Às ruas contra as fantasmagorias políticas

Por Fran Alavina

Com o acirramento dos confrontos políticos gerados pela mais recente crise sistêmica do capital e a consequente urgência das pautas sociais, bem como em aliamento com o avanço tecnológico, cresce um tipo de discurso em torno da valorização das redes sociais virtuais e da internet em seu sentido mais amplo. Forma-se, dessa maneira, uma narrativa cujo objeto é o Virtual. Não apenas como espaço-lugar portador de valência política, mas também como instrumento privilegiado da própria ação política. A militância política tradicional, isto é, aquela forma clássica de atuação que tinha na perenidade dos partidos políticos o instrumento de representatividade ordinário, dissolve-se, agora, fortemente na imaterialidade da militância de atuação virtual. Muitas vezes não importa tanto que exista povo na rua, mas que se consiga chegar ao trendig topics. Isto é, afastando-se da ação conjunta coletiva que exige a proximidade física, em favor da “proximidade” virtual. Proximidade que é feita de afastamento, posto que se exilando da presença física. É possível escolher a dedo, literalmente, nas telas (que hoje formam a moldura do mundo a partir de seus tamanhos) e no toque dos teclados sensíveis. Muitas vezes há mais sensibilidade nestes teclados do que nos donos dos dedos que os tocam.


O discurso valorativamente positivo acerca do mundo virtual, mais recentemente, se tornou hiperpositivo, demasiadamente apologista, valorizando como nunca as potencialidades políticas da internet. Por isso, desembocando em um tipo de tecnoutopia (que tem nos filmes de ficção científica sua expressão simbólica coletiva mais imediata[1]) segundo a qual o avanço do mundo virtual vai corrigir os erros e lacunas dos regimes democráticos existentes, em uma forma perfeita de democracia direta. Sem as amarras da representação política, aí todos terão a possibilidade real de igualdade dos discursos, todos terão o mesmo direito à palavra, minorias terão de volta sua visibilidade almejada, porém hoje usurpada, a liberdade de expressão será exercida de modo absoluto, como nunca antes visto.

Vislumbra-se assim a chegada de “novo céu e nova terra”, tal como nos “dias do senhor”. Por isso, no discurso apologético do potencial político da internet há uma mescla de tons apocalípticos e proféticos. Pode-se observar, neste caso, um novo tipo de messianismo secular, herdeiro de messianismos anteriores. Contudo um messianismo diferente: o messias anunciado é concomitantemente tanto o “messias”, quanto o próprio “reino” que irá instaurar. Um messias que é ele mesmo seu próprio reino. Daí que o discurso, o objeto do discurso e o lugar de realização do discurso tornam-se uma só coisa, (talvez seja necessário busca na tradição retórica algo semelhante). A internet profetiza a si mesma em seu próprio seio, assumindo-se como algo que ao mesmo tempo em que promete, já realiza, em parte, o prometido. Há assim uma típica das artimanhas de sedução. Atrair, mostrando que algo bem melhor do que é exibido poderá ser alcançado, e em breve.

Ora, segundo o pensador italiano Sergio Quinzio (1927-1996)[2], o núcleo de toda mensagem apocalíptica é paradoxal, uma vez que se trata de um êxito catastrófico. Isto é, um êxito que só é possível pela necessária realização de uma catástrofe que o preceda. Desse modo, os discursos hipervalorizadores da valência política da internet identificam nos conflitos políticos de hoje a catástrofe antecessora do êxito que se avizinha. Contudo antes que o êxito se realize, é preciso mostrar o caráter positivo da catástrofe por meio de um anúncio profético, que justamente por ser imbuído de profetismo apela, em primeiro lugar, à imaginação. Dessa maneira, a internet assume sua faceta de discurso político, mas também teológico. Ocorre, pois, um novo tipo de teológico-político. Operando sempre, como demonstra Espinosa em seu Tratado Teológico-Político, entre a esperança e o medo, discurso sempre mais imaginativo que racional.

Logo, a internet apresentar-se como um tipo de espelhamento do futuro, tempo que justamente por ser não realizado só pode ser expresso na imaterialidade do virtual. Com efeito, a principal característica do virtual é a propensão à dissolução de toda materialidade e suas determinidades, que tem sua expressão mais loquaz no modo como faz do corpo e de nossa existência orgânica um tipo de resto, um fardo, uma imperfectibilidade, algo que sobra e deve ser removido em favor do inorgânico.

