A questão é a do socialismo

Por José Saramago

O presente excerto foi escrito por Saramago em Fevereiro de 1976, dois anos depois da Revolução dos Cravos, em um Portugal que vivia o “dia seguinte” de uma revolução triunfante. Por isso expõe as tensões políticas próprias daquela época no país ibérico. Com toda sua sensibilidade e firmeza Saramago insiste, a questão não é a da esquerda, a questão é a do socialismo, da propriedade coletiva dos meios de produção. 


Do alto da sua tribuna, o presidente da Assembleia da República não vê a Nação: vê(quando estão todos) 263 deputados que, pela graça da aritmética, a representam. Está a Direita, está o Centro, está a Esquerda. Ninguém precisa de (se) interrogar sobre o que seja a Direita, ninguém acha oportuno averiguar se o Centro o é de facto, mas todos nos inquietamos com a Esquerda, com o passado, o presente e o futuro da Esquerda. Falta saber (o tempo o virá a dizer, por força) se essa inquietação é sinal de saúde ou de doença, da Esquerda e de quem para ela se volta interrogativo, com uma preocupação porventura autêntica, mas não destituída de algum comprazimento. Outra vez em Portugal se tornou mais fácil falar das coisas do que fazê-las, outra vez (passe a banalidade da alusão) cuidamos mais de discutir o sexo angélico do que de investigar os modos de levar os anjos a fazer filhos, sejam os ditos anjos machos ou fêmeas.

A questão que importaria pôr (segundo entendo) não é a da Esquerda, mas a do Socialismo. E isto sabendo que mesmo a troca não esclareceria radicalmente o « objecto» em análise: afinal, se sobre a Esquerda muito se borda, sobre o Socialismo muito se remenda. Mas, neste nosso caso português, obrigados que fomos, durante duas gerações, a falar de Esquerda por não poder dizer Socialismo, mal me parece que voltemos a hábitos antigos: há aqui um (decerto) involuntário escamoteamento do problema central, talvez um gosto (escolástico?) de sabatina, um jogo floral que não será para passar o tempo, mas durante o qual o tempo passará irremediavelmente. Ora, se somos pobres de muita coisa, também o somos de tempo. E se não temos sido brilhantes administradores de divisas, pior o teremos sido dos nossos minutos.

A questão, insisto, é a do Socialismo. E o Socialismo, dizem-no os manuais, e não poderia ser senão isso, é a propriedade colectiva dos meios de produção, e o mais que politicamente, ideologicamente e economicamente daí decorre, ou entretanto para aí concorreu. Posto o que (linear será, mas exacto) começa a tornar-se claro que a linha que separa a Esquerda da Direita, isto é, a fronteira que divide o campo político que quer o Socialismo do campo que o não quer, passa pelo interior do Partido Socialista. Não é isto novidade para ninguém, mas o inquérito obriga a repeti-lo.

Desta maneira creio que se torna evidente um dos motivos da dificuldade de encontro e diálogo das forças políticas que se reclamam de Esquerda, e portanto de Socialismo: interclassista, como declaradamente o é e com algum oportunismo se gaba, o Partido Socialista nunca poderia ser, todo ele, socialista. A questão do « socialismo democrático» , tão agitada para lucros de propaganda eleitoral e proveitos de batalha ideológica, é uma falsa questão: juntar a « socialismo» o adjectivo « democrático» não representa nem esclarecimento nem rigor nem adicionação de qualidade: é puro compromisso, é plataforma intima, é tentativa de conciliação entre classes dentro de um partido que, por isso mesmo, exibe ou esconde o seu programa consoante a parte do eleitorado a que se dirige.

Por aqui se concluirá que, segundo entendo, a questão da Esquerda, logo a questão do Socialismo, tem de passar por uma definição do Partido Socialista no que toca ao lugar que ocupará (ou não) na futura luta, ou, se a linguagem parecer demasiado bélica, no futuro empenhamento das forças de Esquerda. A grande responsabilidade do Partido Socialista tem sido a de paralisar, pela sua mesma contradição intima, a irrecusável definição: é possível, por isso, afirmar que, no sentido mais rigoroso do termo, o Partido Socialista adiou o Socialismo, Porque o adiou dentro de si próprio. Imaginemos, porém, que a definição se faz, que coeso ou após divisão um Partido Socialista emerge, e o desenho político da Esquerda ganha nitidez suficiente e contorno organizável.

