Notas sobre a relação de Mariátegui com a psicanálise

Por Alexandre Pimenta

Mariátegui (1894-1930) é um dos mais importantes intelectuais e militantes marxistas da história latino-americana. Autodidata, teve uma vida curta e intensa. Fundou o Partido Socialista do Peru (posteriormente, Comunista), a Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru e a inovadora revista Amauta: três eventos fortemente impactantes na luta de classes no Peru à época.


O marxismo de Mariátegui busca fugir do dogmatismo e renovar-se através das descobertas científicas e das experiências políticas contemporâneas a este. Além disso, sua valorização da singularidade histórico-cultural peruana não está dissociada da relevância que seu pensamento dá à cultura europeia. Não é à toa que sua viagem à Europa na década de vinte, e sua convivência com os avanços e limites daquela geração marxista, foi fundamental para a construção de seu pensamento e reformulação de sua prática política, que incluía a questão indígena como central no debate socialista peruano. Raphael Seabra, em seu recente livro Dependência e Marxismo (2016), é preciso ao dizer que tal marxismo recusa, ao mesmo tempo, o excepcionalismo indo-americano e o eurocentrismo mecanicista. Ou, dizemos com Zizek, mantém-se radicalmente fiel, evitando o “apego nostálgico ao passado” e a “acomodação demasiado escorregadia às ‘novas circunstâncias'” (Em defesa das causas perdidas). Será tal posição política e teórica que permitirá Mariátegui se relacionar com a psicanálise.

A psicanálise é uma corrente teórica e movimento científico e clínico inaugurado por Freud (1856-1939), europeu e contemporâneo de Mariátegui. Iniciada como método de tratamento de psicopatologias baseado em associações livres dos pacientes, aos poucos se construiu como teoria sobre o psiquismo humano, agremiando adeptos e seguidores. Desconsiderando as mutações e disputas várias que habitam tal movimento, pode-se apontar como pedra angular da psicanálise a existência do inconsciente e de seus efeitos sobre o humano. Retirando a centralidade do registro consciente e do “racional”, a psicanálise possibilitou um estudo original da sexualidade humana e a ênfase nas pulsões e fantasias para a compreensão do comportamento individual e da sociedade em si.

A relação entre psicanálise e marxismo é, no mínimo, conturbada. Há tanto fortes oposições, de ambos os lados, como momentos e esforços de aproximação. Freud, como se vê em seu livro clássico Mal-estar na civilização (1930), considerava as transformações nas relações de produção como algo de fato capaz de revolucionar a sociedade moderna, mas renunciava como utópica a ideia de uma sociedade comunista – já que a contradição entre natureza e cultura seria incontornável. Boa parte do movimento comunista via a psicanálise como um movimento pequeno-burguês e decadente. Há exceções: como Althusser, e sua defesa da psicanálise como ciência e a proximidade entre Marx e Freud; a Escola de Frankfurt e seus velhos e novos herdeiros, que casaram de vez a teoria psicanalítica e a marxista. E, claro, Mariátegui.

O primeiro número da revista Amauta (1926) trouxe um texto traduzido de Freud, Resistencias al psicoanálisis. A obra do pai da psicanálise era praticamente inexistente no subcontinente à época. Inicialmente, tal revista reunia contribuições plurais, além do campo marxista, mas sua linha era revolucionária e visava reunir a vanguarda do país. No mesmo ano, Mariátegui publica comentários elogiosos sobre a psicanálise e a literatura do século XX, sobretudo francesa e italiana, na revista peruana Variedades (presente também no Tomo El artista y la época das Obras Completas de Mariátegui). Mas será, poucos anos depois, no conjunto de ensaios que serão reunidos no famoso livro Defesa do marxismo (publicado como tal só em 1964) que Mariátegui mais claramente se posicionará em relação à psicanálise.