O mundo virtual oferta a ilusão de que é possível sentir sem corpo. O corpo deve ser removido por meio de uma fabulação, pois é a marca mais forte de nosso perecimento. Perecimento que se expressa na carne, por conseguinte, ser preciso, por primeiro, retirar a carne do corpo, pois as marcas do tempo tem pouquíssima aderência em “corpos sem carne”.  A fabulação da remoção do corpo oferece uma realização que a medicina cosmética, a indústria farmacológica e o mundo fitness prometem com custos elevados, algo que uma parcela diminuta do comum dos mortais pode realizar às próprias expensas. Estes nichos também profetizam o reino feliz da eterna juventude, mas que está ao alcance de todos. O contrário ocorre com a internet, nela todos são chamados a participar de suas bem-aventuranças.

Têm-se aí um tipo de ação biopolítica que não quer somente o domínio e a uniformização dos corpos, mas opera no registro do esquecimento do corpo. É mais fácil uniformizá-lo quando ele é, antes de tudo, esquecido. É nesta tendência, quase patológica, de anulação da materialidade que o mundo virtual deixa de ser apenas fabulação de tipo teológico-político para retroagir sobre o real de forma reacionária. Cumpre assinalar que não se trata aqui de pensar real e virtual como par opositivo absoluto, porém trata-se de não cair no erro de uma valorização hiperbólica e míope, autonomizando a internet da realidade que a supõe, pois não há virtual sem real. Não há virtual completamente abstraído do real, pois o virtual, que nos é quase imposto, está ancorado na tangente realidade material proferida pela razão instrumental e pelo discurso técnicocientífico. Também não se trata de subvalorizar a valência política da internet, se assim fosse não usaríamos deste espaço, como fazemos agora. Todavia, todo discurso messiânico sobre a internet tende ao estranhamento e à alienação, pois tenta dissolver a materialidade das lutas políticas na imaterialidade do virtual[3].

Por sua principal característica, a dissolução da materialidade, a internet fabula o real como se possível constituir uma forma de vida totalmente imaterial, inorgânica. Ora, a internet não é a utopia do inorgânico? Fábula da liberação dos limites do corpo, isto é, esquecimento ilusório do envelhecimento e da morte?  No virtual, os “sujeitos” não possuem carne, nem cheiro: são imagens sem textura, quase sempre propagadores da felicidade imposta e de hedonismos criados para a pura ostentação. Retirada a integralidade antropológica dos sentidos, a solidez do real dissolve-se no ar, e quando o sonho da dissolução parece ser completo, a própria internet apresenta-se incontestemente como novo sujeito político. Não foi este o caso do Egito, em 2011, na propalada primavera árabe?

Durante e logo após o evento político da derrubada da ditadura de Hosni Mubarack, se propagou que o principal vetor das manifestações havia sido a internet, pois era por meio dela que se organizavam os levantes, através dela a causa política adiquiria visibilidade mundial. Assim, a internet disputava com o povo o lugar de principal sujeito político, tanto que na maioria dos discursos acabou-se por afirmar que “a internet havia derrubado o ditador”. O principal sujeito político tornou-se ali um ente imaterial autônomo e absoluto, pois tido como imune a qualquer coação, superior aos partidos políticos. Ademais, parecia ser melhor que confiar nas boas intenções de um líder que tomasse a direção dos atos, e posteriormente se tornasse um novo ditador. Contudo, vácuos na realidade material não podem ser suprimidos pela imaterialidade do virtual, por conseguinte depois da derrubada do ditador se seguiu a confusão babélica de uma nação sem capacidade de gestar um projeto coletivo que desse a direção dos novos rumos. Não poderia ser diferente, pois esta capacidade, a “internet” havia usurpado do povo, as fantasmagorias da internet havia tomado o lugar dos sujeitos políticos de carne.

Caso diferente ocorreu com a ação política dos estudantes secundaristas de São Paulo. Foi a luta física, em alguns momentos quase visceral, isto é, a ocupação das escolas que engendrou a visibilidade política. A causa foi ganhando força nas redes da internet à medida que mais escolas eram ocupadas. A possibilidade da destituição de um espaço material determinado, a escola, constituidor de liames coletivos e simbólicos, interpelou uma ação comum. Os estudantes se afirmam como sujeitos políticos capazes de lutar contra a usurpação de seu protagonismo político. Foram às ruas e ocuparam as escolas, não eram ocupados espaços virtuais, pois não eram lugares virtuais que a ação fascista do governo tenta lhes tirar, querem lhes roubar as condições objetivas e materiais de uma educação de qualidade. Certamente que os casos do Egito e dos estudantes das escolas de São Paulo são proporcionalmente diferentes, porém enquanto inseridos em uma lógica comum, aquela do capitalismo avançado, se constituem como expressões de não usurpação e usurpação da materialidade política pelas fantasmagorias que cria o discurso do messianismo político da internet.

