ordine Nuovo, que ele próprio fundaria em 1919, foram publicados no Brasil sob o título de “Escritos Políticos”, em dois volumes. Tais textos permitem, em primeiro lugar, apreciar toda a estilística da escrita de Gramsci (que o popularizou em sua época), sem o tom de escrita cifrada presente nos Cadernos do Cárcere. Para além disso, uma leitura contínua dos textos permite vislumbrar o desenvolvimento do pensamento do comunista sardo rumo ao marxismo-leninismo, através de sua participação nas greves dos operários de Turim contra a Guerra Mundial e suas análises sobre a corrente Revolução Russa,  culminando com a fundação do Partido Comunista Italiano, em 1921.


Fomos acusados de ser velhos. Até zombaram de nós porque não cumprimos todas as promessas, porque prometemos mais do que pudemos cumprir. Em certos momentos, imersos como estamos nesta vida tumultuada que nos envolver, sensíveis como somos às críticas, às faces iradamente zombeteiras de nossos adversários, nós mesmos nos sentimos diminuídos; parece-nos estar realmente decrépitos, parece que não somos capazes de fazer brotar de nossos lábios a palavra definitiva, a palavra que dê força a nossos órgãos, que infunda vigor aos membros retesados e os torne elásticos, aptos para a luta e para conquista fecundas.

Mas uma breve reflexão esmaga esse pessimismo. Sentimo-nos velhos porque o destino perverso nos fez nascer velhos. É o ar que respiramos, são as instituições que nos dirigem, são os homens contra os quais lutamos que são velhos. A cada golpe vigoroso que desferimos contra essa podridão, um fedor de velharia nos entope as narinas; todas vez que remexemos esta matéria em decomposição experimentamos tanto nojo que, inevitavelmente, sentimo-nos por ela atingidos. Como o Lao-Tsé da lenda chinesa, somos velhas crianças, gente que nasce com oitenta anos. Um acúmulo de tradições pesa sobre nós e temos de enrijecer os ombros para poder carregá-lo. Leis centenárias vinculam nossa atividade atual; e o esforço das gerações passadas, que não se preocuparam em combater por nós, em nos abrir um caminho menos povoado de turbulências, de obstáculos que nada são quando considerados um a um, mas que são formidáveis em seu conjunto. Foi preciso a guerra para que nos libertássemos desse macio colchão de preconceitos, para que pudéssemos fazer de tantos sutis fios de seda uma sólida rede.

Mas a nossa não é uma palavra de desalento. Ao contrário: é preciso ter bem claro diante dos olhos lúcidos o conjunto dos obstáculos para que seja possível destroçá-lo com o golpe de clava. A visão da vida social, que agora se nos oferece de modo integral, renova a confiança e o propósito que, no passado, só poucos podiam ter. Até mesmo nossos companheiros de luta nos chamaram de místicos da revolução; e o éramos no passado, já que tínhamos apenas uma intuição da realidade, não uma representação plástica, viva, daquilo que era preciso abater. Onde todos viam apenas “fatos” singulares, apenas “posições” singulares a conquistar com  apenas “posições” singulares a conquistar com paciência para finalmente chegar ao topo, nós víamos um muro compacto, contra o qual arremeter, com um ato enérgico, voluntário, a massa de nossas forças.

Ou tudo ou nada, dizíamos. E a guerra nos deu razão. Ou tudo ou nada deve ser nosso programa amanhã. O golpe de clava, não a trituração paciente e metódica. A falange irresistível, não a luta de toupeiras em trincheiras fétidas. Somos jovens velhos. Velhos pelo enorme acúmulo de experiência que recolhemos em pouco tempo, jovens pelo vigor dos músculos, pelo desejo irresistível de vitória que nos envolve. É nossa geração de velhos jovens que deverá realizar o socialismo. Nossos adversários se debilitaram no enorme esforço despendido para que cada qual defendesse seu pequeno território. Pois bem: sobre esse tronco realmente decrépito, vamos desferir o golpe final de nossa calva e assim chegará a nossa hora, impulsionada por nossa vontade certamente irresistível, mas reflexiva.

Avanti!, 13 de julho de 1916 (Gramsci tinha 25 anos à época).

*Trecho extraído de Escritos políticos – volume 1 (1910-1920). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. Edição por Carlos Nelson Coutinho.

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3 comentários em “Velhices

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  1. Gramsci além de ser um teórico genial do marxismo, possuía uma capacidade incrível de comunicação com os trabalhadores no sentido de estimular neles o ânimo para o combate. Porém, é bom que se diga que aquela época era muito mais propícia do que hoje, por 2 coisas fundamentais: a primeira, as condições de trabalho eram muito mais precárias e o comportamento tanto do Estado como das classes dominantes eram mais truculentos, isto é, o sistema de coerção era mais visível; segundo, os operários, por ser ainda uma classe muito incipiente na Itália, e o movimento ainda muito recente, não carregava ainda, nas costas, o acúmulo de derrotas e frustrações que o movimento dos trabalhadores de hoje carrega. É evidente que qualquer comparação entre 2 momentos tão distintos não é muito razoável, mas é útil.
    Com relação ao texto de Gramsci é bom que se diga que ele tinha um propósito, que era procurar levantar o ânimo dos operários para o combate, numa época propícia, diferente dos Cadernos do Cárcere, que foram reflexões mais teóricas, no sentido de aumentar o nível do debate dos marxistas no confronto de idéias.

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