O “furo” na representação: crise política e superestrutura

Por Daniel Fabre

“Tudo o que se pode ver após junho de 2013 foi a crescente perda de eficácia da superestrutura de representação política e a ascensão da “política real”, longe dos gabinetes, câmaras e palácios que usualmente a representam. “Brasília” foi paulatinamente perdendo sua capacidade de dar forma às pulsões políticas sociais e as ruas foram inflamando-se, assumindo uma força irruptiva irrefreável.”


A crise desencadeada no Brasil após os eventos de junho de 2013 proporcionou uma grande ruptura econômica, política e ideológica no país. No núcleo da crise houve uma ruptura da “realidade política” com o nível da representação política, ou seja, da profusão sem fim de opiniões, atitudes, crenças, valores, e etc., com o nível institucional da política, o nível do estado, da superestrutura, enfim, para usar termos de Kojin Karatani, o nível da representação.

Após um longevo pacto de classes, que havia solidificado o nível da representação política e sua eficácia sobre o nível da política real, em 2013 a conjuntura modificou-se radicalmente. Não seria frutífero explanar mais uma vez a ascensão do movimento pelo transporte público desde 2009, ao menos, chegando a sua culminância naquele fatídico junho. O que se pretende é investigar os motivos que levaram a tal ruptura, e sobretudo os motivos que fizeram tal “ferida” estancar o sangue.

É nesse sentido que pretende-se compreender o poder da queda da eficácia superestrutural política em 2013, e como tal feito desenvolveu-se depressa em uma reorganização do nível da representação e na sutura de seu “furo”.

A grande questão é que, por algum motivo estrutural da sociedade, em junho de 2013 a eficácia do nível da representação política caiu, liberando o “livre” desenvolvimento da política real dos indivíduos. Esse é o motivo pelo qual os fantasmas do passado emergiram na consciência das pessoas, como a “volta da ditadura”, o “PT comunista”, etc; e também é o motivo pelo qual após 2013 o “controle” da política foi parar nas mãos de quem estava nas ruas.

Segundo Kojin Karatani, em sua analise da obra de Marx, os sistemas de representação do capitalismo (o dinheiro e a política) contém intrinsecamente um “furo”, uma “falha”, que antes de impossibilitar sua existência é na verdade o que a ratifica. Enquanto em O Capital, Marx demonstra como o sistema de representação das trocas capitalistas, através do dinheiro, é falho, pois há um excedente oculto, a saber, a mais-valia, no 18 de Brumário, Marx demonstra como o sistema de representação política capitalista também não fecha. Um analisa o “furo” na representação econômica, o outro o “furo” na representação política:

“Em O Capital, Marx tentou explicar o sistema fantasmático organizado pelo dinheiro. Entretanto, esse sistema não deve ser designado como a base econômica. Ao contrário, ele pertence à superestrutura, organizando e também ocultando a base econômica; em outras palavras, é o sistema de representação. Precisamente por esta razão, ele continuamente mantém em si o perigo de colapsar. Por outro lado, o 18 de Brumário analisa o perigo inevitável de outro tipo de sistema de representação, aquele da democracia representativa. Se O Capital aborda a economia como uma questão de representação, o 18 de Brumário aborda a política da mesma forma. De forma similar, se O Capital é uma critica da economia moderna, o 18 de Brumário é uma crítica da ciência política moderna.”

Pois bem, o que ocorre quando o “furo” é exposto aos olhos de todos? O que ocorre quando o sistema de representação revela sua “falha”, que, na verdade, lhe é inerente? Ele colapsa.

E ocorre a liberação de poderosíssimas forças irruptivas, caoticamente ordenadas, inconscientes de seu poder e de seus vetores. Assim como o dinheiro, enquanto representação econômica, oculta a verdadeira “base econômica”, as práticas reais da economia, organizando-as em seu sistema de representação; a representação política oculta a verdadeira “base política”, as práticas cotidianas e reais da política, organizando-as e conformando-as também em seu sistema de representação.

Tudo o que se pode ver após junho de 2013 foi a crescente perda de eficácia da superestrutura de representação política e a ascensão da “política real”, longe dos gabinetes, câmaras e palácios que usualmente a representam. “Brasília” foi paulatinamente perdendo sua capacidade de dar forma às pulsões políticas sociais e as ruas foram inflamando-se, assumindo uma força irruptiva irrefreável.