Depois destes casos, considera-se, agora, a reação nas redes, aos últimos capítulos da estratégia golpista que avança no conluio entre a judicialização da política (aparência de legalismo, fantasmagoria da lei) e o protagonismo mass-mediático (provocador de excitação e que despoticamente se coloca como narrador privilegiado e protagonista dos acontecimentos: aparência de liberdade de expressão, fantasmagoria da vontade geral).

Já é algo por si negativo que a reação ocorra de modo retroativo, isto é, após a espetacularização promovida pelos agentes midiáticos que se põem como donos do discurso. Eles dão a extensão da excitação política à medida que amplificam os fatos através da manipulação da narração. Todavia, é preciso retirar algo de positivo desta negatividade, ou seja, não cair nas armadilhas que são geradas no trânsito entre a rua e o virtual mass-midátiaco. Nas indistinções deste trânsito, os “donos do discurso” se afirmam como expressão da vontade geral, apropriando-se do que a rua pode gestar.

Tratam-se, em verdade, de dois movimentos. Primeiro provocando a rua, depois espetacularizando-a, e na continuidade amplificando-a ou anulando-a. Todavia, tentar protagonizar apenas nas redes virtuais com # acompanhadas da frase “somos todos (…)” e mudanças nas fotos de perfil não impediram o avanço das ações golpistas. Estas ações podem muito pouco, justamente em virtude de se alojarem em um âmbito que se move no campo imagético, promovendo uma excitação desencarnada. Isto é, como já afirmado, sentido e expressando como se não houvesse corpo: assepticamente. Neste caso, a uniformização dos perfis pode dar a sensação de universalidade, mas trata-se de um universal vazio de conteúdo, pois não é mais que particulares aglutinados no mesmo espaço, cujo liame mais imediato é a uniformização da expressão.

Ora, quando ocorre este tipo de universalidade vazia, o lugar do discurso, a internet torna-se protagonista. Logo ser preciso voltar à Rua, pois somente ela, enquanto lugar do cotidiano pode fazer frente à suspensão do hodierno provocada pela espetacularização mass mediática. No entanto, a Rua não pode ser movida pela simples espontaneidade, pois se assim for, ou ela se perderá ou será tomada de assalto na indistinção das pautas. Não foi isso que ocorreu nas manifestações de 2013? Por isso, ser preciso, por parte dos grupos progressistas, criar novas formas de engajamento que retornem e expressem autenticamente na/a Rua. Evitando enquandrar-se como evento, pois é lá, na Rua, que está o orgânico da cotidianeidade, a materialidade do político que o mundo virtual dissolve.

Não é a internet que derruba tiranias, assim como não são passeatas e manifestações de hologramas (vide imagem) que derrubarão os agentes do capital e do reacionarismo, pois se ele, o capital, oferece a fabulação da realidade, por um lado, é porque, por outro, nos impõem um realidade material demasiadamente pesada, que por isso mesmo só se modificará na transformação daquela parcela do real que não pode ser subsumida totalmente no virtual, posto que não se pode matar a sede bebendo água salgada. O Político ainda é mais que o virtual, e a internet não realiza seu messianismo porque não somos meros hologramas, isto é, relutamos que nos reduzem a simples imagens destituídas de textura. Somo feitos de carne: não somos insípidos, inodoros e nem incolores. Relutamos que dissolvam nossa materialidade afetiva em uniformização asséptica e virtual. Opor-se às fantasmagorias políticas da internet é também a luta para que não nos destituam de nossos próprios corpos, e de sua inconteste capacidade de ser ao mesmo tempo orgânico e político.


[1] Sobre a estética tecnoutópica e apocalíptica das produções cinematográficas e que cada vez mais aderem na imaginação coletiva veja-se as pertinentes considerações do pensador Omar Calabrese na obra: A Idade Neobarroca.

[2] Ainda sem nenhuma obra traduzida para o português, aqui se recorre à argumentação premente nas seguintes obras de Quinzio: La Croce e Il Nulla (A Cruz e o Nada) e Radici Ebraiche del Moderno (Raízes Hebraicas do Moderno).

[3] Dada esta dissolução da materialidade na imaterialidade, do orgânico no inorgânico, e pela faceta teológico-política que este tipo de alienação assume, seja necessário realizar um movimento dialético muito próximo daquele que Feurbach fez na Essência do Cristianismo. Mas naturalmente, isto agora, trata-se apenas de hipótese.  Acrescente-se a esta hipótese, algo que já pressupomos aqui, neste texto, não se trata de um “retorno do teológico-político”, mas de um tipo de “volta dos que não foram”.

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