Em introdução à edição da Boitempo, a primeira em português, Yuri Martins Fontes ressalta que tal livro “se atém às questões filosóficas e políticas mais prementes do conturbado momento em que [o autor] viveu”, mais precisamente, as décadas de 1910 e 1920, período da primeira grande guerra imperialista e da primeira grande revolução socialista. Mariátegui, dentre uma miríade inesgotável de autores e temáticas, escolhe o reformista belga Henri de Man como seu alvo principal. Nesse esforço polêmico, a psicanálise será debatida e defendida, sob o ponto de vista do marxismo vivo e heroico do peruano, sobretudo no ensaio Freudismo e Marxismo. Vejamos as principais teses defendidas por ele.

Diferentemente de Man, Mariátegui não via nas novas descobertas psicológicas uma razão para a decadência do marxismo. Pelo contrário: via entre ambos uma forte possibilidade de complementação. Tanto Freud, quanto Marx, atacavam uma concepção idealista da sociedade ao relacionar o pensamento consciente a algo ausente, a outra cena. Marx falava do quanto a ideologia das classes dominantes mascarava seus interesses econômicos e políticos. Já Freud fazia uma operação semelhante ao desnudar a autonomia da consciência através da implicação do inconsciente e da libido. A semelhança entre a operação de ambos seria tamanha que se pode falar de uma analogia: “A interpretação econômica da história não é mais do que uma psicanálise generalizada do espírito social e político”. Tal analogia (e não fusão, dada a diferença de objetos) seria recuperada décadas depois, por Althusser, principalmente em seu texto Marx e Freud (1976), apesar deste muito provavelmente não ter conhecido os escritos de Mariátegui. E depois por Zizek (O sublime objeto da ideologia, 1989) ao falar, por exemplo, de uma “homologia fundamental entre os métodos interpretativos de Marx e de Freud – mais precisamente, entre suas respectivas análises da mercadoria e do sonho”.

A analogia vai mais além e recobre a questão da resistência a suas propostas teóricas e práticas e as famigeradas acusações de reducionismo (de tipo economicista, de um lado, e pansexualista, de outro). O materialismo histórico e a psicanálise geram, na sociedade moderna, resistências “de caráter bastante violento e infantil”. A moral e a política burguesas, desde o início, marginalizaram ambas as ciências, obviamente por se configurarem uma ameaça. E, novamente, Marx e Freud se situam no mesmo horizonte anti-idealista, da mesma forma que Darwin e Copérnico, ao imporem uma “humilhação ideológica” ao Ocidente capitalista. Quanto às acusações de reducionismo, Mariátegui defende que o conceito de economia em Marx “é tão amplo e profundo como o de libido em Freud”, por isso, o marxismo pode se aproveitar do modo como a psicanálise se defende de seus críticos. Tal posição se aproxima muito da tese zizekiana de “solidariedade profunda” entre o marxismo e a psicanálise na dita pós-modernidade. Em livro Em defesa das causas perdidas (2011), o filósofo lembra que “na consciência liberal, os dois [marxismo e psicanálise] surgem agora como os maiores ‘parceiros do crime’ do século XX: previsivelmente, em 2005, o infame O livro negro do comunismo […] veio seguido d’O livro negro da psicanálise”. Ainda nesse livro, Zizek formula sobre o papel determinante da economia através de “Marx com Freud”.

Há, por último, outra sutil semelhança, apontada por Mariátegui, que não comentaremos: o ódio antissemita causado pelos dois em questão. A forma como o nazismo, anos após a morte do peruano, tratou os psicanalistas e os comunistas é autoexplicativo.

Mariátegui conseguiu de forma exemplar reunir engajamento político, rigor intelectual e postura científica (não-dogmática). Sua atenção às descobertas no campo da psicologia de sua época também indica como ele primava por uma compreensão ampla e profunda da realidade na qual atuava como revolucionário – em oposição ao evolucionismo da II Internacional e ao racionalismo burguês, incapazes de gerar as realizações heroicas necessárias a seu país. Sem esquecer, claro, que sua proposta acusa os particularismos e identitarismos, tão em voga em nossa miserável realidade política, enquanto estéreis e incompatíveis a qualquer projeto emancipatório. Aliás, é o que nos mostra também nossos irmãos revolucionários haitianos quando cantavam A Marselhesa contra os colonialistas franceses (ver Primeiro como tragédia, depois como farsa). Afinal, “todo lo humano es nuestro”, já dizia apresentação da revista Amauta.

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