Imaginemos, também, que, pelo contrário, todo o Partido Socialista se desloca para a direita, deixando, como pontualmente já deixou, nesse movimento, algumas franjas competentes mas sem relevância bastante para constituírem, elas, o Partido Socialista. No primeiro caso, teremos diante dos olhos, pela primeira vez desde Abril de 74, a expressão política real da vontade socialista global, conservando-se o esquema organizacional partidário nascido com a revolução; no segundo caso, veremos melhor e avaliaremos o tempo perdido, e também a dimensão do equívoco que foi a vida política portuguesa: saberemos que andámos a viver de palavras quando nos deveríamos ter alimentado muito mais de actos. Num caso e noutro, o relógio marcará a hora das decisões: definida a Esquerda (não fixada para o resto dos séculos, mas coerente e coincidente nas linhas básicas de um projecto comum), definir-se-á como força(s) política(s) para o Socialismo. Começaremos então a saber (ou saberei eu, se outros já o sabiam antes) do que andamos a falar.

Mas uma coisa é possível adiantar desde já, e essa não é nova nem sequer específica do nosso País: a questão da hegemonia política partidária. O argumento já clássico entre nós (extensivo, até, ao sector sindical) é o duma pretensa hegemonização que o Partido Comunista procuraria estabelecer em todas as formas de aproximação com outras forças políticas. A afirmação faz-se uma e muitas vezes, e fica no ar, condiciona os juízos e portanto as decisões: é um sintoma da insegurança de quem assim se queixa ou acusa, de falta de confiança nos recursos próprios ou na sua consistência ideológica. Enquanto o fantasma da hegemonização não for afastado, a Esquerda (tomada, repito, como vontade socialista conjunta) não se aproximará, não será frente, não se empenhará conjuntamente como tal. Viverá dispersa como convém à Direita e, como à Direita convém, lutará entre si. Profundamente, essa é a crise da Esquerda, e o advérbio significa, neste lugar, que muito do que se passa na política portuguesa é do foro psicológico: andam por aí abundantes complexos de Édipo, fúrias assassinas contra o Pai, e frustrações de toda a ordem (não é por acaso que o processo político tem atraído tanto a atenção de psicanalistas, mas talvez não seja também por acaso que os próprios psicanalistas têm passado ao lado da questão essencial, que é, para o caso, e neste meu ver de leigo, a do Partido Comunista como agente de « produção psicológica» , quer individualmente quer colectivamente).

Mas existe de facto uma crise da Esquerda? É óbvio que sim. Porém, não se trata de uma crise mórbida, efeito de bactéria ou vírus introduzido num corpo saudável, e agora febril, também não é uma crise de crescimento, ou melhor, para o crescimento – a perturbação, o desconcerto, a desarmonia do corpo que invade cada vez mais o espaço e tem de adaptar-se a ele e a si próprio; será antes uma crise não de identidade, mas para a identidade. A Esquerda portuguesa, como um todo, não se conhece entre si, nem se reconhece no conjunto. Este é o obstáculo imediato, barreira que é necessário ultrapassar, sob pena grave: a de atirar para muito longe, por nossas próprias e inábeis mãos, a esperança do Socialismo.

Encontremo-nos, pois, e confrontemos. Sabendo cada um o lugar que ocupa, agora, no sector da Esquerda que for o seu, sem sobre-valorização nem subvalorização do que, efectivamente, esse sector representar como expressão colectiva. E tenhamos em vista que o objectivo é o Socialismo. A Esquerda não é um fim em si, um modo vitimizante ou triunfalizante de estar no mundo: é uma estrutura, um instrumento, uma organização. Que, como todas as coisas, serão julgados pelos resultados. E nós de caminho.


*Excerto retirado de Folhas Políticas 1976-1998, José Saramago e Editorial Caminho, SA, Lisboa – 1999, p. 6.

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