Não convém para essa analise debruçar-se sobre a oposição entre esquerda e direita que deu a tônica do combate ou sobre o papel dos grandes meios de comunicação nas manobras que moveram a massa inflamada rumo à deposição de Dilma Rousseff. O que importa agora na presente reflexão é entender como a superestrutura de representação política recuperou sua eficácia.

De certa forma, após 2013, a base política assumiu uma autonomia em relação ao nível da representação, em relação à “Brasília”. Projetos de lei não surtiam qualquer efeito, anúncios de reformas tampouco, sinalizações simbólicas menos ainda. As ruas regurgitavam seus fantasmas engasgados e palaciano nenhum podia contê-las, embora os grandes meios de comunicação puderam como nunca atiça-las.

Passadas as eleições presidenciais e o acirradíssimo resultado que manteve o PT no governo, a situação começou a tomar traços cada vez mais marcados do descolamento da representação política e de sua base, até culminar nas massivas manifestações contra o PT na Avenida Paulista em São Paulo e outros lugares do país em 2015 e 2016. Tal descolamento se agravava na medida em que a Operação Lava Jato afetava mais e mais parlamentares e burocratas institucionais.

Foi com a condução coercitiva “espetacular” de Lula que as rédeas da política começaram a voltar para as mãos da representação. Tal episódio e seu desdobramento uma semana depois, a saber, a tentativa de nomeá-lo como ministro de estado – e o vazamento dos áudios entre Lula e Dilma – revigorou como em num passe de mágica a eficácia da superestrutura. Um mês depois o impeachment seria votado na Câmara dos Deputados, Dilma Rousseff seria afastada e os movimentos de rua refluiriam a um patamar pré-junho de 2013.

Lula acreditou que voltaria a Brasília, e como um rei, suturaria o “furo” na representação política. Acontece que a História prega peças e inverte posições. A imagem do maior estadista brasileiro sendo conduzido por policiais e sua tentativa de voltar ao poder como ministro, diante da conjuntura, foi a receita mágica para que a representação política restabelecesse seu vigor e passasse daí em diante a novamente conformar e ordenar a base política social. A luta “real” do povo finalmente encontrara um símbolo capaz de encarná-la, e assim, levá-la para ser “solucionada” pelo parlamento, que dessa forma, recuperava sua “autoridade” (vide os telões que transmitiram pelo país a bisonha votação do afastamento de Dilma na Câmara. As ruas já não se manifestavam, mas, precisamente, assistiam).

As irrupções políticas haviam finalmente encontrado sua representação. O “rei” fora decapitado novamente, simbologia arquetípica da representação moderna burguesa.

Se o problema era que o “furo” da política institucional havia “aparecido” em 2013, o que levou à crise política, agora, com a votação do impeachment o poder estava de volta em Brasília. Ou seja, com a condução coercitiva de Lula e a votação do impeachment no Congresso – a cereja do bolo – foi possível reordenar as superestruturas, para que voltassem a seu jogo de representação: A luta, que estava nas mãos do povo (vide a imensa polarização, nunca d’antes imaginada), passou de forma fulminante ao campo da representação superestrutural.

O uruguayo Sandino Nuñez opõe duas tríades de forma a entender o jogo dialético social. De um lado a tríade Corpo-Massa-Imaginário e de outro Sujeito-Povo-Simbólico. Sem se deter pormenorizadamente na explanação, as tríades articulam forças de três esferas diferentes, o indivíduo, a sociedade e a psique. A diferença entre tais tríades reside na qualidade de suas forças: a primeira articula forças inerciais, forças que escapam à orbita, portanto, forças centrifugas. Já a segunda articula forças conservativas, forças que conformam a orbita, forças centrípetas. Sendo que ambas se influenciam mutuamente e nunca cessam por completo.

A utilidade de tal distinção aqui é poder compreender como tais forças irruptivo-inerciais, que em junho de 2013 romperam a episteme ideológica da Terceira República, expondo o “furo” na representação política, com o episódio da condução coercitiva de Lula e o impeachment passaram a sofrer novamente a influência de forças conformadoras. Corpos, massa e imaginário, que agiam impunemente durante o período da “crise política”, puderam então ser balanceados com sujeitos, povo e simbólico. Os limites foram restabelecidos, o “furo” foi escondido, a representação retomou seu lugar.

Enfim, o capital pôde seguir em frente.

 

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